Poema (2) de Casé Lontra Marques

cipoal

Imagem: Pinterest.com (Holly Irwin)

 

Cipoal

 

E se nunca houver cura?

Pelo menos

por enquanto, desconheço

dádiva

sem dano; mas escolho, ainda

assim, a entrega — devotando

ao estrago

vínculos estritamente

vastos.

Veias atravessam

(enoveladas)

as virilhas — cipoal macio:

que

escalo, que

escavo.

 

Casé Lontra Marques

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caipirinha

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Arte de Igor Shulman

ninguém diz da solidão das meninas bebendo sozinhas
as noites partidas das capitais bebem inteiras sozinhas
suas angústias seus copos suas gotículas sobre a mesa
seus olhos exaustos pairam entre o nada e as gentes e
as pilastras e os copos russos pairam em vertigem crua
elas fogem de suas casas escolhem seus bares salgados
preferidos se banham todas de açúcar limão álcool gelo
banham suas mesas de cevada e de gordura as meninas
cantam silenciosas seus repertórios em lábios trêmulos
desafiando seus corpos garganta abaixo deixam tontear
e flambar a solidão das meninas que se bebem sozinhas

(Amanda Vital)

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais

Poemas do livro novo de Tito Leite

capa Tito Leite

Imagem: Capa do livro Aurora de Cedro de Tito Leite

 

TRANSITÓRIO

 

1

 

No imo

da Avenida

Paulista

o sulfato

da solidão.

 

Uma quimera

nos pega

pelas mãos.

 

Corremos

loucos

em busca

de uma coroa

de louros.

 

Pódio

deteriorado

e sem

medalha

de ouro.

 

Ausência

de eternidade

nos olhos

curtos de cada

passante.

 

2

 

Ensaiando

a própria fuga

da cidade,

 

durando

em fugacidade.

 

Não é a lua

que sangra.

São os pés

dos retirantes.

 

 

 

 

MISERERE NOBIS

 

 

No gueto

chuva de anjos

caídos.

 

O telejornal toca

o contrabaixo

do apocalipse.

 

Cigarras bailam

na descontente

garganta do caos.

 

Poetas procuram

o melhor

atentado.

 

Matar

as harpias

que molestam

a alma.

 

A resistência

é um gato branco

numa noite

de blecaute.

 

Muitos pastores

um só holocausto:

Deus nos salve

de Deus.

 

Tito Leite

depressão

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Pinterest

escondida no canto do lábio do riso uma angústia
forçando os músculos para cima a esgotar o motor
do corpo cada movimento uma combustão precisa
os olhos abandonam as janelas da alma à mimese
a cobrir de lucidez o desespero a guerra interna do
que não se sabe como nasce se é dissipado no céu
se corre com a rapidez das pernas de um menino e
não se sabe a quem escolhe ou quando é sua hora
de atirar a rede aprisionar os peixes confinar a fuga
se debatendo no fundo do aquário de areia de vidro
esse deserto intemporal do lado de dentro do peito

(Amanda Vital)

A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

sombras

Picasso - Minotaure - 1933

● vejo sempre a sombra do minotauro ●
● quando fujo e fujo sempre sem parar ●
● sei q é a sombra do minotauro ●
● pelos chifres pelo corpo de touro ●
● pelos urros de touro contrariado ●
● sei q é o minotauro porq sua sombra ●
● é a minha sombra de minotauro ●

*