a poesia

Arte: Deborah Kashinsky

não é um jogo se entro aqui com meu coração nas mãos
e água suja pela cintura marcando uma linha certinha na
roupa e se não me armo com uma coleção imponente de
ferramentas frias cortantes retiradas de uma sala inodora
com ar condicionado no dezesseis: sou só eu com braços
à frente do tronco o meu coração pegando poeira e vento
bombeando sobre minhas duas mãos covardes: penso que
nunca será um jogo se olho para os lados e não quero ver
disputa entre meus camaradas e eu: meus camaradas e eu
somos mais um bando de perdedores ofegantes de joelhos
e nenhum jogo me salvou de não enlouquecer totalmente

(Amanda Vital)

Poema (1) de Érica dos Santos Rodrigues

Imagem: pinterest.com (Michael Lang)

Eu gosto de gente
cujas histórias desconheço
Tenho afeição por olhos assimétricos
narizes aduncos e
lábios de contorno indefinido
Amo rugas
Quanto mais marcadas
Mais me perco nas narrativas
escondidas
Eu não gosto muito de bichos
Exceção a joaninhas
e passarinhos miúdos
Acumulo livros
Mais por medo de perder
o que não li
do que pelo acúmulo
das histórias
Amo bolas de plástico grandes
Planetas coloridos nas mãos infantis.
Nem sempre gosto muito da minha imagem no espelho:
tenho medo das sombras no fundo do olhar
Às vezes me pego pensando
que gostaria de renascer bola de plástico
Sem sombra
Só cor e ar
Ou então joaninha
Ou passarinho miúdo.
Se renascer gente
Que os olhos sejam assimétricos
Pelo menos isso!

Érica dos Santos Rodrigues

QUEM ARRUMA A CASA? (poesia para tempos de sangue)

Acontece que a cidade morre
igualzinha àquele parente.
Lembra, de sangue quente?
Quem vai arrumar a casa
trocar a lâmpada
limpar a calha
e a geladeira?

O ar está sujo.
O quintal está sujo.
O nome está sujo.
O pleito está sujo.

É insolúvel esta tarde contaminada.

Sangue e radiopatrulha,
corre-corre sem rumo.
Não tem trave na rua.
Não tem festa no bar.

O mormaço do subúrbio
tem cheiro de lama seca,
cisterna vazia,
suor e poeira.

É impossível respirar a conjuntura.

As águas pluviais
e as lágrimas da população
encontram seu caminho
embaixo da terra.

É a cidade que morre de amargura.

paranoid

Arte: Martinez Costa

há alguma coisa se passando pelas minhas costas
:eu sei: há um burburinho muito fino muito sutil
que paira nos ombros e prensa :não é impressão:
o corpo para baixo logo comigo que não tenho a
salvaguarda de ser uma mulher forte e combativa
se algo me paira nos ombros penetra com certeza
saboneteiras adentro nessa epiderme tão covarde
que deixa qualquer aldrabão escorregar nos poros
entrar com a mesma facilidade das moscas à casa
bagunçar-me os papeis e trocar as pastas de lugar
já me roubou umas quinze canetas bic ponta fina
não me deixa nada como me arranjei a mim antes
ainda que eu fique de tocaia só esperando chegar
:eu sei: na hora h eu vou fingir estar dormindo na
frente dos televisores intermitentes das câmeras e
fazer a cadeira guinchar para não ouvir os passos
:que mesmo incompetente não esqueço a cortesia:

(Amanda Vital)

FIAT LUX IN TENEBRIS (poesia para tempos de sangue)

Joãozinho colecionava fósforos.
Cada caixinha quarenta lumes.

As primeiras palavras, a tabuada, a rima
do primeiro samba –
cabiam na caixinha os brinquedos
e a infância.

Aos 10 anos o apelido de palito de fósforo queimado apagou no seu peito a igualdade.
Na pele a sua identidade.

Aos 15 no chão do mercado em que trabalhava
(o peso do homem da guarda lhe esmagava)
esvaziaram-lhe os bolsos as calças e a dignidade.
“O cliente tem convicção, deve ser verdade.
Apreende, que o neguinho canta da grade.”

O silêncio dos colegas – a face da falsidade.

Dali em diante, pra cada costela quebrada, cada aula perdida, mais valia a regra da caixinha:
mantenha distância do rosto, a direção contrária dos olhos.

E toda nota de repúdio arde
na rede de mercados da cidade.

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poema de quase década

para Thalles

éramos bons meninos: chegávamos cedo toda manhã
e falávamos baixo pelo percurso ao longo do corredor
às mesas marcadas no mapa da sala; andei há tempos
tentando entender onde era nosso lugar exato lá para
além do mapa da sala e da ruindade daquela moçada;
que eles :sim: sabiam nos meter em nosso lugar; e nós
éramos tão bonzinhos de até reduzirmos o riso só pra
não incomodar – não sabíamos, amigo, nem sabíamos
que até puxar o canto do lábio para cima pelos olhares
dos canalhas já era uma afronta; quem diria, noutro dia
uma menina veio me pedir desculpas por toda a merda
que fez, e como eu ainda sou boa – ainda – aceitei tudo
e como sei que você também é bom, aceitei tudo pelos
dois; que hoje já não há mais vítimas nem algozes, mas
é preciso tirar atrasos, amigo, cobrar a perda com juros;
é preciso aproveitar-se de oportunidades assim, básicas
como levantar o canto do lábio às péssimas lembranças
na tentativa de torná-las todas comezinhas e deliciosas

(Amanda Vital)

NOVA POLÍTICA (poesia para tempos de sangue)

É fato conhecido
que cada político vê o mundo
nos olhos de uma criança
faminta.

Aprende-se muito nas ruas.
Cada sorriso capitaliza sufrágio
nas ruas de asfalto liso.
Cada abraço conta um voto
no barro das casas sem piso.

o pastel com caldo na padaria
arreia joelhos em romaria.

Aprende-se muito nas ruas, só não acredite em tudo.

Quanta benfeitoria, coreto com engenharia,
luzes de Natal e patifaria.
Quanta alegria!
A esperança é um cheque para outro dia.

É fato conhecido que cada político
fecha os olhos às crianças famintas
porque quer.

Não há pátria para maricas.

Poema (7) de Alexandre Pilati

Imagem: pinterest.com

[Curumim]

a mãe está no alto
sobre ossos santa
sentada no altar
buda magra acima
de todas as tumbas

ereta ainda no útero
sem bordas da noite
ampliada à última
unha da estratosfera
a mãe está no alto

de lá despalanca
a fusão de tudo
miseravelmente
formado à deriva
do delírio do delito

não há entretons
nesta hora de maria
desde ali onde

mira-a o curumim

para a tornar beleza

a crase do fumo
e da garra da vida
brilhando no fundo
dos olhos de vidro
que ainda buscam a fé

Alexandre Pilati

exame

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Gustav Klimt

gosto de ver essa simetria dos casais que se beijam
à minha frente vê-los com ritmo vê-los se mordendo
em delírio uníssono em queda na perda dos sensos
nunca soube beijar muito bem: ver beijo era cinema
era o pictórico inatingível era a vida imitando a arte
se fosse reparar bem eu raramente já quis dar beijos
os meninos da escola me ouviam e diziam precisos
“é porque alguém tem que te ensinar a beijar melhor”
e eu beijei as bocas que se dispuseram a me ensinar
mas nunca desaprendi a beijar do mesmo jeito e até
tentava inovar mas acabava ou ferindo ou molhando
demais a largar aquela baba uma agonia ao redor da
boca do outro mas eu limpo meus próprios estragos
e assumo todas as fendas que já abri com os dentes
então fico com isso: beijo ruim sem prumo sem aula
continuo abrindo fendas e faço jorrar água das mãos

(Amanda Vital)