cava

hitler

● o verme cava ●
● cava violentamente engolindo lama ●
● lama e merda de verme desde q nasceu ●
● ele cava sem saber sem saber ele cava ●
● sem sentir o q devora ele engole ●
● ele cava cava sem saber ele sente e cava ●
● entre raizes entre pedras e ossos ele cava ●

● quem sabe sonha construir castelos ●
● cidades lama infinita quem sabe tuneis ●
● ver o sol a lua as estrelas sentir o vento ●
● ele cava no desejo de todos os vermes ●
● um universo e quem sabe a imortalidade ●
● o verme cava violentamente sem cessar ●
● como todos os vermes do mundo ●

● como se fosse chegar nalgum raro lugar ●
● como se obedecesse uma ordem divina ●
● o verme cava cava violentamente e cava ●
● engolindo merda e lama entre raizes cava ●
● sem sentir sem saber o q devora o agora ●
● ate uma imensa boca aberta cheia de dentes ●
● onde mergulha violentamente sem saber ●

*

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[bateu em mim um caçador…]

bateu em mim um caçador por me atingir.
o caçador corria muito rápido as quentes tardes, as glaciais manhãs.
era treinado.
permanecia no olfacto dentro.
guiava o volante redondo de uma camioneta por todas as estradas como uma flecha a sair do arco em veloz ideia de me caçar.

batia-me o volante
nalgum interesse pelo movimento mecânico do objectivo.
furtava com as mãos o volante rodado,
rodando a caça:
– as presas com dor,
as cores do ar infantis como um caçador extasiado.
ternurento às vítimas que engolia. furava às escondidas.

e o caçador parava e observava a luz da inocência.
sentia que me caçavam.
perseguia-me o louco caçador. tinha medo.
escapulia-lhe às mãos negras e velhas.
não me atingira.
ninguém sabia quem era o caçador.
silencioso caçador a correr pelas tardes e manhãs dominantes.

era um caçador que adorara romper corpos pequenos,
a sua masculinidade era falsa,
despenhava-se nas grutas da carne.
sorria falsamente caminhando sobre a sua sombra da tristeza.
mostrava-se meigo. amigo. virtuoso. alegre.
e eu compreendia-o atentamente.
assombrado pensa neste caçador inteligente. astuto como uma criatura da selva. mordia sem estender-se nas consequências.
e morriam algumas presas.
presas ao batimento das ideias convincentes.
ideias batidas pelas palavras.
palavras de assédio sujo.

– eu nadava de uma água para outra água,
como o meu corpo se estendesse ou prolongasse,
mergulhando a barriga debaixo das forças perturbantes de todas as águas juntas a estremecerem a cabeça caçada.

– e o caçador furtivo inventava as técnicas do pensamento,
enquanto pensamento implorativo como se implorasse atingir as crianças indefesas.
dobrado corria amassando com as mãos fechadas os cacifos metálicos. e os barulhos dos cacifos estavam a ser caçados por vocação perversa do caçador.
os cacifos metiam-se dentro dos outros cacifos.
por fora deles, as fechaduras entortavam-se e o caçador caçava correndo aos tropeções por dentro das fechaduras.
entortava ou abatia as crianças.

tentou abater-me a mim pelo meio do chuveiros matinais que choviam medos, ansiedades, sobrevivência.
virei-me à pancada como se pega num machado e se emprega amplas pancadas contra a carne. esgaçando-a.
berros e socos que o esmagaram de tanto medo.
inundando-o.
afogando o caçador agiota de alerta.

pu-lo no lugar da presa
para ser caçado na ardência indecisa
de quem quer desaparecer na floresta densa,
donde as espessura dos passos de cortina deste caçador nato
no subsolo são extinguidos. quase extinto.
hoje saberia disto, da torrente de medos.

passou a ser a presa,
deixou a pele abrupta do caçador prudente.
teve que escapulir pelos balneários fora entre as paredes sucessivas, por sobre os espaldares rectos, escorregadios pelos
pingos de vapor de ar.
e por cima, favos de luzes autênticas, ingénuas,
derretiam o caçador assustado,

[tão assustado aonde uma lebre paralisa defronte às mandíbulas assustadoras de uma cobra pronta atacar, a ferir, a engolir,
a mastigar, comendo-a…],

como uma luz que não se acende no escuro e se espalha
ou ainda se acobarda quando se sente rodeado,
cercado de caçadores mais astutos.

eis um caçador que derrubava os cacifos, as fechaduras,
os chuveiros para em aflição caçar o que não deveria ser caçado.
poderia ser um caçador vivo ou morto.
caçava tomando as crianças nos braços
para as beijar e as amar.

escorria-lhe um calor, suor maléfico, intenso pelo rosto abaixo.
um bafo horrendo para se vomitar:
– a morte. a vida. a tarde. as manhãs.
todos os corpos trespassados pelas águas dos chuveiros.
e os pés abertos com as chaves dos cacifos da intimidade.
da matéria do coração enevoado.
ou os olhos empapados de sangue de tanto chorar o caçador continuava a caçar até eu o caçar.
caçaria.

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha: – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

 

 

Publicado originalmente na revista Diversos Afins, em 2015.
(http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-37/)

Meu Pai (2)

Meu pai (2)

 

Ele já nasceu muitas vezes em mim

sempre foi grisalho na voz

mas hoje é mais falta do que quando

eu era jovem

é mais luz do que quando

eu era ímpeto e arremedo.

 

Hoje a distância

me engole de saudade

fotografa instantaneamente

cada suspiro, cada mania

cada orgulho, cada fragilidade

muro alto que me abrigava

hoje abriga o dorso dos meus olhos

e de minhas memórias.

 

Hoje ele é minha necessidade

meu espelho, minha ampulheta

já que não somos

nada mais que areia fina

incessante

e com destino certo

Sinto cair junto com ele

com meus filhos

cair sem retorno

cair porque só nos resta a queda.

 

Queria mais silêncios e abraços

enquanto caímos tão mais próximos

apesar dos quilômetros

sinto o cheiro doce do seu sono

na cadeira e na televisão

 

Queria só estar perto de fato

além do laço inquebrável

e sonoro que nos acende

juntos

tão perto

quanto neste poema

nessa memória quieta

que me acalenta

no canto da madrugada

enquanto ele dorme.

 

Márcio Leitão

 

 

 

a grande aventura da vida e do coelho gauche nos caminhões de pedra e cimento armado

Lucian Freud

● sendo em fogo ●
● o fim dessa porra toda ●
● ou sendo no gelo mais perverso ●
● assim frio como diamante grosseiro ●
● tanto faz ●
● o q importa na porra toda ●
● é q vamos nos se fuder duma vez ●

● é vero q tudo q se fez e perseverou ●
● viveu e morreu pra porra nenhuma ●
● com o resto q se quiser junto ●
● vai se fuder agarrado no fogo ●
● ou no gelo frio como diamante ●
● depois a porra toda explode ●
● as migalhas de nada soltos no nada ●

● aquela poeirinha de merda fina ●
● sim se espalhando por lugar nenhum ●
● a porra toda se estabacando ●
● como brasa na chuva ou picole ●
● na lingua tudo se esbagaçando sim ●
● pra porra nenhuma e mais nada ●
● q nem pode ser dito sem ser menos ●

● tudo uma garoa de coisa nenhuma ●
● nem garoa nem coisa nenhuma ●
● tanta dor tanta alegria o horror nada ●
● a porra toda se fudendo ●
● sem nem poder ser dita a porra muda ●
● nem porra nem muda tanto pra nada ●
● espiro de merda de diarreia pra nada ●

*

Poema (25) de Fiori Esaú Ferrari

kaspar

Imagem: Pinterest.com

 

Kaspar Hauser

 

Sempre lembro

que quando assisti

pela primeira vez

o Enigma de Kaspar Hauser

estava triste e aves canoras,

tristes, tristes também,

comiam na palma da minha mão

plantações enormes de abandonos.

 

Eu me achava entre os cestos

tramados de folhas secas

e via o ato supremo da delicadeza,

seu nome feito de flores

crescer no jardim.

Formava lágrima.

 

Essa levo comigo na vida,

descansará até o fim

nalgum canto da minha pálpebra.

 

Meu entendimento desentendia.

 

Se eu tivesse sido agricultor,

eu também plantava nomes.

 

Seu tivesse sido agrimensor,

eu media a dor dos nomes.

 

Meu pai me chamou de flor.

 

 

Quando iniciei o motim

contra o velho continente,

poupei as flores de Kaspar.

 

Eu não podia devastar

minha alma

pra resolver meu édipo.

 

Fiori Esaú Ferrari