Poema (3) de Casé Lontra Marques

Pulmoes

Imagem: Pinterest.com (Fredel Miston)

 

Fora do vento arde menos

 

Fora do vento arde menos,

porém não

rejeito fácil isso que chega com

certa

incandescência: a gema

dos dedos na alvenaria

(maleável)

das costelas — os pulmões

simplesmente

param de empedrar:

desprezando

(e produzindo) ritos,

a felicidade

adultera todos

os

acasos — ângulo visível

porque inventado

em pontos

vagos.

 

Casé Lontra Marques

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Arte de Morteza Katouzian

quando menina apertava os dedinhos na barra da saia
de algodão num canto via as colegas bonitas correndo
seus corpos de dente de leão suas levezas sem esforço
pelo pátio elas sabiam subir em árvores e pular muros
e sabiam dizer as palavras exatas para me derrubarem
de lá de cima as palavras pulavam sobre meus ombros

quando mulher aperto meus dedos embaixo do casaco
e crio forças para enfrentar a beleza hoje saio do canto
com os ombros tensos para não cair e crio meus pátios
acima das árvores e fora dos muros também sou leveza
recolhi do chão os ninhos caídos as sementes expostas
e dentro de mim habita uma ave há vinte e poucos anos

(Amanda Vital)

remendo

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“Cozinha de Roça”, de Rui de Paula

bisa ia ao pasto para tirar leite às cinco horas da manhã
os meninos ainda dormiam nas esteiras entre farelos de
biscoito de polvilho e sob o som dos trotes dos cavalos
a quitanda da semana crescia no forno as roscas-rainha
as broinhas de canjica os bolos de fubá cenoura e milho
era o tempo certo de bisa chegar com os baldes de leite
para o café do marido e dos meninos na mesa de cedro
forrada com uma das suas toalhas de algodão coloridas
enquanto separava um balde cheio para os queijos bisa
via o bibelô de Nossa Senhora Aparecida envolvido por
uma dezena do rosário pelos ombros e sibilava as rezas
conhecidas pelo silêncio sagrado do entreato da manhã

(Amanda Vital)

Posfácio do livro de Alberto Bresciani, escrito por Ana Maria Lopes

Alberto livro capa

Um “post scriptum” para Fundamentos de Ventilação e Apneia (Ed. Patuá), de Alberto Bresciani
Por Ana Maria Lopes     Ana posfácio
Mesmo não sendo um fisiologista, Alberto Bresciani criou em Fundamentos de Respiração e Apneia a homeostasia poética. Homeostase é um termo criado para descrever a capacidade do ser humano de manter sua estabilidade e equilíbrio no meio interno. Não existindo a homeostasia, não há sobrevivência.
Nesse seu terceiro livro, o poeta se joga no fluxo sensorial do mundo – sem, entretanto, tirar os pés do chão – tensionando a linguagem e provocando o organismo leitor em dimensões que circulam entre respiração e apneia.
Avesso aos formalismos e fiel ao seu estilo, Bresciani incorpora maneiras de ver, sentir e estar no mundo colocando sempre a palavra como centro de toda sua poesia. E ela flui atingindo o leitor com força, singeleza e domínio da linguagem. É quase impossível não perceber a força da palavra, as vivências e as referências do autor no seu texto. Ele se constrói por suas leituras e riqueza intelectual. Refere-se a Li-Po, poeta chinês da dinastia Thang que morreu afogado tentando abraçar a lua; a Mary Jo Bang, poeta americana contemporânea, dona de uma aspereza sintática e plena de emoções; a T.S.Eliot, poeta modernista do século XX que buscava o sentido do tempo presente; e em livros anteriores, ao poeta bretão Paol Keineg, que fez da poesia uma trincheira.
A partir de suas escolhas culturais e inquietações, sobrevém uma poesia de fronteiras desguarnecidas e, consequentemente, mais política.
DISTRAÇÃO
I
Não poderia pensar
em política, extorsões,
nós econômicos,
reivindicações públicas
ou corrupção
Não entenderia
jogos de poder,
apresentações de egos
histriônicos
Não haveria
como
II
Todos esses dias
dentro dos dias
Esses séculos
sobre os ombros
Com estas presas
na jugular.
Slavoj Zizek, filósofo esloveno, afirma que os campos do simbólico, do imaginário e do real estão interligados como um nó borromeano. A poesia de Alberto Bresciani mantém esse paradigma e encadeia, como na teoria dos nós, os três campos.
NOTHOBRANCHIUS RACHOVII
Façamos como killifishes africanos
: que explodam as cores mais violentas,
cuspamos agora todo som, ódio, fúria
Sabemos que tudo se vai na brevidade
de um único ano e nossas vidas nunca
terão a chance de beber outra chuva
Sem perder o foco principal da função poética, os versos de Bresciani apagam os antigos critérios estéticos da modernidade e dão voz ao poder subversivo da escrita. É poesia sem rótulos. Poesia bresciânica de instintos e matizes finos.
Em Fundamentos de Respiração e Apneia, o autor, além de sua preocupação com o sentido da existência (o respirar), estabelece parâmetros com os seres que habitam sua poesia: os animais, esses seres que respiram, arfam, resfolegam. E são os animais que dão vida às metáforas fortes e provocadoras dos poemas.
ANATOMIA
Para o que servem coração,
rins, fígado, veia cava,
gônadas e glândulas
vocacionadas ao pó?
Todos os dispositivos
complexos, ligados, frágeis,
dentro de enguias, ursos,
tartarugas e gaivotas
Não importam cordilheiras
em transe, o livro nunca lido,
abstenções de carne, álcool,
esportes radicais, sexo e ar
Inúteis feixes de nadas
no fim das contas,
que pagaremos felizes
nesta segunda-feira
Por baixo da superfície dos poemas encontram-se os questionamentos e a sobrevivência, a sufocação e a descrença, o amor e a maturação. Nesse esforço de sobreviver procurando oxigênio por capilares, traqueias, brânquias e pulmões – onde respirar é um apostolado – o autor propõe uma estrutura bresciânica sem pieguismos ou disfarces. E no mergulho em águas profundas da poesia, percebe-se que, apesar das indagações existenciais, não há indecisões. Há certezas e saídas de tirar o fôlego.
METABOLISMO
Digerimos relógios, enquanto o ar
força entrada por guelras, engenhos,
instintos ou pela traqueostomia
Ainda ontem, o caminho da escola
era um trampolim para essa história
estranha, que ninguém viu passar
A janela está aberta,
hoje choveu
(a meteorologia e seus jogos)
Pode ser que um vírus se espalhe,
uma brand new de gripe
Todo acaso pode ser letal
Não há mesmo sentido,
como antever qualquer bom epílogo
para humanos ou antílopes
Melhor fazer como os utopistas
e acreditar que infusões de flores azuis
nos devolverão a algum deus.
O resumo de tudo isso é que a voz que se lê é a de quem permanece no esforço de indagar e sobreviver à falta de ar que permeia o mundo em que vivemos.
Fundamentos de Respiração e Apneia é o livro mais vigoroso de Alberto Bresciani. Ele foge, como em Incompleto Movimento e Sem Passagem para Barcelona, do mainstream literário sem deixar de permanecer acessível a qualquer leitor.
Ao percorrer este trabalho a sensação que fica é a de que nada precisaria ser dito. A obra respira por si. Porém, não é um conjunto de poemas conclusivo. A poesia de Alberto Bresciani é sempre renovada e nos fisga pela intermitência do oxigênio e da apneia. Ela nos agarrra para nos manter respirando. É a homeostasia poética que nos salva.
Ana Maria Lopes é poeta, jornalista e editora

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

o inverno sera violento e duro

Jasem Khlef 2

● depois desse inverno ●
● ja consegui estocar mil avelãs ●
● quatro mil coisas q se come e planta ●
● nesse inverno q vem mais violento e duro ●
● um inverno como jamais houve igual ●
● sinto isso na pele nos ossos no peito ●
● não sei se o q estoquei sera suficiente ●

● minha toca é imensa é um mundo ●
● mas o inverno é maior perverso e duro ●
● ja tranquei as saidas ja reforcei tudo ●
● ja preparei as armas as defesas os planos ●
● mas o inverno sera demais violento e duro ●
● como tou velho acho q morrerei aqui dentro ●
● sem ter comido nem metade disso ●

● se bem q a vida não vale a pena ●
● ou vale so a metade dela vale a pena ●
● metade um belo verão com belos invernos ●
● o resto apenas a aproximação do nada ●
● mas isso não me deixa triste nem abate ●
● o inverno sera demais violento e duro ●
● terminarei me tornando parte dele ●

*