Poema (61) de Tito Leite

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IMagem: Pinterest.com

 

SUBSTRATO

 

O ilimitado é um número

anárquico. O céu range:

não há lençol para cobrir

a fonte do poente.

 

A poética da alma é arrepiante.

 

Invejo o cinismo de Diógenes:

um cão tinha os dentes

mais brancos que

os caninos da miss mercado.

 

Para salvar a si mesmo

é preciso perícia

na ciência de vermes.

 

Tito Leite

morte vida

MAURICIO LIMA 3

● eis ●
● a morte ●
● nada tem a ver com a vida ●

● nem dentro nem fora eis ●
● so a vida a vida so ●
● nem a morte ●

● eis a plena vida sim flui ●
● desde sempre eis q sim ●
● jamais a morte ●

● a morte não não a morte ●
● a vida e so a vida sim eis ●
● o q se dobra morde a vida ●

● so a vida a vida sim ●
● a morte não morte jamais ●
● morte não se sabe sabem ●

● na vida so a vida vida sim ●
● a dor o terror sim o horror ●
● a morte não essa não ●

● eis os trabalhos sem fim ●
● o parto o ferro a terra o grão ●
● a loucura o suor o sangue ●

● vida q se espalha e borbulha ●
● sem ar e se debate a vida ●
● so a vida a vida sim ●

● nem dentro nem fora antes ●
● depois na lingua no corpo ●
● a dor sim a dor sempre ●

● a morte não eis ●
● sim sempre sim a vida plena ●
● surfando vida na vida sim ●

*

Hoje Vai Parar

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Imagem: Pinterest.com (Cida Vasconcellos)

 

Hoje vai parar

O silêncio

O colchão cômodo

Das telas e dos teclados

Das redes empoeiradas de bites

A solidão cibernética

Ganhará asfalto e piche

 

Hoje vai parar

A palavra solitária

O gargalo entalado

A indignação estéril

A contagem do concreto

Do alto das varandas

O cochicho rouco

Dos picaretas

Vai parar a órbita

De cada planeta narcísico

 

É hora do couro pegar sol

E da maré irromper os cílios

E apenas inundar o dia

 

Hoje vai parar

A dúvida quieta

A angústia estátua

A incerteza e a leveza

Do botão que investiga

Antes de aflorar

 

É dia dos salões e das torres

Escorregarem

Cano abaixo

É dia de o cisco

Impedir a vida cômoda

Dos umbigos endinheirados

 

Hoje vai parar

Geral

O pó de cada ruína

A língua de cada traça

A investida de cada cupim

Ruminante

Que sobe sem piedade

Na árvore

Em Estado de demolição

Em Estado de poucos ninhos

Seguros

 

Hoje só não para a poesia

O arfam de cada som

E de cada pata polifônica

Que entorna os delírios

E a esperança

Mesmo que seja pó

Mesmo que seja

Só palavra.

 

Márcio Leitão

Poema (2) de Carla Diacov

berinjela

IMagem: Pinterest.com

 

é um milagre

fiz umas fotografias das ruas das gentes

nas ruas suas perucas suas roupas

suas décadas

cheguei a sentir saudade quando fiz

essa fotografia da mulher com berinjelas no colo

cheguei a sentir saudade de alguma coisa ali

tenho medo de voltar à fotografia

da mulher com as berinjelas

a vida toda vai ser isso de não voltar

nunca ao instantâneo

da mulher com as berinjelas no banco perto da praia

é muito bonita a imagem toda e cheia

de lembranças que não são minhas

a nuvem porém uma só nuvem miudinha e porém

se essa fotografia tivesse um nome chamar-se-ia nuvem porém

eu jamais voltaria lá nunca sozinha

ou desarmada

não eu jamais voltaria

o milagre é não voltar

a mulher estará

é um milagre

SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS

ESPREME AS BERINJELAS

é um milagre ela saber e não fazer

eu não quero voltar

lá eu não volto

lá ela estará

não me obrigue a voltar

esse milagre é só meu

SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS

 

Carla Diacov

Poema (13) de Tiago Dias

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Imagem: Márcio Leitão (Céus de Lisboa)

 

Viagem

 

meu tempo é o símbolo das auroras

que não mais surgem nas janelas.

dessas que representam

e não morrem.

acalentam os pés com a calma

em que as nuvens se refazem.

 

tempo é um sonho acordado –

ligar os pontos, como as crianças fazem.

desenham com os dedos no céu,

onde a natureza de todas as coisas se reflete.

 

na minha rua passava um trem

que sempre perguntava:

para onde vais?

Tiago Dias