primaveras

large

(para T. S. B.)

terra fria de chuva se aloja sob as unhas
germinando arrepios e relvas pele afora

entrelaçando dedos as barbas do jardim
arranham cada partícula da raiz exposta

das mãos espalmadas no campo regado

vem, da garganta de abelhas circulando
e ricocheteia as paredes da minha carne
pelo faro carmim dos Antúrios Sagrados

vem e me descama do súber até a seiva
caído em flor no nosso chão de orvalho.

(Amanda Vital)

os bufalos sonham sempre comigo

Chris Arnade 2

● me veem dessa maneira ●
● completamente nua e sangrando ●
● eles sabem q me batem e bateram ●

● sabem de tudo e riem sempre ●
● com aqueles dentes bons e finos ●
● pra mascar e com aqueles cascos ●

● sonham comigo vendo ●
● o q fizeram com minha filha ●
● eles moeram mastigaram minha filha ●

● bateram nela com telhas e pedras ●
● tanta coisa ruim fizeram com ela ●
● depois não tive coragem de ver ●

● o sangue dela escorria pelo rosto ●
● ela limpando com a mãozinha ●
● assim assim e minha maior ●

● dor é q ela chamava por mim ●
● enquanto batiam nela ela dizia ●
● quero minha mãe cade minha mãe ●

● eu não tava la ela morrendo so ●
● isso tudo é so um horror sem fim ●
● um inferno pra bufalos sonharem ●

● fazendo o q desejam e fazem ●
● o q desejam e sonham e tramam ●
● em nossa carne pois é assim ●

● tramaram em nossa carne a carne ●
● da minha filha e sonham comigo ●
● toda noite como sonharam ●

● com ela e eu não durmo e eu não ●
● como e eu não respiro e eu não ●
● sempre não o não esse não ●

*

Penélope

Se me chegasses no fim desta tarde
eu queria ser outra
não essa estranha que sou em meio à chuva

Se me pudesses ver no fim da tarde
eu fugiria
com medo que minha tristeza te assustasse

Se soubesses o que passo
eu diria: não é verdade

Iria encontrar um jeito de enganar-te
e disfarçar-me

Mas jamais, jamais
deixaria que me visses
sem que a fascinação me abençoasse

Poema (57) de Tito Leite

maças

Imagem: Pinterest.com (Catherine Rey)

 

TEOLOGIA NEGATIVA

 

Nas maçãs do mistério um louco

morde a sombra

do sol.

 

Sob o peso

da solidão

é o meu número.

 

Hoje a comarca não me compra.

 

Uso sapatos

de chumbo para o vento

não me roubar.

 

Mostro a imensa substância

das noites escuras

de San Juan de La Cruz.

 

Na fuga

do hospício etéreo

a realidade se salva em porta:

arranha-céu.

 

Tito Leite