[toco com a carne do sonho…]

[toco com a carne do sonho no fósforo da morte.
morte em carne viva, tensa, até o lume rasgar toda a cabeça por fora.
não se sofre da morte.
treme-se antes.
sonho a sonho ou de morte em morte,
precipito-me por sobre o seu espelho de luxo, demente,
poupado o espelho animal,
deita no campo da carne, chispas, brechas, sopros súbitos:
os espelhos da morte são astronómicos, desleais, porquê?
sou uma harpa de mortes e não obstante torno-me ligeiro no crime.]

 

filipe marinheiro

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fuso horário

large

subiu numa árvore pela primeira vez

os dedos dos pés agarravam o tronco

com a força ressabiada dos começos

 

o sorriso ganhava dentes a cada galho

e os olhos viam sempre um céu a mais

ignorando as ranhuras de seus joelhos

 

uma vez em cima, demorou a descer

 

seu sangue alcançava trajetos novos

acordando fragmentos desconhecidos

a pele pulsava entre cansaço e mercê

 

validava seu corpo em inédito alento:

 

infância é ciclo não-grafado no tempo.

 

(Amanda Vital)

je voudrais

Janusz Korczak

● a folha seca ●
● aberta como tarantula ●
● procura entre arvores ●
● cascas de ovos pra morder ●
● como se fossem sois ●
● derrubados dos ninhos ●
● pelo vento ha essa hora ●

● aninham ovos no inverno ●
● entre galhos podres ●
● pra neve destruir ●
● fazendo gorar ●
● enquanto é tempo ●
● e não nos replicamos ●
● pra outra dor outra morte ●

● porisso depois de tantos ●
● degraus corredores salas ●
● encostado nessa parede ●
● gelada como aguaviva ●
● mais uma morte a morte ●
● ate a morte e q o nada ●
● não doa não pese nada ●

● um pouco velho um pouco ●
● perdida a leveza as coisas ●
● o sol vai indo sozinho ●
● sem q se tenha chegado ●
● nem ao paraiso perdido ●
● o crepusculo é bem grande ●
● o sol vai indo sozinho ●

*

POEMA DE CINZA CHUMBO

I

O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.

II

Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso – precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.

III

Na vala comum desses dias – ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria

IV

O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.

de Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018.
Leandro Rodrigues

DIÁRIO DESCONEXO

(primeiro dia)

Seu rosto chegou para mim em uma manhã cinza.
Tudo desdobrava-se em uma disposição líquida,
as gotas acumuladas na vidraça,
números riscados e as marcas
opacas nas páginas viradas.

(aqui deveria constar uma data)

Os dias nada dizem quando assim se apresentam,
entre cada folha sussurram sua indiferença.
Presos na moldura, nem sol, nem sombra,
cãibra e carnadura. Pouco importa
a hora de partir anunciada,
há entreposto, entressombra, entrevidas –
tempo e espaço no assoalho,
som de pássaros no telhado.

(algum momento fugidio)

Nada disso tem peso, tudo isso tem peso.
Está em nós a mensagem e o vento
coça a vegetação de pelos.
A linha prateada na porta está intacta.

(esforço por uma data)

As páginas embaralhadas, as palavras amassadas
contornam pessoas, passagens, presságios,
precipícios.
As cartas congelam o tempo nublado.
Há uma biblioteca ali, invisível.

(última página)

A impossibilidade de erguer seu rosto
com minhas palavras.

[surpreendem as crianças…]

surpreendem as crianças
têm corações e emoções exactas
desviam o pulsar das tardes mergulhadas num calor redondo
extasiado tocam-se no exercício nas vozes
arrancam as vozes
as tardes desordenam-se
reabrem o sol ou o sol às tardes ao calor
olho-as
como quem pensa na criação de novas constelações
ou brinca entre a doçura desses ventos tórridos pesados
quando contaminam a matéria dos espaços
num cerco absurdo
sério e a eternidade pára de crescer
as crianças ignoram o sol a lua as estrelas os cometas de safira
tudo lhes é passageiro
nunca morrem enterram os dedinhos na luz em alta tensão
são disfuncionais consigo mesmas
nascem pelo ar através das forças que golpeiam o mundo
perdem-se todas as crianças
ao esmigalhar todas as ruas pintadas pelo fogo à mão
contra a sua alegria infinita de quem purifica o sangue a boiar
entre as suas brincadeiras
crianças em mágoa virada para dentro penetram nas pernas
uns dos outros
endoidecem a luz que rasga a pele que rasga as veias ondulantes

toda a criança desfalece por cima
dos milagres incorrectos quebram a alma a eternidade
gritam à espessura
das horas sem terra enlouquecida porque a loucura é o seu destino
a pulso ainda
e quando a tristeza calça as crianças elas gritam
porque querem alimentar-se da melancolia das coisas abandonadas
coisas solitárias a arderem na pureza do mundo alto e frio
depois as crianças festejam sempre com gritos acenos arbitrários
gritos de verdade de pureza
gritos a flutuarem na voz infantil sábia de quem se perde
e encontra o silêncio todo
nelas cortam-se as cores líricas com asas por caçar
toda a cor bela roda os olhos das crianças pela noite dentro
quando os seus rostos admiráveis
tomavam as correrias transformadas como assombramentos
correias a respirar a estenderem nas ideias mortas
ou ideias a romper palavras os ritmos de outros corpos a corpos
a parar nos corpos das crianças antigas
de dia e tarde ou noite as crianças só existem
quando gostam de roubar os espelhos ao sono
o sono sai do peito da criança em criança
que sai doutras crianças
que racham a vaidade dessas invulgares crianças
o sono estilhaça dolorosamente os lugares
as sílabas os pés os chapéus
as peúgas as sapatilhas sujas as calças largas para saltarem
com vontade os movimentos das pernas entrelaçadas
na criação do deserto
que se espalha à noitinha nas camas na almofada que está exausta
ou desponta o pólen
tudo tem um sentido e as crianças esperam-se fundamentais

cantam a essas ruas cantam na haste elevada das flores
enormes flores oscilantes
à volta das bocas pequenas a empurrar a água que ingerem
e as flores escorrem à frente das cabeças das crianças
como a pensarem no fundo sufocante
do mar submerso
mar a pensar na loucura das crianças mar lento que roça os poros
a dormir
gotas de mar a riscarem oculto o pequeno corpo
dessas crianças salgadas
as crianças pernoitam vigilantes com todas as inteligências
devastadoras
com todas as vinganças e inseguranças e a raiva
essa desfaz os brinquedos na garganta
sabemos através das crianças
que as águas são para esgaçar os céus reluzentes
e brincar com as pedras na língua afora porque são secretas
deixam-nos em paz as crianças quando iluminam
as nossas singelas vidas
ou tramam os orifícios para onde nos deslocamos
a romper o sangue o hélio na boca ou a romper o ouro pulmonar
vidas sem misérias ou hábitos sangrentos
vão-se embora
as crianças dentro de si fogem ao coração permanecendo abertas
criança após criança
parte-se o frio a neve as estações todas
é tão alegre que nos faz chorar arrepiando a frescura das palavras
não ditas ao caso que amam
são simplesmente crianças e como crianças fortes robustas
ou insuspeitas abatem este doido poema meio náufrago
das crianças nada somos
apenas uma mera distância mas com elas tudo aprendemos

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

 

todos aqueles terriveis grandes dias

Dino Valls 4

● com meus dentes ●
● afiados pela vida e o peso das noites ●
● abocanhei a cabeça da serpente ●
● quebrando o cranio como uma noz ●
● q adoro quando chega a estação ●
● não sei se ela sentiu dor ou agonia ●
● mas assim agora tudo é passado ●

● ate mesmo os labirintos destruidos ●
● sob o solo na planicie logo adiante ●
● as arvores gordas de folhas e frutos ●
● é possivel q depois eu devore alguns ●
● me livrando do corpo da serpente ●
● como nos livramos de pesadelos ●
● um dia desses aprendo a viver melhor ●

● é verdade q o cheiro dos inimigos ●
● não desgruda assim tão facil ●
● mas amanhã saberei o q fazer e farei ●
● mesmo com essa praga de carrapatos ●
● inda é possivel viver e viveremos ●
● mesmo q não sejamos mais q a gula ●
● a servidão dos sonhos dos senhores ●

*