manhãs

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Arte de Mihaly Zichy

(para Pedro)

toma-me pelos olhos todos os dias ao acordar
antes das mãos antes do despertar dos ossos
antes dos movimentos e do raciocínio imediato
até mesmo antes da memória recente do sonho

primeiro os olhos delineando o rosto os cabelos
as curvas do cobertor de lã sobre nossos corpos
as paredes do quarto que nos cerca e as cortinas
lambendo os pés da cama pelos lábios do vento

apenas teus olhos me percebendo por completo
na tua frente – o toque da tua pupila na realidade
que me concebe cada vez mais tua a cada manhã
entre teus cílios e a travessia da minha pele a tua

(Amanda Vital)

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encontro

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Arte de Helga McLeod

para Pedro

temos do mundo a afinidade das pedras
atreladas às montanhas nas cachoeiras
suportando a força da água e do vento
a se sustentarem pela natureza de ser

e das nuvens nos céus encobertos nos
fragmentos encaixados em movimento
cíclico – essa predestinação magnética
repetida no meu corpo contra sua pele

um único propósito biológico ou divino
desponta na percepção de nosso tecido

(Amanda Vital)

eies ta fund ku

LES PONTS DE SARAJEVO

● cade podina flu ●
● ednaria graafa tu ●
● cade infri carde ●
● mom viragh parde ●
● au fa tido viraago ●
● li fa tido hamago ●
● cade podina flu ●

● slonia podia kuu ●
● pratula smirga ta ●
● tu infriq y heiddka ●
● maika tuah xamina ●
● fuca nozel puraka ●
● gass mom krabella ●
● slonia podia kuu ●

● vano slovano tuu ●
● dedey losq tuuo ●
● vanitis fu y wuoo ●
● maternutum cadez ●
● sgk sgot zapatez ●
● va vivt vormbatez ●
● vano slovano tuu ●

*

Poemas da minha querida amiga Helena Ortiz

sunset Helena Ortiz

IMagem: Pinterest.com

 

espera

 

vida reduzida ao mínimo

sem fala, sem esforço

a natureza agreste

o sol maduro

frutos estrelas raízes

estalam na noite invicta

fala mais alto o mar

a lua avisa:

é só mais uma noite

e esta ainda não é tua saída

 

___________________________________________________________________________

escolhas

 

queremos milagres, mas mantemos os velhos costumes

queremos alegria, mas é a melancolia que se abate sobre nós

queremos chuva quando o sol e sol quando chuva

nosso cabelo é crespo, liso, armado, preto ou branco

 

nao gostamos

nossa unha envravada é mais imortante

que a Terra inteira, o tempo e o câncer

a vida se oferece

pensamos na morte

a morte chega

finalmente não precisamos escolher

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ai, saudade

 

vpntade de telefonar

dizer que está tudo bem

que todos estão com saúde

nada falta

e estamos juntos

 

e te ouvir

aquele riso de boca fechada

de quem vai ouvindo sem acreditar

e sem fingir

sabendo (não é, mãe?)

que já não posso mais telefonar

nem pra mentir

 

Helena Ortiz

Poemas do livro “precisamos conversar”: editora da palavra.

Sete poemas de “Migalha” de André Luiz Pinto

A cara hilária é culpa do youtube, não tenho nada a ver com isso.

 

I

Confesso
Alan Moore
veio antes
de Drummond

Nos quadrinhos
a ficção tinha
que ser inventada
até porque

a mesada
não cobria
todas
as edições

Hoje a coisa mudou
Os heróis não tem idade

Seguem
com suas vidas
Pagam as suas contas.
II

As igrejas de Ouro Preto sempre impressionam: são como porta-estandartes de um passado que não morreu… mesmo o moderno, o hotel de Niemeyer é acanhado na cidade antiga… e as ruas são uma atração à parte… sobem morros íngremes, com um talento que em outras cidades eu encontro nas paredes.

III

Pensa que está livre, sossegado
no entanto só depois descobre
a casa foi construída na areia
Os fantasmas serão encarados, sozinho
em meio à maré cheia
Despedidas não te livram do fracasso
emoções não marcam hora
A razão talvez seja: entender que acabou
e que a saudade pode ser saudável
e que separar pode ser necessário
para curar a vida

SUGESTÃO

Depois de levar o filho ao zoológico, não esqueça de o levar também a uma prisão.
Assim o garoto terá uma visão completa das espécies esquecidas.

V

Ironia? Sem dúvida, mas sem cicuta.
Cada um sonha com a revolução que merece
Revolução sem sair da poltrona
Amor em não sair do lugar
Um post em repúdio à ação da polícia.
Sonho (apenas sonho) com muitas formas de rebeldia.

VI

Quanto
mais amo
a cidade esnoba
o muro segue
como um pergaminho
vai do anúncio
de compra
de carro batido
à propaganda da cartomante
O trem passa
de bairro em bairro
Há circulação de milhares
gente batendo na trave
Há também muitos mendigos
pernas cheios
de pinos, consertadas
numa espelunca

VII

Vive imaginando coisas
De alguma forma precisa começar
Começa por alfinetar a alma
emoldurando-a
num cartaz

Juro que não vou lhe empurrar
em quinze minutos
lhe convenço
a não pular

Mas você já sabe
que eu não vou

 

 

AUTOEXÍLIO

Um retrato torpe do nosso tempo
ali na parede
corroído pelas traças e pela distância

O sofá rasgado, a parede descascada
Um jardim de ervas daninhas a tomar conta
Persianas enferrujadas denunciam ainda mais
a ausência cinza de tudo

No chão a sombra desfigurada
desenha um pássaro

nosso canto em autoexílio.

Leandro Rodrigues

In: Faz Sol Mas Eu Grito, Editora Patuá, 2018.