Agosto desgosto

Agosto fecha suas asas
secas e negras.
Sob elas tudo passa.
Os mesmos dias,
outras tardes.

Um gato escolhe sua vidraça,
contempla a rua e pensa:
este tempo não passa.
A vida é apenas
a calçada abaixo
[isolada]

Agosto paira no passado,
outros dias,
outros fados
[o mesmo gato]

Beatriz

Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia

Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste

Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim

E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade

Iracema Macedo

Poemas (8) de Diniz Gonçalves Júnior

desmemorias 1

Imagem: Pinterest.com

 

 

Desmemórias

1
a memória é sílaba de pássaros canto que recolhe cápsulas de asfalto relicário de ruas interditadas arame das águas inunda o meio-fio

2

que a chuva lave aquilo que vela fotos reveladas nos silos de chumbo depois da quarta camada de areia desaparece o traço do navio resta a lembrança da imagem que insiste em refazer as margens dos dias expulsos do calendário

3

o globo colorido reflete as luzes dos piratas de plástico bônus reinicie a partida no átimo a ficha engole segundos outra paisagem apache tece recordes da vida ao limite tilt

4

recolhia as roupas como se habitasse um museu de mímicos e a memória fosse um ato mecânico seqüência de slides apagando- se distraidamente

5

as linhas levianas do pátio colégio drummond calmaria nublada da conjuntivite vejo um piso de caquinho além do muro baixo da casa  no passo lento do tatuapé

 

Diniz Gonçalves Júnior

Dia de Galho

Dia de galho

Foto: Jordélia Alcântara 

 

Dia de galho

 

Bico e galho

Trocam pés e asas

Tocam-se em torre

Cortada

Em frente

A um céu de talco

Que esgarça sempre

O dia de volta

A asa entornada

No preto

Engasgado

No canto

De um canto

Que poderia ser som

Mas que sozinho

Resignou-se a ser

Imagem.

 

Márcio Leitão