COISAS

Observe as coisas, elas se ramificam ao sol.
As coisas erguem seus galhos para o alto e sonham as próprias sombras.
Deixadas no gramado, as coisas podem facilmente ser confundidas com o azul.
Mordem sem serem sentidas e deixam marcas perenes na pele.
As coisas podem ser cingidas de sangue, como as palavras.
As coisas circundam os objetos na estante, também podem acomodar-se nas palmilhas.
As coisas se tocam e se perdem, dando voltas em transe.
Coisas perdidas sentam umas sobre as outras nas esquinas, não querem voltar, mas prendem-se nas bainhas e uma vez que cruzam a soleira tomam para si os rodapés.
Assumem tantas formas e ainda assim podem ser invisíveis, como o ar, que é tempo preso entre ponteiros.
As coisas podem ser como lâminas de metal — frias testemunhas — entre sempres, nuncamais e novamentes.
Certas horas, as coisas apenas existem entre paralelos do planeta.
As coisas não se pertencem.
As coisas se esquecem quando caem da cômoda da memória.
Não pise nas coisas, toda rudeza fratura no ponto de coda.
A natureza das coisas é a incerteza.
Alheias ao tempo dos dias, as coisas permanecem em silêncio, intocadas de desejo.
As coisas permanecem no mesmo.

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Noturno sobre ponte na Baía de Guanabara

Eu ofereço
esse gosto pela forte chuva nas estradas
Naves, guindastes,
o ferro úmido de todas as coisas
que compõem a paisagem
Ofereço minha pele febril
minha estratégia de vida
Esse pequeno dilúvio
essas águas que vejo inundando tudo
Os mistérios todos à frente
dos faróis do automóvel
O sereno pacto de fazer parte do tráfego
entre grandes cidades
Ofereço a conversão desse desassossego
em trilhas iluminadas

Iracema Macedo

paris iii

Bukowski
● os corvos sobre a mesa devoram ●
● todos os grãos as pequenas frutas ●
● guardadas desde o verão passado ●
● rasgam o pão bicam o miolo do pão ●
● deixando so a casca vazia do pão ●
● destroçando a torta inda quente de maçã ●
● flanam sobre as macieiras rasgadas ●
 
● os corvos desmancham nossos cabelos ●
● quebram vasilhas copos xicaras pratos ●
● deixam sobre os moveis no po ●
● a marca das patas unhas e passos ●
● crocitam desde la embaixo ate aqui ●
● como se dissessem se cuidem ●
● mesmo sendo sempre tarde demais ●
 
● os corvos devem tocar fogo na casa ●
● depois nos bicarão tanto e tanta a fome ●
● q nem nossos ossos dentes e unhas ●
● vão servir pro deserto q ja começou ●
● isso tudo se sabe e nada se faz ●
● mas isso é normal deve ser normal ●
● se fosse diferente nada seria visto ●
 
● os corvos ja comeram nossos olhos ●
● porisso essa loucura sem fim sim ●
● estouraram nossos timpanos sim ●
● destroçaram tudo q podia ter sido ●
● a verdade sucumbiu a força e violencia ●
● agora essa nuvem de corvos risonhos ●
● concluirão tudo o q tentamos criar ●
*

Homero

Era missão tua salvar
guerreiros do esquecimento
e depois palavras do abandono
Cantar amores e mortes
com esplendor e encanto

Trouxeste-nos  auroras e deuses
sangue e pranto

E era missão tua
abrandar nossas mágoas
com teus cantos

O contorcionista

contorcionista

Imagem: Pinterest.com

 

Desde o ventre

Ele espreitava

A dobra longínqua

Que haveria

De ser

 

DNA Embrulhado

Em papel de pão

Como peixe fresco

Em dia de cura

 

Origami

Feito de pele

E combustão

Que vinca

As ausências

E o vento

 

Desde sempre

Pousa quente e quieto

No eco da estátua

No conto confuso

Do que se move

E do que perdura

 

Ele pinta de carne

O vendaval

Guardado

No seu próprio

Nó.

 

Só assim floresce

Curvado rente ao céu.

 

Márcio Leitão