mani

Alexander Gardner. 'Lewis Paine' April 1865

● mani depois de tudo toda agonia ●
● tanta fome tanto sangue pra nada ●
● eu preciso tanto de silencio e mel ●
● q ninguem se movesse nem risse ●
● cansei de conversar de olhar ouvir ●
● responder sobre abelhas e cobras ●
● vida de serpentes est escorpiões ●

● vida triste pesada mirando mortes ●
● so inimigos e gente indiferente ●
● pedaços de carne pesados e sos ●
● mani tou querendo parar morrer ●
● sumir como a chama duma vela ●
● sem deixar rastros palavras peso ●
● sem loucura nem abismo nem ar ●

● nenhuma imagem nenhum sonho ●
● nem mesmo as fomes tantas dores ●
● nem dias nem noites tempo algum ●
● deitado num corredor de hospital ●
● dormindo sangrando ate morrer ●
● ou voando dum predio ate o chão ●
● de qualquer maneira q tudo cesse ●

*

 

 

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Poema (22) de Fiori Esaú Ferrari

boiboi

Imagem: Pinterest.com (Hans Some)

 

Um boi

 

Vai o passo calmo do boi,

vai, que a hora da aragem

já chega,

e enroscado das ordens

de ventanias,

de litanias,

o passo no precipício,

quando um boi caminha,

o mundo se abstém

das coisas, dos seres,

das pedras e das esperanças,

quando um boi caminha,

as cachoeiras do país

são resumidas de quedas

e aparecidas,

no largo leito de depois,

aparecidas de tristezas,

arrumadas de negritudes,

pra nos dizer nossas dores,

pra nos fazer um cantinho

de oração na canoa,

que a melhor casa não tem ouro,

o tesouro é o sol

na madeira pisada

de quem tem a fé

nos peixes que são na água

os bois do rio de todos,

a propriedade dividida

e distribuída.

O amarelo dos campos

erguem ameias no horizonte

e fachos de luz trigal

não dissipam o mal

que um boi traz no coração,

 

quando caminha,

 

( na canga canta

o canarinho,

bico de nêsperas,

meu país de vespas)

 

o boi

é o pão,

que nasceu trigo,

o trigo nasceu semente,

a semente nasceu terra

e a terra beijou o rio

e o rio matou a sede,

a sede angular,

ruminante,

devíamos cobrir o rosto

de infinito,

devíamos esquecer o que foi dito.

 

Um país se faz com mulheres

e silêncios,

nenhuma teoria da grande literatura,

o boi é o contrário dos ritos,

nosso altar sobre a manhã,

um boi, quando caminha

devia de ser, devia de ser

uma gota de lágrima

no latifúndio,

a língua dos poetas mudos

também é um latifúndio.

 

Antes que eles saibam,

vamos, vamos

fazer uma ocupação,

vamos, vamos

quebrar as cercas,

desatar arames,

o boi tem que passar.

 

Um boi, quando caminha,

um suspiro fundo

corta a morte,

vence o mundo,

funda o escuro.

 

Antenas, redes sociais,

satélites e a condução

do povo,

tudo se esboroa.

 

Um boi é um sacramento.

Comungue do seu passo.

 

Um boi é um templo,

more nele.

 

Um boi é o alimento,

sacie sua fome.

 

Ele marcha sozinho

num país de sol e passarinhos,

ele marcha e vê os ribeirinhos,

vê a juventude negra,

vê as mães e avós,

vê as filhas com a foice e a justiça,

vê o levante do fundo do roçado,

ele adianta o passo no paço

da Fiesp,

e pedras voam,

vai, peregrino,

ao leste, ao oeste,

vai pro sudoeste,

pro nordeste, pro noroeste,

ao norte, ao sul ou ao sudeste,

ao centro da periferia

e descansa, manjedoura

onde tem o menino.

 

Um boi, quando caminha,

aquece o barraco

de cuidado e ternura.

 

Lá nasceu uma estrela.

 

Fiori Esaú Ferrari

Hoje é dia de Fernando em Pessoa por Márcio Leitão

Fernando Pessoa

Imagem: Pinterest.com

Trecho do monólogo Fernando em Pessoa de Márcio Leitão:

ÁLVARO DE CAMPOS :

Arghhhhhhhhhhhhhhhhh!

Eu pareço o mesmo, mas sou o mesmo sendo parte de mim, parte daquele que se diz inteiro e dividido, mas que só inteiro é. Sou a parte que coube o grito, a loucura e o desejo de mergulhar na vida como quem mergulha no mar em dia de naufrágio, acho que sou a parte mais viva, pois só os mortos não precisam da loucura, do grito e  dos desejos para serem algo em busca de algo que pode ser tudo e nada, mas que deve existir para que se possa dizer: EU EXISTO!!!! Na verdade, acho que sou o próprio naufrágio, sem sobreviventes em que os destroços flutuam, mas não desistem, se dilaceram mas continuam em busca de terra, sou esses farrapos de madeira que não se afogam porque gritam junto com o mar.

Minha cara é a mesma, minhas roupas são as mesmas, talvez só os gestos e a maneira de falar desvelem meu nome, além dessa confissão: Meu nome é Álvaro. Sim, nasci em Tavira, Outubro de 1890, nasci se este é o termo, pois quem nasce depois que já existe ou renasce ou se descobre.

Sinto tudo como o tudo que é cada coisa e sinto além os limiares do tudo em que só habitam os fantasmas e as coisas que são apenas significados possíveis, mas que pra mim se realizam em sua concretude mais dura que a coisa em si, mais profundo e amplo do que o referente, do que o exato. Ahhhh!! Como eu gostaria de sentir como meu mestre que senti só o que se devia sentir, senti um mundo que não existe de tão concreto, de tão essencial, mas não consigo e não é este o meu papel de parte nesse poeta todo que sou eu quando sou todos os outros além de mim.

Simmmm, minha vida só faz sentido se eu for o que sou ou o que pensam vocês que me examinam com o foco de uma precisão, quem seria eu se não sentisse no vento mais do que vento, não sentisse seu afago, seu frescor como uma paixão esquecida ou adormecida ou aninhada dentro do peito, quem seria eu se não fosse uma conquista!! Conquisto o direito de todos serem mais do que são e menos do que podem!!! Não me vendo, nem me concedo a possibilidade de equilíbrio, equilibrar-me só em um momento de loucura em que engulo o precipício para que ele não despenque em mim. Por isso grito, ahhhhhhhhhhhhhhhh, esperneio, desgoverno, encalho, me levanto, me alegro, me mato a todo momento,  eu não sou apenas um caco de poeta, sou o pedaço esquecido dentro de vocês que me olham agora como quem se olha lucidamente no espelho!! Olhem bem pro meu rosto e nunca mais se esquecerão de vossas almas!! Escutem bem estas palavras e não se livrarão nunca mais de suas loucuras. Nem da minha!!!!!!

Márcio Leitão

(Trecho do monólogo Fernando em Pessoa encenada a alguns anos atrás em alguns teatros no Estado do Rio de Janeiro) (Saudades de meus amigos Giampaolo, Husten, Bob…)

DESLIMITE

para Marcos Vidal

qualquer imagem
sem palavras
qualquer alegria
sem receios
qualquer passeio
ao infinito
qualquer foto
sem moldura
qualquer disco
arranhado para voltar ao começo
qualquer tudo
sem nada adiante

a não ser a si mesmo.

 

1999 – in: Quatro estações: O trevo

 

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2018. Foto de Marcos Vidal @vidalcost

Poema (94) de Tito Leite

origami

Imagem: Pinterest.com

 

CONFLITOS

 

Eu habitava comigo

como se a sonoridade do meu nome

fosse um origami

na aurora de cedro.

 

Eu me perdera de mim

como se a queda

fosse de mármore

e no bem que ganhara

perdesse a direção.

 

A curva.

O baque,

o presságio

de uma ilusão.

 

Era de granizo

a procela que feriu

e depois partiu.

 

Era poético

o corpo que suportou

e depois metaforizou.

 

Era um sabre

no bolso a vontade

de qualquer estrada

que desaponte

as evidências,

 

como se na letargia

dos céticos pudesse

acordar sem acreditar

na fealdade

dos porões bestiais.

 

Tito Leite

Poema (4) de Daniel Francoy

rosa noite

Imagem: Pinterest.com

 

PRESSÁGIO

 

Escuto um rato no forro do telhado

ou o que julgo ser um rato: um baque rangente

de madeira acima de mim e depois o silêncio.

Vou à janela, à espreita, e deparo-me

com uma visão que nada significa e portanto terrível:

o telhado inerte, sem sombra que se esgueire

e abaixo, no escuro relento, as roseiras que amanhã

serão devastadas pelo sol.

A raiz que as prende ao solo não é apenas vegetal:

é o prolongamento de uma outra noite –

um chamado emudecido pela terra e pelo sangue,

mas que ainda assim transborda.

 

Daniel Francoy