Poema 1 de Gabriel Voser

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(como a outrar-me quem sabe em algum primo do Álvaro de Campos ou pessoa que o valha)

sobre uma colina, diante do mar distante

se escrevo estas palavras assim,

desta forma – em versos –

é porque pretendo, convenhamos,

pôr nestes versos algo de qualquer coisa

como poesia

quisera eu ser poeta

– ou, pelo menos, que me tomassem por poeta –

isso (de me tomarem por poeta)

é qualquer coisa que a mim proporcionaria talvez uma alegria,

uma vez que, apesar de que também a tristeza

e a melancolia se atribuem aos poetas,

haveria de se me dar a pensar que,

tomando-me por poeta, em mim veriam alguma graça

não que me quedem os gracejos, que divertem, por vezes,

pois que deles não faço questão, porém que essa graça

a que me refiro, me pudesse luzir através do olhar,

do gesto, da voz ou do manejo do chapéu

quisera eu

no entanto, apesar de que vivo

e acho graça de uma coisa ou outra,

sei que muitas vezes não me assenta bem o próprio corpo;

parece com frequência que me falta espaço dentro dele

e não vejo como expandir o que em mim me aperta desse modo

já ouvi dizer por gente que mal conheço

– que, aliás, é todo o tipo de gente que se me dá a conhecer –

que lhes faz bem eventualmente voltar ao seu lugar,

passear ao fim da tarde, ou de manhã, ou de madrugada,

na rua da sua infância, no velho bairro em que nasceu

tal coisa me chega com graça,

acho bonito

tenho vontade de tomar para mim o sentimento,

de inventar essa sensação como se fosse um passado meu,

porém nem isso se me dá:

a rua, o bairro em que nasci, ou qualquer outra, ou qualquer outro,

todas são velhas ruas, todos são os caminhos da minha memória,

mesmo aqueles em cujo chão meus passos jamais soaram

os passos são sempre os meus, desde os tempos da infância

e os levarei comigo onde quer que eu vá

quisera eu pertencer a algum lugar, ouvir qualquer coisa e lembrar;

o chiado de uma chaleira, a mãe, o brado de alguém que saúda um amigo pela rua, o pai

uma risada, a tia, um freio de bicicleta, o primo

quisera eu que algum vento me fizesse sentir de novo

como numa viagem de férias em que já não me sentia mais tão criança,

ou que algum perfume de repente me abraçasse

como o daquela namorada que tanto amei (e que talvez ame ainda)

quisera eu pertencer a um lugar, ou ser por ele pertencido

mas assim não é em mim, assim não sinto e não sei ser

apenas levo meu corpo aonde quer que eu vá, e em todo lugar somos eu

e esse corpo que vai comigo a toda parte

quisera eu pertencer a um lugar

mas nenhum lugar é meu

assim como cada verso, só por ter aparência e forma 

não traz em si, por si, um poema

também eu sigo assim, pelos dias, debaixo do sol, das noites, das luas

cúmplice do eterno céu, sempre acima de tudo e de mim

como se fosse eu mesmo, inelutavelmente, o meu próprio tema  

Gabriel Voser

Poemas de Adriane Garcia (livro novo)

SOUVENIR

Para me lembrar deste lugar

Desta viagem

Destas companhias

Do lugar estranho que é o Fim do Mundo

Do lugar sempre prestes a acabar

Por mim ou por si

Para me lembrar de que o Fim do Mundo

Foi o máximo de céu

O máximo de inferno

E que ainda assim me fotografei

E sorri

Para lembrar que esta foi a minha única viagem

Para te lembrar de mim

Quando eu não estiver mais

Aqui.

A BOLA AZUL DE YURI GAGARIN

Que tudo tenha fim

Menos a bola de Yuri Gagarin

Não é plana

Como dizem

Os quadrados

Bola oval

Safira azul

Com alguma terra

Incrustada

Nave e casa

Onde nos ferimos

Como quem proclama

Que não merece

A joia do universo

Refletida

Na pupila azul

De Gagarin

“Através da janela

Eu vejo a Terra

O chão é claramente identificável

Eu vejo rios e

As dobras do terreno

Tudo é tão claro”.

TERRA MINGUANTE

Sento-me na superfície

Da Lua

Traindo mais leis

Que as gravitacionais

A poeira lunar

Por vinte e oito dias

Aumenta o contraste

Com o azul

Tudo perdido

Entrego-me ao sonho:

Durmo em crateras e

Avisto um planeta

Terra nova

Terra crescente

Terra cheia

Terra minguante.

Poemas do livro Estive no fim do mundo e me lembrei de você, Adriane Garcia, ed. Peirópolis, 2021. Coleção Madrinha Lua.

Poema 01 de Carlos Eugenio Vilarinho Fortes

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Inventário

Vamos ao inventário:

Uma nota de dois reais

E as moedas

Duas de um real

Duas de cinquenta centavos

Dezoito de dez centavos

Dez de cinco centavos

Total:

Sete reais e trinta centavos

A riqueza de um homem

Não tem limites

Se não dá

Para um banho de sais

E dois escravos

Veja como incha o abdômen

Uma fatia de pão

Amanhecido

Estamos todos tão parvos

Da fome e da dor

Convencidos

Carlos Eugênio Vilarinho Fortes

Poema de Marilize Bentes

Fonte: Pinterest

As pessoas bebem pra ficarem sóbrias de si
As pessoas fogem, do mundo, do ritmo, pra caírem em si
As pessoas pensam, resvalam, se equilibram, se entorpecem
Porque não dá
A histeria calada, surda, contida , dissimulada, pra disfarçar

Eu, tu, a lua, metade, presente
Choro, desgosto, incógnita
Dolência

Grita, cresce, voa
Tu, que acende estrelas, e me sustenta
Com teu ombro, escuta, alento

Suporta, se ergue
Confia
No teu
Imenso, largo, encantador

Se não fosse tu
Se não fosse o teu
Eu
Esses versos não te escreveria
Por isso, respira
Acolhe-te
Rega-te, de luz, de ser,
Porque a nossa força
Soma

o verbo amar

Arte: Suzanne Siegel

o verbo amar

o verbo
amar
contém
a palavra mar

– que, por sua
vez, contém
o verbo
imergir
se afogar

o verbo
amar
contém
a palavra ar

– que, por sua
vez, contém
o verbo
levitar
voar

o verbo
amar
só não contém
o advérbio não
e o verbo
esperar

(Talden Farias)

confessionário

Carol A. Massa

minha verdade só entra pelas frestas: impaciente
e doida ricocheteando contra filtros teias bordas
como uma senhora agoniada nos fundos de uma
igreja junto à parede externa do confessionário a
chorar a sorrir com olhos fixos na barra da batina
do padre e os dedinhos furando as grelhas: entra
estrambólica como uma beata reclusa há décadas
dentro do próprio peito a gestar cabelos brancos
e uns pés de galinha gigantes ao redor dos olhos
a levar ovos numa sacola de plástico reutilizável a
direcionar guinchos sem coerência a quem passa:
já que isso de beleza e de elegância é para outras
mulheres o que é meu eu levo guardado no bolso
em papel envelhecido escrito em caneta bic preta
para mostrar e ler aos outros na parada de ônibus
mas é de uma feiurinha tão agradável que até dói

(Amanda Vital)

criptografia

Arte: Donald Stultan

um poema: esse eterno grito por ajuda
enquanto se chora, enquanto o mundo
queima devagar sob o tremor dos pés
um grito: entre as necessidades todas
a correrem pelas ruas, tristes, despidas
em calo, suor e história, como trabalha
um som: que até desconhece o timbre
a sair do corpo, que não é nosso, e sim
do vento, do tempo, da calcificação, ou
uma voz: que desnorteia o mundo todo
enquanto a mão agarra mais um soluço
e feito mãe ouve e sabe ser ela mesma
uma intervenção: que reconhece o grito
a segundos de perder a voz, um poema
se resgata direto da boca do desespero


(Amanda Vital)

quitina

Prezi

1.

os homens: manipulo seus textos e fotografias
em uma vulnerabilidade palpável e gelatinosa

suas palavras flutuam girando sobre os dedos
um magnetismo difícil de polaridade instável

palavras que me vêm feito ímãs e só se atraem
quando eu dou o lado oposto: quando me viro

e enfio minha cabeça num buraco terra abaixo
sou um corpo de quatro sem cara e ouço vozes

(eis o lugar que me cabe no campo magnético)

2.

de trás dos bytes não tenho medo de encará-los
daqui do impenetrável onde respiração alguma

move-se pela minha carne covarde quebradiça
daqui onde sou forte a caligrafar minha crítica

daqui sou eu quem vai por cima ou pela frente
ler como quem os encurrala por todos os lados

bicho que pela intuição observa e pula a corte:
não sabe ser sutil quando em posição de poder

animalesco: sou o contrário do que me querem

3.

daqui à distância não tenho medo dos homens
que escrevem leio-os com armas sem munição

mas só à distância posso ler bem esses homens
na privacidade da minha cama e do meu corpo:

amo-os tanto quanto odeio-os posso amar odiar
concordar discordar emendar reiterar me render

e não tenho medo de olhar seus olhos sob a tela
daqui onde não escuto palavra e sou tão decente

daqui, onde leio homens à distância dos homens

(Amanda Vital)