forbidden

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Arte de Daria Petrilli

i think i’ve got to be more european from now on, you know?
talvez se eu aprendesse a cerrar mais os lábios para conversar
esconder os brasis dos cabelos pagar cinquenta euros no salão
para tentar me alisar talvez usar tons mais sóbrios nos olhos e
conter toda essa breguice: essa estética kitsch latinoamericana
que se põe a meter o sol as cores em tudo e mais alguma coisa
porque o neutro é refinado ou só há beleza possível se refinada
achei que assim camuflava razoavelmente bem até abrir a boca
vou aprendendo a disfarçar as manias na parte de trás da língua
e andar sempre ao canto e ao fundo apenas marchas silenciosas
tão difícil se enturmar me pergunto como se fazem amigos aqui
quando o medo é maior que o primeiro impulso da primeira fala
mas i really have to be more european from now on e até tentar
terminar o poema sem dizer assim às claras que eu venho do b-

(Amanda Vital)

hybris

Julio Cortázar

● ha um corvo pousado ●
● entre a cruz e o pombo ●

● sei q ele sabe a fome ●
● do corvo nesse tempo ●

● do corvo nas horas do tempo ●
● das gaivotas em todos as horas ●

● tão perigoso sempre perigoso ●
● tempos perigosos pros pombos ●

● entre corvos e gaivotas ●
● sempre com fome ●

● de carne de pombos ●
● suculentas carnes de pombo ●

● logo agora os ninhos ●
● os ovos os cuidados o futuro ●

● gaivotas e corvos cuidam ●
● pra q haja mais ovos e ovos ●

● haja ninhos de pombos ●
● ?então porq esse pombo ●
● ao lado do corvo ●
● como irmão como amigo ●
● enquanto la no alto ●
● voam gaivotas famintas ●
● violentas e famintas ●

● ?q desejam pombos assim ●
● querem ser devorados ●

● como se assim fossem corvos ●
● se tornassem gaivotas ●

● seus ovos destruidos ●
● destruidos seus ninhos ●

● enquanto o mundo gira ●
● gira pro seu fado ●

● enfadado de carne e sangue ●
● isso sabe bem demais o pombo ●

● sabemos todos ●
● indassim se entregam idiotas ●
● curvam o pescoço ●
● fecham os olhos esperam rindo ●
● o bico dos corvos ●
● o peito ●
● pro bico das gaivotas ●

*

Poema (4) de Alexandre Pilati

palma

Imagem: pinterest.com

 

[Palma]

 

o que está tão longe daqui e

que dentro está espaço real

incluso o que aqui tenho e esqueço

 

não serve na largura humana

da mão pequena queimada do sol

covarde que fiz pequena imprática

 

entre dedos êxito algum entra grande

 

a não ser que seja feito grão seco

míope rígido doído selvagem

ponto apenas olho cego e resto

 

o mundo não se dá não desce

goela abaixo não cabe no molde

do modelo humano de um corpo

 

ao ser mindinho é que dá conta

do tudo tecido do substrato econômico

que mora tão longe no arco de uma órbita

 

o poema, flor feita, abraça a estratosfera

ensina no silêncio o que ela beija do sistema

 

Alexandre Pilati

desato

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Arte de Max Nowas

me esqueço de mim com uma frequência desconfortável
algumas vezes ao ano é como se eu não me reconhecesse
à frente do espelho dura mais ou menos uns três minutos
já decorei todo o processo de repetir meu nome completo
data de nascimento de quem sou filha minha cidade-natal
vou fazendo listas a última foi das minhas professoras das
escolas digo cada nome enquanto meus dedos nos relevos
no nariz na boca no pescoço também mostro meus dentes
sempre preciso rever o sorriso e as mãos: duas prioridades
enquanto vou me revisitando pelo verbo levanto a camisa
abaixo as calcinhas aperto as coxas mexo na bunda eu vou
mais pela memória do tato porque costuma ser rápida para
sair dessa sensação ruim de ter que me reapresentar a mim
porque sinto que me sei mas ao mesmo tempo há qualquer
vácuo dentro do corpo que se manifesta desde criança fico
morando com uma espécie de interferência seletiva interna
para que eu me protagonize aqui de novo como o costume
uns dirão é desapego uns dirão parece droga mas de graça
outros tentarão fazer diagnósticos clínicos e eu só digo que
é desesperador perder o domínio de mim demanda esforços
me encontrar no limite disso que pensava que era todo meu

(Amanda Vital)

idiotas


mapplethorpe - italian devil

● os idiotas são uma eternidade devem chorar ●
● muito foi o q ela disse e repetiu os idiotas sim ●
● devem chorar muito ou melhor os idiotas devem ●
● chorar muito precisam chorar e chorar e chorar ●
● preferivelmente dançando e gargralhando sempre ●
● vestidos de politicos militares banqueiros todos ●
● os idiotas devem sempre chorar porq se não ●
● chorassem os idiotas não seriam idiotas nem ●
● poderiam ter a honra de ser idiotas babando ●
● destrambelhados e so idiotas ela disse e repetiu ●
● é o q penso e sinto sempre os idiotas devem ●
● chorar eles não sabem q são idiotas foi o q ela ●
● disse e dizendo repetiu sim os idiotas devem ●
● chorar não ha um idiota q não chore sim macho ●
● ou femea choram todos os tipos de machos todos ●
● os tipos de femeas choram logo são idiotas se ●
● um cão chora chora como os cães idiotas todos ●
● os idiotas choram todos os pretos choram com ●
● odio dos brancos todos os brancos choram com ●
● medo dos negros ela disse rindo pois todos os ●
● idiotas choram odeiam se não chorassem pensam ●
● saberiam q não ha negros e brancos q não ha ●
● machos e femeas não ha gordos e magros anões
● e gigantes burros e genios idiotas e sabidos não
● são apenas delirios sim delirios doentes supurando ●
● delirios mostruosos da tribo q precisam de sangue ●
● a agonia do terror pra cessar ela disse não ha ●
● macho e femea um mesmo corpo de femea femea ●
● pra multiplicar femeas so poder q separa o poder ●
● q acredita e faz doer e faz perverter e sangrar ●
● porisso choram como todos os idiotas da natureza ●
● como mulheres andam com mamãe vovo filhinha ●
● ela disse quatro idiotas imitando idiotas rindo ●
● quando deviam chorar o horror imediatamente ●
● a chorar chorar como chuva de inverno violento ●
● porq não ha idiota q não gaste a vida chorando ●
● chorar porque os pretos não afiam as facas sim ●
● pra degolarem e devorarem os bracos no festim ●
● depois da grande alegria da grande revolução sim ●
● mesmo q não haja brancos e negros mas devorar ●
● ate se saciar da mentira q ha brancos e negros ●
● ela disse e q as mulheres devorem seus homens ●
● q homens nunca foram com tomates e frutas sim ●
● é uma pena q os idiotas nunca chorem ela disse ●
● os idiotas não sabem q deveriam chorar e chorar ●
● não saberemos jamais quem é quem não é idiota ●
● ela disse e repetiu eu choro sempre devo ser idiota ●
● jamais saberei q sou idiota porisso choro e choro ●

*

Poema (3) de Alexandre Pilati

 

pombos

Imagem: https://www.deviantart.com/

 

[Bate outra vez]

 

ei pombos de aço

de pedra que habitam

elétricos dentro do meu peito

 

aquietem-se acalmem-se

esta gaiola de carne e pejo

prende-os e todavia os ama

 

juntos vamos ao fim do caminho:

é certo é justo eu quero e eu preciso –

sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

 

mas não vistam tantas patas de cavalo

não cisquem não sapateiem tanto

assim as cãs do meu coração

 

prestem atenção neste corpo

de pinho que vem agora ao meu socorro

sintam este abraço de calma

 

em que me segura o violão

com que disfarço o desespero

em que me abrigo do tempo

 

Alexandre Pilati

 

incendio em campo de girassois

Paolo Pellegrin - 2013

● vemos viamos ●
● ao longe aqui bem dentro ●
● o campo de girassois queimar ●
● como se o sol houvesse virver de perto ●
● o q gira vivo com ele ●
● pra entender sua propria sedução ●
● ou outra ou nenhuma ●
● vem o sol surfando com a queimada ●
● da plantação de girassois ●
● ondas labaredas de fogo q explodem ●
● fogos de artificio sobre a plantação ●
● de girassois em fogo ●

● dizemos tambem e constrangidos ●
● aqui entre nos os mortos não ha calor ●
● nem mesmo resto do q vivemos ●
● cremos eterno ou mesmo nem vimos ser ●
● na morte não tamos sos não apenas nos ●
● tambem o planeta os planetas tartarugas ●
● camelos vermes as formas do verde ●
● cada um dos impostores toupeiras antas ●
● aranhas como se tudo jamais tivesse ●
● existido ou vivido o sofrimento de estar ●
● se apagado como nos nos apagamos sim ●
● nem o silencio nem o abismo nem o caos ●

● nosso universo agora é uvamijona ●
● a força de tudo q desejava uvamijona ●
● tudo q criamos e sonhamos uvamijona ●
● enquanto esse fogo e suas labaredas ●
● passam sobre nos como nos incendios ●
● nas plantações de girassois passa ●
● passava como a punição a doença ●
● q sempre foi mais importante q nos ●
● mais importante q a cura ●
● mais importante q o fogo ●
● como esse q passou passa sobre nos ●
● chamas nas plantações de girassol ●

*

recruta

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Arte: Blick

tenho recusado os convites para servir a exércitos
peço perdão aos amigos mas me doem os braços
de tanto vestir seus uniformes me trocar destrocar
tenho pedido tréguas e assisto calada às batalhas
peço perdão aos amigos pela infidelidade a tantos
belicismos que lhes cabem crescem calos dentro
das botas e minhas mãos ardem feridas de lixívia
removendo as manchas enquanto houver sangue
no tecido dos uniformes fico só me lembrando de
como suas pátrias se reerguem tão depressa e eu
acabo nas trincheiras com os tímpanos explodidos
e a boca suspirando o cansaço aberta às formigas

(Amanda Vital)

ALGUÉM FELIZ NO ESPELHO

Não voltaremos ao normal. Caso contrário, há milhares de mortes que não terão significado nada. Quem se importa com CPFs cancelados?

Olá novamente. Escrevo de novo sem serviços ou envelopes para depositar estas palavras.

Eu me perdi na cidade que sou. As paredes guardam sentimentos, lugares, memórias, todos eles dentro de mim. Este apartamento em que moro é como a minha cabeça. Para cada lado que vou eu me encontro além das paredes, da mobília, da vida, da minha vida, das ideias, destas palavras.

Descobri que há quartos barulhentos, mesmo sem que eu diga ou faça ou ligue qualquer coisa. Há quartos silenciosos, mesmo com pássaros, grilos e o vento movendo as copas das árvores. Descobri que as panelas comporta um parte da vida que compreende minhas escolhas e elas são borbulhantes e desafiadoras, mas com o tempo as medidas se ajustam com a vontade e eu nutro o corpo. O corpo nutrido permite que todos os quartos se encontrem.

Eu quero apenas exercitar a minha mão, assim as vozes todas parecem convergir para o que sai da minha caneta.

O papel lança vozes que serão ouvidas no tempo. Parece com uma transmissão de ondas curtas, mas em vez de uma antena, basta que exista outro corpo, outros olhos.

As imagens sobrevêm na minha mente até chegar na minha mão e novamente se perdem em intensidade e ruídos.

Eu não vejo a vida melhor. Do outro lado do muro há apenas as medidas imediatistas e alguém se aproveitando muito de outra pessoa que não aproveita nada da vida pelo simples fato que precisa comer pelo seu suor. Li em algum lugar que as crises trazem o melhor do ser humano à tona. Perfeita besteira. A crise ressalta justamente o que o ser humano já se tornou. Na maioria absoluta das vezes não é algo nada bom que vem à tona. E ainda por cima para cuspir na cara de todos.

Fiz batatas hoje. Os vizinhos ouvem músicas sobre traição. Eu me pergunto se todos nos tornamos pequenos como nessas músicas. Fico ouvindo pela porta para evitar jogar o lixo na mesma hora. Eu não tenho nada a trocar com pessoas assim – meus sorrisos inclusive.

Penso em construir um andaime para escrever versos no teto. Isso foi há duas semanas e hoje o teto me desafia a ter meu momento de Michelangelo e gastar os lápis 8B para escrever maldições. As maldições caem do céu como o verbo que cai sobre os homens.

Há alguém no espelho que cantarola feliz.

Hoje eu consigo dormir.

Poema de Lucas Trindade da Silva

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Ilustração: Pinterest

inquirir entretanto a memória
sobre as razões para olvidar
– doar à sombra –
os sons de arrebatamento d’outrora

lançar à mesa os ramos guardados nos livros
os cravos levados na carne
os cimos marcados nos olhos
para fitar o abismo sem vertigem ou desejo

rejeitar o órgão-que-sabe
para cantar qualquer crença
na linguagem como desvelo
e no corpo como abertura

manter-se firme em impermanente ser

(Lucas Trindade da Silva)