fluxo

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Foto de Mary Surkova

fica pra me ver dançar: eu sei que você não é muito
chegado na letra fala que o grave dá dor de cabeça
mas quando você me vir descer nem vai ligar mais
repara no que eu sei no que meu corpo sabe fazer
quica rebola faz quadradinho se mostra não hesita
a beleza do tecido arisco contra a pele ainda seca
a beleza da bunda jogando o tecido mais forte nas
últimas músicas a beleza da batalha contra o suor
uma alça que não pára no ombro um sutiã abrindo
meus sapatos exaustos sob a mesa e aquela saia
é um desperdício que você não pague pra ver que
você não apareça e estrague o meu negócio assim
porque tem dias em que eu vou mesmo só dançar
mas hoje é um daqueles dias de cutucar onça e já
acordei com uma vontade de te arregaçar inteiro e
debochar da sua cara de parvo só pela provocação
com todas as ganas de quem nunca toma tenência

(Amanda Vital)

bonita

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Arte de Ewa Juszkiewicz

andei a vida inteira perseguindo um adjetivo faltante
na boca dos outros: ser validada a peso de três sílabas
ao peso da falta de três sílabas eu me lembro de gente
me olhar menina de cima a baixo e dizer alguma coisa
que roçasse sutilmente pela borda da letra b – mas não
entrava nunca mesmo com o esforço que despendiam
em procurar no vocabulário mental um assim parecido
reproduzi maneiras de ser e estar e nada dessas sílabas
pintava o rosto do queixo à testa e nada dessas sílabas
e roubava vestidos sandálias chapinhas da minha mãe
emagrecia engordava comia vomitava ia às voltas com
uma mixaria de três sílabas faladas da boca dos outros
essa vida de correr correr e comer poeira mesmo assim
dia desses fui abrir caderno velho de escola bati o olho
e reconheci a caligrafia da minha professora de redação
na última folha a sua caligrafia me alertava para que eu
não gastasse tanto tempo com bobagens e descaminhos
guardei minha professora de volta entre livros didáticos
desde então sigo cumprindo castigo atrasado com juros

(Amanda Vital)

álbum n. 1

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para Maria Luiza

minha mãe pulava carnaval em uma Ipatinga dos
anos oitenta que só conheço da boca dela: vovó
fazia as fantasias para as matinês costurava uma
a uma colombinas piratas dançarinas de burlesco
levava os panos para o bar e cosia nos intervalos
de trabalho dos operários – é para minha menina
dançar – minha mãe toda de tule paetê lantejoula
seguia da sua casa no Santa Mônica ao Industrial
de pés descalços nem um farelo de brita nas ruas
entrava lá já escolhendo não via beleza de rapaz
bastava ser pé de valsa ter borogodó mas preferia
os mais altos que era para ornar mais o gingado a
farra não tinha briga não tinha garrafa no chão só
tinha Bee Gees luz negra e cortes para o passinho
quando mãe enjoava voltava e era dia novamente
às cinco e meia da manhã uma calma inimaginável
chegava em casa com meu avô já passando o café
bom dia minha filha ao menos um queijinho antes
de dormir – e mãe cortava o queijo enquanto ele ia
juntando confetes da mesa sobre a mão em concha

(Amanda Vital)

nos e as hienas

Benoit Paille

● as hienas entram ●
● pelas janelas ●
● as portas tão fechadas ●

● elas arrombam ●
● as portas ●
● nos agarram pela nuca ●

● pela garganta ●
● elas devoram nossas linguas ●
● devoram nossos olhos ●

● nossas orelhas e narizes ●
● elas devoram a ponta ●
● dos nossos dedos ●

● elas adoram mastigar ●
● nossos pes ●
● nossas pernas●

● o figado ●
● a porra ●
● dos pulmões ●

● a porra dos nossos dentes ●
● e unhas ●
● como se come doces ●

● como se come geleia de figo ●
● elas sabem onde morder ●
● sabem onde ferir ●

● sabem bem demais ●
● nos cercar ●
● nos possuir e mascar ●

● comer nosso sexo ●
● com gula riso e ganancia ●
● elas correm ●

● gargalhando ●
● por cima dos telhados ●
● correm pelos muros ●

● pelos corredores ●
● correm pelas ruas ●
● como se fossem cães ●

● fossem gatos e ratos ●
● e devoram ●
● porteiros ●

● motoristas ●
● vendedores de cocada ●
● dormindo sob nossas camas ●

● dormindo ao nosso lado ●
● entre travesseiros ●
● lençois e cobertores ●

● de repente mordem nossa face ●
● toda noite elas cantam ●
● entre predios e casas ●

● cantam sobrias e bebadas ●
● ruidosas nas praças ●
● e se reunem ●

● nas pontes devorando ●
● os q não conseguem fugir ●
● depois desse tempo ●

● somem ●
● como se tivessem ●
● escondidas ●

● pra dormir satisfeitas de nos ●
● esperando ●
● a fome duma nova hora ●

● doutra hora bem nossa ●
● mas sempre reaparecem ●
● pra nos apavorar ●

● pra nos perseguir ●
● pra nos consumir ●
● pra tomar ●

● conta do nosso mundo ●
● como se fossemos merdas ●
● depois de todo esse tempo ●

● ja sabemos q somos nos ●
● q precisamos das hienas ●
● pra nos devorar ate nos ●

● esquecermos de nos ●
● e da nossa ferida ●
● a qualquer momento ●

● as hienas sempre retornam ●
● se não for agora ●
● se não for nesse tempo ●

● agora sim ●
● sera ●
● e se não for agora ●

● entrarão nos devorando ●
● assim mesmo ●
● entrarão por nossas portas ●

● nos morderão a nuca ●
● a garganta ●
● enquanto devoram ●

● nossas linguas ●
● pra esquecermos a ferida ●
● a ferida ●

*

rastros

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Arte de Marcus Durkheim

a sensação do meu pai na casa vazia: a visão
do meu pai na porta da cozinha seu uniforme
da usiminas com balas e doces de amendoim
no bolso da camisa cinza pai gostava demais
de azul e nem esteve aqui para ver mudarem
a cor dos uniformes era sempre cinza a tapar
sua presença viva de bem-te-vi de andorinha
meu pai foi cinza em março de dois mil e seis
meu pai foi cinza sob um céu que ele gostaria
tanto de ter visto meu pai é uma comoção tão
atípica quando nos aproximamos de sua mesa
de cabeceira de seus livros e de suas camisas
ainda lavadas pela minha mãe o meu pai resta
em passos catalogados pelo corredor da nossa
mesma casa – e até hoje na gaveta do banheiro
podemos ouvir seu relógio de pulso despertá-lo
todo dia às seis e meia da manhã para trabalhar

(Amanda Vital)

superstição

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Arte de Alexis Jang

uma fofoca nunca se passa somente pelas costas
ainda há fibras que se ligam à orelha esquerda no
ardor específico de um vermelho que cresce largo
levado desde a borda até a última carne do lóbulo
e há fibras que circulam as palmas das duas mãos
fica aquela coceira repentina suspeita vó dizia que
dura até o assunto acabar dentro da boca do outro
não adianta pomada água fria e nem arruda sequer
depois há fibras que juro por deus sinto nos dedos
mindinhos dos pés dão um tremelique qualquer os
dedos frenéticos aos saltos batendo contra o chão
só pode ser pressentimento mostrando esses sinais
de alerta então prefiro meter as duas mãos no fogo
afundar as costas e a cabeça em uma cama de lava
o que é uma queimadura para quem já está tostado

(Amanda Vital)

horta

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Arte de Alfredo Vieira

Naíla tem cheiro de caju nos cabelos e nos ombros
anda pra cima e pra baixo mas o cheiro não sai dela
abençoada por jamboeiros em dias de florescência
anda com sacolas lotadas no mercado municipal de
joão pessoa meio quilo de acerola numa mão e dois
de pitanga na outra pega chuva e encharca a chinela
uma vez foi varar lá em beagá pra me ver dei até um
cadinho de taioba refogada pra ela provar comeu de
boca boa animei e dei couve fininha dei maria gondó
fiz um monte dessas coisas que mineiro refoga com
talo e tudo no alho socado e um feijão batido à parte
Naíla tem boca boa pra fruta e verdura e eu fiquei ali
só olhando aquela menina almoçar pensando: como
vó ia gostar de ver moça nova fácil de dar de comer

(Amanda Vital)

sinais

bertolt brecht

● troia foi um sonho ●
● delirio q chamamos homero ●
● sem essa loucura eu não existiria ●

● nem troia nem homero nem eu ●
● existimos como deve ou deveria ●
● existir um bicho um homem a pedra ●

● não existia tambem quem delirou ●
● troia homero eu vc ou todo o mar ●
● os mares as espadas tanto sangue ●

● virgilio q foi sonhado pela eneida ●
● a eneida q foi queimada pelo sonho ●
● não realizado do pobre virgilio ●

● dante q se perdeu e não encontrou ●
● nada no fim duma inutil jornada ●
● acordando suado com febre mortal ●

● o cavaleiro da triste figura ●
● morreu entre livros e entrevado sim ●
● entrevado fechou os olhos e morreu ●

● covarde hamlet se foi com ofelia ●
● antes de tudo os dois flutuando sim ●
● nas aguas frias de millais pra nada ●

● buchner morreu com quatro anos ●
● de febre tifoide e o pai jogou ele ●
● seco e sarnento como cão no rio ●

● raskolnikov deu um tiro na cabeça ●
● logo depois de matar a avara velha ●
● sendo encontrado ao lado dela ●

● k foi recebido pelo castelo e ficou ●
● trabalhando pro conde westwest ●
● ate morrer de artrose com klan ●

● nem brecht nem bernhard nem eu ●
● existimos como deve ou deveria sim ●
● existir bicho homem ou pedra ●

● sem nada disso nem posso dizer ●
● nada sobre nada disso e me calo ●
● irreal no eixo obsceno do horror ●

*