Poema (12) de Regina Celi M. Pereira

vinha

Imagem: Pinterest.com

 

LAPSO

 

regava sua vinha

com a exatidão

de um Bilac

 

eis que, por entrelinhas

alexandrinas,

escapa um gesto

dissimulado

na insuspeita

palavrinha

 

se não vem ao vinho

toda uva,

 

também se ganha no gesto

que se perde da palavra,

ao revelar-se doce uva

desgarrada.

 

Regina Celi M. Pereira

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Poema (19) de Fiori Esaú Ferrari

 

Amoreira
Imagem: Pinterest.com (Vincent Van Gogh)

 

Estoico

 

Quando eu atravessava vales

e me senti pesaroso,

quando penedos e rosas cáusticas

perfilaram minha via,

quando a noite baixou no ardil

do meio dia,

quando as infiltrações verteram

essa água salobra e comprometeram

a solidez mineral,

quando a possível fala era sangrar

por dentro

a palavra desmedida da aflição,

 

o redil afeito ao vento,

 

a solidão do  boi na planura,

 

a corda vertical da tua decisão,

 

(e balança como um pêndulo eterno)

 

o desencontro dos teus amores,

 

a grita das ruas vazias,

 

a doce decisão de chorar,

 

eu sentei à sombra de uma amoreira

e fiquei à espera.

 

Fiori Esaú Ferrari

Para Beliza

enforcado1

Imagem: Pinterest.com

 

Uma risada a menos

em nós

Um tentáculo jogado

feito anzol

no chão seco e vazio sem ela.

Não teremos mais o canto

quieto da esquina

o ar morno de um abraço

dela.

 

Contar em cordel

a palha corrida

no tempo

o soco encaixado

na foz

A lua e o enforcado

surpresos em um baralho

sem mãos e nem Tarô.

 

Estilhaçar o vento

com um grito

terreno,

Entulhar o céu

com fúria

e lembrança,

empilhar no ar

o nunca mais

feito poste

feito pedra

e silêncio.

 

Nada disso cabe

Dizer adeus nunca bastou.

 

Márcio Leitão

 

 

A CONTA A VIDA

O poema quer ser samba, e engana-se
G. dos Santos

observo pela janela
já estou atrasada
não há de ser nada
uma voz dentro me passa
a conta sempre se paga
meu passo logo se alarga
a conta e a vida
as duas atrasadas
que jeito amiga
amarga semana
a rua toda borrada
é tanta gente atrasada
tantas rodas calçadas
portas demais e fechadas
como se faz com o país
não há de ser nada
ora se atrasa
ora sempre cansada
uma hora se acredita
em outras horas cabeça baixa
que além disso não há nada
não há de ser nada
mesmo vazia a bolsa
mesmo triste o comício
mesmo sem amores na escada
mesmo o nó na garganta
mesmo longe dos amigos
mesmo o lamento contido
e essa conta atrasada
não há de ser nada
além da batucada
o samba arrasta no velório
a vida tão curta que passa
o refrão também atrasa
não há de ser nada

Poema (7) de Camilo Rosa

lua e nuvens.jpg

Imagem: Pinterest.com

 

inventário

 

contei sua ausência no fugir das cores

das águas em nossos olhos  de fonte

a lista das promessas a mais

redes, ruas, voláteis romarias

sedes que não quisemos saciar

os vórtices se multiplicando

maluca máquina de afogar.

 

fui recontando suas ausências

em inventário de minúcias

nuvens, luas, versáteis rotas

das sedes não saciadas

essas coisas multi-implicadas

no esvaziamento do olhar

 

no final, ficamos eu,

a ausência

e um rasgado desejo

de não contar.

 

Camilo Rosa

 

sr speears o deserto o tempo a esfinge

Andrei Tarkovsky - Stalker - 1979

● no centro desse deserto ●
● disso sem vida q se consome ●
● se mordendo se lambendo se rasgando ●
● sr speears encontra a cabeça imensa ●
● da esfinge enterrada porq tudo se roi ●
● se consome diz sr speears isso o tempo ●
● so o existente q se esfarela e nem cinzas ●

● diz isso bem perto da boca da esfinge ●
● como se beijasse o q jamais sera ●
● com as mãos em suas faces ●
● com os braços abertos ●
● ms speears diz não restou nada de mim ●
● nem de vc nem dos nossos mundos ●
● agora so o q sempre foi nada e po ●

● porisso posso rir assim na tua cara ●
● porisso podes ver q digo a verdade e so ●
● assim sr speears gargalha e chora ●
● dizendo a velhice é o pior dos horrores ●
● perversos do tempo pior q o esquecimento ●
● nisso a esfinge diz nem tanto e devora ●
● a cabeça do sr speears q se contorce ●

● nareia como uma cobra sem cabeça ●
● enquanto a esfinge mastiga a cabeça ●
● do sr speears com muito gosto e lambe ●
● nos dentes o sangue dizendo pensar ●
● é perigo sem perdão e disso não se ri ●
● agora posso dormir plena como o tempo ●
● e os miolos do sr speears e sua vidinha ●

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