carta para Léa

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vó, era só para te avisar que hoje em dia
a família quase toda vota extrema direita.
sim, vó, extrema direita: aqueles parentes
que ouviam geraldo vandré bem baixinho
na sua sala tapando boca de menino para
não correr o risco de algum cantar lá fora.
é tão triste ouvi-los delimitando o lugar do
homem e da mulher quando era vô quem
ficava em casa quando você ia trabalhar e
até gostavam muito do seu almoço no bar
comiam em mesa de peão de sindicalista
compravam briga com quem dizia que ter
bar em ipatinga era desculpa de prostituta.
aqueles que faziam bundalelê no carro em
dom silvério no pico da tarde quando todo
mundo estava na praça quebravam lixeira
e orelhão. aqueles que comemoraram na
altura em que tia lelena passou na federal
tia fló e a minha mãe em concurso público.
às vezes eu sinto que eles se esqueceram
que gente como você existiu deu de comer
sem cobrar nada acolheu e enxugou choro
deu conselho de amor de dinheiro defendia
um por um perante as leis e as botas. trago
sua seiva ecoo seu riso bendigo seu nome:
uma reminiscência mumificada no aço inox.

(Amanda Vital)

2020 ANO DA PESTE (Beijo aflito)

Oi.

Sei que não tenho escrito muito. Eu me pergunto por que você deixou de escrever. Eu não tenho escrito muito, mas tenho lido muito. Parei com muitas coisas e certas vezes invade a sensação que meus poemas são como a terra e assim devem retornar ao pó como eu. Poucas certezas para expressar. Por outro lado o homem que expressa certezas é um tolo por definição.

Agora isso, peste né? Com arrefecimentos e descrença no século em perdemos as luzes e a razão. Quando olho pela janela eu me questiono se o maior medo dá doença não seria encarar quem realmente somos quando nos olhamos no espelho. E agora não outra pessoa para se olhar além de nós mesmos.

Muita leitura, não é? Seria uma lista interessante se começasse aqui. A leitura é um refúgio dos dias massacrantes e melhor passeio que posso me propiciar. Quando começo a escrever cartas, sei que os versos secaram. Eu coloco o lápis na mão para me exercitar e como não sei desenhar, escrevo qualquer palavra. hoje estas aqui eu envio a você. Claro que não sei quando irei aos Correios. Haverá Correios quando descer novamente deste isolamento? Será que seremos felizes de novo? Será que alguém mais pensa que estas perguntas no plural são insanas? O melhor da felicidade é a ilusão que jamais seremos tristes de novo.

Enquanto a vida parece que me roubou para os afazeres diários, minha mente parece fugir e estabelecer outras importâncias. Apenas meus livros, minhas cartas, tudo além parece simplesmente perda de tempo. Chove tranquilamente lá fora. A chuva pode ser uma bela máscara para os problemas do mundo.
Não sonho, você sonha? Contar o sonho é ordenar o impossível, dar nome ao caos, formular um rumo que não há.

O que eu quero escrever? Quando esta pergunta fica mais alta que a realidade eu percebo que vou escrever sobre o desconforto de não ter o que falar. Isto em si é escrever sobre o silêncio da literatura.

Outro dia percebi que me tornara naquilo que mais me causava estranhamento na infância: os velhos com inúmeros pedacinhos de papel no bolso da camisa. Um guardador de pergaminhos, uma biblioteca de inutilidades ambulante. Não sei por que escrevo memórias em pedaços inúteis de papel. Minha cabeça doi com respostas que não vem, responsabilidades e incertezas. A existência bate seu sino ensurdecedor e o tempo é indiferente. Ainda mais aquartelados que estamos.

Há dias em que saber por onde começar torna-se um desafio do tamanho da vida. Você pensa nessas coisas? Somo obrigados a ter uma resposta? Eu tenho fugas de mim mesmo, aterrorizado. A postura adulta que preciso ter diante de certas pessoas me impede de sorrir. Certas vezes a minha máscara social pesa tanto que quero fazê-la em pedaços ainda no meu rosto. Ontem eu quis chorar sem motivo diversos momentos do dia. O interfone tocou, mas ninguém respondeu. Acendi um incenso. Bebi água. Bebi café também, e vinho e depois água. Coloquei todos os livros de poesia no chão e giro até que pare na frente de um deles e abra em qualquer página. Qualquer leitura faz sentido quando estou imerso. Qual felicidade?

Qualquer linha de diário que se escreva nestes dias soará no futuro como os “diários da peste” medievais. Todos bem, tudo bem, mas tudo mal com aquele desalento beirando o pânico geral. Eu também começo a me sentir afetado pelo clima de desconfiança geral. Sanatório geral, né? Romantizar a situação é um privilégio das classes superiores.

Desliguei o rádio que me fazia sentir como um civil entrincheirado nos escombros da cidade. Há o aqui e o lá e eu sou a terra de ninguém. A guerra invisível não é fria como diziam. As pessoas são frias. Já passa de 20h e a sensação de que algo específico e coletivo, lamenta-se confuso na minha cabeça. A rua molhada reflete apenas ela mesma esta noite.

Abrindo um livro aleatoriamente sua palavras falaram comigo: “Sei que alguma coisa muito importante vai se fazer em mim e é preciso colher o máximo de dados e informação agora para o que vou fazer depois.” Tive certeza que precisei ler isso para encontrar a mim mesmo, para não desesperar, para respirar fundo e colocar a mente em alguma coisa. Uma tarefa, qualquer que fosse, iria me encontrar e com isso a voz sairia.

Tudo parece incerto amanhã. Por isso vou lhe escrever partes deste meu diário e lhe enviar pela internet. Todas as cartas são uma expressão de uma alma carente. Todo trabalho escrito e intelectual é uma carência que prescinde o desejo de ser lido e encontrar validação no outro. Isolado em uma ilha, o náufrago marca a pedra pela sua sanidade; para que sua carência não o domine e nas suas marcas ele encontre a existência do outro nele mesmo. Como o Hemingway escreveu: “O homem não é feito para derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”.

Eu preferia sair e selar tudo isto dentro de um envelope.

Beijo aflito.

*
*Nota: os trechos em destaque são palavras de Mora Fuentes e de Ernest Hemingway, respectivamente.

 

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O homem que queria transformar água em álcool gel

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O homem que queria transformar água em álcool gel

De repente, o coronavírus cessou seu ímpeto de contágio.
Os infectados acalmaram sua tosse.
Linfócitos pararam de cair vertiginosamente, seguindo a tendência do mercado.
Ventiladores mecânicos descansaram ociosos.
Sobraram rolos de papel higiênico nos supermercados e hidroxicloroquina nas farmácias.
Os grupos de Whatsapp silenciaram.
A curva que queriam achatar virou uma linha reta.

(Ivanhoé Stuart)

bisturi n. 3

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Arte de Christian Schloe

são precisos uma sobriedade medonha e um par de colhões
para que me vejam pelos olhos pela mesma altura dos olhos
e renegar meu próprio corpo por bocados de olhos mirando
retos e exatos naquilo que escrevo: eu cubro bem as pernas
tento não render assunto qualquer brecha é um risco tênue
entre me portar mal ou ser demasiado simpática. virei uma
criatura pura e simplesmente uma criatura de falas tímidas
com o nariz sempre encaixado em uma entrelinha para que
nem meu suspiro denuncie a mim nem ao meu esconderijo
e sigo me acostumando à ideia de ter paz em coçar colhões.

(Amanda Vital)

Poema (3) de Alexandre Pilati

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Imagem: Pinterest.com

 

Porto seguro contra um futuro incerto

 

O dinheiro nunca dorme

Seu ser sem miolo

Estira os olhos bem abertos

Sobre a carne dos homens

Sobre o espírito das coisas

 

Nunca dorme o dinheiro

Alerta a sua alma vaga

Poética sem palavras

Escava os cantos do mundo

Com mil membros eretos

 

O dinheiro nunca dorme

Bate o seu felino coração

Seu léxico de platitudes

Reverbera ódio e fascínio

Seu vampiresco beijo persuade

 

Nunca dorme o dinheiro

Massa bruta sem sombra

Seus dentes de divino metal

Roem e massacram o tecido da vida

Viram as vísceras das nuvens e do devir

 

Alexandre Pilati 

(Autofonia, Ed. Penalux)

vê se tá bom de doce

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arte de PAVEL FILIN

se não tiver ainda dá tempo de pôr mais açúcar
e misturar até desaparecerem os grumos ao lume
brando sempre brando para cozinhar bem o creme
enquanto deixo uma colher de pau vigiar o fundo
da panela: um olho no tacho e um olho na língua
busco nas semanas onde guardei a canela o cravo
aquele limão que roubamos da última casa quando
voltamos do café talvez umas lascas daquilo mas
ainda não está pronto sinto que ainda falta uma
outra coisa uma provocação diferente às papilas
por mais que me aguente bem na frente do fogão
eu preciso mesmo é de uma colher e da tua boca
certa precisa me dizendo furos à condensação do
ar me dizendo se o que tu raspas daqui é doçura

(Amanda Vital)

platônico

Anderson-Good Girl&Bad Girl

‘Jealousy’, de Harry Anderson

este é um poema para avisá-la que esqueci meu
batom dentro da sua bolsa naquela noite: puro
deslize esquecer um batom quase sem desníveis
sem ranhuras mesmo intacto aí no fundo da sua
bolsa bem a jeito para que você use quando se
esquecer de passar algo antes de sair de casa
com ele é puro descuido esquecer meu batom da
mesma marca e cor do que você costuma comprar
à espera que seus dedos o encontrem em um dia
de desatenção e se espalhe em vermelho tomate
na pele do rosto dele manchando de mim do que
resta da minha saliva contra a sua boca mesmo
que por tão pouco minhas células durem dentro
desse invólucro é como se eu o beijasse antes
mesmo de você porque sou tinta antes que você
seja carne e firo um espaço-tempo quilômetros
de distância minutos de duração só para estar
em algum lenço atirado ao lixo na cidade dele

(Amanda Vital)