[entre a verde neve…]

entre a verde neve e os cabelos solares que modelam a densidade
das palavras embatem as crianças complacentes quando cercam
os prados num incêndio genial

e durante a noite dormem encostados ao seu reflexo na solidão
por despontar enquanto acabam o que nunca começam por fora
da sua memória

essas crianças perdem-se nas vagas de chuvas torrenciais
mas indiferentes evaporam-se facilmente com tanta neve verde

filipe marinheiro, in «noutros rostos», chiado editora 2014

minha pessoa no vasto mundo vasto

carlotta-cardana

Felizes os bondosos e modestos, porque o vasto mundo lhes pertence.
Mateus 5:3

*

● vasto mundo vasto diz minha pessoa ●
● envergonhada e nua dessa maneira vejam ●
● sangrando com a perna aos pedaços vejam ●

● basta um centavo uma miseria pra alegria ●
● de minha pessoa q sangra assim com a perna ●
● aos pedaços dizendo vasto mundo vasto diz ●

● minha pessoa sangrando vejam vcs q passam ●
● a perna de minha pessoa aos pedaços assim ●
● sangrando nesse vasto mundo vasto vejam ●

● porq não é todo dia q se ve so uma perna ●
● sangrando nesse vasto mundo vasto vejam ●
● minha pessoa envergonhada dizendo a perna ●

● nesse vasto mundo vasto sangrando assim ●
● vejam essa perna esse sangue vejam vejam ●
● minha pessoa envergonhada vejam vejam ●

● pois não é todo dia q nesse vasto mundo ●
● vasto se ve so e somente so uma perna so ●
● so sangrando porisso não percam vejam ●

● basta uma moedinha um centavo um nada ●
● pra minha pessoa sangrar assim quase rindo ●
● sangrando mas quase rindo quase dançando ●

● vejam como corre o sangue de minha pessoa ●
● no vasto mundo vasto envergonhado vejam ●
● q é de se ver q é de se pagar pagar e seguir ●

● minha pessoa no vasto mundo vasto esse aqui ●
● sangra demais sangra como boi vejam vejam ●
● minha pessoa sangra demais no vasto mundo ●

● esse tão minusculo vasto mundo mordeu ●
● a perna de minha pessoa q sangra e pede pede ●
● uma moedinha um cobre um nada de nada ●

*

Como me sentia feliz no seu vasto mundo, no meio de toda a humanidade!
Provérbios 8:13

rosa dos ventos

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no dia em que meu pai se foi
o vento soprou meus cabelos
como anunciando sua chegada

os anjos em ritual apocalíptico
tocaram trombetas silenciosas
nevoenta elegia musicalizada

nos despedimos em calmaria
na liturgia de sua incineração

e fiz do silêncio nossa oração

se alguma lágrima ameaçasse,
qualquer brisa que me invadia
fazia todo o desalento fugaz

desde o dia em que ele se foi
passei a necessitar de mais ar

– a vida é um escape de gás.

(Amanda Vital)

Poema (11) de Diniz Gonçalves Júnior

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Imagem: Pinterest.com

 

Desmemórias

 

16

a cidade é moderna e traduz  sua geografia em pequenas maquetes de ar enquanto as serpentinas reciclam as folias de outros carnavais e cismam em  romper a noite espalhando  lamentos em  alta freqüência

17

não foi possível apesar do sorriso e do caminho que passa sonolento pelo parque de diversões até chegar à  radial leste .

18

menina no ponto de ônibus  ajeita  tiara círculo com luzes precárias loja de materiais elétricos restaurante árabe  promoções letras gigantes caminho seta centro

19

toda rua tem memória  letras embaralhadas no retrovisor caminhos habituais se tornam raros mesmo que permaneçam como certos cheiros  imagens  sons do asfalto

20

verão tímido cidade chuvosa calçadas vazias  paulista no cinema feliz natal imagens claustrofóbicas inundam a retina escadas galeria estranha a volta subterrânea olhares contando as estações

 

Diniz Gonçalves Júnior

TEXTURA

textura

Imagem: Pinterest.com

 

Entre algumas roupas estendidas
e estreitas noções de geometria avessa

:

esta estrada
e o sangue lançado à tela
da paisagem mais fria

]

Entre o golpe consumado
e o grito sufocado na tarde,
na carne, nas vestes da cidade
as vísceras

:

um espelho pré-moldado na face,
em sumo decreto provisório,
mas perpétuo

]

Entre a estocada final
e a dissoluta agonia certeira
o poema cicatrizado
nos retalhos
d
e
s
c
o
s
t
u
r
a
d
o
s
da noite invisível.

Leandro Rodrigues

Ofício

 

dancando

Imagem: Pinterest.com (Emil Nolde)

 

quando cheguei
os homens dormiam
e as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
dizer seus nomes
cerzir suas roupas
ouvir seus filhos
banhar seus mortos

quando cheguei
e os homens dormiam
as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
poder me ouvir cantar

Daniela Delias