confessionário

Carol A. Massa

minha verdade só entra pelas frestas: impaciente
e doida ricocheteando contra filtros teias bordas
como uma senhora agoniada nos fundos de uma
igreja junto à parede externa do confessionário a
chorar a sorrir com olhos fixos na barra da batina
do padre e os dedinhos furando as grelhas: entra
estrambólica como uma beata reclusa há décadas
dentro do próprio peito a gestar cabelos brancos
e uns pés de galinha gigantes ao redor dos olhos
a levar ovos numa sacola de plástico reutilizável a
direcionar guinchos sem coerência a quem passa:
já que isso de beleza e de elegância é para outras
mulheres o que é meu eu levo guardado no bolso
em papel envelhecido escrito em caneta bic preta
para mostrar e ler aos outros na parada de ônibus
mas é de uma feiurinha tão agradável que até dói

(Amanda Vital)

criptografia

Arte: Donald Stultan

um poema: esse eterno grito por ajuda
enquanto se chora, enquanto o mundo
queima devagar sob o tremor dos pés
um grito: entre as necessidades todas
a correrem pelas ruas, tristes, despidas
em calo, suor e história, como trabalha
um som: que até desconhece o timbre
a sair do corpo, que não é nosso, e sim
do vento, do tempo, da calcificação, ou
uma voz: que desnorteia o mundo todo
enquanto a mão agarra mais um soluço
e feito mãe ouve e sabe ser ela mesma
uma intervenção: que reconhece o grito
a segundos de perder a voz, um poema
se resgata direto da boca do desespero


(Amanda Vital)

quitina

Prezi

1.

os homens: manipulo seus textos e fotografias
em uma vulnerabilidade palpável e gelatinosa

suas palavras flutuam girando sobre os dedos
um magnetismo difícil de polaridade instável

palavras que me vêm feito ímãs e só se atraem
quando eu dou o lado oposto: quando me viro

e enfio minha cabeça num buraco terra abaixo
sou um corpo de quatro sem cara e ouço vozes

(eis o lugar que me cabe no campo magnético)

2.

de trás dos bytes não tenho medo de encará-los
daqui do impenetrável onde respiração alguma

move-se pela minha carne covarde quebradiça
daqui onde sou forte a caligrafar minha crítica

daqui sou eu quem vai por cima ou pela frente
ler como quem os encurrala por todos os lados

bicho que pela intuição observa e pula a corte:
não sabe ser sutil quando em posição de poder

animalesco: sou o contrário do que me querem

3.

daqui à distância não tenho medo dos homens
que escrevem leio-os com armas sem munição

mas só à distância posso ler bem esses homens
na privacidade da minha cama e do meu corpo:

amo-os tanto quanto odeio-os posso amar odiar
concordar discordar emendar reiterar me render

e não tenho medo de olhar seus olhos sob a tela
daqui onde não escuto palavra e sou tão decente

daqui, onde leio homens à distância dos homens

(Amanda Vital)

Poema (01) de Carlos Galdino

Imagem: Pinterest.com

Amanhã

Amanhã a felicidade vai sorrir

Com sua boca banguela de criança arteira.

O metrô será um coração de mãe

E a Radial Leste estará livre como um tapete mágico.

Amanhã a alegria será um touro rosa correndo pelas ruas,

Lambuzando de cores os olhos de pedra da cidade

E colorindo cabeças e janelas.

Amanhã Criolo vai dar canja,

Marco vai captar o momento exato,

E Casulo vai construir uma peça lotada de gargalhadas.

Amanhã todos os faróis estarão piscando VERDE,

Na Casa das Rosas vai ter sarau,

Mariana vai parir um poema azul,

E Helô vai preparar o pão dos Elfos.

Amanhã vai ter samba na Santa,

Será meu dia de folga

E Deus vai dormir numa rede de mariscos.

Amanhã é dia de pastel na feira,

Nina vai botar uns pingos nos is,

A Paulista será só para os sapatos

E o Messias encantará um cordel.

Amanhã a felicidade banguela vai sorrir,

Porque hoje eu acordei mordido de alegria

E com uma vontade infantil de acreditar.

Carlos Galdino

cascata

Arte: Chansrinual

minha mãe me ensinou a relaxar: pela água do banho
pedia que deixasse cair no meio das costas e começo
do pescoço por uns segundos até sentir a carne ceder
e afundar :é uma pressão fraquinha que vem furando:
a mãe da minha mãe relaxava com a corrente do rio à
bica :era outro curso: era deixar no começo da coluna
um jato único e bem mais forte salpicando pinguinhos
batia direto no osso saltava em gotas para fora da pele
às vezes choramos: é que há banhos em que é preciso
chorar: vamos eu a minha mãe e a mãe da minha mãe
secar os nossos olhos de alegria de tristeza e de alívio
as mulheres da família sabiam respeitar o ciclo do rio
da cheia à seca molhadas por fora enxutas por dentro
há banhos, minha mãe; há banhos, minha avó: e esses
a gente deixa correr com os pés fincados na gravidade
eterna: e segue lavando a alma até o corpo virar pedra

(Amanda Vital)

lone wolf

 Anastasilia Danilenko

dos amigos sou a falta dos que foram e dos
que têm demorado cada vez mais a chegar

eu sou o desespero itinerante das ausências

ando como quem diz: há uma vaga aqui ao
meu lado, mantenho uma brecha reservada
a quem tiver coragem de caminhar comigo

e preservo um sorriso convidativo, puxado
pelos cabelos, rua acima rua abaixo, vou e

sou toda aflição nesses trajetos compridos,
trago o coração aberto e parece ser fácil de
alguém vir me assaltar – praticamente peço

a qualquer alma, imploro que venha, venha

porque se paro de andar me encontro assim
muda, assim destruída, com ambas as mãos
no rosto, o choro apertado nas glândulas, as
palavras jogadas ao ar em busca de ouvidos

essa sensação de lonjura e a vida esperando,
batendo o pé esquerdo atrás da porta, a vida
do lado de fora, esperando que eu me mexa

mas como uma pessoa se move nisso daqui
que ninguém entende de que matéria é feita

essa coisa que é peso mas também é lacuna?

(Amanda Vital)

zumbido

Gary Hoang

eis a parte que me cabe neste latifúndio:
um copo de vinho para me dar coragem
uma boca precisa para oferecer a minha
uma conversa de velha para me lembrar
um estojinho que me sacoleje os trocos
uma mão para pedir gomos de tangerina
um problema para resolver nos silêncios
uma brasa que não durma quando apago
uma flor murcha enfiada cabelo adentro
um peito ainda sensível para as ternuras
uma noite a cair à frente dos meus olhos
um poema por dia ou o quanto me baste

(Amanda Vital)

ressurreição

Sylvie Riches

(para Mar Wolkers)

falamos a palavra deus da mesma forma
com um misto de culpa desdém e medo
não sei se é do sotaque: uma fala caipira
de camponesa rebelde que não larga a fé
mínima que seja ligada a objetos miúdos
um bibelô de nossa senhora da conceição
o rosário de madrepérolas herdado de vó
será que ela dizia também a palavra deus
com um misto de culpa desdém e medo?
será que vem das nossas avós essa língua
pesada de arrastar enxadas a contragosto
de carregar sacos de juta pelas corcundas
de viver a punição de nunca ir às missas?
afinal a língua também pode vingar avós
nascer de novo ligeiramente cosmopolita
comer a culpa libertar-se do desdém: não
ter mais medo de se dizer a palavra deus?

(Amanda Vital)

caipira

Lourdes de Deus

era sempre no início de maio: mãe e eu subíamos
o morro até a casa de dona Luzia atrás de vestido
para ir dançar quadrilha em festa junina: nós duas
sempre mais cedo assim que chegavam da costura
direto para lá: um cheiro de tecido e suor de moça
pelo quarto uma chuva de sainhas de tule armadas
em pilhas por cima de uma cadeira de computador
um espelho de corpo inteiro cheio de fitas métricas
e os vestidos apertados dentro dos armários velhos
:esse é novo chegou pra mim esse ano: e me despia
e apertava as pernas fazia de tudo para entrar neles
Luzia enfiava anáguas por baixo da saia me botava
repolhuda como devia ser :ela já tá na idade desses
mais curtinhos: eu girava toda em balão multicores
morro abaixo noite acima dias afora e casa adentro:
xuxinhas pelos cabelos a cara pintada o dente preto
uma euforia indomável da graça da espera: até hoje
não sei se o meu álibi era Luzia ou se era o são joão

(Amanda Vital)

quitanda

Alfredo Vieira

em Minas as mães ensinam a fazer amarração
com biscoito frito de polvilho: modelar as letras
do primeiro nome ou apelido da pessoa amada
fritar em óleo no fogo alto e ir tomando cuidado
:para o ritual não pipocar para cima dos braços:
pode dar muito errado mas tem comida à mesa
dentro do estômago ou encortiçada nos dentes
a gente aprende nova a manejar a escumadeira

em Minas as mães ensinam a durar casamento
com bolo pega-marido molhadinho e com coco
o detalhe é que o marido precisa gostar de coco
na receita o forno já é mais brando mais estável
cresce muito sossegado a cento e oitenta graus
ou para as mais corajosas cresce à lenha média
em brasa: aqui já se leva ao forno e tem ínfimas
possibilidades de queimadura é muito de dedos

as mães aprendem com as quituteiras da família
e as quituteiras ensinam umas às outras o que é
de casa: e depois de pronto vão vender para fora
pelas ruas nos portões e até na frente das igrejas
exceto em velório por respeito ao coração partido
o balaio cheio soltando fumo pelas entranhas das
palhas vai incensando as avenidas: mas qualquer
semelhança ao amor é mera questão de medidas

(Amanda Vital)