Poema (1) de Jéssica Iancoski

Imagem: Pinterest.com (Nicole Law)

ERVILHA VERMELHA

Ontem me perguntaram se eu era uma menina

E eu não soube responder

Esse inferno de pergunta.

Não que eu não seja mulher —

Mais que isso

— É que eu sou tantas coisas:

Uma garota,

Uma amante

Uma gota,

Um semblante,

Um inverno

Um menino,

Um pingo

E um girino,

Um giro de roda

No vento leste que sopra

No ponto final em cada esquina.

Uma menina é pouca coisa

Quando eu sou tantas outras

Entre cada ervilha vermelha Do interno do punho em meu ventre.

Jésssica Iancoski

Poema 1 de Giulia Nogueira

Imagem: Pinterest.com

um poema quando nasce esparrama pelo chão

livros de poesia

amuletos panfletos etc

talhados um a um

pelo silêncio-princípio

inconformado

da sua própria capa

cidade

não almejam

servir-lhe

de portas abertas

menos ainda

de oráculos certos:

a tua procura é quem

devora por onde

pisa.

Giulia Nogueira

diário

Vida de Menina, fotografia de filme

para Alice Dayrell Caldeira Brant


também como helena morley fazia eu mesma castelos
dentro da palavra nas entrelinhas dos livros impressos
na tentativa de fazer minerar diamantes do atrito entre
o grafite e a folha de papel antigo: o ato da escrita tem
essa coisa de se poder esconder numa estante intocada
com a própria caligrafia – nada mais que a poeira :presa
distorcida: colecionada em viagens pelo centro da terra
também eu deixei os papéis voarem nas janelas abertas
e o vento já apagou-me os candeeiros para tentar evitar
que eu escrevesse do que não acontece à minha cidade
porque só se escreve pela luz, helena, fazendo castelos
de dentro da cabeça para fora do comedimento da mão
como fazem as garotas inglesas com diários de verdade
mas assim como você também ergui-os comigo mesma
cascalho a cascalho :em frente a um riacho de garimpo:
e inventei o meu nome no sopé incerto das montanhas.

(Amanda Vital)

DÍSTICOS DA MORTE (poesia para tempos de sangue)

A família no supermercado
passa o vírus por atacado

§

A política da morte
é brasileira e forte

§

Com seu nariz à mostra o idiota
aspira a morte do compatriota

§

Corre o governo da chacina
os mortos não sonham com vacina

§

Consumidor morto não volta
mas o patrão não se importa

§

Fé e indiferença
comungam nessa mesa

§

Maldita economia
com a barriga vazia

§

Milhares de vozes sem ar
e você nem saiu do bar

§

O governo vacina a conta-gotas
no entanto o povo bate as botas

§

Os assassinos armados
não vêem caixões fechados

§

Patriotas da cloroquina
morrendo secos na surdina

§

Sem máscara nem isolamento
você na festa de casamento

§

Shoppings de indiferentes
são covas de indigentes

§

Ratoeiras motorizadas pela cidade
multidões contaminadas contra a verdade

§

Regurgita mi mi mi o presidente
que espera que você morra contente

§

Vermífugo mental
com máscara anal

§

Um estado de usurários
desmascarados e apoiados

§

Morreram todos tá tudo escuro
O Brasil é o país do futuro

§

canapé

Brassaii

nos tantos jantares da usina as esposas dos chefes
não diziam uma palavra: era como se não falassem
a linguagem das mesas dos colarinhos dos homens
comiam pouco e sorriam muito sempre impecáveis
tinham corretivo nas olheiras e gel repuxando o frizz
de cabelos exaustos traziam o cansaço nos cabelos
e seguravam seus filhos pela manguinha dos blazers
feitos sob medida a combinarem com o terno do pai
eram bonitas e melancólicas as esposas dos chefes
levando o peso dos vestidos das pedrarias enormes
seguravam xixi toda a noite para não arrastarem pelo
saguão as bitucas de cigarros e os ossinhos de peru
tinham uma candura insistente uma atmosfera muda
pobres mulheres se comunicando por olhar e suspiro
ouvindo os homens falando dos números e de como
os filhos dos operários gritavam tanto aquelas noites
de homens esses copos gordos de uísque até o topo
e as mulheres canapés quebradiços no meio do chão

(Amanda Vital)

NÚMEROS APENAS (poesia para tempos de sangue)

Os números não respiram.

Contemos:
duzentos, duzentos e cinquenta mil…

Em três versos, mais um
(outros são entrelinhas).

Como tudo que é sagrado, o ar
escapa à nos
sa compreensão
(escapa à milhares de vidas).

Este é o pão que partilhamos.

Cada voz perdida sem ar (sem respirador)
é um numero indigente (a indiferença abraça)
com calma e violência (a morte alcança)
de pulmões cheios de terra.

Contemos:
duzentos e noventa trezentos mil…
(transbordam prontuários)

A indiferença é uma forma de inexistência
em que nos falta o ar.

criação

Pinterest

na casa com cheiro de gato que já se sente da porta
minha mãe varre bolas de pelos sobre tacos antigos
de madeira desgastados as cerdas ressoam rítmicas
da copa ao último quarto à esquerda minha mãe faz
filhotes de mentira com os pêlos misturados na mão
em laranja preto branco cinza bege e marrom escuro
enquanto a vassoura descansa encostada na parede
minha mãe vai fazendo as orelhas o rabo as patinhas
deixa um a um sobre a cama lotada mesmo sabendo
que não dura inteiro nem quinze segundos entre eles
até espalharem tudo pelo chão outra vez restaurando
o estado original da natureza daquela casa para mãe
é um ritual de delicadeza e de graça juntar um pouco
de todos os gatos e fazer cabê-los – sobre suas mãos
a vassoura descansa e mãe é um pouquinho de deus

(Amanda Vital)

Poema de Cassandra Véras

quero tatuar nas costas
de omoplata até omoplata
porque sou redonda e errática
(orbital, me autoengano)
essa mandala

em dias
com uma cor de vida
outra de morte
pigmento uma intersecção
mínima

em dias
com uma linha
imaginária
desenho flores de arrebol
(essa palavra tem me vindo)

em noites
sonho um vestígio
de teu rosto
teu corpo inteiro
pontuado

em noites
tudo é escuro
e resplandece
em arcos

a vida
rio sinuosíssimo
hiperbólico
superlativo
não cabe nos cubos

na vida
ácido e lírico
se misturam
em minhas águas.

Poemas (18) de Marcelo Maldonado

Imagem: Pinterest.com

(das rezas)

que se
destrave o
impossível
num afago
que o
sensível se
instale
e a mim me
restaure
são e
náufrago

=============

(das entremências)

achou de bem
regar uma
pedra com a
saliva da
infância
a manhã tinha
reverberâncias
nos seus
rascunhos
entrou a rir
de um
parassempre
entalhado numa
rama d’água
deu a mão à
cor azul do
coração de
um bem-te-vi
dizem que
anoiteceu
feito coruja
com sabença
de árvores

Marcelo Maldonado

repuxo

Artmajeur – Giulio Benatti

me custa olhar na cara de um estranho: olhos à
frente dos olhos: difícil sustentar um olhar que
pode abaixar os olhos ao meu corpo a qualquer
descuido da cabeça. difícil confiar os olhos aos
homens por segundos breves sem que eu entre
em parafuso pensando o que será que pensa de
mim esse homem. é um esforço até mais físico
do que mental uma força corpórea que me exige
tanta serenidade me exige fechar desconfianças
dentro das glândulas lacrimais em três voltas de
chave com o corpo de costas contra a porta. me
custa abrir-lhes a boca e ceder-lhes meus dentes
com uma vontade despretensiosa de só conviver.
mas a vida insiste no risco um desespero danado
aos poucos rasgo uma fresta nos lábios eu deixo
os braços desarmados a postos para dar um tapa
nas costas de alguém e dizer: opa meu camarada

(Amanda Vital)