Poema (14) de Fiori Esaú Ferrari

gaivota

 

 

Promulgação

 

No corpo da mensagem,

o ar está imantado de pétala.

 

Comove a reunião

de cores se soltando

das árvores do inverno.

 

O sol em lateral

enche meus olhos

de mar e gaivotas.

 

Pastores fluem nas nuvens

e eu queria ser leve.

 

Leio a Carta Maior

das Minhas Pequenas Coisas.

 

Foi promulgada a ternura.

 

Fiori Esaú Ferrari

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[por vezes a meio da carinhosa…]

por vezes a meio da carinhosa noite desperto
completamente imóvel com o corpo preso às vidraças nítidas
do meu quarto espesso
feito fruto em queda vertiginosa no ouvinte chão

lá fora chove torrencialmente é uma noite escorregadia
onde se vive tudo a descoberto como quem se comove
a dividir o momento com alguém importante

talvez com a pessoa mais importante que nos faz estremecer
a concavidade do nosso quente coração aos pulos

após um turbilhão promíscuo de pensamentos
viagens sem qualquer destino ou memórias vindas da infância
começo então a pouco e pouco a mover os dedos declamando-os
no ar com gosto a flores a inclinarem-se para fora de si

por cima espalha-se o reflexo do sol embrulhado num veludo macio

cerro os olhos em abandono do universo e dos outros que entretanto
se perderam na desgraça numa fecunda lassidão triste dos dias
a desmoronarem-se abstractamente

e só se dão conta disso tarde demais
batendo com a sua náusea na velhice infiel apodrecida sem luz
ou alguma luz estilhaçada pela pestilência das coisas ingénuas
e é a sentir esta tristonha canção que me invado à deambulação
cósmica

enlaço-me lentamente nos astros a inundarem-se no precipício
vulcânico dos planetas ternurentos

depois corro à velocidade desta vida que me perdeu me destruiu
o coração impassível
e genuinamente nem sabe quem sou ou o que sinto
ao arrancar a pele da carne
a carne da pele que arranca de repente o sangue definitivo

então levanto-me dentro da verdade de mim mesmo
descubro que posso ser mais um pedaço de pecados e maravilhas
tocando subitamente o céu a flutuar solitário
chorando estrelas de cetim…
… quanto me tocam nos lábios videntes o medo triste
de me abandonar…

pouco importa sempre acreditarei em amar o mais melancólico
e irónico da minha alma por isso choro comovido

 

filipe marinheiro, chiado editora, 2014

lebre

Julia Lillard

● nu ●
● mas não ha bunda ●
● so musculos abertos ●
● pros olhos dum pintor ●
● porisso não ta nu ●
● ta morto sem pele ●
● como uma lebre morta ●

● sobre a mesa morta ●
● musculos estirados ●
● como numa lebre morta ●
● sem bunda sem caralho ●
● sem peitos sem xoxota ●
● não se sabe nem o q é ●
● mas ta morta ou morto ●

● mas não ta nu ●
● nu jamais e nunca não ●
● apenas musculos ●
● abertos sob a mesa ●
● como uma lebre ●
● antes das cebolas alhos ●
● tomates coetros ●

● jamais nu isso q se abre ●
● sem ser xoxota isso ●
● q se ergue sem ser caralho ●
● quem sabe pro pintor ●
● uma lebre ?ou não ●
● quem sabe sem bunda ●
● seja impossivel viver ●

● nem mesmo um cu ●
● nem uma lingua ou dedos ●
● uma lebre com certeza ●
● sem pele sobre a mesa ●
● mas pode ser uma mulher ●
● morta sobre a mesa ●
● mas é preciso ta vestida ●

● a mulher morta pouco ●
● ou nada importa ●
● mas é preciso saber ●
● saber profundamente se nua ●
● se é carne ou carne coberta ●
● se ha bunda e cu e xoxota ●
● ou algum caralho duro ●

● se for assim jamais ●
● isso não ●
● apenas a carne aberta ●
● duma lebre sobre a mesa ●
● antes das cebolas alhos ●
● tomates coetros morta ●
● com certeza jamais nua ●

*

 

Poema (6) de Dom Jorge

ponte tombada
Imagem: Pinterest.com
DESCAMPADO
estou precisamente onde ninguém está

até
que o silêncio descanse seus panos
terei tempo

para memória, coisas de sangramento.

se de fato houvesse
um rio, contaria quantos homens se afogaram;

quantas árvores engordaram seus galhos
de tristeza.

mas estou precisamente onde ninguém
está

(imperceptível,

como
um balde de lata que desce à fonte)

*

e a poesia, se bem olhas, é uma ponte tombada
entre um peito e outro;

uma flor
dada à mãe depois da oração do carrasco.

do que serve
esta língua que não fala por todos?

estou
onde ninguém está;

e nem é triste como o campo emudece;

*

como canto como quem anoitece
até que a solidão consiga empurrar o meu coração
por uma greta.
Dom Jorge

O olho

dar um nome
à sombra larga em teus olhos
e desde um quarto escuro
devorá-la inteira:
músculo, lágrima, fome
mil páginas belas e nuas
batendo às portas do teu corpo

prender-me
à espiral do teu olho
e desde o ponto mais alto
dizer-me em tudo
no exato instante
em que entre teu olho
e o mundo
tudo se desloca

Daniela Delias