Poemas (3) de Marcelo Maldonado

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Imagem: Pinterest.com (Francis Bacon)

 

(da escritura sanguínea)

poemas sem sangue
são apenas
poemas estanques
lábios sem gosto
dedos de arame
cravados
no revés do rosto

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(dos propósitos)

entre parênteses
a poesia parece
prescindir de prece
para tornar-se tese

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(da raiva)

represada
em torvelinho
desenhada
no redemoinho
da alma
endemoninhada
se acalma
e arredia
domesticada
se irradia
e escapa
pelos poros
esporádica

 

Marcelo Maldonado

Poema (3) de André Luiz Pinto

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Imagem: Pinterest.com

 

III

A queda do mar anula

aidéia de chuva.

Águas invadem a seca

tísica mensagem do espelho azul,

naufragam a certeza

do chão, o pão

na moenda que moem as mãos

dos que moem açúcar

dos que colhem os dedos nos laranjais.

A chuva retrai o senso

de coisa perdida.

A chuva não perdoa,

permanece o cristal

de sangue na tina.

Um corpo vem conhecer

nos bueiros

o cheiro de ferro das vigas,

as estrias da cidade,

a carcaça do bandido

enquanto a chuva segue o crepúsculo

precoce do sol

no exílio.

André Luiz Pinto

LAVRA

lançamos os cascos ao vento
cintila a trilha e a terra abre-se
balanços e arremessos
ora leve e adiante desce a tarde
múltipla frequência
ora fogem ora escondem
era antes agora é onde

cálida matéria de canto e dor
um dia lembraremos trevos
é do tempo a brisa breve
que nada fala e ouvimos relva
suor e espasmo estranho campo
não somos os mesmos que aqui entramos
os verbos na terra e o encanto
desconhecemos o que amamos

Santa Clara

Amanheci de um modo novo hoje
as luzes de sempre
não me prendem mais com suas âncoras
queimei as lanças
e fui deixando para trás
a casa, o pátio, a aldeia
docemente ensolarada

Rasguei as certezas
enterrei os vestidos
e agora tenho por riqueza o vento

que sustenta os pássaros

 

Iracema Macedo

Poema (8) de Fiori Esaú Ferrari

fogueira

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Monólogo I

 

Tinha um escorregador de terra

que dava no poço.

 

No fundo,

a gente olhava a gente.

 

A grande árvore frutificava o destino

e eu, que só sabia ser menino,

fiquei em desacerto

de colher o fruto.

 

Voltava pro escorregador e pra infância.

 

Meu pai capinava, podava,

sorria, argumentava pragas,

possibilitava sombras.

 

Eu via.

 

Puxava o balde,

a garganta do poço

parecia um funeral.

 

Fresca, úmida.

O som dos insetos

na escuridão.

 

A árvore cresceu na indiscutível presença paterna.

 

Era de amor, era de ódio.

Era flor de coragem,

era flor de medos.

 

O sítio ficou sendo sem adjetivo.

 

Eu tenho também desplantes

nas horas de nenhuma colheita.

 

No fim dos matos,

onde não é possível

chegar os olhos,

mandei erguer uma grande fogueira.

 

Pode ser que Deus enxergue

o sinal que mando pro meu pai.

 

Fiori Esaú Ferrari