ILHAS

ilhas

Imagem: Pinterst.com (Dyanne Williams)

 

 

Enquanto os gestos

engolem e travam o tempo

em mim

os restos de pão

continuam a desabar

do prato à pia

do ralo ao vão dos mundos

e dos canos

redes que interligam

toda a indiferença

 

Enquanto a noite

é única e individual

em mim

o coro dos carros

roem o pó e o piche

intermitentemente

 

ninguém mais enxerga

ou se cobre na mesma noite

que eu

só o meu casco é que interessa

o meu sorriso

só é riso e dor dentro de mim

nem o espelho cuida da minha

pele ou da minha tristeza

 

só há cada ilha que somos

invisíveis pro mar

pros navios

pros marujos

pras outras ilhas

e tudo que se passa dentro

do corpo e da carne ilhados

é só solidão e, ás vezes,

doçura.

 

Márcio Leitão

 

 

AVC

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Imagem: Pinterest.com

 

Gota a gota

o sangue sem vida

escorre encurvado

no labirinto ofegante

de uma luta sem preces

em que todos os cantos

são peixes esguios

e sem rumo

 

Células ludibriadas se perdem

devaneiam e morrem

no abismo sem lua

em que a esperança

depende de um sol

interno e silencioso

que ilumina onde ninguém

enxerga, que ilumina

onde os comboios

são rios e gritos

de ajuda

sem tom

sem acordes

 

No paradoxo,

o que vem de fora

é só voz, é só música

e súplica

moldadas em afeto

como teia tonta

esparramada

no ar quente e triste

das circunvoluções

que não sabem se partem

ou se renovam

a eletricidade

daquele único

olhar que se espera.

 

Márcio Leitão

 

 

Uma noite triste

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Imagem: pinterest.com

 

Ruína que me acolhe

com unhas grandes

 

Concreto que embaça

o que seria sorriso e solidão

de uma noite

que só tenho eu

e uma dor sem costura

que é toda minha

indivisível

 

Perto do olhar

só tenho a outra solidão

materna

que dorme quieta

com estilhaços

em coro a lhe tornear

o sono

o vazio sem dono

 

Unidos pelo amor

ungido

nos anos quietos

sejam próximos

ou perpétuos

construção de afeto

que agora se contrai

e se rasga simultanemante

como se o mundo fosse

só esse pedaço de dor

caído nos olhos

e com cheiro de hospital.

 

Márcio Leitão

 

 

padroeira

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Arte de Amanda Greavette

para Marta Dutra

marta vê nascer um poema de alguém como se fosse
um filho: pajeia e bendiz. carrega os versos dos outros
nos braços com o mesmo dom das parteiras. gosto de
pensar que marta sabe do momento de ferver a toalha
estimular a barriga e esperar a paciência dos instintos.
marta segura o poema ainda sujo de sangue e observa
seus primeiros sinais de existência sempre curiosa nas
tantas noites de mães insones. do mesmo jeito, marta
vê nascer e cair o sol no final do mar com a atenção de
quem lê. marta sabe que, ainda que o sol e os poemas
apareçam todos os dias, é ela quem escolhe como vai
recebê-los. a praia segue cheia de umbigos enterrados.

(Amanda Vital)

pausa

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Arte de Roby Dwi Antono

para as amizades que virão

não quero saber do afeto que não me pegue pelo braço
e que não tenha uma presença tão enérgica que chegue
a irritar. eu quero ser irritada: já ando aí exausta de pular
de um campo de batalha a outro ando aí e nem percebo
se me pisam os pés. eu quero ouvir histórias que sequer
me interessem minimamente reparar em manias imbecis
ser arrastada para um exame de sangue qualquer e ficar
duas horas na sala de espera ouvir uma risada enjoativa
que tenha tanta sinceridade que me perturbe me zangar
com um par de dedos atirando meu cigarro pela calçada
ter que levar com alguém dizendo não fume nunca mais
que me roube o maço a amargura o conforto: esse exílio.

(Amanda Vital)