Poema (1) de Cláudia R. Sampaio

Tito Merello Vilar
Ilustração: Tito Merello Vilar

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
– quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.

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Poema (2) de Carvalho Junior

azulao

Imagem: Pinterest.com

 

PELOS CHÃOS DA MALÍCIA PULSATIVA

 

da voz conselheira de meu avô,

tua coragem em me levar, mãe,

pelos chãos da malícia pulsativa,

entre arapucas rachadas de sol,

 

sob o canto religioso dos azulões,

com os pés em vitória sobre as corcundas

espinhosas dos caminhos da roça

e a desconfiança das sementes não vingadas.

 

do fogo que me marcou o corpo,

tua habilidade em me mergulhar no rio

do teu perene afeto, me sarar

e me salvar do não existir.

 

a cacimba do teu olhar me protege

dos afogamentos que o carrasco funda.

 

Carvalho Junior

distância

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“Morning”, de Eric Zener

para Pedro

no lado da cama que guardei a você pendurado
em duas voltas um rosário de pérola com a cruz
voltada para a frente: se existe mesmo proteção
que te guarde primeiro e que te salve em dobro
deixo três travesseiros em linha reta ensaiando
o volume do seu corpo sob a coberta de flanela
antecipo nosso jeito de dormir mantenho fresca
e cheia a garrafa d’água o abajur com luz acesa
a janela entreaberta para ouvirmos os carros de
som com promoções de supermercado o preço
do fubá ecoando em meu bairro um isqueiro no
criado-mudo junto de um quartzo rosa lapidado
que é quando eu não acredito em uma ou outra
conta do rosário em meu lado suspiro a espera
tateio a noite representada em seu devido lugar
preservando o templo com a quentura das mãos

(Amanda Vital)

A lojinha da CASA

Agora a CASA está na lojinha da Editora Urutau para todos os leitores encomendarem o seu exemplar. Passe lá e confira, além do meu livro o catálogo da editora abriga uma rica parcela da literatura brasileira contemporânea em edições belíssimas.

Você pode acessar e adquirir seu exemplar aqui.

Para fechar a coluna hoje, que não há o que dizer que o livro em si já não esteja dizendo por si, o poema homônimo.
Pode entrar, que a casa é sua. Não repare não, as paredes de vento, o telhado de versos (infinito). Achegue-se, que há espaço para todos.

CASA

Eu te recebo
E como nada temo que venha de ti
Mantenho abertos os braços
Os abraços restaram sozinhos
Desta cama eu nunca parti
Os momentos e a memória amanhecem
Com sono juvenil dos que não têm rumo
Os que pouco conhecem a névoa do corpo
Esquinas e quebradas com derradeiro fogo
Que cidades esquecidas arderam em plena vida
Nunca descansamos
A boca e o mar nunca afastamos da borda
E nossas próprias rochas arrefeceram
Na maré, no lençol e na despedida

Guardamos no peito os lobos
As noites sedentas e o frio imenso na pele
Mansa silenciam guerras passadas
E o desejo em cada pessoa –
Uma casa

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Crédito da foto: Débora Rendelli

ossos de vidro

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“Insecurity”, de Mario Tsota

arrasto um cavalo invisível montado em minhas costas
não o vejo pelos espelhos não aparece nas fotografias
escondo-o bem: escondo-o bem sob a cabeça ao alto
cubro as marcas da crina chicoteando o vento na pele
com a soltura dos cabelos reaprendi a andar com essa
carga pela teimosia eu aro viciosa meus descampados
na esperança de nascer dali nem que sejam margaridas
taiobas ora-pro-nóbis ervas daninhas plantas tão fáceis
imagino as pétalas erguidas e a dança de suas sombras
na contagem das horas mas volto trazendo o colo vazio
tranco o haras e durmo novamente sobre os quatro pés

(Amanda Vital)

Poema (1) de Lucas Trindade da Silva

Aykut Aydoğdu
Ilustração: Aykut Aydoğdu

a Martina

tu que me diz do vento em repouso
do brilhar maior das sombras de árvores mortas

tu que me fala d’au
sência
de
movi
mento
como um bem
como um fruto
a ser conquistado

tu que numa rede balança e chama de fonte
os estímulos alheios de sal frente ao mar

tu que altiva olha o agreste dos meus olhos
como se o árido das dores sós fossem quimera
e o ardor de quem assim sofre fosse despeito
e assombro
despropositado
ao pôr-se nos sulcos da vida

tu que absorve toda a falta que concebo
e me põe num estado de espera
sobre os atributos daquilo
que em conjunto interpelam com o meu nome

tu ardósia potência de cores

que descansa sobre o leito de um nunca apaziguar

(trindade da silva)

Poema (1) de Carvalho Junior

tjubina

Imagem: http://uns2poemas.blogspot.com/ (Capa e projeto gráfico: Matéria-Prima Editorial)

 

O HOMEM-TIJUBINA

|trechos|

 

I.

 

o homem-tijubina tem um paladar exigente. não digere o ovo do óbvio. somente silêncios de pássaros lhe passam pelos gorgomilos. quando o indagam a respeito desta passagem, diz que o outro lado da vida está no verso. não tem idade, apenas caminha. às vezes para frente quase sempre para o fundo do poço que guarda as lágrimas dos seus ancestrais. é um composto de cortes de unhas-de-gato e incoerências.

 

II.

 

o homem-tijubina vive, se dobra, (des)dobra e recorta como um zine. camelô do calçadão da afonso cunha, pede esmolas como um poeta, é este azulejo quebrado nas tuas mãos. usa colar de hippie, pulseira de sementes antiquebranto, antiódio e antiamor ao mesmo passo e no mesmo cortar de pulso. é poeira invisível nos escombros do cassino caxiense, fôlego  e asfixia nos vivemorres do rio itapecuru. na esperança de novos dilúvios, ele recita cecília: a chuva é a música de um poema de verlaine.

 

 

III.

 

para o homem-tijubina a infância é como uma ferida sem costura. diz que carrega suas corcundas hereditárias pela força das ladeiras de pedras brancas em que um dia correu com os bolsos cheios de pitombas, penas de passarinhos e sonhos acesos dentro de lampiões improvisados. quando tomado de ira do mundo, enfia o dedo no cu das não levezas do cotidiano e brada contra a apatia dos fantasmas bípedes.

 

VIII.

 

o homem-tijubina é um poema desprezado, por todas as almas viventes e vegetativas, resistente às chuvas e às ferrugens que lhe explodem a pele. um dia ele nasce alguma coisa diferente e deverá outra vez aprender a viver com a indiferença dos homens, dos répteis e de todas as (sub) espécies por um ou vários deuses, darwins ou big-bangs inventados.

 

Carvalho Junior