Poema (19) de Iara Carvalho

rezando

Imagem: Pinterest.com

 

POR QUE, DEUS?

 

Eu tenho inveja

dos que têm memória

e contam a infância

com requinte de detalhes

que me dão água na boca.

Por que, Deus?

O Senhor já sabia que eu iria

ser uma mulher prática,

ainda que poeta, ou que

facilmente eu trocaria

uma chuva por um passeio

de carro? Sabia que eu

não seria terna com

os bichos e que nem toda

criança entraria no meu reino

dos céus? Por acaso o

Senhor sabia, Deus, que eu

esqueceria de rezar por tantas noites,

ou que usaria sem pudor

temperos industrializados

no alimento que tão

esmeradamente nos ofertou?

Ah! decerto tinha ciência

de que eu seria o tipo de

pessoa que deixa todas

as luzes acesas, que ri do que

não tem graça, que esquece

a magia das canções.

Eu certamente não daria

memórias de infância, se Deus

eu fosse, pra alguém

que dobra a ponta dos livros

na página onde parou, muito menos

pra qualquer ser humano

capaz de não gostar do

sol nascendo entre passarinhos.

Jamais daria o dom de

lembrar das brincadeiras

com as irmãs, pra alguém

que se acha tão capaz de viver

só. Seria por que eu bebo

água gelada depois do café

quente, que o Senhor, Deus, tirou

-me a chance de lembrar

do bigode do meu pai?

Ou seria por que não demoro

tempo suficiente no banho

e não aproveito, com aquele

ardor de comercial de TV,

o sublime momento de lavar os cabelos?

Deus, que mistério eu não

me saber criança! Diga-me onde

errei, pra quando eu nascer

de novo, ter a chance de preencher

meus álbuns de instantes,

minhas conversas com mamãe

no batente da cozinha,

a briga pelos namorados

imaginários, as bonecas deixadas

de surpresa sob a cama,

o pé de seriguela pendendo

no quintal, olhar o mundo sobre

a cisterna e poder chorar

pelos ídolos que morreram.

De uma coisa eu sei, o Senhor

nem precisa dizer por que eu lembro

tão bem das quedas: é claro

que o Senhor já sabia do meu fracasso

lá de 2011, e quis me deixar

preparada para o tombo

que estava por vir depois dos meus

trinta: uma mulher sem rosto

nem lembranças, caindo

do alto da torre. Se olhava

pro céu ou pro chão, não pensava,

só caía com a alma fechada,

torcendo pra não lembrar

do impacto.

 

Iara Maria Carvalho

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ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.

desvelo

aaaaaaaaaaa

Arte de William-Adolphe Bouguereau

para Lara

acho que é coisa de irmã mais velha: perguntar
das noites e das fomes com certa entonação de
quem envolve o outro com os braços e o fôlego
sempre muito fortes. caminhar atrás para vigiar
os passos os matos as pedras ou as trincheiras.
perceber as influências crescendo rijas em volta
da rotina. perceber a fala os modos a expressão
e todas essas sutilezas a atravessarem os olhos
capturando as fagulhas em vulto de fuga e medo.
acho que é coisa de irmã mais velha: não chorar
na despedida como se chora abraçado às mães.
calcar a saudade contra as paredes da garganta.

(Amanda Vital)

BANDOLEIRO (poesia para tempos de sangue)

meu coração é um coquetel molotov
que não posso acender, então explodo
a palavra, letra por letra até sobrarem
as tônicas abafadas, os objetos cortantes,
os desejos insones, os cacos, todo o lodo
da rua abafando a garganta e a liberdade.

meu coração no papel é vermelho rabiscado,
intragável, violento, azedo, uma bile
que trago enjaulada no peito, um aperto,
uma forma de desespero, sempre que eu vejo
a opressão embaixo de qualquer viaduto.
papelão, concreto, granito pontiagudo:
a real marca e presença dos nomeados ao estado.

meu coração é denso, rubro e maculado
uma tempestade, um combate sem céu,
que um dia sobre as escadas do palácio
acederá incendiário.

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Foto de Christer Strömholm

para Pedro

somos os sem grupo, meu amor, os desgarrados,
os indesejáveis sentados na última mesa do café,
os das listas de espera, os vencidos pelo cansaço,
os das migalhas, dos fins de feira, dos escanteios
à quadra, somos os notados pela beirada do olho,
somos o silêncio repentino dos outros, o não-dito,
o lado contrário intermitente, as ervas miseráveis
brotadas nas frestas do meio-fio. seguro tua mão
macia e calma: somos mesa para dois, meu amor

(Amanda Vital)

Poema (1) de Eliza Araújo e Raquel Medeiros

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Ilustração: Guy Denning

[pequenas ponderações sobre costas: do cavalo e do amor]

Não sei de onde veio
Isso de poemas
Me saírem dos poros
Pele molhada ou não:
transbordam
vindo das entranhas,
do umbigo
ou da superfície da pele:
essa coisa outra no espelho
na qual se vive quenãosesabe:
o maior órgão do corpo.

Me escondo em meus cadernos,
mas às vezes quero afirmar
com o coro do mundo
que é ok ser humano,
não estar no topo das coisas
não sabê-las antes de senti-las.
.
Tomar as rédeas da vida
é uma metáfora sem rumo
na iminência de um cavalo.

Fizemos tantos
manuais que tomamos gosto
nos apegamos, desejamos
na bíblia, regras para ser bom
como ser feliz
no livro de autoajuda
conquistar um homem em dez
passos na Marie Claire do
mês passado quinhentas calorias por
dia para a barriga de fora

Saber tudo antes
de sentir não saber.
Quantos versos se perdem
nas cláusulas do contrato
de ser gente do jeito que
querem que a gente seja

O poema na contramão
descendo na banguela
engatinhando e depois sobre
duas duras pernas
correndo solto cavalo
liberto sem rumo desenha
um mapa com os sinais
nas costas do seu amor
escorrendo no canto
do olho
da boca
da vulva

Reticências entre a orelha
e a nuca o
poema faz apneia
dois minutos
respira
sente
e nada sabe.

CANTO SECO (poesia para tempos de sangue)

hoje escreverei como quem volta do trabalho
sobremaneira, não direi nada
pois nunca se retorna do batente
nunca sairei do trem lotado
por isso o desgosto
o molho ansioso de suor
o desodorante enlatado
e as pessoas também

passam as estações
você pode estar tendo uma crise
passam as decepções
você pode sempre melhorar
passam as vidas inúteis
você pode estar dentro de um filme
se apenas você sumisse
esquecido além da velhice

estamos a trezentos dias sem acidentes
diz a placa na parede
estamos secos por dentro das mentes

sei que canto distante de casa
sei que o canto não resolve nada
sei que a fome às vezes passa
sei que a sopa na mesa é rala
sei que a voz é rouca e falha
sei que canso
sei que passo
sei que morro
sem abraço