” Helena de Tróia, os últimos momentos “

“ Helena de Tróia, os últimos momentos “

 

 

 

 

 

Lembro as noites de sufoco com os pássaros

encalhados no topo das torres, com a luz

a torcer-se nos meus olhos e o calor,

já prenúncio de desastre, descendo em ameaça

a rigidez do Parnón para ali se misturar

com a passividade das ovelhas, com o desalinho

ofensivo das cabras, com o relincho selvagem

dos cavalos a saciarem-se, alheios a tudo,

nas águas frescas do Eurotas. Lembro

a minha perda ainda mal desenhada na erva

tenra das margens, enquanto os deuses,

em conluios de quem tudo pode, me preparavam

armadilhas fortes e sem possível escapatória.

 

 

 

Lembro as lautas refeições noite adentro

onde o riso dos homens se enredava na vileza

partilhada e a gordura lhes escorria pelas barbas,

enquanto  o cheiro da urina se misturava

com o do porco bravo a voltear sobre um fogo

intermitente. Lembro os movimentos

voluptuosos das dançarinas, mulheres encenando

o que não sentiam, para o simultaneamente

boçal e frouxo apetite dos homens. Lembro

as guturais entoações dos poetas, espécie

sempre indecisa entre a inveja e a concupiscência

da alma, arvorando entoações de ouro

nos míseros recipientes onde recebiam as esmolas.

 

 

 

Lembro também os músicos, tão desacompanhados

de tudo, os guerreiros – impotentes como todos

os guerreiros -, os estrategas, os generais, os nobres…

E lembro sobretudo a presença de Hermíone,

com os seus nove verões recém concluídos,

a acenar-me por entre a rudeza dos convivas

e do abandono a que, em breve, a votaria –

eu, qual funesta mãe a quem o ventre deveria

ter sido mirrado à nascença, para jamais trocar

filha por salvação própria em braços de homem

raro, homem que me perdoaria um passado

só de corpo, de fealdade da mente, de prazeres

grosseiros, como grosseiro fora tudo antes dele.

 

 

 

Lembro esse mesmo homem a atravessar

a cidadela, a entrar no pavilhão entre a falsa

ousadia varonil e o engaste de um desnorte

verdadeiro a esconder-se por detrás de tudo

o que em Heitor era missão e primazia. Vi-o

e soube de imediato a que perda estava destinada,

a que fim me conduziriam todos os caminhos

que se emaranhavam agora do meu promíscuo

passado a esse barco que no porto me sabia esperar.

E, quando ele finalmente reparou em mim,

percebemos ambos que nenhuma saída era já possível;

que Apolo, senhor do sol e de todas as luzes,

de nós se apropriara como exemplar fulgor do eterno.

 

 

 

Páris Alexandre, sussurravam as criadas o seu nome,

gritavam-no os homens entre si, ressoavam-no

os antigos oráculos, que de mim tanto escondera

por temor e cobardia. Nove dias após o primeiro

olhar! Nove dias onde as noites floresciam

com tanta coisa sufocada e aguardando a mão

certeira. Noites a medirem-se por um fascínio

em desalinho:  faixas decoradas, colares de contas

de âmbar, braceletes de folha de ouro, tecidos rasgados,

suor, saliva, pingos de sémen e a nossa perda

também, mas essa não nos interessava,

porque cheirava a ganho e a instantes eternizados,

coisa que só a poucos é concedida.

 

 

 

Não, não me julguem pelos relatos futuros, por essas

inverosímeis epopeias ou pelos preconceitos dos que não ousam!

Tróia teria sido igualmente destruída: as terras de Dardano

eram apetecíveis, mas pela geografia e pelos celeiros de trigo.

Eu fui apenas o pretexto! Os políticos, casta de facínoras

com máscara de sorrisos, há muito tinham decidido

a nossa perda; na sua ganância não cabe a honra

nem estórias como a minha e nos seus melífluos argumentos

apenas a abastança se descobre pelo fedor insuportável

dos seus ventres sórdidos. Fugi, pois, dos poetas, dos políticos

e das estelas à beira dos caminhos! Só a justeza da paixão,

a sua lealdade, é verdadeira, só ela poderá um dia

dar sentido à pequena e miserável  História dos homens.

VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS (Inédito)

Nota –  Este poema foi publicado pela primeira vez no Site (português) “O Casal das Letras” de Maria Augusta Silva e Pedro Foyos.

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