A mulher do pescador

Antônio Mariano

 

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O marido nunca a beijara na boca. Como nunca tinha experimentado, falta não sentia. Ao invés disso, experimentava algum nojo quando via outros casais nas praças, na praia e noutros lugares cheios de gente. Até os censurava. Normal achava que no lugar disso ele somente lhe desse uns cheiros sôfregos e nervosos no pescoço nas horas em que pensava nela como mulher.

Na vazante, ele pegava a jangada com outros dois pescadores e entrava no mar. Não importava a hora, manhã, tarde, noite, madrugada. Ali, na caiçara que servia para guardar os instrumentos de pesca e para moradia, ela esperava com a sogra a volta de seu navegante. Acontecia demorar dois, três dias para o regresso, mas sempre com um saldo que lhes valia alguns dias de sustento.

No retorno ele era recebido com alegria. Não era homem de grandes arroubos, mas demonstrava na face o contentamento com a recepção. Procurava se pôr a par do que aconteceu na sua ausência e tudo tornava à rotina.

Um dia, ela viu na tevê de um bar próximo a forma como um casal se comportava num retorno de viagem. Desta vez encontrou beleza na cena, imaginou ela e o seu homem no beijo da novela.

Uma ansiedade a tomou e à noite não se conteve. Perguntou se ele já tinha beijado na boca.

Não é coisa de gente séria, respondeu o pescador.

Desde então evitou a menor menção ao assunto com o marido. Mas continuou a pensar e achar bonito o que via na televisão, nos cartazes publicitários, nas pessoas próximas da rua, que naturalmente esmagavam e colavam uma boca na outra como se desde sempre os órgãos formassem uma peça única.

Durante muitas vazantes a jangada do pescador voltou a cortar as torrentes do mar. Ela fazia passeios na areia, conheceu um rapaz que deslizava sobre as águas em cima de uma prancha. Dias passaram. A maré levava e trazia o navegador. Com exceção de uma vez em que ele calculou mal a língua de uma onda. O sol decrescia corando o horizonte. Nessa hora ela experimentava o seu primeiro beijo.

Ao longe, a voz de um cantador:

Estava na beira da praia

vendo o que a maré fazia;

quando eu ia ela voltava

quando eu voltava ela ia”. 

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