Poemas (19) de Iara Maria Carvalho

Na Filizola

A mercearia de papai
era a mais sortida do bairro.

Não faltavam aviamentos,
fichas de orelhão,
chiclete Ploc, cajuína
– memórias embrulhadas
em papel de pão.

Os fiados da caderneta
não davam conta 
do vasto mundo diluído
nos olhos do meu pai.

Na Filizola dos ombros,
o peso silencioso dos nascidos
pra chorar.

Minha mãe

Minha mãe costura
na Singer
todo fim de
tarde,
elegante e
sagaz
na missão de
consertar o mundo.

Como toda mãe,
sabe botar brilho
nos olhos dos filhos,
e põe na caixa de botões
os sentimentos extraviados.

Seus olhos

 – de tardezinha –
são dois botões nublados.

Iara Maria Carvalho

(Do novo livro em lançamento: Meia Porção de Sol)

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