Vocação do Recife – para Jomard Muniz de Britto

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Recife 
Não a Veneza americana 
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais 
Não o Recife dos Mascates 
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois – 
Recife das revoluções libertárias 
Mas o Recife sem história nem literatura 
Recife sem mais nada 
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife


Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.

Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.

Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.

Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.

Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.

Bandeira
sutil na preterição sim.

Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.

Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.

Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.

Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.

Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.

Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.

Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.

Recife sim
que se revolta
vivo.

Faca clara
que ainda fala
não.

 

Frederico Barbosa

Poema do livro Na Lata – Poesia Reunida (1978-2013), a ser lançado dia 6 de junho de 2013.

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Este post foi publicado em Avulso em por .

Sobre Frederico Barbosa

Poeta, professor de literatura, organizador de oficinas de criação poética e performer de poes ouia, publicou oito livros de poesia como Nada Feito Nada (1993, Prêmio Jabuti), Brasibraseiro (2004, Prêmio Jabuti), com Antonio Risério e SigniCidade (2009), a coletânea Cinco Séculos de Poesia (2000) e a antologia de poesia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002), com Claudio Daniel. Foi curador da primeira biblioteca temática de poesia do país, a Alceu Amoroso Lima, em São Paulo. Foi, durante alguns anos, crítico literário dos jornais Jornal da Tarde e Folha de S. Paul. Foi Diretor da Casa das Rosas desde a sua reinauguração como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura em 2004 até 2016 e foi, entre 2008 e 2010, diretor executivo da Poiesis – Organização Social de Cultura, que administra a própria Casa das Rosas, o Museu da Língua Portuguesa, a Casa Guilherme de Almeida e as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Foi colunista da Rádio Estadão com o quadro Poesia Viva. Atualmente é professor do Colégio Equipe e Coordenador Cultural do Instituto Equipe - Cultura e Cidadania.

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