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ENCRUZAMENTO (poesia para tempos de sangue)

há ali uma esquina que arde
mesmo apagados os postes
mesmo sem eletricidade
mesmo sem nome marcante
mesmo sem uivos das carpideiras

as ruas se cruzam como rastilhos
os caminhos violentos se emendam

há tantas cruzes no chão da cidade
anjos atormentados rondam incansáveis
as lágrimas que não podem apagar

senta-se um menino como um espectro
ou espelho embaçado, um reflexo
despedaçado de gente
fome e espasmo

onde tudo se fez sufoco e sangue
essa solidão crivada arde
e ainda entrelaça caminhos
na alma

FÁBRICA

Antecipo o poema e permito que me imobilize.
A mente ensurdece de palavras que não uso.
O dia atrasa de sentido.
Estou imerso e esquecido.

O verso é meu tempo
tecido.

ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.

CANTO SECO (poesia para tempos de sangue)

hoje escreverei como quem volta do trabalho
sobremaneira, não direi nada
pois nunca se retorna do batente
nunca sairei do trem lotado
por isso o desgosto
o molho ansioso de suor
o desodorante enlatado
e as pessoas também

passam as estações
você pode estar tendo uma crise
passam as decepções
você pode sempre melhorar
passam as vidas inúteis
você pode estar dentro de um filme
se apenas você sumisse
esquecido além da velhice

estamos a trezentos dias sem acidentes
diz a placa na parede
estamos secos por dentro das mentes

sei que canto distante de casa
sei que o canto não resolve nada
sei que a fome às vezes passa
sei que a sopa na mesa é rala
sei que a voz é rouca e falha
sei que canso
sei que passo
sei que morro
sem abraço

VOLTAMOS À PROGRAMAÇÃO NORMAL (poesia para tempos de sangue)

O mundo está ardendo
Está quente, muito quente
A esperança crepita
A terra estala sua pele
Carbonizada —
Nenhum chão sob os pés descalços.

O país está ardendo
Mente-se muito, sabe-se menos
Quem dera um mestre
Fizesse passar essa dor
Desumana —
Ninguém acode descamisados

A cidade está ardendo
As armas e os barões já dispararam
As mães gritam suas crianças caídas
Em pedaços lado a lado ao inefável
Descaso —
Não há vida além deste mandato.

Voltamos à programação normal:
É impossível ser feliz
E informado.

A lojinha da CASA

Agora a CASA está na lojinha da Editora Urutau para todos os leitores encomendarem o seu exemplar. Passe lá e confira, além do meu livro o catálogo da editora abriga uma rica parcela da literatura brasileira contemporânea em edições belíssimas.

Você pode acessar e adquirir seu exemplar aqui.

Para fechar a coluna hoje, que não há o que dizer que o livro em si já não esteja dizendo por si, o poema homônimo.
Pode entrar, que a casa é sua. Não repare não, as paredes de vento, o telhado de versos (infinito). Achegue-se, que há espaço para todos.

CASA

Eu te recebo
E como nada temo que venha de ti
Mantenho abertos os braços
Os abraços restaram sozinhos
Desta cama eu nunca parti
Os momentos e a memória amanhecem
Com sono juvenil dos que não têm rumo
Os que pouco conhecem a névoa do corpo
Esquinas e quebradas com derradeiro fogo
Que cidades esquecidas arderam em plena vida
Nunca descansamos
A boca e o mar nunca afastamos da borda
E nossas próprias rochas arrefeceram
Na maré, no lençol e na despedida

Guardamos no peito os lobos
As noites sedentas e o frio imenso na pele
Mansa silenciam guerras passadas
E o desejo em cada pessoa –
Uma casa

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Crédito da foto: Débora Rendelli

Notícias lá de CASA

Veio domingo, veio a tarde e fui caminhando sozinho pro bar onde foi o meu open house. Quando você termina um livro chamado CASA o que acontece é um open house, não é? Caminhei pela zona portuária do Rio prestando atenção no entardecer, nas folhas, nos galhos que dobravam e faziam as árvores sussurrarem o testemunho dos anos. Sons apenas para os transeuntes atentos. Um instante eu era um passageiro no bonde elétrico que corta a região, no outro eu era um escritor perdido em pensamentos pelas calçadas em busca de um bar. Seria o clichê perfeito para a crônica se o resultado fosse um copo, um traçado, uma pinga, mas o bar entra como cenário do lançamento de um livro.

Meu livro nasceu no bar, eu estava no balcão, meu lugar preferido para beber e oferecer autógrafos modestos e abraços sinceros. Meu livro nasceu amparado por uma casa editorial movida por uma paixão pela literatura. Obrigado Editora Urutau. Recebi escritores que considero maiores do que eu, recebi alunos, recebi desconhecidos e amigos de infância, recebi meus melhores amigos e recebi meu amor. Abri as portas da CASA e todos entraram radiantes de sorrisos e lembranças, colorindo as paredes da CASA como um arco-íris perfeito em uma tarde amena de inverno. Eu ofereço as páginas e cada leitor suas cores. O mais fascinante de tudo isto é que não se trata de um registro lírico de um poeta, e sim um registro biográfico e jornalístico de como a tarde realmente foi. A CASA é um sopro na voz dos leitores.

Tenho paredes de vento
Telhado de versos
Assim construí minha CASA

Não são tempos fáceis para a arte. Toda a poesia, por definição tornou-se “poesia para tempos de sangue”. Cada verso é resistir com inteligência num país que abjura sua ciência e estrangula sua cultura. Resta a página; a cada página uma vida e esperança que um dia todos poderão ler sem fome no país. Resistir é do homem. Lembrar é da História. Gritar a verdade, já e poesia.

Deixarei aqui apenas algumas fotos. Aqueles que quiserem mais, eu postarei na minha página de autor naquela rede social, o link é esse:
https://www.facebook.com/robertodutrajr/

Evoeh!