Arquivo da tag: poesia

VOLTAMOS À PROGRAMAÇÃO NORMAL (poesia para tempos de sangue)

O mundo está ardendo
Está quente, muito quente
A esperança crepita
A terra estala sua pele
Carbonizada —
Nenhum chão sob os pés descalços.

O país está ardendo
Mente-se muito, sabe-se menos
Quem dera um mestre
Fizesse passar essa dor
Desumana —
Ninguém acode descamisados

A cidade está ardendo
As armas e os barões já dispararam
As mães gritam suas crianças caídas
Em pedaços lado a lado ao inefável
Descaso —
Não há vida além deste mandato.

Voltamos à programação normal:
É impossível ser feliz
E informado.

Anúncios

A lojinha da CASA

Agora a CASA está na lojinha da Editora Urutau para todos os leitores encomendarem o seu exemplar. Passe lá e confira, além do meu livro o catálogo da editora abriga uma rica parcela da literatura brasileira contemporânea em edições belíssimas.

Você pode acessar e adquirir seu exemplar aqui.

Para fechar a coluna hoje, que não há o que dizer que o livro em si já não esteja dizendo por si, o poema homônimo.
Pode entrar, que a casa é sua. Não repare não, as paredes de vento, o telhado de versos (infinito). Achegue-se, que há espaço para todos.

CASA

Eu te recebo
E como nada temo que venha de ti
Mantenho abertos os braços
Os abraços restaram sozinhos
Desta cama eu nunca parti
Os momentos e a memória amanhecem
Com sono juvenil dos que não têm rumo
Os que pouco conhecem a névoa do corpo
Esquinas e quebradas com derradeiro fogo
Que cidades esquecidas arderam em plena vida
Nunca descansamos
A boca e o mar nunca afastamos da borda
E nossas próprias rochas arrefeceram
Na maré, no lençol e na despedida

Guardamos no peito os lobos
As noites sedentas e o frio imenso na pele
Mansa silenciam guerras passadas
E o desejo em cada pessoa –
Uma casa

IMG_20190802_001929_473[1]

Crédito da foto: Débora Rendelli

Notícias lá de CASA

Veio domingo, veio a tarde e fui caminhando sozinho pro bar onde foi o meu open house. Quando você termina um livro chamado CASA o que acontece é um open house, não é? Caminhei pela zona portuária do Rio prestando atenção no entardecer, nas folhas, nos galhos que dobravam e faziam as árvores sussurrarem o testemunho dos anos. Sons apenas para os transeuntes atentos. Um instante eu era um passageiro no bonde elétrico que corta a região, no outro eu era um escritor perdido em pensamentos pelas calçadas em busca de um bar. Seria o clichê perfeito para a crônica se o resultado fosse um copo, um traçado, uma pinga, mas o bar entra como cenário do lançamento de um livro.

Meu livro nasceu no bar, eu estava no balcão, meu lugar preferido para beber e oferecer autógrafos modestos e abraços sinceros. Meu livro nasceu amparado por uma casa editorial movida por uma paixão pela literatura. Obrigado Editora Urutau. Recebi escritores que considero maiores do que eu, recebi alunos, recebi desconhecidos e amigos de infância, recebi meus melhores amigos e recebi meu amor. Abri as portas da CASA e todos entraram radiantes de sorrisos e lembranças, colorindo as paredes da CASA como um arco-íris perfeito em uma tarde amena de inverno. Eu ofereço as páginas e cada leitor suas cores. O mais fascinante de tudo isto é que não se trata de um registro lírico de um poeta, e sim um registro biográfico e jornalístico de como a tarde realmente foi. A CASA é um sopro na voz dos leitores.

Tenho paredes de vento
Telhado de versos
Assim construí minha CASA

Não são tempos fáceis para a arte. Toda a poesia, por definição tornou-se “poesia para tempos de sangue”. Cada verso é resistir com inteligência num país que abjura sua ciência e estrangula sua cultura. Resta a página; a cada página uma vida e esperança que um dia todos poderão ler sem fome no país. Resistir é do homem. Lembrar é da História. Gritar a verdade, já e poesia.

Deixarei aqui apenas algumas fotos. Aqueles que quiserem mais, eu postarei na minha página de autor naquela rede social, o link é esse:
https://www.facebook.com/robertodutrajr/

Evoeh!

ANGÚSTIA (poesia para tempos de sangue)

não há luta
também não há vagas
empregos tampouco
a estática, a deriva
a massa, a medida coletiva
a mídia, a medida preventiva
as mesas ainda flutuam
na inatividade da vida
a vergonha pública
os corredores acesos
as portas trancadas
os carros, os mesmos
os rastros nos acessos
as fraudes de peso
os funcionários fantasmas
o dinheiro, este sim, não ectoplasma
desmaterializa-se com as matas
os borra-botas e cabotinos
atados às suas pastas
o poder desfaz-se dos tontos
o poder está pronto mas não
cabe nas mãos de todos
sobre os ombros de todos
resta dentro de todas as casas
o rastilho
o contido
seria grito
ou seria fome?

não há luta
alguém escuta
no silêncio?

ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais