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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

O Marceneiro

marceneiro

Imagem: Pinterest.com

 

O marceneiro

 

acorda com gosto de farpa

todo santo dia

mesmo que à noite

só deite longe dos troncos

e da madeira inflamada,

a picada e o paladar duro

fazem encorpar os poros

e a saliva marrom.

 

Mesmo que de dia

trepe madeira a madeira

no assoalho das ideias

e do suor,

mesmo que aproxime texturas velozes

que desembocam em cor e aspereza

sabe que a superfície

polida

sempre foi sozinha

e inalcançável,

sabe também

que o pó

sempre foi ele

e o amor aos cupins.

 

Márcio Leitão

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Poema (5) de Lilian Sais

chuvas

IMagem: Pinterest.com

 

Cinza

te esmeraste bem nisso de viver.
acumulaste diplomas,
tens títulos. aprendeste até
a calar os desejos

– sobrevivência –

mas os dias descem
em ralos
de chumbo
e os silêncios agravados
denunciam

a fala do psiquiatra
que abana a cabeça
em negativa:

– para a sanidade
não há
remédio –

viver é
acumular as etapas
das chuvas.

 

Lilian Sais

Poema (1) de Francisco Eduardo Vieira

muletas

IMagem: Pinterest.com

 

tua poesia me lança às feras

seca tudo ao redor e não escapo

 

tua poesia é lixa em seda

cheiro de dois amigos

queda em abismo avesso

 

tua poesia me turva a voz

me soa favor de muleta nua

ou mesmo aleijo inato que pulveriza mágoa e morte diárias

 

tua poesia me chama ao crime

pinta lágrima ausente

desenha silêncios

transforma o caos em branco desmantelo

 

tua poesia é tristeza, é perene

ponto de partida a um jamais destino

 

tua poesia

me grita o que tu és neste espaço enlatado de desilusões

para que eu tente me entender

no eco

de tua poesia

 

Francisco Eduardo Vieira

Poema (2) de Alexandre Pilati

porvir

Imagem: Pinterest.com (by Lenzak)

 

[Por vir]

dizer ao senhor
que me serve
“por enquanto só quero isso”.

enquanto o carro fura um sinal
enquanto marginais trocam um pó
enquanto alguém escava o lixo
enquanto o ano desce a ladeira
enquanto o funeral estoura o céu
enquanto todos os corações vivos batem
enquanto a chuva apenas arrasta seu sexo.

dizer este grande desejo,
este “por enquanto só isso”,
é adiar a loucura. dar nome ao mal.
entreter o tempo com a pele passada.

por enquanto é só isso.
e o senhor vai embora.
enquanto esperamos vir o minuto
que não se fará novo.

fora do enquanto ou dentro
agindo semente dente de leite
a história que firme deslinda-se
diante de nós
enquanto dizemos por enquanto
é só isso: a revolta e sua dança;
fábrica de felicidade, do por vir.

 

Alexandre Pilati

Poema (1) de Alexandre Pilati

 

janela mangueira
Imagem: Pinterest.com

 

[Com sorte]

A cadeira de leitura dá para uma janela.
A janela dá para o lado mais quente da tarde.
O que é bom, pois fica-se a salvo do sono.
O olhos às vezes precisam descansar. A mente
respirar. É preciso erguer o corpo do lodo que as letras vivem,
tão longe da vida. Quase tão longe quanto eu, esta cadeira, esta janela.
Sorte nossa que há essa mangueira que dá mangas grandes.
Sorte que há uma bulha do outro lado da janela, distante,
ao lado de mim e de você, e quase nos limites da tarde.
Não há porque chorar pitangas, e pelo leite derramado também não.
Sorte que as mangas grandes atraem as maritacas vespertinas.
Em sua sinfonia de pau rachado, a razão encontra algum alento.
Certas coisas – a poesia, o órgão do sexo, os instintos e alguns lugares
onde de repente estamos – encontram
a ruína devagar. E, com sorte, desaparecem sem tragédia.

 

Alexandre Pilati

Poema (16) de Fiori Esaú Ferrari

seixo

Imagem: Pinterest.com

 

 

Através

 

O algodão, o seixo,

o batom, a faca.

 

A mesa que sofremos

o gole tardio do vinho,

a entressafra da luz cálida,

última instância

dos modelos que queriam dizer o mundo.

 

Já é impossível dizê-lo.

 

Minha vó me ensinou

a dobrar lençóis.

 

Eu me vesti de transparência

pra noite ler

meu corpo frágil,

masculino.

 

Fiori Esaú Ferrari