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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (14) de Fiori Esaú Ferrari

gaivota

 

 

Promulgação

 

No corpo da mensagem,

o ar está imantado de pétala.

 

Comove a reunião

de cores se soltando

das árvores do inverno.

 

O sol em lateral

enche meus olhos

de mar e gaivotas.

 

Pastores fluem nas nuvens

e eu queria ser leve.

 

Leio a Carta Maior

das Minhas Pequenas Coisas.

 

Foi promulgada a ternura.

 

Fiori Esaú Ferrari

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Poema (6) de Dom Jorge

ponte tombada
Imagem: Pinterest.com
DESCAMPADO
estou precisamente onde ninguém está

até
que o silêncio descanse seus panos
terei tempo

para memória, coisas de sangramento.

se de fato houvesse
um rio, contaria quantos homens se afogaram;

quantas árvores engordaram seus galhos
de tristeza.

mas estou precisamente onde ninguém
está

(imperceptível,

como
um balde de lata que desce à fonte)

*

e a poesia, se bem olhas, é uma ponte tombada
entre um peito e outro;

uma flor
dada à mãe depois da oração do carrasco.

do que serve
esta língua que não fala por todos?

estou
onde ninguém está;

e nem é triste como o campo emudece;

*

como canto como quem anoitece
até que a solidão consiga empurrar o meu coração
por uma greta.
Dom Jorge

Resenha (1) de Alberto Bresciani

Daqui

 

 

A urbe, seus ritmos e arritmias em Daqui, de Lilian Aquino.

Alberto Bresciani

Sempre me interessam as questões urbanas, os mistérios que transitam pelas metrópoles, todas as possibilidades e impossibilidades configuradas, a ameaça intensa da solidão – quando quase não há espaço sequer para se respirar –. Esta solidão a que aludia o gênio de Drummond em “A Bruxa”: “Nesta cidade do Rio / De dois milhões de habitantes / Estou sozinho no quarto / Estou sozinho na América”. Sabem também meus amigos que sinto uma atração fatal por São Paulo (no meu imaginário, a mais ostensiva e sedutora corporificação desse habitat humano que me desafia). Não preciso dizer mais para justificar o quanto gostei de Daqui, o segundo livro de Lilian Aquino, publicado, agora em 2017, pela Editora Patuá (do incansável Eduardo Lacerda). Penso que é esse o universo que envolve todos os poemas do livro.

Na primeira parte, FORA, a voz poética parte de sua base telúrica e, ao mesmo tempo em que revela a condição humana tão pouca (“Daqui deste chão onde piso / não vejo nada além de edifícios / nada mais que a ousadia humana / de pensar que se é maior que um baobá” – “Baobá”), sugere que se perceba o mais que se expande do menos (“Venha aqui / e tire a mão do bolso / O asfalto que cobre / esta estrada / é a coisa mais certa / a cumprir” –“Juízo”). Os versos de Lilian são um chamado para o real, racionalmente lírico chamado. Versos capazes de provocar o imediato assombro. Sem tirar os pés do solo, a poeta retrata a contemporaneidade. E percorre o tempo, as memórias, radiografa o anonimato que nos põe em fila cadenciada e nos marca a fogo na urbe (“Uma cidade vista daqui de cima / três andares / onde podemos / ser o que somos /– corpos” – “Uma janela sobre a cidade”).

De um lado, há que se conhecer a dureza das rochas:

Perduração

                     de um poema de Donizete Galvão

O peso de um homem

é comparável

ao lugar onde pisa

ao modo como apoia os pés

um depois do outro

neste chão de pedregulhos

que só existe

na superfície

viva e faminta

dos dias.

 

E quando a superfície

acaba por livrar-lhe

da obrigação de sustentar

o próprio corpo

será sua a palavra

que desestabiliza

 

e não só a pedra dura.

 

De outro, como prenuncia a epígrafe de Leonard Cohen, é preciso que se descubra, com as armas restantes, com a aceitação última, a fenda, a fenda que em tudo há e que deixa a luz possível  entrar:

 

Por fora

 

eu inverno

agora

e aqui no meio

da memória e sei que vai esfriar

o tempo

que passa à minha porta

eu sei que

vai virar o tempo

foi o que aprendi

: que se eu inverno

não mais invejo

outra estação

 

Certas arritmias do cotidiano atravessam os poemas da segunda parte: DENTRO. Os ferimentos de todos os dias trazem a dor que as cicatrizes poderão ou não curar, perplexidades no dobrar de esquinas  (“dedos cruzam / fronteiras / esfomeados / unham a pele / fendem um corpo / (então) / abandonado / à beira do precipício // e não há quem seja / capaz de silenciar / seu ruído”  – “Tudo aquilo que causa arrepio”). Lilian Aquino não aceita a facilidade das palavras explicitamente poéticas e nem se esconde sob a aspereza de enigmas ou formulações clássicas. Sem perder o controle de sua poesia, a linguagem é elegante e suficiente, como cabe aos poetas de hoje. Em Daqui, os poemas são construídos sob o coloquial, mas com artifícios capazes de transformar ar e areia em explosivos. Um livro que, com harmonia, oferece poesia de qualidade e convida à entrega: “as rasuras bem ali / aos meus pés / É hoje: / abandone-se” (“Nesses tempos”).

 

 

DAQUI

Lilian Aquino

Editora Patuá, 2017

127 páginas

Poema (3) de Mariana Basílio

portinari 1

Denise com o carneiro branco, de Portinari – 1961. Acervo digital ©Projeto Portinari

 

 

A GAME OF CHESS

 

A cadeira de balanço em que se sentava,
Como um trono polido luzindo na palha,
As linhas grossas contornavam uma liga
De vinhas frutificadas por antigos padrões
A partir da dobra das chamas da Infância.
Refletindo o presente sobre a mesa de
Altos candelabros intocáveis por seus dedos,
O cetim de sua roupa era manchado de um
Suor que luzia ainda mais que o assento
Em que se contava as histórias proibidas
Da queimadura verde e laranja do maxilar.
Afugentada, no pó líquido do teto gotejando
A criança avistava no alto espelho as orelhas
Como se uma janela se abrisse antes do ar.
Sob o pincel, sob seu cabelo, sob os remendos
Da toalha amarelada das vindouras refeições,
Expansões em pontos de chuva, passos movidos
Da escada a chaminé que no alto avistava cometas.

 

“Que barulho é esse?”
“O silêncio marulhando seu entorno”.
O vento sob a porta rangendo,

 

”O que o vento está fazendo à flor?”
As pérolas inundavam seus cabelos.

 

A voz de longe procurava pela sua presença.
“Minha mãe!” Lamentava, contemplando sua
solidão. Abençoava o trabalho das formigas abaixo.
Pressionando os joelhos no tabuleiro manchado
Comia amoras, banindo esperas. ”Minha mãe!”.
Essas memórias que eram sua centopeia.

 

A cadeira de balanço em que se saltava o
Próprio corpo, pequeno país, luzia nas sandálias,
As linhas finas de seu sorriso de diastema,
A partir da dobra do jardim as gramas a
Contemplavam no beco de suas palavras
”Eu quero o que não se nomina!” Sentia.

 

O vento abafava seus pulos de gato,
“O que o tempo está fazendo agora?”

 

O sol parecia saudá-la. Descendo vagaroso
Por entre os túneis e as sacadas das casas.
O pai se aproxima, a puxando para seu colo,
Para o peito que lhe recordava uma floresta
Particular: “O que aprendeu hoje?”

 

”Me solta!” Dizia. Correndo, correndo contra
A força dos minutos que insistiam em anoitecer
Sua brincadeira de desenhar as nuvens
Por cima do telhado. Por cima da palha
Machucou o dedo anelar, beijava o próprio
Sangue como o náufrago beija o mar.

 

SE APRESSE! VENHA CÁ!
“Se você não quer, não vá!”.
Ela pensavam sozinha e contente.
Teimosa como ervas daninhas ressoando a noite.
Se esparramando no chão e apertando as
Costas da cachorra que diziam para ela ser da cor
Champagne. ”Champainhi? O que é isso?!”
Balançavam as duas, latindo e sorrindo,
“Ah! Veja, o seu pelo é algodão”.
Acariciando a vida nos olhos de Priscila.

 

“Boa noite, senhores e senhoras, boa noite-noite!”
Se fechando como a selva entre os trilhos deixados
Para se entender os caminhos outras vezes mais,
A criança adentrava a casa e se aproximava de
Sua cama, uma enorme passagem de fábulas
Iluminava o seu sono. O sonho era a criança.
A cadeira de balanço que mais uma vez sentava.

 

Mariana Basílio

Poema (8) de André Luiz Pinto

favela

Imagem: Pinterest.com

 

VIII

 

A miséria começa em casa,

com seus filhos, a lamúria cega mas certa

de seu pai, o tiroteio marca os valentes

o vento caudaloso nos adoça, é podre, talvez

áspero, saber que alguém veio aqui;

bato palmas, você não sabe o que escreve,

pensa que a imaginação decifra a dor

mas ela não decifra; você, que nem devia

ter pensado, agora é assim:

poetas sobem o morro, fazem suas pesquisas

acham que a vida rude lhes inspira

como nos cardápios escritos com giz,

ou pombos que mastigam num despacho

um pedaço de galinha (tudo é canibal

faz parte da cultura, é matinal

sangrar na latrina, enquanto

do alto dos edifícios, ao som

do baile quente, ainda se decide

ao pé de uma fogueira

o preço de uma vida).

 

André Luiz Pinto