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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (4) de Alexandre Pilati

palma

Imagem: pinterest.com

 

[Palma]

 

o que está tão longe daqui e

que dentro está espaço real

incluso o que aqui tenho e esqueço

 

não serve na largura humana

da mão pequena queimada do sol

covarde que fiz pequena imprática

 

entre dedos êxito algum entra grande

 

a não ser que seja feito grão seco

míope rígido doído selvagem

ponto apenas olho cego e resto

 

o mundo não se dá não desce

goela abaixo não cabe no molde

do modelo humano de um corpo

 

ao ser mindinho é que dá conta

do tudo tecido do substrato econômico

que mora tão longe no arco de uma órbita

 

o poema, flor feita, abraça a estratosfera

ensina no silêncio o que ela beija do sistema

 

Alexandre Pilati

Poema (3) de Alexandre Pilati

 

pombos

Imagem: https://www.deviantart.com/

 

[Bate outra vez]

 

ei pombos de aço

de pedra que habitam

elétricos dentro do meu peito

 

aquietem-se acalmem-se

esta gaiola de carne e pejo

prende-os e todavia os ama

 

juntos vamos ao fim do caminho:

é certo é justo eu quero e eu preciso –

sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

 

mas não vistam tantas patas de cavalo

não cisquem não sapateiem tanto

assim as cãs do meu coração

 

prestem atenção neste corpo

de pinho que vem agora ao meu socorro

sintam este abraço de calma

 

em que me segura o violão

com que disfarço o desespero

em que me abrigo do tempo

 

Alexandre Pilati

 

Poema de Daniela Delias

 

noite

Imagem: Pinterest.com

 

por vezes
amanhecíamos indiferentes
à ventania da outra noite

e quem visse de longe
grades abertas, entre bocejos
o abrir e fechar
de nossas extraordinárias mandíbulas
sequer desconfiaria:

há dias que duram mais do que deveriam

mas ainda assim
quando nos viam ali, de longe
como que engolindo o mundo
as feras presumiam alguma fúria

Daniela Delias

Em memória, Poema de Marcus Vinicius Quiroga

lampejo

Imagem: Pinterest.com

 

LAMPEJO, RELÂMPAGOS, INCÊNDIOS

 

Aprendi que a luz justa

é a que faz voluntários

     arregaçarem as mangas

           e sujarem as mãos

como, se juntos, fossem filamentos

     da mesma lâmpada

Também aprendi na luz baixa

             de uma São Luís pobre que a luz

      pode ser mais alta

como um susto na escuridão,

como um sobressalto

Há luzes várias nas coisas e nos homens

e elas nos escondem

              de nós, quando cegas

sem a  expectativa

          de uma vida diferente

ou diferentes formas de convívio

                               de escrita

                               de política

Há luzes que trazemos desde cedo

e exibimos no rosto

e por elas somos reconhecidos

               como um número de identidade

               ou uma mancha na pele

               ou mesmo uma cicatriz

Aprendi em dias distantes que o escuro

adere ao corpo

                    às vezes até a morte

e as horas se parecem

com outras sem ruptura

Então é preciso que luzes

sejam semeadas

         como um grão

                             e aguado seu cultivo

para que de repente

haja em mim

na família, no país

                uma espécie de incêndio

cujo fogo se alastre

nas mãos de iniciativa

               para que a vida seja feita

às claras

e se revele por inteira

sempre que uma luz dispare,

vinda talvez da infância,

                      o lampejo do desejo

ou o eterno momento-relâmpago

 

Marcus Vinicius Quiroga

Poema de Sérgio de Castro Pinto

BOI

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as frações do boi

 

a) boi,

pasto, vastidão,

hoje é botão.

 

casa,

vertical e japonesa

espaço enforcado

na fração do boi.

 

boi,

círculo de tristeza,

imagem que não foi.

 

b) o boi

nos chifres pressente:

armações futuras,

construções de pentes,

 

o pente

(mudo e capilar)

na cabeça pasta

sem ruminar.

 

Sérgio de Castro Pinto

(Livro Gestos Lúcidos)

 

 

Poema (3) de Alexandre Pilati

dinheiro

Imagem: Pinterest.com

 

Porto seguro contra um futuro incerto

 

O dinheiro nunca dorme

Seu ser sem miolo

Estira os olhos bem abertos

Sobre a carne dos homens

Sobre o espírito das coisas

 

Nunca dorme o dinheiro

Alerta a sua alma vaga

Poética sem palavras

Escava os cantos do mundo

Com mil membros eretos

 

O dinheiro nunca dorme

Bate o seu felino coração

Seu léxico de platitudes

Reverbera ódio e fascínio

Seu vampiresco beijo persuade

 

Nunca dorme o dinheiro

Massa bruta sem sombra

Seus dentes de divino metal

Roem e massacram o tecido da vida

Viram as vísceras das nuvens e do devir

 

Alexandre Pilati 

(Autofonia, Ed. Penalux)

Poemas de Leandro Rodrigues

capa Leandro rodrigues

Imagem enviada pelo autor do livro

 

SHAMISEN (AS 3 CORDAS DO ABISMO)

 

três cordas do instrumento

estiradas ao vento

 

um corpo de sol

chaminés de andaluzia

meias estendidas

na primavera

 

bocejos, lírios e alfazemas

o canto avesso

das falsas borboletas

 

três horas de um dia cinza

motor de cigarras

na elegia para o outono

 

a senha do relógio d’água

 

adestrados sapos

no azul das pedras

elipses nos olhos dos peixes

 

cordilheiras de morte

na lâmina caída

o sangue é o rio

 

memórias amputadas

adormecidas nas asas quebradas

do inseto raro em extinção.

 

 

NATAL NO MORRO

de sobressalto

a mãe olha para o filho

– são fogos de artifício!

meninos sonham acordados

castelos, dragões, bolas, cometas

 

e um país imaginário

sem balas perdidas.

 

MÚSICA

 

               Faça um país de poesia

               aonde leve esse navio

               vento de primavera.

 

Nempuku Sato

 

Trocou as cordas velhas do instrumento

por outras mais novas

 

Depois as esticou

(as mesmas velhas cordas) lá fora

de um ao outro lado

 

– um singelo varal…

 

Agora o vento é que as toca.

 

Leandro Rodrigues

Poema de Helena Ortiz

abstract

Imagem: Pinterest.com ( Swoon Worthy)

 

estuda-se a história

a partir de quem a conta

ela é feita (quem ousa duvidar do ilibado saber?)

por homens pertncentes a confrarias

das acadêmicas, políticas, religiosas e sexuais

à dos agonizantes sociais

 

manter o domínio sobre todos

e relaxar nas saunas dos césares

entre césares – eis o homem branco

e suas rudes interferências

atemporais

 

Helena Ortiz

Poema (6) de Jennifer Trajano

relogio jennifer

Imagem: Pinterest.com

 

relógio

 

grudado ao pulso degusta,

no correr das batidas, o gosto dos sentidos

e nossos olhos, de armaduras semifechadas,

relutam contra o desfoque do tempo, que anuncia ao longe

terra à vista em alto mar

a ilha da garganta começa a arranhar a voz

porque o tigre grita na jaula dos tímpanos

dificultando distinguir a espécie dos pássaros

forçando a vista a acender o escuro

de lábios não tão alheios assim

os fios roxos, desrochosos, vão rachando o fêmur

até que os músculos receiem serem ceados pela boca da superfície

 

com medo do vulcão, a gravidade empurra as costas:

põe o nariz a contemplar o chão enquanto as mãos

desabadas da memória procuram uma terceira perna

de natureza morta e o ponteiro circula no braço

o manto, vestido pelo vento,

passa e desbota os pelos

aprofundando as rachaduras da casa corpo onde se habita

não em vão, os cupins da poesia entram sem serem

convidados e inundam todos os cômodos ouvindo

que a carcaça não é uma parede

mas sim um abismo feito de galáxia

ou de mar

 

Jennifer Trajano

Poema do livro Latíbulos, Editora Escaleras

 

Fernando Pessoa no final de ano da zonadapalavra

Fernando Pessoa

Imagem: Pinterest.com

 

Colhe o dia porque és ele”!

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa