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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poemas (2) Virginia Finzetto

nua e livros

Imagem: Pinterest.com (Yuri Krotov)

 

DEVASSA

ignorava conselhos,

aceitava qualquer bagulho

dirigindo seus olhos

para a complacência que

seu fígado não processava,

porque o perfeito e o mais que perfeito

só existiam em um tempo verbal

que o amor desse coração desregrado,

na real, nem sempre decorava

amava e sofria, sem ponto e travessão,

engatava um verso em outro,

e foi assim até a exaustão

 

……………………………………………………

 

 

DES (A)TINO

deu você e eu

e essa demora

o meu agora

não casou com o seu

 

Virginia Finzetto

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Poema (93) de Tito Leite

Stravinsky

Imagem: Pinterest.com (Gjon Mili)

 

STRAVINSKY

 

A vida, ainda que hercúlea,

é estreita: não há iluminuras

sem o extermínio de uma estrela.

 

Em cada ode, o poeta

canta uma morte:

como quem recria

uma semente de alegria

no recreio dos segregados.

 

Rosa primavera sacrificada.

Que voltem os bárbaros!

Queremos o insonhável:

a sagração do juízo inicial.

 

Tito Leite

Poema de Herberto Helder

Bicicleta mae

Imagem: Pinterest.com

 

A bicicleta pela lua dentro – mãe, mãe –
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha –
mãe, mãe – as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro – mãe – com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos – filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto – meu filho – os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome –
minha mãe, minha máquina –
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra – mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.

Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era novembro.

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe – se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.

Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.

Herberto Helder, in ‘Poemas Completos’

Poema (20) de Fiori Esaú Ferrari

penumbra

IMagem: Pinterest.com (Isa Marcelli)

 

Profecia

 

Eu esqueço de mim

côvados,

paisagens,

imensas pradarias,

intermináveis marcações

de terras

compondo esse país

pálido e imerso

das minhas horas.

 

Eu atingi a ternura

e descobri que seu toque

é cruel porque morre ao término do sol

e no fim da tarde não temos

o resgate de um ato brando,

de um gesto suave,

de um carinho antigo.

 

Reparto e reparo

arestas pra meia luz.

 

São meus maços de pétalas

que na penumbra não terão

cores.

Terão geometria e sua agonia

perfeita.

 

Cada ângulo, cada dor,

aquela quina,

um amador.

 

Eu sou dissoluto.

Estou em faces de caleidoscópio.

Esqueço de mim a unidade.

 

Eu feri passarinhos

pra inventar meu futuro.

 

Vi muitos e tristes.

 

Fiori Esaú Ferrari

Poema (3) de Daniel Francoy

cafe coador

Imagem: Pinterest.com

 

COZINHA, MANHÃ DE DOMINGO

 

A cozinha limpa, sem sinais

do jantar de ontem, aprisionada

a um silêncio que também é imobilidade.

 

De través pela persiana, o sol

aguça o brilho metálico das panelas

– gestação de uma enxaqueca.

 

Cintila a água, acesa e translúcida.

 

O café, passando pelo coador,

na contraluz é transparência castanha.

Se choveu, as sombras estão pesadas

de  nuvens. Se faz sol, o aroma do café

soma-se ao da terra queimada

e o sol tem o sabor de alecrim.

 

Daniel Francoy

Poema (18) de Iara Carvalho

libia

Imagem: Pinterest.com (Fotografía de Miguel Ángel Sánchez publicada en EL PAÍS. Shariff Mukhtar, Tobruk, Libia)

 

Este poema vale mais que
o preto da líbia.
O pão da manhã
vale mais: o pó do café,
a ressaca da tarde,
meus sonhos.
Valem muito mais que
o preto da líbia,
o meu sono, o jeito devagar
de pronunciar a palavra
Preto.
Um filme antigo, a sorte dos
meninos no futebol,
tudo vale mais que
o preto da líbia,
tudo,
tudo que não é preto vale
mais que
o preto da líbia.
Mesmo a lembrança
de um dia ter sido preta

(o que?)

Preta

– vale mais.

Corre óleo sobre a pele
e os dentes tão brancos anunciam
a sexta do abate.

Uma sexta-feira vale mais que
o preto da líbia.

Que barganha,
o preto da líbia
de pés
pro alto.

O mundo está ao
contrário, todo mundo vê,
e é tão
bonito um corpo brilhando
a óleo e lágrimas.

É tão bonito o nosso silêncio.

 

Iara Carvalho