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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Fernando Pessoa no final de ano da zonadapalavra

Fernando Pessoa

Imagem: Pinterest.com

 

Colhe o dia porque és ele”!

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Poema (17) de Iara Maria Carvalho

arvore
Imagem: Pinterest.com
São as pequenas alegrias
e as grandes quedas
que fazem a árvore frondosa.
É a vida e seu irônico jeito
de nivelar por baixo
a felicidade.
Só pra gente se surpreender
e descobrir que vencer é uma
coisa pra todo mundo.
Abrir os olhos pras lonjuras,
plantar o mel nos risos e
sonhar o sonho dos pequenos.
Que, de pouco em pouco,
a árvore cresce milenar,
e, se tomba,
é pra nascer de novo.
Iara Maria Carvalho

ILHAS

ilhas

Imagem: Pinterst.com (Dyanne Williams)

 

 

Enquanto os gestos

engolem e travam o tempo

em mim

os restos de pão

continuam a desabar

do prato à pia

do ralo ao vão dos mundos

e dos canos

redes que interligam

toda a indiferença

 

Enquanto a noite

é única e individual

em mim

o coro dos carros

roem o pó e o piche

intermitentemente

 

ninguém mais enxerga

ou se cobre na mesma noite

que eu

só o meu casco é que interessa

o meu sorriso

só é riso e dor dentro de mim

nem o espelho cuida da minha

pele ou da minha tristeza

 

só há cada ilha que somos

invisíveis pro mar

pros navios

pros marujos

pras outras ilhas

e tudo que se passa dentro

do corpo e da carne ilhados

é só solidão e, ás vezes,

doçura.

 

Márcio Leitão

 

 

AVC

avc

Imagem: Pinterest.com

 

Gota a gota

o sangue sem vida

escorre encurvado

no labirinto ofegante

de uma luta sem preces

em que todos os cantos

são peixes esguios

e sem rumo

 

Células ludibriadas se perdem

devaneiam e morrem

no abismo sem lua

em que a esperança

depende de um sol

interno e silencioso

que ilumina onde ninguém

enxerga, que ilumina

onde os comboios

são rios e gritos

de ajuda

sem tom

sem acordes

 

No paradoxo,

o que vem de fora

é só voz, é só música

e súplica

moldadas em afeto

como teia tonta

esparramada

no ar quente e triste

das circunvoluções

que não sabem se partem

ou se renovam

a eletricidade

daquele único

olhar que se espera.

 

Márcio Leitão

 

 

Uma noite triste

noite só

Imagem: pinterest.com

 

Ruína que me acolhe

com unhas grandes

 

Concreto que embaça

o que seria sorriso e solidão

de uma noite

que só tenho eu

e uma dor sem costura

que é toda minha

indivisível

 

Perto do olhar

só tenho a outra solidão

materna

que dorme quieta

com estilhaços

em coro a lhe tornear

o sono

o vazio sem dono

 

Unidos pelo amor

ungido

nos anos quietos

sejam próximos

ou perpétuos

construção de afeto

que agora se contrai

e se rasga simultanemante

como se o mundo fosse

só esse pedaço de dor

caído nos olhos

e com cheiro de hospital.

 

Márcio Leitão

 

 

Poemas de Expedito Ferraz Jr.

folha morrendo

Imagem: Pinterest.com

 

NOTURNO

 

(

Desfolham-se os olhos.

Pousa no branco

o improvável outono.

)

Descansa,

logo virá o sono.

)

 

 

 

 

ETERNIDADE

 

De repente,

nada

acontece.

 

E depois,

é como se nada

tivesse acontecido.

 

 

 

DESCONCERTO

 

Um quarteto

de cordas.

 

Um arranjo

de flores.

 

Um solo

infinito.

 

 

VISTA AÉREA

 

a certa altura,

a vista de um cemitério

se afigura

como a visão

de uma única

sepultura

 

a certa altura,

já a toda uma cidade

se mistura

essa impressão,

e a arquitetura

de alamedas,

letreiros e ladrilhos

faz ver

canteiros,

lápides,

jazigos.

 

a certa altura,

impossível distinguir

entre ruína e criação;

entre o milagre

da civilização

e o terremoto:

tudo quer nos parecer

destroços.

 

a certa altura,

resta aprender

a carregar os mortos

na vala comum

dos nossos próprios

ossos.

 

Expedito Ferraz Jr.