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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (2) de Casé Lontra Marques

cipoal

Imagem: Pinterest.com (Holly Irwin)

 

Cipoal

 

E se nunca houver cura?

Pelo menos

por enquanto, desconheço

dádiva

sem dano; mas escolho, ainda

assim, a entrega — devotando

ao estrago

vínculos estritamente

vastos.

Veias atravessam

(enoveladas)

as virilhas — cipoal macio:

que

escalo, que

escavo.

 

Casé Lontra Marques

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Poemas do livro novo de Tito Leite

capa Tito Leite

Imagem: Capa do livro Aurora de Cedro de Tito Leite

 

TRANSITÓRIO

 

1

 

No imo

da Avenida

Paulista

o sulfato

da solidão.

 

Uma quimera

nos pega

pelas mãos.

 

Corremos

loucos

em busca

de uma coroa

de louros.

 

Pódio

deteriorado

e sem

medalha

de ouro.

 

Ausência

de eternidade

nos olhos

curtos de cada

passante.

 

2

 

Ensaiando

a própria fuga

da cidade,

 

durando

em fugacidade.

 

Não é a lua

que sangra.

São os pés

dos retirantes.

 

 

 

 

MISERERE NOBIS

 

 

No gueto

chuva de anjos

caídos.

 

O telejornal toca

o contrabaixo

do apocalipse.

 

Cigarras bailam

na descontente

garganta do caos.

 

Poetas procuram

o melhor

atentado.

 

Matar

as harpias

que molestam

a alma.

 

A resistência

é um gato branco

numa noite

de blecaute.

 

Muitos pastores

um só holocausto:

Deus nos salve

de Deus.

 

Tito Leite

Poema (25) de Nilcéa Kremer

 

ghost

Imagem: Pinterest.com (Samet Adlane)

 

te amo de longe

como que a mil léguas submarinas

como se aqui teu sorriso

como se eu deserto e você oásis

te amo de longe

como um monge recluso a sua divindade

te amo de longe

como aragem

água que queima

brisa que lambe o rosto

 

talvez não sinta como eu

ainda assim

te vejo falando

um fantasma bonito

convivo melhor com isso

com o fantasma

gente de carne e osso me põe medo

 

Nilcéia Kremer

Poema de Emerson Sarmento

Apoteose (i)mortal

Na pouca luz sublima-se teu corpo
Nu, trêmulo, um mar revolto
Passo-lhe a língua na perfeita
Simetria dos seios, na barriga,
Na fonte da vulva viva, como quem
Tem sede há séculos.
Mordo-lhe, penetro-lhe desbravando
Paixão, ares, se há vida após gozo.
Teus olhos procuram enxergar-me
Mas sou ainda as sensações brutais
Que te cegam, te enlouquecem.
Morremos por segundos
E os olhos se encontram,
Ali renascemos para depois
de uns instantes
Morrermos novamente.

 

Emerson Sarmento

Poema do novo livro de Alberto Bresciani

Alberto livro capa

Lançamento em Breve: 3 de maio em SP

 

INSTINTO

 

Sim, tudo insiste e continua,

as coisas são as mesmas

as palavras, iguais,

porque o mundo dos homens

não sabe a metamorfose,

mesmo que, por dentro,

tudo ressoe, o eco vá e volte

pela cicatriz aberta na boca

 

Sempre estão atrás de nós,

o animal invisível está por emboscar,

a pausa de terror, o ritual de ácido

estirando os músculos,

alimentando essa coisa

que sobrevoa e se eclipsa

e volta, membro amputado

 

Os panos negros sobre o corpo,

folhas secas sobre os cabelos,

e ainda assim nos arrastamos à luz,

com medo, com medo:

mais dois metros

e as tartarugas se salvarão

O mar bem ao lado.

 

Alberto Bresciani