Arquivo do autor:profleitao

Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (3) de Alexandre Pilati

dinheiro

Imagem: Pinterest.com

 

Porto seguro contra um futuro incerto

 

O dinheiro nunca dorme

Seu ser sem miolo

Estira os olhos bem abertos

Sobre a carne dos homens

Sobre o espírito das coisas

 

Nunca dorme o dinheiro

Alerta a sua alma vaga

Poética sem palavras

Escava os cantos do mundo

Com mil membros eretos

 

O dinheiro nunca dorme

Bate o seu felino coração

Seu léxico de platitudes

Reverbera ódio e fascínio

Seu vampiresco beijo persuade

 

Nunca dorme o dinheiro

Massa bruta sem sombra

Seus dentes de divino metal

Roem e massacram o tecido da vida

Viram as vísceras das nuvens e do devir

 

Alexandre Pilati 

(Autofonia, Ed. Penalux)

Poemas de Leandro Rodrigues

capa Leandro rodrigues

Imagem enviada pelo autor do livro

 

SHAMISEN (AS 3 CORDAS DO ABISMO)

 

três cordas do instrumento

estiradas ao vento

 

um corpo de sol

chaminés de andaluzia

meias estendidas

na primavera

 

bocejos, lírios e alfazemas

o canto avesso

das falsas borboletas

 

três horas de um dia cinza

motor de cigarras

na elegia para o outono

 

a senha do relógio d’água

 

adestrados sapos

no azul das pedras

elipses nos olhos dos peixes

 

cordilheiras de morte

na lâmina caída

o sangue é o rio

 

memórias amputadas

adormecidas nas asas quebradas

do inseto raro em extinção.

 

 

NATAL NO MORRO

de sobressalto

a mãe olha para o filho

– são fogos de artifício!

meninos sonham acordados

castelos, dragões, bolas, cometas

 

e um país imaginário

sem balas perdidas.

 

MÚSICA

 

               Faça um país de poesia

               aonde leve esse navio

               vento de primavera.

 

Nempuku Sato

 

Trocou as cordas velhas do instrumento

por outras mais novas

 

Depois as esticou

(as mesmas velhas cordas) lá fora

de um ao outro lado

 

– um singelo varal…

 

Agora o vento é que as toca.

 

Leandro Rodrigues

Poema de Helena Ortiz

abstract

Imagem: Pinterest.com ( Swoon Worthy)

 

estuda-se a história

a partir de quem a conta

ela é feita (quem ousa duvidar do ilibado saber?)

por homens pertncentes a confrarias

das acadêmicas, políticas, religiosas e sexuais

à dos agonizantes sociais

 

manter o domínio sobre todos

e relaxar nas saunas dos césares

entre césares – eis o homem branco

e suas rudes interferências

atemporais

 

Helena Ortiz

Poema (6) de Jennifer Trajano

relogio jennifer

Imagem: Pinterest.com

 

relógio

 

grudado ao pulso degusta,

no correr das batidas, o gosto dos sentidos

e nossos olhos, de armaduras semifechadas,

relutam contra o desfoque do tempo, que anuncia ao longe

terra à vista em alto mar

a ilha da garganta começa a arranhar a voz

porque o tigre grita na jaula dos tímpanos

dificultando distinguir a espécie dos pássaros

forçando a vista a acender o escuro

de lábios não tão alheios assim

os fios roxos, desrochosos, vão rachando o fêmur

até que os músculos receiem serem ceados pela boca da superfície

 

com medo do vulcão, a gravidade empurra as costas:

põe o nariz a contemplar o chão enquanto as mãos

desabadas da memória procuram uma terceira perna

de natureza morta e o ponteiro circula no braço

o manto, vestido pelo vento,

passa e desbota os pelos

aprofundando as rachaduras da casa corpo onde se habita

não em vão, os cupins da poesia entram sem serem

convidados e inundam todos os cômodos ouvindo

que a carcaça não é uma parede

mas sim um abismo feito de galáxia

ou de mar

 

Jennifer Trajano

Poema do livro Latíbulos, Editora Escaleras

 

Fernando Pessoa no final de ano da zonadapalavra

Fernando Pessoa

Imagem: Pinterest.com

 

Colhe o dia porque és ele”!

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Poema (17) de Iara Maria Carvalho

arvore
Imagem: Pinterest.com
São as pequenas alegrias
e as grandes quedas
que fazem a árvore frondosa.
É a vida e seu irônico jeito
de nivelar por baixo
a felicidade.
Só pra gente se surpreender
e descobrir que vencer é uma
coisa pra todo mundo.
Abrir os olhos pras lonjuras,
plantar o mel nos risos e
sonhar o sonho dos pequenos.
Que, de pouco em pouco,
a árvore cresce milenar,
e, se tomba,
é pra nascer de novo.
Iara Maria Carvalho

ILHAS

ilhas

Imagem: Pinterst.com (Dyanne Williams)

 

 

Enquanto os gestos

engolem e travam o tempo

em mim

os restos de pão

continuam a desabar

do prato à pia

do ralo ao vão dos mundos

e dos canos

redes que interligam

toda a indiferença

 

Enquanto a noite

é única e individual

em mim

o coro dos carros

roem o pó e o piche

intermitentemente

 

ninguém mais enxerga

ou se cobre na mesma noite

que eu

só o meu casco é que interessa

o meu sorriso

só é riso e dor dentro de mim

nem o espelho cuida da minha

pele ou da minha tristeza

 

só há cada ilha que somos

invisíveis pro mar

pros navios

pros marujos

pras outras ilhas

e tudo que se passa dentro

do corpo e da carne ilhados

é só solidão e, ás vezes,

doçura.

 

Márcio Leitão