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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (2) de Sérgio Castro Pinto

borges e o gato.jpg

Imagem: Pinterest (Jorge Luis Borges e o gato)

 

O GATO E O POETA

 

O gato faz do poeta

gato e sapato:

foge do poema

para o telhado.

 

paciente, o poeta

atrai o gato

com o novelo

dos vocábulos:

 

puxa-o pelo rabo

bem devagarzinho…

e o que era rabo

vira focinho.

 

o poeta, satisfeito,

dá algumas voltas

numa chave de ouro

e o aprisiona

dentro do soneto.

 

Mas o astuto gato

não lhe ensinou

o pulo do gato

e de novo foge

do poema pro telhado.

 

pena que, nessa fuga,

os faróis de um fusca

acendem e ofuscam

os olhos do gato

que foscos se apagam

na escuridão do asfalto.

 

ah, insensato gato,

não estarias melhor

prisioneiro do poema

do que sem as sete vidas

que fogem, uma a uma,

no leito da avenida?

 

é quando, com um fio de miado

–  mas sem perder o da meada -,

o gato lavra o seu protesto:

“- valeu a pena, poeta,

fazer do seu poema

o meu cemitério?

por que não, poeta,

um poema-telhado,

cheio de vida e de gatos?”

 

e nada mais disse nem lhe foi perguntado.

 

Sérgio Castro Pinto

(In: Folha Corrida)

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Poema (99) de Tito Leite

carro

Imagem: Pinterest.com

 

SHOWROOM

 

O shopping era sofisticado:

fedia

a showroom de automóvel.

 

Água suja descida da escória.

Um homem

apodrecia em inverno.

 

Não nadava na direção

contrária:

buscava um lugar no inferno.

 

Tito Leite

Poema de Mariana Basílio em dia de LUTO pelo Museu Nacional

Luzia

Imagem de LUZIA: WWW.metropoles.com

 

O mais antigo fóssil brasileiro era
Luzia, com doze mil anos.

Luzia, que ainda parece morrer.

O museu ardendo por Luzia.
Carregando no oco do fogo
Múmias do Egito,
Um gigante meteorito,
Fósseis de dinossauros,
Uma coleção de História Natural.

Duzentos anos de história
Condensados entre os
Inacabados corpos,
Com acoplados motes.

Luzia levanta e se espanta.

“Tudo é o poder do fogo!”

O mais antigo museu brasileiro,
A morada das floras,
Queima entre os elos
Dilacerado há duas horas.

Condenados há quinhentos anos
Sofrem assistindo as chamas.
Sofre mais Luzia com outros
20 milhões de objetos
Derretidos a cada segundo no
Calor abrasado de um país se
Eclodindo na fumaça espessa

Canta alto, coroando o espanto
Rasgado aos pedaços.
Por nossos inviáveis males –
Evadem os corais e os
Pássaros. “Perdoai os abutres!”

Luzia presente.
Luzia livre!
Não se compõe com
Adeuses nas lágrimas.
Mas ainda se inflama na
Nódoa do tempo que não se mede
Enquanto a estrutura
Toda se evade.

Ela parte sozinha.

“Vá em paz, minha fia!”

Entre os sóis, Luzia
Beija mãos que não se movem.

 

Mariana Basílio

Poema (26) de Fiori Esaú Ferrari

quixote

IMagem: Pinterest.com (Marcel Pajot)

 

Novo Quixote

 

Tem um caminho

que asila

meus pássaros.

 

Guardados com carinho,

no longo braço dos ramos,

lentos invadem espaços.

Os remos afastam a água,

sentimentos que se tornaram quânticos,

e quando rimos somos o sumo,

gosto sem rumo,

das romãs,

um romance de amadurecer.

 

Dom Mouro de construções infinitas,

livros de artefatos,

a mística das mandalas ao vento,

grandes lanças,

meu cavalo e seus lenços

enfeitados,

moinhos e perturbações.

 

O sonho é a engrenagem

de rodar a noite celeste.

 

Vou embora pro horizonte,

lá fiz um caminho

pra asilarem meus pássaros.

 

Resta na beira dos céus

orientar a lua

que passa calma

entre os planetas.

 

Fiori Esaú Ferrari

In: Tensão Superficial da Poesia. Editora Penalux, 2016

Poema (13) de Marcelo Maldonado

sun Gerard Stricher

Imagem: Pinterest.com (Gerard Stricher)

 

(da indiferença)

alheio
ao largo
de mim
passeio
no que sou
não creio
por hábito
ou destino
por fastio
ou descaso
sobre
mim mesmo
deito os
olhos lassos
homem
fatiado
estátua
sem braços
correndo
contra
o próprio
passado

=============

(do ceticismo)

profundo
absurdo
nonsense ou
disparate
haver no mundo
quem de amor
me mate

=============

(da agrimensura amorosa)

defeito de
um coração
afeito a
querer
quieto é
não saber
ao certo
se o que
nasce no
peito é
reino do
desejo ou
domínio
do afeto

 

Marcelo Maldonado

Poema LVI de Líria Porto

Daniela 1

Imagem: Daniela Delias

 

a_teu deus

 

estive por aí pelas veredas

busquei respostas como quem tem fome

não sabia eu quem inventara o homem

quem legara à flor pétalas de seda

 

ficava a pensar no início do mundo

quem pintara tantas tantas estrelas

vivia tão longe que ao percebê-las

minh’alma era seca o corpo infecundo

 

belo sabiá teu canto sonoro

ele me fascina então eu te imploro

conta passarinho quem te deu a voz

 

ele cantarola envolto num véu

reza com fervor olha para o céu

e pede ao criador perdão por nós

 

Líria Porto