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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poemas da minha querida amiga Helena Ortiz

sunset Helena Ortiz

IMagem: Pinterest.com

 

espera

 

vida reduzida ao mínimo

sem fala, sem esforço

a natureza agreste

o sol maduro

frutos estrelas raízes

estalam na noite invicta

fala mais alto o mar

a lua avisa:

é só mais uma noite

e esta ainda não é tua saída

 

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escolhas

 

queremos milagres, mas mantemos os velhos costumes

queremos alegria, mas é a melancolia que se abate sobre nós

queremos chuva quando o sol e sol quando chuva

nosso cabelo é crespo, liso, armado, preto ou branco

 

nao gostamos

nossa unha envravada é mais imortante

que a Terra inteira, o tempo e o câncer

a vida se oferece

pensamos na morte

a morte chega

finalmente não precisamos escolher

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ai, saudade

 

vpntade de telefonar

dizer que está tudo bem

que todos estão com saúde

nada falta

e estamos juntos

 

e te ouvir

aquele riso de boca fechada

de quem vai ouvindo sem acreditar

e sem fingir

sabendo (não é, mãe?)

que já não posso mais telefonar

nem pra mentir

 

Helena Ortiz

Poemas do livro “precisamos conversar”: editora da palavra.

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Poema 31 de Fiori Esaú Ferrari

Paineira

IMagem: Pinterest.com

 

Painera

 

Painera da rua Virgílio,

dexa imbora pro mato,

dexa eu senti seu regato.

Andrômaca chora Heitor.

Osasco nasceu uma flor.

 

Painera da rua Virgílio,

dexa eu i co poeta,

dexa na selva floresta

o que resta do triz triz

da bala em Beatriz

Maria ou Serafim.

 

Dexa eu falá assim,

na língua que feiz de mim

caipira, aedo sem credo,

dexa eu i co poeta,

Orfeu andano no nada,

onte, o barquero Caronte,

amanhã, Iansã é amor,

dexa eu buscá Eurídice,

Osasco nasceu uma flor,

pra navegá sem tristeza,

si eu visse a alegria,

painera  da rua Virgílio,

eu nem i chorá ia.

 

Nem i chorá ia.

 

Fiori Esaú Ferrari

In: Tensão Superficial da Poesia. Editora Penalux, 2016

Poemas do novo livro de Wanda Monteiro

Livro da Wanda Monteiro

no fundo das águas de estação futura

o olhar do peixe

 

no espelho de seus vítreos olhos

a face das manhãs cortadas em gretas

saltam de seu gélido abismo

em busca de uma planície de tempo e luz

 

asfixiada pelo verbo

a estrela cessou de arder

 

não há mais fogo

nem sol para circundar

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de súbito

lhe corto o curso à foice

meço a inteireza de seu propósito

lhe enterro estacas

para cegar vindoura estação

jogo-lhe a inerme isca da palavra

 

inútil intento domar o tempo

ele sempre volta ao cume

conjuga-se à revelia

de minha desmedida vontade

 

com olhos de escárnio

mira-me

de dentro da areia

como irrefutável sentença

 

Wanda Monteiro

(Liturgia do tempo e outros silêncios – Ed. Patuá)

 

 

 

Poema do novo livro de Alexandre Guarnieri

capa guarnieri 2018-12-24 (1)-1

Imagem: Capa do livro “O Sal do Leviatã”

 

~ /seis ~
~ ( emaranhado por marés o mar menstrua,
regulado sob os trâmites da lua ~ seu
diafragma flagrado em água máxima ~
múltiplo o acúmulo que flui ~ feminino
e hidrovascularizado ~ e muito embora
demarcado em cartas náuticas, o mar escoa
para todos os lados ~ entorna e retorna
uma ágora larga, agora sob a aurora ~
aura do arco aquarelado sobre o sal das
catedrais de prata e coral ~ pátria de fúria
e maresia ~ safras de madrepérola e safiras
~ e Poseidon, pai-do-mar ~ armado do único
tridente entre tantas espadas de barbatana,
possui ~ celeste ~ sua lavoura de azuis ) ~

Alexandre Guarnieri

Poema (02) de Aline Cardoso

euriale
Imagem: Pinterest.com
EURÍALE
Caí em águas negras
Ontem à noite,
Átrio aço maciço
Penetrando o breu.
Bestas bioluminescentes
Precipitavam-se ronceiras
Farejando os nós
Entre meus seios.
Miose,
Petrifiquei papilas e ardis
Avioletando a carne
Densa de cada lábio.
Euríale, transmutei a morte
Em meu chocalho dourado,
Circunscrevi muitos nomes
Em minhas escamas.
Aline Cardoso

Poema (2) de Eduard Traste

pés crianças

Imagem: pinterest.com

 

vivas criaturas

no ônibus,
você escuta a conversa
e acha aceitável.
dois seres autênticos
um assunto
plausível
um ponto de vista
interessante
e então você se vira
e confirma: os pés ainda
não alcançam
ao chão.

 

receita de bomba caseira

deixe de trepar
deixe de se masturbar
deixe de fumar
deixe de beber
deixe de reclamar
alimente-se mal /
mal se alimente
– tanto faz? tente!
durma pouco
e tome muito café,
ou cuidado.

repetir até
explodir.

 

Eduard Traste

Poema (2) de Ulisses de Carvalho

gatos noite

Imagem enviada pelo autor Ulisses de Carvalho

 

gataria

 

no vão daquela hora
em que a noite desaba
sobre o dia enegrecido
resta um outro segundo
para o tempo do mundo
guardar todos vocês
noutra madrugada
no meio do nada
pelas ruas vazias
encharcadas de sereno
sobre alguns gramados
em todos os telhados
um deles é branco
outro é preto
todos pardos.

 

Ulisses de Carvalho