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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (10) de Chris Herrmann

fumando

IMagem: Pinterest.com

 

Adrenalina

ali parada
esperando o nada
nem a calçada
me socorria

já não ouvia
le tais ruídos
corre-escorres
rodas gigantes
passos apertados
os cem rostos
os mil desalentos
apostando corrida
(em combustão)
com os meus

só fiquei ali
naquela fumaça
com meu cigarro
– naquele momento
único que me sorria –
dopaminando
meus pensamentos

 

Chris Herrmann

Poema (7) de André Luiz Pinto

 

portaretrato.jpg

IMagem: Pinterest.com

 

VII

 

Agora um dia imenso de sol.

Que não se compara aos cueiros

de sofrimento e grilo.

Nada que meu corpo apazigue

deverá movimentar o lodo

de uma vida inteira;

a miséria de um silêncio in loco

nas paredes e nos retratos

meus avós depois de tantos anos

sorriem da penteadeira

para mim. Não da maneira

como eu os imaginava

mas chulos, de uma tal crueza

que me arranca os pés;

nulos, de uma tal vergonha

que eu apareça no dia

seguinte e ninguém se ofenda.

Nada deverá constar nos ramais

de sangue, nos ideais que

só cabem num homem;

que não venha abonar seus

crimes – o de miserável

principalmente –, o de ruminar

a mesma indigesta inquietude.

De olhar um quadro e sorrir.

 

André Luiz Pinto

Poema (12) de Fiori Esaú Ferrari

bird sing.jpg

Imagem: Pinterest.com

 

A canção comum

 

Soube que um canto

cobriu as asas e as flores,

dissipou no ar os humores

tristes que levo entre

o rio e esse pedaço

de vida.

 

Soube que afável

o voo da abelha

assumiu de música as pedras,

a cavidade acolhedora

de uma sombra sobre as horas

de trabalho e sangramento.

 

Soube da aragem,

na cova o grão de milho,

o descanso da semente

e próximo o pão

com que pagamos a aurora.

 

A canção que canta a gente

podia ser reunida.

 

Cada som, cada suor,

cada harmonia e amor,

cada ritmo, gota e colheita,

a canção que canta a gente

não tem língua nem nação.

 

É ato comum,

no eito,

parte e ilha

de envelhecer

sem tradução.

 

Fiori Esaú Ferrari

Poema (76) de Tito Leite

fish.jpgImagem: Pinterest.com

 

 

FIAT LUX

 

Distante

do espetáculo circense

da arte — a linguagem

está fatigada de informar.

 

Onde ela

realiza seu tirocínio

o poema

inaugura uma nova

bandeira.

 

Uma nuvem de concreto,

os peixes passeiam.

Calibre branco

de Breton:

revólver inconsciente.

 

As palavras são mutantes.

 

Quando um poeta

amplifica a realidade:

os versos adentram

na orfandade do caos.

 

Escutar

o silêncio do Gênesis.

 

Singeleza, flor de lótus.

Sonho angélico,

corolas de significados.

A poesia se faz lume.

 

Tito Leite

(in:Digitais do Caos, selo Edith, 2016).