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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (14) de Regina Celi M. Pereira

nebulosa

IMagem: Pinterest.com

 

NEBULOSA

 

quando o poeta

olha o mar

não é o mar

que o poeta vê

 

quando escreve

sobre a noite

perfumando o dia

 

decerto não é perfume

nem cronologia

 

[…]

 

epifania.

 

Regina Celi M. Pereira

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Poema (101) de Tito Leite

flor de ipe

IMagem: Pinterest.com

 

DESORDINES

 

O sol flúmen.

A palavra iluminura.

A musa na noite, flórea.

 

Na encantação do poema,

o inesperado

é a melhor flor de ipê.

 

O poeta pós-miragem

tira do bloco de notas

os minérios póstumos

como quem      degela

uma aurora

 

ou lucífera

com um ferro de passar

o que é de Cesar.

 

Tito Leite

Poema (28) de Fiori Esaú Ferrari

selfie feliz

Imagem: Reprodução/El Hombre

 

Urgentemente triste

Eu quero ser triste!
Deixem-me triste!

Longe de mim
com a sua esperança rota,
com a sua felicidade abúlica,
com a sua metafísica livresca,
seus dentes à mostra no selfie.

Meus dentes contra congresso
Ou a reorganização educacional da sua pedagogia torta.

Eu quero ser triste!
Eu preciso ser triste!

Triste
pra erodir sua alegria falsamente despolitizada.
Sua alegria sem graça de rede social.

Eu preciso ocupar de tristeza
seu bairro,
sua escola,
a praça em que não percebe
corpos entre a noite e o lixo.

Deixem-me triste,
urgentemente triste,
amplamente triste,
como as flores que se abriram na manhã

e cobriram o horizonte
sem você notar.

Fiori Esaú Ferrari

In: Tensão Superficial da Poesia. Editora Penalux, 2016

Ima(r)gem Paisagem (2)

borboleta Daniela Delias

Fotografia: Daniela Delias

 

A cantiga das asas

das cores

do vôo

 

O rancor das folhas

dos pequenos galhos

do verde

 

A poeira encantada

do ferrugem

do rasgo

da pele

 

Tudo é inundação

do ver

da captura furtiva

da luz

 

Mas nada disso

resiste a tentação

do chão

do cimento

 

Imã que germina

em um jardim feito

de cinzas.

 

Márcio Leitão

Poema (1) de Milton Oliveira

olhar sol

IMagem: Pinterest.com

 

Olhos

Pra dizer que dois olhos bastam
Dois braços, dois caminhos
Dois olhos tintos
Pra dizer que o amor é isso
Uma ponte entre nós e o precipício
Duas palavras, dois movimentos
Dois olhos vivos
Pra dizer que a vida é isto
Dois silêncios, dois gritos
Dois olhos tímidos
Pra dizer que a paixão é assim
Dois goles quentes, dois dias densos
Dois olhos imensos
Pra dizer que dois olhos bastam
Dois soís, dois cios
Dois olhos lentos

Milton Oliveira

Poema (27) de Fiori Esaú Ferrari

livros labirinto

Imagem: Pinterest.com

Labirinto

 

Aprendi a ler pra me esquecer.

Alguns vitrais dos anos 80

ainda refletem o menino

com seus livros

no quarto, o vento

quadrilaterando

o labirinto.

O menino e a meada

sendo desfeita,

salve, os dias da minha tristeza,

salve, os dias da minha alegria!

 

Aprendi a ler como quem rouba

a chave de abrir saudade,

que esse sítio acontece no presente

e a arte só nasce

quando filha da memória.

 

O menino com livros

bordava rendas.

 

Aprendi a costurar minhas fraquezas.

 

E quando o tempo não mais me permitir

ler,

quando a lã do novelo acabar

essa coisa muito enredada,

cobrirei da malha fina os meus olhos,

meu rosto todo.

 

De cor, recitarei a narrativa do esquecimento.

Fiori Esaú Ferrari

In: Tensão Superficial da Poesia. Editora Penalux, 2016