Arquivo do autor:profleitao

Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (1) de Mbate Pedro

feet

Imagem: Pinterest.com

 

os desertos

 

o barulho escutado quando uma flor cai lá do alto

numa noite sem o teu rosto

sem a tua luminosidade

para suster o peso da música

entre a escuridão do verso e a demora

 

porque eu sei

não há verso que abra a porta e entre nos olhos de um gato

e o silêncio é um rio que transborda

algures

sobre os teus pés nus

 

a cidade envergonhada

resvala para um domingo de facas

mas que importa?

 

um gato

agora

 

é como se dentro de mim alguém de repente

levantasse

a meia-

-haste

uma parede

 

Mbate Pedro

(In: Vácuos: Cavalo do Mar edições)

Anúncios

Poemas (17) de Marcelo Maldonado

deserto oasis

Imagem: Pinterest.com

 

(das sublimações)

todo orgulho
ferido que
se preza
passa pelo
mundo
despercebido
escondido
no fundo
de uma
reza

=============

(dos desertos)

pois
que no
olhar me
trazes a
secura
sem
piedade
nem um
oásis te
livra da
loucura
nem um
milagre te
assegura a
verdade

=============

(das constatações)

também a
ternura
no adeus
se costura

 

Marcelo Maldonado

Poema (1) de Rafael Mendes

poeta polonesa

Imagem: Pinterest.com

 

polônia

quando a mão empunha caneta

sobre o papel ainda virgem

no mais da vezes viaja

como andarilho que desvenda

o mistério de um cume

ainda intocado pelo conhecimento dos mapas

 

no curso da viagem verbal

não há norte estabelecido

nem sol que nasce no leste

trazendo primavera e mistério

duma tão antiga ásia

 

sim, talvez o traçado da tinta

busque dar conta de questão ínfima

e a resposta seja longa o bastante

para tornar habitáveis os gélidos

anéis de saturno e o inescapável

coma de putão

 

tantos poemas rompem com incisiva força

dos ligamentos da mão inquieta

deve-se perguntar se toda força

é provida de propósito e sentido

 

este caminho aqui traçado

extensão dum sóbrio poema

da poeta polonesa que me sorri

empunha, nao caneta, mas o cigarro

 

necessário entender o veganismo

destas palavras avulsas

regurgitadas após a antropofagia

da leitura do grão de areia

escrita tão orgânica

resultou numa peça

que nasceu e viveu

sem o autor saber por que

 

sim, neste poema nada acontece

resta apenas a imagem do cume inóspito

rodeando o andarilho

 

Rafael Mendes

Poema (2) de Carvalho Junior

azulao

Imagem: Pinterest.com

 

PELOS CHÃOS DA MALÍCIA PULSATIVA

 

da voz conselheira de meu avô,

tua coragem em me levar, mãe,

pelos chãos da malícia pulsativa,

entre arapucas rachadas de sol,

 

sob o canto religioso dos azulões,

com os pés em vitória sobre as corcundas

espinhosas dos caminhos da roça

e a desconfiança das sementes não vingadas.

 

do fogo que me marcou o corpo,

tua habilidade em me mergulhar no rio

do teu perene afeto, me sarar

e me salvar do não existir.

 

a cacimba do teu olhar me protege

dos afogamentos que o carrasco funda.

 

Carvalho Junior

Poema (1) de Carvalho Junior

tjubina

Imagem: http://uns2poemas.blogspot.com/ (Capa e projeto gráfico: Matéria-Prima Editorial)

 

O HOMEM-TIJUBINA

|trechos|

 

I.

 

o homem-tijubina tem um paladar exigente. não digere o ovo do óbvio. somente silêncios de pássaros lhe passam pelos gorgomilos. quando o indagam a respeito desta passagem, diz que o outro lado da vida está no verso. não tem idade, apenas caminha. às vezes para frente quase sempre para o fundo do poço que guarda as lágrimas dos seus ancestrais. é um composto de cortes de unhas-de-gato e incoerências.

 

II.

 

o homem-tijubina vive, se dobra, (des)dobra e recorta como um zine. camelô do calçadão da afonso cunha, pede esmolas como um poeta, é este azulejo quebrado nas tuas mãos. usa colar de hippie, pulseira de sementes antiquebranto, antiódio e antiamor ao mesmo passo e no mesmo cortar de pulso. é poeira invisível nos escombros do cassino caxiense, fôlego  e asfixia nos vivemorres do rio itapecuru. na esperança de novos dilúvios, ele recita cecília: a chuva é a música de um poema de verlaine.

 

 

III.

 

para o homem-tijubina a infância é como uma ferida sem costura. diz que carrega suas corcundas hereditárias pela força das ladeiras de pedras brancas em que um dia correu com os bolsos cheios de pitombas, penas de passarinhos e sonhos acesos dentro de lampiões improvisados. quando tomado de ira do mundo, enfia o dedo no cu das não levezas do cotidiano e brada contra a apatia dos fantasmas bípedes.

 

VIII.

 

o homem-tijubina é um poema desprezado, por todas as almas viventes e vegetativas, resistente às chuvas e às ferrugens que lhe explodem a pele. um dia ele nasce alguma coisa diferente e deverá outra vez aprender a viver com a indiferença dos homens, dos répteis e de todas as (sub) espécies por um ou vários deuses, darwins ou big-bangs inventados.

 

Carvalho Junior

Poemas de Tereza Du´Zai

cinza

IMagem: Pinterest.com (Carola Kastman)

 

Eles

O homem a minha frente gritava cambaleante para a mulher, que também cambaleante, seguia um pouco mais a minha frente:

– Ei, sua demonha, me espera, sua demonha!

Eu aliviei os passos só para ouvir seus gritos indignados e repetidos:

– Ei, sua demonha, me espera, sua demonha!…

Gostei de ver que a “Demonha” não se importava, não esperava, apenas seguia cambaleante.

Depois

Qual será seu legado?

O legado de um reprimido?

Ou de um deprimido pela opressão externa?

O legado de um humano considerado insano pelos desumanos?

Ou o legado de um desumano considerado são pelos verdadeiramente insanos?

Qual é seu legado?

O que você vai ser quando morrer?

Sim

Mulheres gestam homens que matam mulheres;

Mulheres educam homens que matam mulheres;

Mulheres amam homens que matam mulheres;

Mulheres se unem a homens que matam mulheres;

Mulheres permitem que homens matem mulheres;

Muitas mulheres deixam seus filhos órfãos por homens que matam mulheres;

Mulheres não morrem inocentes quando se omitem e protegem seus algozes.

 

Tereza Du´Zai

Poema de Expedito Ferraz Jr.

macas nuas

Imagem: Pinterest.com

 

OUTROS JOGOS FRUTAIS

I

Âmbares manhãs
entre as cortinas do ventre
o vitral da romã.

II

Vestida,
toda maçã está nua
da nudez que se insinua
em sua pele polida
da interdição que convida
ao corpo, o rubro rubi
da redondez mal contida
(forma do amor comprimida)
sob a fina lingerie

Despida,
toda maçã, se partida
ao meio, é meio caminho
de ida ao mel do pecado
doce cálculo do ocaso
que termina onde começa
fruto esculpido em mão hábil
sábio pomo da promessa
de lamber todos os lábios

III

Quem poderia supor,
de seu pendor para o cacto,
de seu ser avesso ao tato,
coroado, insubmisso,
o transformar-se, fatiado,
cortado em forma de flor,
nuns girassóis descorados,
de tão tenros, quase líquidos?

E quem lhe adivinharia
doçura na indócil armadura
de tartaruga, ou de ouriço?

IV

Ou bem se quer o sabor,
e se abandona o pudor
do visgo, da nódoa, do ricto,
ou bem se evita a mangaba.
E o tamarindo. E o amor.

V

Mentem ameixas,
passas e tâmaras.
Mentem damascos,
avelãs, castanhas.
Mentem amêndoas.
A memória mente.

No prato de frutas
secas, ruminado,
o tempo falsifica os grãos,
como se fosse,
adoçar o que é cica,
tornar doce o passado.