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Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Pandemia em mim

Foto: Márcio Leitão

O gesto que vaza de nós

ou para nós

e o movimento

que esgarça o céu

viram, em alguns momentos, pó

neuronal

Grãos que se grudam a axonios

e dendritos no fundo

do fundo de nós.

Quando algo ou alguém

espana a ventania

ou sacode o azul

surgem nuvens de poeira

embrulhando medos

mais quietos.

Como não há aspirador

ou desifentantes para mentes

e tempestades

talvez o melhor a fazer

é deixar o vento guiar as nuvens

e a dor

na tentativa

de desfazer os nós.

Márcio Leitão

Poema (1) de Jéssica Iancoski

Imagem: Pinterest.com (Nicole Law)

ERVILHA VERMELHA

Ontem me perguntaram se eu era uma menina

E eu não soube responder

Esse inferno de pergunta.

Não que eu não seja mulher —

Mais que isso

— É que eu sou tantas coisas:

Uma garota,

Uma amante

Uma gota,

Um semblante,

Um inverno

Um menino,

Um pingo

E um girino,

Um giro de roda

No vento leste que sopra

No ponto final em cada esquina.

Uma menina é pouca coisa

Quando eu sou tantas outras

Entre cada ervilha vermelha Do interno do punho em meu ventre.

Jésssica Iancoski

Poema 1 de Giulia Nogueira

Imagem: Pinterest.com

um poema quando nasce esparrama pelo chão

livros de poesia

amuletos panfletos etc

talhados um a um

pelo silêncio-princípio

inconformado

da sua própria capa

cidade

não almejam

servir-lhe

de portas abertas

menos ainda

de oráculos certos:

a tua procura é quem

devora por onde

pisa.

Giulia Nogueira

Poemas (18) de Marcelo Maldonado

Imagem: Pinterest.com

(das rezas)

que se
destrave o
impossível
num afago
que o
sensível se
instale
e a mim me
restaure
são e
náufrago

=============

(das entremências)

achou de bem
regar uma
pedra com a
saliva da
infância
a manhã tinha
reverberâncias
nos seus
rascunhos
entrou a rir
de um
parassempre
entalhado numa
rama d’água
deu a mão à
cor azul do
coração de
um bem-te-vi
dizem que
anoiteceu
feito coruja
com sabença
de árvores

Marcelo Maldonado

Poema (8) de Alexandre Pilati

[Doméstica]

o cheiro do frango
cozinhando na pressão
temperado com alho sal
e outras pobres especiarias em pó

arremeda

os fósforos vivos
a flor imbatível
o travesseiro alienado
a onda do mar a sorrir
a bunda cosmonáutica
o coice dos déficits

também arremeda
a mão quente

com que qualquer um
é capaz de escrever
luz avião contrapelo Liechtenstein…

não é preciso arte
para entrar de cabeça
neste pântano perfumado
que se deslumbra entre

as teias de aranha
e as casas de botão
as porcas as gelosias
furos de fechaduras
reentrâncias de insetos
no rejunte os vãos de garfos

que a poesia num repente
preenche sem titubear

apenas um corpo que mais ou menos
funcione é o que basta

um corpo em severa desatenção
em apetite sonâmbulo
um corpo buraco

quando a cozinha se enche
do cheiro de frango
cozinhando na pressão

convocando-nos
às agulhas do indiscernido

Alexandre Pilati

Poemas (19) de Iara Maria Carvalho

Na Filizola

A mercearia de papai
era a mais sortida do bairro.

Não faltavam aviamentos,
fichas de orelhão,
chiclete Ploc, cajuína
– memórias embrulhadas
em papel de pão.

Os fiados da caderneta
não davam conta 
do vasto mundo diluído
nos olhos do meu pai.

Na Filizola dos ombros,
o peso silencioso dos nascidos
pra chorar.

Minha mãe

Minha mãe costura
na Singer
todo fim de
tarde,
elegante e
sagaz
na missão de
consertar o mundo.

Como toda mãe,
sabe botar brilho
nos olhos dos filhos,
e põe na caixa de botões
os sentimentos extraviados.

Seus olhos

 – de tardezinha –
são dois botões nublados.

Iara Maria Carvalho

(Do novo livro em lançamento: Meia Porção de Sol)

Poema (1) de Lázara Papandrea

Imagem: Pinterest.com

I-

Me doem os ombros

A virilha, o sexo,

O amor.

É quinta-feira de

Um tempo bem pesado

A chuva não desce

Só escoa pelo asfalto

O suor das pedras

O engulho farto

O grito preso, a barriga

Grande, a seringa,

A insulina.

O cabelo da moça

Atrapalhando os olhos

O sorriso da moça

Sem sal.

Estamos todos doloridos

E abafados.

Estamos com medo

E vamos ao mercado

Sabão e suor

Sabão e suor

Não há o que baste

Lavar a pele

Lavar a carne

Lavar o osso.

E a dor já dilacerada

É maior que a estátua

Da liberdade

É infinitamente maior

Que o Taj Mahal

E tão quente como

O vale da Morte

Ou o Raso da Catarina

No verão de 2016.

Me dói o útero

Agora tão vazio

O espaço, o vácuo

As mãos

A respiração ofegante

Quantas máscaras

A arrancar de mim?

Quando a chuva não vem

Não há razão nenhuma para

Respirar hortênsias

Entretanto a cor púrpura

Me persegue

Desde o nado.

O jardim do Éden

Estrangulado

A carne podre

O cão cansado

E no rádio uma canção

De amor.

Lázara Papandrea

Poema de Hélia Correia (Prêmio Camões 2015)

Imagem: Pinterest.com

ESMOLA

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.

Hélia Correia (poema do livro “ACIDENTES”)

Poema (1) de Erica dos Santos Rodrigues

Imagem: pinterest.com (Michael Lang)

Eu gosto de gente
cujas histórias desconheço
Tenho afeição por olhos assimétricos
narizes aduncos e
lábios de contorno indefinido
Amo rugas
Quanto mais marcadas
Mais me perco nas narrativas
escondidas
Eu não gosto muito de bichos
Exceção a joaninhas
e passarinhos miúdos
Acumulo livros
Mais por medo de perder
o que não li
do que pelo acúmulo
das histórias
Amo bolas de plástico grandes
Planetas coloridos nas mãos infantis.
Nem sempre gosto muito da minha imagem no espelho:
tenho medo das sombras no fundo do olhar
Às vezes me pego pensando
que gostaria de renascer bola de plástico
Sem sombra
Só cor e ar
Ou então joaninha
Ou passarinho miúdo.
Se renascer gente
Que os olhos sejam assimétricos
Pelo menos isso!

Erica dos Santos Rodrigues