Arquivo da tag: prosa

2020 ANO DA PESTE (Beijo aflito)

Oi.

Sei que não tenho escrito muito. Eu me pergunto por que você deixou de escrever. Eu não tenho escrito muito, mas tenho lido muito. Parei com muitas coisas e certas vezes invade a sensação que meus poemas são como a terra e assim devem retornar ao pó como eu. Poucas certezas para expressar. Por outro lado o homem que expressa certezas é um tolo por definição.

Agora isso, peste né? Com arrefecimentos e descrença no século em perdemos as luzes e a razão. Quando olho pela janela eu me questiono se o maior medo dá doença não seria encarar quem realmente somos quando nos olhamos no espelho. E agora não outra pessoa para se olhar além de nós mesmos.

Muita leitura, não é? Seria uma lista interessante se começasse aqui. A leitura é um refúgio dos dias massacrantes e melhor passeio que posso me propiciar. Quando começo a escrever cartas, sei que os versos secaram. Eu coloco o lápis na mão para me exercitar e como não sei desenhar, escrevo qualquer palavra. hoje estas aqui eu envio a você. Claro que não sei quando irei aos Correios. Haverá Correios quando descer novamente deste isolamento? Será que seremos felizes de novo? Será que alguém mais pensa que estas perguntas no plural são insanas? O melhor da felicidade é a ilusão que jamais seremos tristes de novo.

Enquanto a vida parece que me roubou para os afazeres diários, minha mente parece fugir e estabelecer outras importâncias. Apenas meus livros, minhas cartas, tudo além parece simplesmente perda de tempo. Chove tranquilamente lá fora. A chuva pode ser uma bela máscara para os problemas do mundo.
Não sonho, você sonha? Contar o sonho é ordenar o impossível, dar nome ao caos, formular um rumo que não há.

O que eu quero escrever? Quando esta pergunta fica mais alta que a realidade eu percebo que vou escrever sobre o desconforto de não ter o que falar. Isto em si é escrever sobre o silêncio da literatura.

Outro dia percebi que me tornara naquilo que mais me causava estranhamento na infância: os velhos com inúmeros pedacinhos de papel no bolso da camisa. Um guardador de pergaminhos, uma biblioteca de inutilidades ambulante. Não sei por que escrevo memórias em pedaços inúteis de papel. Minha cabeça doi com respostas que não vem, responsabilidades e incertezas. A existência bate seu sino ensurdecedor e o tempo é indiferente. Ainda mais aquartelados que estamos.

Há dias em que saber por onde começar torna-se um desafio do tamanho da vida. Você pensa nessas coisas? Somo obrigados a ter uma resposta? Eu tenho fugas de mim mesmo, aterrorizado. A postura adulta que preciso ter diante de certas pessoas me impede de sorrir. Certas vezes a minha máscara social pesa tanto que quero fazê-la em pedaços ainda no meu rosto. Ontem eu quis chorar sem motivo diversos momentos do dia. O interfone tocou, mas ninguém respondeu. Acendi um incenso. Bebi água. Bebi café também, e vinho e depois água. Coloquei todos os livros de poesia no chão e giro até que pare na frente de um deles e abra em qualquer página. Qualquer leitura faz sentido quando estou imerso. Qual felicidade?

Qualquer linha de diário que se escreva nestes dias soará no futuro como os “diários da peste” medievais. Todos bem, tudo bem, mas tudo mal com aquele desalento beirando o pânico geral. Eu também começo a me sentir afetado pelo clima de desconfiança geral. Sanatório geral, né? Romantizar a situação é um privilégio das classes superiores.

Desliguei o rádio que me fazia sentir como um civil entrincheirado nos escombros da cidade. Há o aqui e o lá e eu sou a terra de ninguém. A guerra invisível não é fria como diziam. As pessoas são frias. Já passa de 20h e a sensação de que algo específico e coletivo, lamenta-se confuso na minha cabeça. A rua molhada reflete apenas ela mesma esta noite.

Abrindo um livro aleatoriamente sua palavras falaram comigo: “Sei que alguma coisa muito importante vai se fazer em mim e é preciso colher o máximo de dados e informação agora para o que vou fazer depois.” Tive certeza que precisei ler isso para encontrar a mim mesmo, para não desesperar, para respirar fundo e colocar a mente em alguma coisa. Uma tarefa, qualquer que fosse, iria me encontrar e com isso a voz sairia.

Tudo parece incerto amanhã. Por isso vou lhe escrever partes deste meu diário e lhe enviar pela internet. Todas as cartas são uma expressão de uma alma carente. Todo trabalho escrito e intelectual é uma carência que prescinde o desejo de ser lido e encontrar validação no outro. Isolado em uma ilha, o náufrago marca a pedra pela sua sanidade; para que sua carência não o domine e nas suas marcas ele encontre a existência do outro nele mesmo. Como o Hemingway escreveu: “O homem não é feito para derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”.

Eu preferia sair e selar tudo isto dentro de um envelope.

Beijo aflito.

*
*Nota: os trechos em destaque são palavras de Mora Fuentes e de Ernest Hemingway, respectivamente.

 

_ars_mundi_1___B-UqCYiHYsW___

ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.

O lançamento da CASA

Tenho paredes de vento e o telhado de versos, assim construí minha CASA.

Este mês a Editora Urutau lançará o meu livro de poemas. Acho que este deve ser o momento em que um autor mais está despido, ou despistado na confusão entre a pessoa que ele é e o autor que nele surgiu. Pelo menos eu sei que estou me sentindo assim. Para mim escrever sobre mim mesmo parece mais complexo do que uma resenha, uma crônica ou um poema. Assim, serei breve.

Inicialmente parece difícil sintetizar o que quero com este livro. E é preciso querer na verdade, pois o livro não surge simplesmente. Eu quero que este livro possa ser lido em voz alta e  nos silêncios de cada biblioteca pessoal. Com um livro, o poema que aconteceu em mim, agora poderá acontecer em cada leitor que assim o queira.

Há um lançamento no Rio de Janeiro. Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade. Há uma capa fantástica bolada pela editora. Será num domingo à tarde, para constar como o passeio da família e esticarmos numa conversa bem amigável. Fizeram um evento no Facebook. O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Verifiquem com os amigos e encontro todos lá para abraços e assinaturas. Abaixo segue uma degustação com a capa, o texto da orelha e um dos poemas.

a capa da casa

A orelha da CASA

Enfim um novo livro de Roberto Dutra, jr. Não que o autor tivesse ficado em silêncio, mas já se foram vinte anos desde que seus primeiros poemas surgiram, em uma edição remota, lançada no Rio de Janeiro, que está esgotada e desaparecida. Nesse ínterim, ele foi editor de revista acadêmica, resenhista, contista, cronista, revisor, tradutor, escreveu um monte de orelhas como esta, aconselhou outros tantos autores e até vendeu cerveja no carnaval carioca. Ele se diz orgulhoso de ter colaborado com o Panorama da Palavra, jornal literário que circulou pelos anos 2000 na cena carioca, que promovia leituras com poetas no teatro e foi dirigido pela jornalista Helena Ortiz. Roberto atuou como fotógrafo, escreveu matérias e foi considerado um dos poetas prata da casa nas leituras promovidas naquela época. Seus poemas aparecem nas antologias Escriptonita (Patuá, 2016) e Porremas (Mórula, 2018). Tenho certeza que neste momento ele está algo entre fulo e risonho com este texto, pois não é sujeito dado a retrospectivas. Não chame o amigo anárquico que pra escrever as orelhas, olha no que deu.

Roberto acredita na obra por si, sem apresentações. O que deve circular é palavra, se não repetirem o verso, ainda não está pronto pra boca do leitor. A ideia original de CASA também veio da amiga Helena Ortiz que o convocou anos atrás com uma quase ordem (com sotaque de gaúcha): “Não faças plano, não faça nada. Estás pronto e está tudo escrito. Pega o que tiver de melhor e coloque tudo junto. Alguns livros são assim. Coragem.” Pois é amigo, está feito. Um tanto de metalinguagem, introspecção e respeito pela palavra. Sei que só parou de consertar versos na véspera de entregar tudo pro Tiago Rendelli, da Urutau. Sei que isso deve ser a marca do autor que você se tornou. Esta orelha merece ser mais do que uma apreciação do seu texto, então se tornou uma brevíssima crônica da história deste livro.

Leitor, siga direto para o poema “Plano” e leia em voz alta. Declame até, se algo lhe fizer sentido. De que vale ter a sua CASA se não pode subverter a ordem de tudo?

Boa leitura a todos.

Com um abraço amigo do

Gregório dos Santos

(Eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores, eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo

A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

SETEMBRO VIROU OUTUBRO DE 2018

Pai, como vão as coisas? Escrevo para dizer que tudo corre bem. Lentamente, mas bem. Esta cidade tem um ritmo acelerado, mas eu tenho um passo completamente diferente. Os dias têm sido nublados e há períodos de chuva. Foi assim no último mês. Acontece que setembro virou outubro e o céu cinzento agora parece opressor e a primavera que tudo deveria renovar parece oculta, menos que implícita. Coisa de promessa não cumprida, discurso de político, vôo atrasado. Não sei como colocar isso pra você de forma clara, pai. Parece que algo está oculto nas sombras de uma cidade que apenas deveria refletir a luz do sol.

     De qualquer maneira, é vida que segue. Dizem muito isso por aqui. Já ouvi em estações de metrô, nos pontos de ônibus, na padaria. Acho que foi uma das primeiras frases que me chamou a atenção, não pelo seu conteúdo, mas pela sua repetição em diferentes contextos e vindos de pessoas de diferentes classes. Como eu acho que o clima geral é de uma certa angústia – que também poderia ser apenas o céu cinzento –, essa frase acabou sobressaindo.

Encontrei com o Gregório dos Santos, que escreve resenhas, traduz e parece ter uma visão bem correta de tudo que cerca a escrita. Na maioria das vezes ele parece um tanto nervoso, é um sujeito agitado, mas disse que me passaria livros e resenhas e que o mais importante agora seria que eu tivesse uma boa visão – neste caso leitura – de tudo que se tem escrito hoje em dia. Ele pareceu um tanto irritado dizendo que o problema dos que se dizem escritores hoje é que parecem que não lêem nem para formação nem para informação. Ele disse que cada um é seu próprio nicho. Confesso que achei que fosse ironia, mas depois percebi que falava seriamente. Gregório disse que trabalhasse sem esperar nada, mas ainda assim trabalhasse. Não iria deixar de me passar o que pudesse, mas que o mais importante para mim é que fosse lido, que nas circunstâncias atuais isto é mais importante do que receber anonimamente por uma lauda feita.  Ele disse também que o problema das pessoas hoje é que querem ser reconhecidas pela sua personalidade e não pela sua obra. “Afinal o que você pensa que é? Escritor ou ator de telenovelas para a família?” Você não é quem você vê no espelho, tem que ser suas palavras e as palavras se invertem quando refletidas no espelho. Logo, um escritor tem que ser o inverso do que sua pessoa é, destemido para opostos, que podem ser certas vezes até irreconhecíveis, vias de regra. Tudo isso soou meio apocalíptico, mas acho que ele foi bem honesto comigo e – por que não dizer? – atencioso por não ser condescendente com minhas aspirações. Tão importante quanto isso é que ele vai me passar algumas resenhas e traduções e com isso, certamente levanto logo algum dinheiro e tudo logo se encaminha. Apenas espero que, como ele me disse, meu nome também possa circular e então um trabalho seja conseqüência do outro.

     Ainda hoje sairei para procurar uma mesa ou uma escrivaninha em que possa me instalar melhor. Vou caminhando, aproveito enquanto ainda tenho tempo e também para conhecer melhor o comércio daqui. Se encontrar alguns cartões postais com vistas da cidade, vou comprar e lhe envio logo em seguida. Sei que gosta de cartões postais. O café das padarias é fraco. Passei a beber só em casa mesmo. Não é nem uma questão de economia é sabor mesmo. Tento me decidir se é desleixo do balconista ou se a vazão dos clientes. Enfim, conjecturas pra encher o papel. Vida que segue como dizem aqui.

     Esfriou e parece que vai chover, e muito. Sairei assim mesmo, senão o tempo vai me impedir de fazer tudo que quero. Nada de dar lugar pra preguiça.

Escreva logo. Abraços, R.

typewriter types

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha: – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

 

 

Publicado originalmente na revista Diversos Afins, em 2015.
(http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-37/)

PARANOIAS URBANAS

E se me pegarem? E se me levarem? E se me roubarem? E se me deixarem? E se ninguém falar nada? E se falarem tudo? E se não curtirem? E se ninguém chegar? E se todo mundo chegar? E se correrem? E se gritarem? E se acabar? E se tiver mais? E se não parar? E se quiserem mais? E se não quiserem? E se me atropelarem? E se não pararem? E se eu guardar? E se eu gastar? E se a barra limpar? E o sol abrir? E se chover? Anoitecer? E se amanhecer? E se o silêncio transbordar além do ouvido?

Olhou pela janela? Olhe pela janela. Reparou? Nada parou, ninguém ouviu, nem assuntou, não se postou, nem viralizou. Não houve curtida. Ninguém se importa e novamente recomeça a vida. Sem que os pássaros se importem com as contas e com o aluguel, se pegaram outro, se não pegaram ninguém. Deu no jornal, mas ninguém leu. Acreditar na tevê? Acreditar em quem?

Escovou os dentes, conferiu a cor da língua. Os olhos estavam amarelos? O hálito, ameno? Vestiu-se e colocou o vilão embaixo do braço. Atravessou a rua com cuidado e sentou-se em frente a um prédio. Puxou do bolso a gaita e tocou para os passantes até que o sol lhe queimasse o semblante. Embaçou a vista fugiu o vilão, que é da natureza desses se evadirem, furtivos, pelas esquinas. Alguns quiseram deixar-lhe moedas e recusou dignamente. Nunca precisara. Retornou ao quarto. Fumou três cigarros.

E se o prédio caísse?