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ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.

O lançamento da CASA

Tenho paredes de vento e o telhado de versos, assim construí minha CASA.

Este mês a Editora Urutau lançará o meu livro de poemas. Acho que este deve ser o momento em que um autor mais está despido, ou despistado na confusão entre a pessoa que ele é e o autor que nele surgiu. Pelo menos eu sei que estou me sentindo assim. Para mim escrever sobre mim mesmo parece mais complexo do que uma resenha, uma crônica ou um poema. Assim, serei breve.

Inicialmente parece difícil sintetizar o que quero com este livro. E é preciso querer na verdade, pois o livro não surge simplesmente. Eu quero que este livro possa ser lido em voz alta e  nos silêncios de cada biblioteca pessoal. Com um livro, o poema que aconteceu em mim, agora poderá acontecer em cada leitor que assim o queira.

Há um lançamento no Rio de Janeiro. Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade. Há uma capa fantástica bolada pela editora. Será num domingo à tarde, para constar como o passeio da família e esticarmos numa conversa bem amigável. Fizeram um evento no Facebook. O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Verifiquem com os amigos e encontro todos lá para abraços e assinaturas. Abaixo segue uma degustação com a capa, o texto da orelha e um dos poemas.

a capa da casa

A orelha da CASA

Enfim um novo livro de Roberto Dutra, jr. Não que o autor tivesse ficado em silêncio, mas já se foram vinte anos desde que seus primeiros poemas surgiram, em uma edição remota, lançada no Rio de Janeiro, que está esgotada e desaparecida. Nesse ínterim, ele foi editor de revista acadêmica, resenhista, contista, cronista, revisor, tradutor, escreveu um monte de orelhas como esta, aconselhou outros tantos autores e até vendeu cerveja no carnaval carioca. Ele se diz orgulhoso de ter colaborado com o Panorama da Palavra, jornal literário que circulou pelos anos 2000 na cena carioca, que promovia leituras com poetas no teatro e foi dirigido pela jornalista Helena Ortiz. Roberto atuou como fotógrafo, escreveu matérias e foi considerado um dos poetas prata da casa nas leituras promovidas naquela época. Seus poemas aparecem nas antologias Escriptonita (Patuá, 2016) e Porremas (Mórula, 2018). Tenho certeza que neste momento ele está algo entre fulo e risonho com este texto, pois não é sujeito dado a retrospectivas. Não chame o amigo anárquico que pra escrever as orelhas, olha no que deu.

Roberto acredita na obra por si, sem apresentações. O que deve circular é palavra, se não repetirem o verso, ainda não está pronto pra boca do leitor. A ideia original de CASA também veio da amiga Helena Ortiz que o convocou anos atrás com uma quase ordem (com sotaque de gaúcha): “Não faças plano, não faça nada. Estás pronto e está tudo escrito. Pega o que tiver de melhor e coloque tudo junto. Alguns livros são assim. Coragem.” Pois é amigo, está feito. Um tanto de metalinguagem, introspecção e respeito pela palavra. Sei que só parou de consertar versos na véspera de entregar tudo pro Tiago Rendelli, da Urutau. Sei que isso deve ser a marca do autor que você se tornou. Esta orelha merece ser mais do que uma apreciação do seu texto, então se tornou uma brevíssima crônica da história deste livro.

Leitor, siga direto para o poema “Plano” e leia em voz alta. Declame até, se algo lhe fizer sentido. De que vale ter a sua CASA se não pode subverter a ordem de tudo?

Boa leitura a todos.

Com um abraço amigo do

Gregório dos Santos

(Eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores, eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo

A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

SETEMBRO VIROU OUTUBRO DE 2018

Pai, como vão as coisas? Escrevo para dizer que tudo corre bem. Lentamente, mas bem. Esta cidade tem um ritmo acelerado, mas eu tenho um passo completamente diferente. Os dias têm sido nublados e há períodos de chuva. Foi assim no último mês. Acontece que setembro virou outubro e o céu cinzento agora parece opressor e a primavera que tudo deveria renovar parece oculta, menos que implícita. Coisa de promessa não cumprida, discurso de político, vôo atrasado. Não sei como colocar isso pra você de forma clara, pai. Parece que algo está oculto nas sombras de uma cidade que apenas deveria refletir a luz do sol.

     De qualquer maneira, é vida que segue. Dizem muito isso por aqui. Já ouvi em estações de metrô, nos pontos de ônibus, na padaria. Acho que foi uma das primeiras frases que me chamou a atenção, não pelo seu conteúdo, mas pela sua repetição em diferentes contextos e vindos de pessoas de diferentes classes. Como eu acho que o clima geral é de uma certa angústia – que também poderia ser apenas o céu cinzento –, essa frase acabou sobressaindo.

Encontrei com o Gregório dos Santos, que escreve resenhas, traduz e parece ter uma visão bem correta de tudo que cerca a escrita. Na maioria das vezes ele parece um tanto nervoso, é um sujeito agitado, mas disse que me passaria livros e resenhas e que o mais importante agora seria que eu tivesse uma boa visão – neste caso leitura – de tudo que se tem escrito hoje em dia. Ele pareceu um tanto irritado dizendo que o problema dos que se dizem escritores hoje é que parecem que não lêem nem para formação nem para informação. Ele disse que cada um é seu próprio nicho. Confesso que achei que fosse ironia, mas depois percebi que falava seriamente. Gregório disse que trabalhasse sem esperar nada, mas ainda assim trabalhasse. Não iria deixar de me passar o que pudesse, mas que o mais importante para mim é que fosse lido, que nas circunstâncias atuais isto é mais importante do que receber anonimamente por uma lauda feita.  Ele disse também que o problema das pessoas hoje é que querem ser reconhecidas pela sua personalidade e não pela sua obra. “Afinal o que você pensa que é? Escritor ou ator de telenovelas para a família?” Você não é quem você vê no espelho, tem que ser suas palavras e as palavras se invertem quando refletidas no espelho. Logo, um escritor tem que ser o inverso do que sua pessoa é, destemido para opostos, que podem ser certas vezes até irreconhecíveis, vias de regra. Tudo isso soou meio apocalíptico, mas acho que ele foi bem honesto comigo e – por que não dizer? – atencioso por não ser condescendente com minhas aspirações. Tão importante quanto isso é que ele vai me passar algumas resenhas e traduções e com isso, certamente levanto logo algum dinheiro e tudo logo se encaminha. Apenas espero que, como ele me disse, meu nome também possa circular e então um trabalho seja conseqüência do outro.

     Ainda hoje sairei para procurar uma mesa ou uma escrivaninha em que possa me instalar melhor. Vou caminhando, aproveito enquanto ainda tenho tempo e também para conhecer melhor o comércio daqui. Se encontrar alguns cartões postais com vistas da cidade, vou comprar e lhe envio logo em seguida. Sei que gosta de cartões postais. O café das padarias é fraco. Passei a beber só em casa mesmo. Não é nem uma questão de economia é sabor mesmo. Tento me decidir se é desleixo do balconista ou se a vazão dos clientes. Enfim, conjecturas pra encher o papel. Vida que segue como dizem aqui.

     Esfriou e parece que vai chover, e muito. Sairei assim mesmo, senão o tempo vai me impedir de fazer tudo que quero. Nada de dar lugar pra preguiça.

Escreva logo. Abraços, R.

typewriter types

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha: – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

 

 

Publicado originalmente na revista Diversos Afins, em 2015.
(http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-37/)

PARANOIAS URBANAS

E se me pegarem? E se me levarem? E se me roubarem? E se me deixarem? E se ninguém falar nada? E se falarem tudo? E se não curtirem? E se ninguém chegar? E se todo mundo chegar? E se correrem? E se gritarem? E se acabar? E se tiver mais? E se não parar? E se quiserem mais? E se não quiserem? E se me atropelarem? E se não pararem? E se eu guardar? E se eu gastar? E se a barra limpar? E o sol abrir? E se chover? Anoitecer? E se amanhecer? E se o silêncio transbordar além do ouvido?

Olhou pela janela? Olhe pela janela. Reparou? Nada parou, ninguém ouviu, nem assuntou, não se postou, nem viralizou. Não houve curtida. Ninguém se importa e novamente recomeça a vida. Sem que os pássaros se importem com as contas e com o aluguel, se pegaram outro, se não pegaram ninguém. Deu no jornal, mas ninguém leu. Acreditar na tevê? Acreditar em quem?

Escovou os dentes, conferiu a cor da língua. Os olhos estavam amarelos? O hálito, ameno? Vestiu-se e colocou o vilão embaixo do braço. Atravessou a rua com cuidado e sentou-se em frente a um prédio. Puxou do bolso a gaita e tocou para os passantes até que o sol lhe queimasse o semblante. Embaçou a vista fugiu o vilão, que é da natureza desses se evadirem, furtivos, pelas esquinas. Alguns quiseram deixar-lhe moedas e recusou dignamente. Nunca precisara. Retornou ao quarto. Fumou três cigarros.

E se o prédio caísse?

MEUS MORTOS

Meus mortos dizem que o meu nome também está escrito nas cinzas.
Moram no ontem, mantém uma funilaria para esperanças fendidas.
Mordem-se de raiva de reformas, portas abertas e perfumes novos.
Memória mantida, brilha sempre uma chama fria.
Mudanças jamais, os mortos são o que são, inexistem em plenitude.
Promovem o inferno com correntes e cantoria, certas vezes arrastam a mobília.
Os malditos são insones e não me deixam dormir.
Meus mortos sentados na varanda, na pedra, na laje de mármore que se quebra.
Murmúrios velhos ressoam outra arenga, abre-se, mas quem fecha?
Não cabem outros que não meus mortos entre tantos absurdos.
Melhor segredar o que falam quando riem demais, não revele.
Morar no escuro lhes parece antiquado, meus mortos sentam-se no telhado.
Os pássaros noturnos congregados, todos no sótão, escribas aposentados.
Meus mortos empilham missivas de seu tabelionato sobre minha cabeça.
A poeira pesa-me nos ombros, são capítulos e escombros.
Mau olhado e mandinga: nada entra que já não pertença a esta casa.
Muitos não acreditam, não há alarde que revele seus passos no ar.
Ninguém sabe de meus mortos.
Mantenha em mente: quando meus mortos bradam, os fortes piam.