APLICAR-SE AO ESSENCIAL

Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

Aplicar-se ao essencial

Somos seres naturalmente sedentos por informação e interatividade. Nesses tempos em que parar para refletir soa como “perda de tempo”, buscamos subterfúgios nas redes sociais na ilusão de ocuparmos nossos vazios existenciais – uma maneira de mascarar nossa solidão cada vez mais acentuada pelos desencontros que a vida nos propicia. Vivemos de aparência, vitimados pela cobrança excessiva de que “ter” é “ser”. Ostentação é a palavra da moda. Ritmo acelerado e consumo imediato regem nossas ações.

Entretanto, não é sobre essa materialidade que gostaria de enfatizar neste, mas sobre o quanto estamos enredados nesses fios de comunicação sem construirmos laços. Aqui e ali uma distração: facebook, sms e, principalmente, o febril aplicativo “WhatsApp”. Nunca lemos e escrevemos tanto em toda a história da humanidade. Todavia, não é a quantidade que importa, mas a qualidade. Tantas informações, contudo um grande desafio: filtrar aquilo que, de fato, é essencial. Porém, como “separar o joio do trigo”, se não nos damos o direito de refletir?

Nada mais irônico e paradoxal nos tempos modernos que o fato de estarmos “conectados”, mas, por causa das relações virtuais, constantemente desligados do essencial, pois a vida passa sem nos encararmos, sem nos olharmos nos olhos – uns para os outros e para si mesmo. Nossas horas com a família se esvaindo, mesas postas e histórias opostas. Não é apenas o adolescente, são os pais, os avós – todos contagiados pelo o vírus da urgência e contaminados pelo mal da distração, modificando nossas prioridades e urgências.

Não nego: também anseio pela novidade, mas reconheço que pausas são necessárias. Precisamos vivenciar o presente. Passamos mais tempo no passado ou no futuro. Estamos pré-ocupados, porque tudo se tornou emergência. A mais banal troca de mensagens, se não for respondida imediatamente, nos estressa. De maneira alucinada, vamos à caça de curiosidades sobre a vida alheia, mas nos tornamos estranhos a nós mesmos, sem sede de autoconhecimento.

Onde está a potencialização do pensamento, a busca pelo aprimoramento pessoal, a sede por conhecimentos práticos e úteis? Não digo que a vida deve se pautar apenas nas obrigatoriedades. Uma fofoca ali; outra aqui, nos é saudável, mas não devemos assolar nossos corações e mentes com a asfixiante pressa de querer provar não sei o quê para não sei quem; de que somos ricos, bonitos e poderosos.

Com espírito ausente, vamos retrocedendo. Descanso não é luxo. Corpo que vai mais depressa que a alma corre risco de ressecá-la. O imediatismo sequestra nossa capacidade de raciocínio. Que nós paguemos o resgate na medida em que buscarmos a autenticidade. Desconectemos um pouco para que o excesso de informações não lote nosso “HD” interior, forçando-nos a excluir o essencial, a jogar nossos toques, abraços, beijos e olhares na lixeira.

Onde está o tempo para ler um romance, para assistir àquele filme, para escutar aquela música que nos fazem nos sentirmos bem? E aquela caminhada? Talvez tudo isso nos ajude a nos libertarmos um pouco da corrupção do nosso pensamento.

Que não percamos o sono para sermos soldados em vigília da informação. Ao contrário, dormir é uma forma de nos restauramos do bombardeamento diário que a internet, a poluição sonora e visual nos atingem.

E será mais válido “conviver virtualmente” com duzentas pessoas a ter a presença de cinco amigos que sejam reais, ou melhor, leais? Não creio que o mundo virtual seja a melhor forma de ficar em rede. Ao contrário: estamos nos descosturando. A construção de laços não se dá através de telas de computadores, smartphones, entre outras parafernálias.

Nosso tédio será vencido quando nós aprendermos a interpretar o silêncio como uma oportunidade de convivermos com as perguntas sem tanta ânsia de encontrar respostas. Que usemos toda essa velocidade a nosso favor. Não deverá ser um modo de nos distanciamos de nós mesmos, como tem sido, porque pode ser um caminho sem volta. É preciso deixar um espaço vazio para que possamos caber em algum lugar, algo concreto, e não apenas uma conexão tamanho “G”.

Leo Barbosa é professor e poeta

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