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ALGUÉM FELIZ NO ESPELHO

Não voltaremos ao normal. Caso contrário, há milhares de mortes que não terão significado nada. Quem se importa com CPFs cancelados?

Olá novamente. Escrevo de novo sem serviços ou envelopes para depositar estas palavras.

Eu me perdi na cidade que sou. As paredes guardam sentimentos, lugares, memórias, todos eles dentro de mim. Este apartamento em que moro é como a minha cabeça. Para cada lado que vou eu me encontro além das paredes, da mobília, da vida, da minha vida, das ideias, destas palavras.

Descobri que há quartos barulhentos, mesmo sem que eu diga ou faça ou ligue qualquer coisa. Há quartos silenciosos, mesmo com pássaros, grilos e o vento movendo as copas das árvores. Descobri que as panelas comporta um parte da vida que compreende minhas escolhas e elas são borbulhantes e desafiadoras, mas com o tempo as medidas se ajustam com a vontade e eu nutro o corpo. O corpo nutrido permite que todos os quartos se encontrem.

Eu quero apenas exercitar a minha mão, assim as vozes todas parecem convergir para o que sai da minha caneta.

O papel lança vozes que serão ouvidas no tempo. Parece com uma transmissão de ondas curtas, mas em vez de uma antena, basta que exista outro corpo, outros olhos.

As imagens sobrevêm na minha mente até chegar na minha mão e novamente se perdem em intensidade e ruídos.

Eu não vejo a vida melhor. Do outro lado do muro há apenas as medidas imediatistas e alguém se aproveitando muito de outra pessoa que não aproveita nada da vida pelo simples fato que precisa comer pelo seu suor. Li em algum lugar que as crises trazem o melhor do ser humano à tona. Perfeita besteira. A crise ressalta justamente o que o ser humano já se tornou. Na maioria absoluta das vezes não é algo nada bom que vem à tona. E ainda por cima para cuspir na cara de todos.

Fiz batatas hoje. Os vizinhos ouvem músicas sobre traição. Eu me pergunto se todos nos tornamos pequenos como nessas músicas. Fico ouvindo pela porta para evitar jogar o lixo na mesma hora. Eu não tenho nada a trocar com pessoas assim – meus sorrisos inclusive.

Penso em construir um andaime para escrever versos no teto. Isso foi há duas semanas e hoje o teto me desafia a ter meu momento de Michelangelo e gastar os lápis 8B para escrever maldições. As maldições caem do céu como o verbo que cai sobre os homens.

Há alguém no espelho que cantarola feliz.

Hoje eu consigo dormir.

ECOS DO PAÍS DOS MORTOS (três poemas)

OS SEM-NÚMERO

ontem morreram
hoje morrem
amanhã morrerão

“E daí?”

 

 

PAÍS

Não é tão ruim quanto parece.
É ainda pior.

“E daí?”

 

 

ACIMA DE TODOS

três gerações
no leito comum
nem sete palmos
nem país

“E daí?”

 

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QUANDO BATE A SÍSTOLE

À luz da febre, silenciosamente,
ossos, pele e esquecimento.
Já conversamos todos neste corpo.
Afinal não somos o mesmo substrato?
Os mesmos tendões unidos pelo passado?

Quando bate a sístole, todos sopramos
mais um passo e num instante,
seguimos adiante e nos tornamos o inesperado.

Acontecemos no tempo que não alcançamos.
Estamos no mundo, mas não estamos.
Dentro encerramos o mistério da vida:

Não saireis vivo.

 

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QAMPO-SANTO (poesia para tempos de sangue)

i.

a quimera é esperta
invisível
dispersa
no ar
besta fera

ii.

o xadrez tem sua dança
no tabuleiro diversas
distintas seletas
peça após peça avança
a morte é luz e trevas

iii.

sem abraços nem mãos
povoar a pólis
todos deitados inertes
lívidos e sem sonhos
pálidos como preces

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2020 ANO DA PESTE (Beijo aflito)

Oi.

Sei que não tenho escrito muito. Eu me pergunto por que você deixou de escrever. Eu não tenho escrito muito, mas tenho lido muito. Parei com muitas coisas e certas vezes invade a sensação que meus poemas são como a terra e assim devem retornar ao pó como eu. Poucas certezas para expressar. Por outro lado o homem que expressa certezas é um tolo por definição.

Agora isso, peste né? Com arrefecimentos e descrença no século em perdemos as luzes e a razão. Quando olho pela janela eu me questiono se o maior medo dá doença não seria encarar quem realmente somos quando nos olhamos no espelho. E agora não outra pessoa para se olhar além de nós mesmos.

Muita leitura, não é? Seria uma lista interessante se começasse aqui. A leitura é um refúgio dos dias massacrantes e melhor passeio que posso me propiciar. Quando começo a escrever cartas, sei que os versos secaram. Eu coloco o lápis na mão para me exercitar e como não sei desenhar, escrevo qualquer palavra. hoje estas aqui eu envio a você. Claro que não sei quando irei aos Correios. Haverá Correios quando descer novamente deste isolamento? Será que seremos felizes de novo? Será que alguém mais pensa que estas perguntas no plural são insanas? O melhor da felicidade é a ilusão que jamais seremos tristes de novo.

Enquanto a vida parece que me roubou para os afazeres diários, minha mente parece fugir e estabelecer outras importâncias. Apenas meus livros, minhas cartas, tudo além parece simplesmente perda de tempo. Chove tranquilamente lá fora. A chuva pode ser uma bela máscara para os problemas do mundo.
Não sonho, você sonha? Contar o sonho é ordenar o impossível, dar nome ao caos, formular um rumo que não há.

O que eu quero escrever? Quando esta pergunta fica mais alta que a realidade eu percebo que vou escrever sobre o desconforto de não ter o que falar. Isto em si é escrever sobre o silêncio da literatura.

Outro dia percebi que me tornara naquilo que mais me causava estranhamento na infância: os velhos com inúmeros pedacinhos de papel no bolso da camisa. Um guardador de pergaminhos, uma biblioteca de inutilidades ambulante. Não sei por que escrevo memórias em pedaços inúteis de papel. Minha cabeça doi com respostas que não vem, responsabilidades e incertezas. A existência bate seu sino ensurdecedor e o tempo é indiferente. Ainda mais aquartelados que estamos.

Há dias em que saber por onde começar torna-se um desafio do tamanho da vida. Você pensa nessas coisas? Somo obrigados a ter uma resposta? Eu tenho fugas de mim mesmo, aterrorizado. A postura adulta que preciso ter diante de certas pessoas me impede de sorrir. Certas vezes a minha máscara social pesa tanto que quero fazê-la em pedaços ainda no meu rosto. Ontem eu quis chorar sem motivo diversos momentos do dia. O interfone tocou, mas ninguém respondeu. Acendi um incenso. Bebi água. Bebi café também, e vinho e depois água. Coloquei todos os livros de poesia no chão e giro até que pare na frente de um deles e abra em qualquer página. Qualquer leitura faz sentido quando estou imerso. Qual felicidade?

Qualquer linha de diário que se escreva nestes dias soará no futuro como os “diários da peste” medievais. Todos bem, tudo bem, mas tudo mal com aquele desalento beirando o pânico geral. Eu também começo a me sentir afetado pelo clima de desconfiança geral. Sanatório geral, né? Romantizar a situação é um privilégio das classes superiores.

Desliguei o rádio que me fazia sentir como um civil entrincheirado nos escombros da cidade. Há o aqui e o lá e eu sou a terra de ninguém. A guerra invisível não é fria como diziam. As pessoas são frias. Já passa de 20h e a sensação de que algo específico e coletivo, lamenta-se confuso na minha cabeça. A rua molhada reflete apenas ela mesma esta noite.

Abrindo um livro aleatoriamente sua palavras falaram comigo: “Sei que alguma coisa muito importante vai se fazer em mim e é preciso colher o máximo de dados e informação agora para o que vou fazer depois.” Tive certeza que precisei ler isso para encontrar a mim mesmo, para não desesperar, para respirar fundo e colocar a mente em alguma coisa. Uma tarefa, qualquer que fosse, iria me encontrar e com isso a voz sairia.

Tudo parece incerto amanhã. Por isso vou lhe escrever partes deste meu diário e lhe enviar pela internet. Todas as cartas são uma expressão de uma alma carente. Todo trabalho escrito e intelectual é uma carência que prescinde o desejo de ser lido e encontrar validação no outro. Isolado em uma ilha, o náufrago marca a pedra pela sua sanidade; para que sua carência não o domine e nas suas marcas ele encontre a existência do outro nele mesmo. Como o Hemingway escreveu: “O homem não é feito para derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”.

Eu preferia sair e selar tudo isto dentro de um envelope.

Beijo aflito.

*
*Nota: os trechos em destaque são palavras de Mora Fuentes e de Ernest Hemingway, respectivamente.

 

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AULA DE DIREITO (poesia para tempos de sangue)

 

Bandido bom é bandido morto.
Direitos humanos é palhaçada de efeminado.
Aquela roupa, ela ‘tava pedindo.
Tudo puta, tudo preto, tudo viado, tudo poeta.
Essaí, ó. Esseaí ó. Essaí, ó. Esseaí ó.
Alguém perguntou tua opinião?
Segue teu caminho.
Alguém per-gun-tou t’opinião?
Eu já num falei pratutomar teu rumo?
O senhor sabe com quem está falando?
O senhor sabe com quem está falando?
O SENHOR SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?

As leis não resistem à realidade social.

(não resistem)

AMAVIO

se pronuncio o seu nome
uma tempestade de avessos
anuncia-se no poente azul
do meu átrio

trilhas e escarpas
a distância correta
escapa entre os dedos
quando a língua risca
a palavra o ar molhado
carregando o seu nome

era quase manhã era busca
o vento soprava no jardim de vênus
era quase manhã era pausa
a respiração e a reparação
era quase manhã era cansaço
a vida exsudava no espaço

sei seu nome não é fardo
assim cuido que jamais suma
tanto mais pesado se parece à alma
é ainda mais leve quando dorme
leve brisa que floresce calma
leve rosto pousado na minha palma