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SENTIDO

Nas ruas,
entre pernas, autos, semáforos,
debaixo das marquises,
com ou sem saltos,
soam sirenes
(que são passos sonoros da urgência).
A borracha relincha no asfalto
quente.
Tantas pessoas
(suas cabeças quentes)
invadem a esquina, a padaria, a sapataria,
a calçada, a faixa de pedestres,
atravessam o beco e entram
pelo saguão do edifício.
Despacham, debitam, liquidam:
– Está na mão o que você nem precisa!
Ao longo das lojas, ao longo da avenida,
a sinfonia grave
(sua cadência no calçamento)
o viaduto grave,
o coletivo grave,
o suor grave,
os ouvidos graves
(calados)
Na constipada garganta
o grito
(não há).
O apito interrompe
o passo, o intervalo, o descanso.
Não há que se contrariar,
todo andamento é manso.

Quieto no tempo das ruas
o grito
(pavio em chamas)
devora as entranhas de novo.

FILME CLASSE B

Dizem que noites de lua cheia são propensas a acontecimentos estranhos. O contrário também serve. Na verdade, sei lá. Eu não me lembro de tudo. Quem se preocupa em lembrar? Em todo caso, tentarei.

Entrei no bar e lá estava ela. Tinha aqueles olhos que perseguem você. Travam em cima, desejo recalcado, algo que atrai, magnéticos. Pensei em alguém como uma clarividente. Alguém que desvendaria toda a minha vida ali, na minha frente, se ousasse me aproximar. Alguém que me viraria pelo avesso, esfolando moralmente cada palavra minha, como se a língua fosse um chicote. Acho que foi isso mesmo que eu quis que acontecesse.

Corta. Preciso sair da minha cabeça e tentar contar isso mais naturalmente.

Fomos apresentados na mesa, ela já estava sentada e eu cheguei. Havia sido convidado por amigos em comum. Acho que a curiosidade mútua foi tão intensa que minutos depois procurávamos disfarçar, alternando a conversa entre nossos amigos. A conversa circulava, a bebida chegava e os lubrificantes sociais agiam naturalmente. Havia a inevitabilidade do eterno retorno. Inventei isso agora para dizer que sempre encontrávamos um ao outro no rolar da conversa fiada e nossa história recomeçava do mesmo ponto. Ela me olhava bem nos olhos e ordenou de repente que passasse minha perna na dela. Estava quente, esqueci de dizer. Mesmo assim, o que senti foi anormal. Minha perna deslizou pela dela, que estava encharcada de suor. Nunca sentira algo como aquilo. Ela me assegurou que era apenas o calor. Cansei das esquivas e disse a ela que poderia esquentar mais.

Corta. Eu não sei o que eu disse naquela noite. Algo idiota talvez. Algo pensado logo acima do joelho. Algo que foi o mínimo sensível de encontro com o joelho dela.

Estranho foi que no final da noite saímos para lados opostos. Fui numa festa —chatíssima — e retornei ao meu apartamento certo de que não deveria ter saído naquela noite. Moro num daqueles condomínios bunda suja onde tudo é mesmo uma bagunça e os moradores não dão a mínima para porra nenhuma. Dei dois passos no corredor rumo à escada e as luzes apagaram. Fiquei puto e resmunguei algo comigo mesmo que nem cheguei a terminar, minha boca foi tomada de assalto e meu corpo lembrou imediatamente do corpo dela quando as pernas suadas dela molharam os pelos da minha perna. Não estava mais sentindo minhas pernas, esqueci de mencionar. Ela sussurrou tranquila no meu ouvido:

— Estou logo acima de você.

Eu congelei, um mergulho em apneia na escuridão. O mistério mais excitante da minha vida desvendado. Ela morava no andar de cima, era isso?

Corta. Foda-se. Não ordenei os pensamentos de modo claro assim. A adrenalina lembra que a vida é um relâmpago.

Línguas invasoras num corredor escuro. Sei que parece nome de filme classe b. Imaginem como isso impede qualquer um de manter a menor coerência dos fatos. Talvez eu tivesse até revirado os olhos quando ela quis morder-me o peito, bem no meio, era o plexo, o alvo. Arranhava-me com os dentes. Tapei-lhe a boca mais de uma vez pois ela ficava escandalosa quando eu segurava seu rosto com as duas mãos, quase prendendo-lhe pelo pescoço.

— O corrimão tá gelado.
— Em pé mesmo.

Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Ar, ar, sem ar.

Sentamos no chão. Nada a dizer. Ficamos ali parados até o dia apontar. Levantei e abri a porta. Entramos e passei um café. Um gole, os ombros se soltaram, só aí um olhar de carinho mútuo, aquele sorrisinho enigmático que todos temos quando acordamos pela primeira vez com alguém.

Corta. Nem dormimos.

Depois do gole, dos ombros, sorriso, as primeiras palavras de nexo(?):

— Toda a minha vida…
— Huuum!
— Você primeiro!
— Não, você!
— Vai fala!
— Ah, foda-se!

Bocas furiosamente confundidas. Sei que parece nome de filme classe b. Não lembro mais nada. O que eu me esqueci não é mais da sua conta.

TANTAS PERNAS

Anoitece na rua.
O tempo dobra-se em horas,
soalha o agora,
agora, agora.

A lua acima, também nua,
não reflete na quentinha prateada
sem
sobras.

O silêncio invadiu as palavras
ou foi outra morte velada
(invisível)
na calçada?

O rosto na pedra
não tem voz ou cobertas.
Talvez saudades.
Os trajes da memória
com cheiro de merda,
noticia velha,
suturam a cidade
ainda aberta.

Anoiteceu na rua,
nada cobre
tantas pernas.

CONHECIMENTO DA MORTE

Um dia soube a morte e a pensei.
No outro dia, ela veio e me tomou tudo que não era eu.
Então eu soube, o que nos separa é o mesmo que nos continua, e congregamos.
Ela, em sua finitude, humana.
Eu em minha continuidade, igualmente humana.
Nunca mais nada de mim foi tirado.

O BAR DO BEIJO

Todo cronista entende de memórias de bar. Sentado sozinho na mesa, quantas vezes, quem nunca? Destino certo daquele que não suporta nem a própria companhia. A noite é uma mera sucessão de horas indistintas, pois se parecem e passam inexoráveis, mas também sozinhas.

Em certas noites há o violeiro, o cantador do sereno, do amor, seja ele correspondido ou não. Ele sempre fica no fundo do bar. A luz sempre falha ali e às vezes ele perde a letra. Fundamental é não deixar de se envolver pela noite. A bossa soa como se a noite emanasse do violão. As pessoas movem-se lentas, escorregam pelo balcão. O cachorro chega sonolento, como que em câmera lenta – poderia ser também efeito de alguma luz estroboscópica – , e cheira as pernas de todos. Neste momento, o violeiro está tão intimista que o cachorro se chega como se ali houvesse um tapete. O lugar era dele, sob o calor das luzes, que nem acendem mais. O cachorro se deita no lugar onde se iluminaria, caso as luzes funcionassem – sabedoria animal, certamente. O cachorro é o cliente mais antigo dali.

Nos bares mais sofisticados há mesas para fregueses espaçosos e estes, são chamados de clientes. Não é deste lugar que estou falando. Embora exista uma mesa e meia no salão. Há uma mesa e mais quatro cadeiras extra, estas contam como meia mesa. É tecnicamente a mesma coisa, só que sem a mesa. Há uma televisão, que quando não habitada por poltergeists, exibe imagens em vermelho e verde fora de sintonia. Não dura muito. Ninguém ousa desligar esse aparelho. Ninguém menciona que o bar foi erguido com o suor de descendentes de escravos que ainda eram praticamente escravos. Morreram ali, mas não se sabe a história. Eles nunca veriam um aparelho de televisão. O dono do bar diz que por isso não permitem que as imagens fiquem nítidas. Algo como suas freqüências serem próximas. Coisas da ciência inexplorada dos ectoplasmas.

O bar é um ecossistema não estudado. Os estudantes de biologia esqueceram aquele habitat. Alguns cronistas apenas observam, outros não conseguem erguer a cabeça do balcão. O violeiro anterior a este, maledicente, dizia que chutava rato morto enquanto tocava. O dono não gostou. Os fregueses, se conseguissem levantar a cabeça das bordas das catuabas, quinados, traçados e afins, também concordariam com o dono. Maledicente o rapaz, o rato, que era vivo e atuante, antes de dormir fazia o serviço do cachorro espantando os gatos da casa. O dono sente falta do rato. O dono não sabe o nome do cachorro, mas o rato era quase da idade do filho dele.

O filho do dono do bar ficava no caixa e ria com mais dentes que um pacote de pastilhas de hortelã aberto. Nas noites de violeiro, a namorada senta com ele no caixa e pede músicas. Ela gosta de digitar os números e ri quando a calculadora faz um barulhinho calculador. A tecnologia é porreta, ela ria.

A televisão funcionou quando as Torres Gêmeas foram alvo. Alguém levantou a cabeça e pensou que fossem fogos de fim de ano – adiantados, claro. De certa forma, foi mesmo um fim. Quando o presidente negro assumiu o aparelho transmitiu em três cores. Os funcionários passaram a achar que o poltergeist de escravos expressava sua opinião assim.

Uma vez alguém entrou acompanhado. Os bebuns ombreando o balcão levantaram a cabeça. Eles sentaram na mesa, na única mesa. Ela não quis colocar os braços na mesa, era grudenta. O dono passou um pano. Ficou grudenta e molhada e ela fez nojinho. Ele pediu um quinado. Ela disse que era quente. O quê? O lugar, a bebida ou a atitude? Ele disse que o beijasse que ele também estava quente. Foi um beijo pensado, sem abraço, mas sentido, sem língua, mas com entrega, e sincera. O violeiro parou, o cachorro latiu, a televisão funcionou (o filme da sessão coruja era uma pornochanchada, e o filho do dono riu). Os cronistas acordaram e o dono achou que era um gol do América que era comemorado.

Desde então, o bar dos maus companheiros de si mesmo chama-se Bar do beijo.

ANÁLISE E EXERCÍCIO

Aqui tem início o disco. Princípio de Sísifo.
Retorcendo o malho, alimentando a pena,
simulacro ou vendeta: eu não sei o que me recomenda.
Vidros se espatifam na cozinha e serena
a cantilena sussurra vozes no edifício.

Repete-se o refrão, refere-se à matilha.
Transe de coisas, clarão de idéias
Pergunta vida ao universo indiferente
a tudo. Uma silenciosa tarde branca
e infinita. Sei que armazena o tempo em frestas.

Faz-se um corpo de estilhaços, aduncos
cacos nacarados, sulcos e esquinas do sonhado.
Não é jovem, nem manhã; linha a linha fina
tinta sob a quilha navega o nãosser. Não é velha,
nem noite, cem braços cegos espraiam-se e nenhum plexo.

Guardo o tempo inexistente, malmequeres, diamantes,
opaca pedraria de instantes – tudo quase.
Vazam abstrações da realidade e a carne guarda
em si órbitas, espáduas, a cintilância da palavra rara.
Não sou o mesmo que digo, sei que agora não sou antes.

O ETERNO AMORDAÇADO

todas as complexidades rasas
todas as profundidades simples

outro minuto se foi
(- pressinto a morte – cuidado -)
entre ponteiros
a vertigem das horas
marés de memórias

o eterno amordaçado

dois e nenhum
outro algum
um outro
nenhum ser
(\coisoutro/)

cavalga a égua da noite
as chamas do passado