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COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

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ATO PÚBLICO (poesia para tempos de sangue)

eu sei que se atravessasse a rua
atravessasse a faixa
abaixasse a cara
e deixasse a caminhada
minha mão encontraria a sua

eu sei que luta é longa
que a vantagem é pouca
que a boia falta
e ainda por cima a vida
é curta pra levar tanta porrada

eu sei que estamos cercados
que a cidade exuda fogo e esgoto
que as bombas surgem no lugar do diálogo
e que a esperança não vale o que pagam
vergonhosamente ao fim da jornada de trabalho

eu sei que quando atravessar a rua
rompendo a fúria descabida dessa guarda
driblando as botas como um santo de várzea
e surgir invicto de susto borracha e bala
minha vida encontrará a sua e de mãos dadas incendiaremos o país

a poesia explode a realidade

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais

A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

DEPOIS DO ALARME (poesia para tempos de sangue)

acendeu o fogo
o bule e a água pra esquentar
o coador e o pó de acordar
antes da luz a madrugada se cala
a brisa circula nos postes
e o trabalhador tem que se levantar
o corpo se curva à rotina
aos preços
à poeira dos cantos
ao ônibus lotado
o corpo é menor que o bule
o corpo também ferve
o corpo é feito de sono e se ergue
o corpo é o trabalhador sem pertencer ao trabalhador
assim como a vida é bela sem conseguir ser alegre
o que importa o fogo a vida imensa ou menor
ou parte que complete-se em arte

o sono do trabalhador não volta
ainda que se perca
a hora

CATADOR (poesia para tempos de sangue)

passou-se uma noite horrível
esta vida é contar desgraças
e contar os corpos
e cortar a carne
e contar os dias
até o sonho impossível

passou uma viatura pela rua
quando voltou veio com a peste
com tapa na cara costela quebrada
carteira rasgada e fome de guerra
de sangue de gente curvada
inerte deitada sem voz pras balas

os atentados consentidos
os braços do estado estendidos

sem perícia que contenha a realidade

CORTEJO (poesia para tempos de sangue)

Nada mais aqui lhe cabe. Nenhuma fala bela
acompanha a procissão. O baile em velas parte.
Palavras mudas em um sonho, veio abaixo com um tombo,
balbuciou na calçada o corpo.

O beijo da bala e o coice do abate não fazem
jus ao estrago: faltou-lhe sorte. O impacto de um
segundo é todo o impacto do mundo. Diga-se que
nasceu ao contrário. Uns vem à vida e outros, nem tanto.

Receba esta terra, construa em si, como um manto,
a cobertura da pele, da madeira e do pranto.
A morte no baile de fogo dançando do alto e o coro
da liturgia metálica que nunca para de exterminar o povo.