Arquivo do autor:alberto lins caldas

lebre

Julia Lillard

● nu ●
● mas não ha bunda ●
● so musculos abertos ●
● pros olhos dum pintor ●
● porisso não ta nu ●
● ta morto sem pele ●
● como uma lebre morta ●

● sobre a mesa morta ●
● musculos estirados ●
● como numa lebre morta ●
● sem bunda sem caralho ●
● sem peitos sem xoxota ●
● não se sabe nem o q é ●
● mas ta morta ou morto ●

● mas não ta nu ●
● nu jamais e nunca não ●
● apenas musculos ●
● abertos sob a mesa ●
● como uma lebre ●
● antes das cebolas alhos ●
● tomates coetros ●

● jamais nu isso q se abre ●
● sem ser xoxota isso ●
● q se ergue sem ser caralho ●
● quem sabe pro pintor ●
● uma lebre ?ou não ●
● quem sabe sem bunda ●
● seja impossivel viver ●

● nem mesmo um cu ●
● nem uma lingua ou dedos ●
● uma lebre com certeza ●
● sem pele sobre a mesa ●
● mas pode ser uma mulher ●
● morta sobre a mesa ●
● mas é preciso ta vestida ●

● a mulher morta pouco ●
● ou nada importa ●
● mas é preciso saber ●
● saber profundamente se nua ●
● se é carne ou carne coberta ●
● se ha bunda e cu e xoxota ●
● ou algum caralho duro ●

● se for assim jamais ●
● isso não ●
● apenas a carne aberta ●
● duma lebre sobre a mesa ●
● antes das cebolas alhos ●
● tomates coetros morta ●
● com certeza jamais nua ●

*

 

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no centro do deserto

Adrián Pérez ou Man-o-Matic 2

● eis o qeu queria dizer ●
● vcs perguntaram e eu direi não sei ●
● acho melhor tomarmos um cafe ●
● todos vcs são covardes demais ●
● eu diria q possuem vidas repugnantes ●
● vidas bichadas pelas mentiras ●
● nenhum de vcs são o q dizem ser ●

● falta força falta a força da verdade ●
● nenhum de vcs são o q dizem ser ●
● o q fazem é sem sangue e potencia ●
● isso de dizer ate as fezes as fezes ●
● vcs são covardes demais e mais ●
● vidas bichadas pela covardia ●

● falta força falta a força da verdade ●
● é como em vez de criarem mundos ●
● vcs se mijassem como cães na rua ●
● acreditam no q todos acreditam ●
● todos vcs são covardes demais e mais ●
● eu diria q possuem vidas repugnantes ●
● eis o qeu queria dizer ●

● nenhum de vcs são o q dizem ser ●
● isso cria pantanos atoleiros medos ●
● como se o cu fosse o centro de tudo ●
● todos vcs são covardes demais e mais ●
● seria possivel criar mas vcs se mijam ●
● acreditam no q todos acreditam ●
● eis o qeu queria dizer a verdade ●

● não é o fim do mundo nem o começo ●
● simplesmente não conseguirão ●
● dizer qualquer coisa diferente ou nova ●
● qualquer coisa q tenha força de destruir ●
● nenhum corpo de verdade q se mova ●
● por sua propria vontade desejo e dor ●
● tão paralisados entre tempos mortos ●

● paralisados eu posso dizer ●
● numa lingua morta e covarde covarde ●
● lingua repugnante e genocida agarrados ●
● num deus morto como todos os deuses ●
● um deus morto como porco afogado ●
● tentam dizer o de sempre sem saber ●
● eis o qeu queria dizer ●

● não é o fim do mundo nem o começo ●
● vcs sempre foram repugnantes demais ●
● medrosos demais precisam de medalhas ●
● precisam de respeito precisam de algo ●
● enfiado no cu bem fundo e duro ●
● q substitua a coluna aquela q é vertebral ●
● mas so sabem repetir e esperar o vazio ●

● vcs não dizem mas sabem dos espelhos ●
● das dunas dos pedaços de carne e sangue ●
● da violencia q violenta e arranca peles ●
● vcs sabem do horror do horror do horror ●
● vcs cantam o coração o amor do coração ●
● a gentileza aquilo q acontece a vcs ●
● q são de tão repugnantes asquerosos ●

● agarrados na porca morta afogada ●
● vcs apenas continuam no apartamento ●
● machos e femeas negros e brancos ●
● com a porca morta afogada a lingua ●
● repugnantes e covardes demais ●
● pra enfrentarem o horror ate o fim ●
● eis o qeu queria dizer e falta tanto ●

*

alhoporo

Sally Mann - self portraits - 2006-7

● fomos domesticados ●
● comendo macarrão com alhoporo ●
● sob a mesa como deve ser ●
● sem levantar os olhos ●
● sem olhar entre as pernas ●
● das mulheres ●
● sem deixar restos ●

● na verdade ●
● macarrão com alhoporo e molho ●
● de verduras nos deixa fortes ●
● com a devida potencia ●
● o grande vigor q devemos ter ●
● nos alimenta e nos engorda ●
● chega mesmo a nos alegrar ●

● sob a mesa crescemos comendo ●
● tachos de macarrão com molho ●
● e fatias de alhoporo ●
● jamais fizemos um ruido ●
● jamais tentamos falar ou levantar ●
● os olhos pra ver o q havia ●
● entre as pernas das mulheres ●

● é certo q fomos devidamente ●
● domesticados ●
● porisso sabemos o q comer ●
● o q não olhar o q sentir ●
● e engordamos dessa maneira ●
● com certeza engordaremos mais ●
● ate estourar aqui embaixo ●

● sabemos q a razão disso tudo ●
● sob a mesa comendo macarrão ●
● com molho e fatias de alhoporo ●
● é engordar não olhar não falar ●
● e explodir de tão gordos e felizes ●
● porisso nos alegramos e rimos ●
● quando um de nos explode rindo ●

*

a sinfonia

sabotage

● eu sim devo reger a sinfonia ●
● nesse sofa q parece uma cama de bordel ●
● eu q me dediquei e doei alma e sangue ●
● pra domar os sons a natureza doente dos sons ●
● apenas eu terei a devida coragem de ter coragem ●
● a loucura e fisgar cada um deles quando chegam ●
● abarcar com as pernas os braços a sinfonia ●

● não vc q perdeu as pernas na crimeia ●
● perdeu os dedos e os timpanos e me olha ●
● como se eu fosse uma serpente uma aranha ●
● aqui nessa luta sem fim entre arte e morte sim ●
● eu q conheço a sinfonia porq nascera de mim ●
● jamais de alguem como vc aos pedaços ●
● como toda essa gente gente aos pedaços ●

● nem ele q com essa barriga so desfruta do bom ●
● sem saber o amargo visgo da arte da sinfonia ●
● vivendo como um inseto comendo esse bigode ●
● com esses olhos semiabertos e cegos demais ●
● não é a toa q exijo a sinfonia nesse sofa ●
● q parece uma cama de bordel cheia de pavões ●
● com esse couro de vaca inda cheio de sangue ●

● depois dessa luta quando eu vencer ●
● sera de mim q saira a grande sinfonia ●
● aquela q nada respeita do passado morto ●
● nada sente por esse presente entregue no mofo ●
● muito menos forças dum futuro indelicado sim ●
● eu tenho as garras os dentes a loucura a fome ●
● exatas pra ser aquele q criara e regera a sinfonia ●

*

 

entre o beaubourg e notre dame

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● eclipse epilepsia ela dizia ●
● rindo como sempre eu dizia e ria ●
● como ela ria depois q eu ria ●
● eclipse epilepsia eu caia e ria ●
● ria como ela chorava e eu rolava ●
● assim as ruas as sombras eu e ela ●
● eclipse epilepsia e eu me desfazia ●

● eu sempre e logo mordia a lingua ●
● enquanto ela chorava e eu ria ●
● rolando rindo e agora chorando ●
● eu ria ●
● na verdade ela agora ria tambem ●
● enquanto nada dançava mais ●
● mas nos riamos e nos dançavamos ●

● depois iamos andando mãos dadas ●
● do museu ate a ponte e la a igreja ●
● nos olhava e me dizia não é hora ●
● depois desses seculos não é hora ●
● eu dizia a ela o q dizia a igreja ●
● ela ria eu ria indo ate a igreja ●
● de mãos dadas com ela nos riamos ●

● eclipse epilepsia ela dizia ●
● rindo eu ouvia dizendo é a igreja ●
● ela ria eu ria dançando e chorava ●
● eclipse epilepsia eu caia e ria ●
● quem sabe um dia ela dizia e ria ●
● eu rolava e comigo ela e as ruas ●
● eclipse epilepsia e eu me desfazia ●

*

entre alexandria e al guseir

Dino Pedriali

● esse aqui ta morto não demora a sumir ●
● gostava de correr de dormir e se esconder ●
● quis carne quis cafe quis conhaque ●
● quis mulher quis cidades quis o ouro ●
● agora quieto beija terra morde pedras ●
● pois na verdade depois de morto ●
● todo vivente jamais existiu ●

● pode ter sonhado tido filhos e bom cavalo ●
● pode ter abarcado o mundo com as coxas ●
● ter jogado xadrez ter rasgado oceanos ●
● ter comido porcos peixes ou cebolas ●
● ter sido servo ou senhor tudo inutil ●
● pois na verdade depois de morto ●
● todo vivente jamais existiu ●

● isso aqui ta morto e não demora a sumir ●
● aqui nessa areia somem deuses como baratas ●
● homens mulheres crianças e todo o resto ●
● isso chegou ate o fim das coisas e calado ●
● se gritasse malditos barbaros seria inutil ●
● pois na verdade depois de morto ●
● todo vivente jamais existiu ●

● acho melhor deixar esse feliz aqui mesmo ●
● ele não vai mais suar sangrar ou morrer ●
● mas precisamos correr da tempestade ●
● q vem vindo e nos esconder como ratos ●
● procurar a toca de tudo q vive e sofre ●
● pois na verdade depois de morto ●
● todo vivente jamais existiu ●

*

 

parasita

Arko Datta

● esse humor pesado eu digo ●
● mal humor como um tumor eu digo ●
● coisa dormente entre a nuca e a cabeça ●
● escorrendo dura e afiada eu digo ●
● pelas costas ate o olho do cu adentro ●
● bem dentro eu digo ate o estomago ●
● ate ficar devorando o coração o pulmão ●

● ate deixar o sangue sem saber ●
● se vai se vem se estoura se arde se para ●
● subindo pela garganta como uma rata ●
● gravida e cabeluda cheia de fome ●
● ja devorando desde dentro a lingua ●
● entre os dentes agora eu digo ●
● enquanto ela procura a respiração ●

● pois é agora eu digo q é ela quem respira ●
● é ela com a lingua dela q fala ●
● é ela q olha com os olhos dela eu digo ●
● é ela com aquelas orelhinhas q escuta ●
● ela com aqueles dedinhos tortos q toca ●
● ela q se senta sem saber eu digo ●
● olhando a tarde se fuder sozinha eu digo ●

● vem dela agora a dor do figado do baço ●
● a dor dos ovos q pesam como tartarugas ●
● a dor das pernas como pernas de cavalo ●
● quebradas pelo peso do trabalho dos dias ●
● os pes como cascos fendidos e podres ●
● ate esse nojo vem dela e sai amargando ●
● quando ela respira assim pesado eu digo ●

*