Arquivo do autor:alberto lins caldas

circe

yoko ono 2

● se circe soubesse ulysses não teria ●
● a mais nenhum dia mesmo ele matreiro ●
● seria devorado como porco qualquer ●

● tosado nagua quente se circe soubesse ●
● mesmo ele matreiro ulysses não teria ●
● como porco qualquer a mais nenhum dia ●

● seria devorado como pobre coitado ●
● sangrado sem conversa se circe soubesse ●
● a mais nenhum dia como porco qualquer ●

● isso ulyses não sabe como pobre coitado ●
● mesmo ele matreiro se circe soubesse ●
● como porco qualquer sangrado e calado ●

*

hagfish

Pasolini - Sandro Becchetti 2

● quando vem la de cima ●
● um peixe morto uma baleia ●
● um velho pescador uma sereia ●

● mergulho junto ate o fundo ●
● pra me enterrar primeiro ●
● no gozo do figado ●

● inda quente depois as tripas ●
● o coração o bom estomago ●
● a carne q tudo investe ●

● depois de lutar com os irmãos ●
● sair voando na corrente fria ●
● como uma agua viva nua ●

● cheio de fartura e sangue ●
● como leões na borda do deserto ●
● q nos sabemos dos leões ●

● todos nos sabemos dos desertos ●
● aqui ninguem deixa de sonhar ●
● com as dunas e os leões ●

● disso ficamos sabendo ●
● depois de devorar testiculos ●
● dos bons marinheiros do mundo ●

● isso e tudo o mais sabemos ●
● depois de nos devorar depois ●
● q nos mesmos batemos no lodo ●

*

 

 

entfernt

Victoria Will - Philip Seymour 2

● pra percorrer ●
● os 5 metros e meio ou 6 ●
● q separam o quarto da sala ●

● eu e o cocheiro levamos ●
● exatamente 24 horas e meia ●
● sem contar as paradas ●

● é verdade q levanto demais ●
● não so o chapeu mas a mão ●
● o q nos atrasa e atrasa sim ●

● depois sempre chove e chove ●
● depois vem um sol umido ●
● q nos sufoca e estrangula ●

● o transito idiota dos veiculos ●
● o transito dos pedestres tolos ●
● o transito dos animais tolos ●

● 1 xicara de café sim o cafe ●
● 1 xicara de cha com bolo ●
● sempre com chocolate diz ●

● o cocheiro espalhando o capim ●
● pros cavalos q vivem com fome ●
● eu repreendo o cocheiro ●

● q faz q não ouviu tomando ●
● junto comigo as xicaras ●
● seja de cha seja de cafe ●

● se bem q sempre me olha e diz ●
● esse seu quarto é longe demais ●
● essa sala é um inferno sempre ●

● esses cavalos morrem de fome ●
● eu morro de fome tomando ●
● so esse cha so esse cafe ●

● sem um pedaço de carne ●
● uma macarronada com queijo ●
● cogumelos e tomates verdes ●

● porisso eu digo logo essa casa ●
● não é culpa minha nem o cha ●
● nem o cafe nem os cavalos ●

● pra falar a verdade nem vc ●
● pra falar a verdade nem eu ●
● so sei q todos podem ir ●

● do seu quarto ate sua sala ●
● so eu entro nessa incidente ●
● idiota sempre q tento ir ●

● do meu quarto ate a sala ●
● imagine q nunca conheci ●
● o banheiro nem o jardim ●

● imagine se fossemos alem ●
● ate a cidade ou alem o mundo ●
● morreriamos com certeza ●

*

che la dirita via era smarrita

laura cardoso

● hoje roubei o conhaque ●
● dum alemão q dormia antes da ponte ●
● conhaque duplamente destilado eu disse ●

● no ultimo gole ja no meio da ponte ●
● olhando o rio levar pedaços da cidade ●
● bebado ou morto eu disse sobre o alemão ●

● depois fui andando ate o parque ●
● sentado eu gritei uma garrafa de conhaque ●
● duplamente destilado q preciso demais ●

● gritei tanto correndo e parando e correndo ●
● q alguem me entregou a garrafa de conhaque ●
● duplamente destilado com um sabor estranho ●

● porisso so bebi metade andando pelo parque ●
● como fazem os bebados os famintos ●
● os doentes os feridos os loucos ●

● ate ver a ponte a imensa ponte sobre o rio ●
● essa é a razão de ter ido pelo rio rio imenso ●
● como um bebado rindo olhando as aguas ●

● é verdade e não posso negar q so aguentei ●
● ate ver a rua o fim da ponte porisso ●
● voltei me encostei gargalhando ●

● na coluna da ponte com a estatua de ouro ●
● arriei e deitei pra dormir antes de dormir vi ●
● quando um homem levou meu conhaque ●

● andando pela ponte indo pro parque ●
● quem sabe ele fique bebado e esqueça tudo ●
● como um cão atropelado como um velho ●

● desses velhos q morrem no sofa sozinhos ●
● ouvindo vozes e passos dizendo merda merda ●
● merda sempre merda ate q venha esse sono ●

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o vento

Albert Camus - cartier-bresson

● vem o corpo ●
● a beleza a loucura os dias do corpo ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem o sangue q se perde todo dia ●
● o suor a alegria o sem sentido a dor ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem os outros ●
● todos eles com migalhas e os desejos ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem o amor ●
● quase sempre ele vem ele pode existir ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem as palavras ●
● vem com elas as ideias a luta o futuro ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem o passado ●
● ele ja passou mas continua aqui em pe ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem a crença ●
● traz com elas todos os ritos os mitos ●
● vem o vento sim ele vem ●

● vem a luta ●
● mas tudo cai tudo se derrota e some ●
● vem o vento sim ele vem ●

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sr nu

Andreas H. Bitesnich

● é preciso q me apresente ●
● pois me chamam a algum tempo ●
● de sr nu o q muito me agrada e alegra ●

● vendo essas roupas esses sapatos ●
● de casa em casa rua apos rua sempre ●
● ate nos domingos dizem e gritam la vem ●

● o sr nu e correm todos pra ver ●
● as roupas os sapatos as meias anaguas ●
● q eu o sr nu vendo de porta em porta ●

● a partir das 2 horas da tarde em ponto ●
● ate perto das 6 horas da tarde sim sim ●
● porq esse é o meu tempo o q posso fazer ●

● depois corro e me escondo onde é devido ●
● ate o outro dia as 2 da tarde em ponto ●
● ate as 6 quase em ponto quando sumo ●

● não posso dar a ninguem ●
● nem mesmo 1 segundo a mais ou a menos ●
● um tempo fora desse tempo q é devido ●

● assim vivo de cidade em cidade ●
● basta acabarem as casas ruas e praças ●
● q pego a estrada as mercadorias e sumo ●

● ja andei o mundo inteiro 2 vezes e meia ●
● não ha quem não se lembre do sr nu ●
● com suas excelentes mercadorias ●

● inda q isso seja uma violencia ●
● isso de trabalhar com roupas sapatos ●
● meias anaguas tecidos e couros ●

● apenas das 2 as 6 da tarde ●
● sumindo sem nada avisar nem esperar ●
● sequer o dinheiro das ultimas mercadorias ●

● mas sou obrigado a essa violencia ●
● a me esconder onde for devido e acertado ●
● seja em qual cidade for deve ser assim ●

● mas inda é bom ouvir os gritos ●
● la vem o sr nu e suas boas mercadorias ●
● não ha quem não se lembre do sr nu ●

● meus gatos meus gatos e os carrapatos ●
● qualquer hora dessas esses comem aqueles ●
● o sr nu ficara desolado eu berro ●

● sempre pra ninguem se berra hoje em dia ●
● nem eu nem o sr nu q todos conhecem ●
● consegue mais q vender roupas e gritar ●

● meus gatos meus gatos e os carrapatos ●
● sem essas horas o sr nu tava morto ●
● o sr nu e eu teriamos tomado no cu ●

● essa é a grande razão o grande sentido ●
● não haver porra nenhuma de grande razão ●
● de grande sentido e o sr nu gargralha ●

*

minha pessoa prostrado no po

Bruce Davidson 4

● prostrado no po ●
● minha pessoa abre os olhos ●
● adiante sim conchas espinhas de peixe ●

● ossos de gaivota cascas secas de ovos ●
● porisso minha pessoa se levanta e diz ●
● mais a vontade numa roupa de senhor ●

● dessa maneira vieram todos da agua ●
● cada um se entranha no outro no outro ●
● desde fora ate la dentro com deleite ●

● ?é vc judas ●
● prostrado no po minha pessoa ●
● abre os olhos diante as conchas os ossos ●

● de gaivota as espinhas de peixe ●
● as cascas secas de ovos a maresia dunas ●
● o duro inferno das ondas se repetindo ●

● na porra da praia cheia de algas verdes ●
● todas podres desde fora ate la dentro ●
● com deleite o gozo jorrando quente ●

● prostrado no po ●
● isso é bom porq quem não souber voar ●
● passara como sombra na tarde fria ●

● minha pessoa tão agitada como a ave ●
● violentada sob cobertas negras vocifera ●
● ?pra onde ir nessa grande merda ●

● imovel a maresia sobre conchas cascas ●
● secas de ovos ossos de gaivota espinhas ●
● de peixe e a voz violenta ?é vc judas ●

● ?é vc judas ●
● minha pessoa abre os olhos ●
● diante desse nada q bate nas praias não ●

● isso despedaça isso é surdo é cego ●
● não ha potencia não ha sequer os ossos ●
● quebrados das gaivotas destroçadas não ●

● a tempestade as dunas a maresia as ondas ●
● devorando ate o antes a coisa depois ●
● isso despedaça ate o tempo sim ●

*