Arquivo do autor:alberto lins caldas

goya

Vera Crichton - 1924 2

● isso não ha como negar ●
● foi um dia desses ●
● q aquele porra do goya ●
● com aqueles olhos de medusa ●
● admirava corvos sobre cão morto ●
● como morto deveria ta era goya ●
● como agora goya na praia ●

● bicado por corvos ●
● mas não fui eu quem matou goya ●
● não foram com certeza os corvos ●
● nem os q queriam matar goya ●
● ninguem tinha coragem de matar ●
● aquele porra ●
● q foi goya sendo goya quem era ●

● suicidio não digo e repito ●
● porq goya era covarde demais ●
● tanto pra matar quanto pra se matar ●
● era pulha cretino e avarento ●
● isso vcs podem perguntar a todos ●
● qualquer um dira o q tou dizendo ●
● q goya não valia nem merda ●

● q aquelas velas aqueles carvões ●
● aquelas telas martelos e pregos ●
● as tintas os oleos os raspadores ●
● os pinceis q fizeram goya ●
● o q goya pensava quem era e podia ●
● não fizeram goya valer um gole ●
● terminou assim bicado por corvos ●

● sangrado depois de torturado ●
● enquanto era sim bem garroteado ●
● isso jamais ●
● goya era tudo q digo e dizem ●
● covarde e babaovo pra se matar ●
● mas tinha inimigos como formigas ●
● nesse formigueiro onde vivemos ●

● eu mesmo jamais poderia indicar ●
● quem arrastou o corpo morto de goya ●
● pro bico afiado dos corvos ●
● pros admirares dos bons inimigos ●
● q os amigos não vão aparecer ●
● os amigos se é q existem tão sujos ●
● de tão cagados mijados e com medo ●

● goya assim bem servido de corvos ●
● precisa mesmo é dos certos inimigos ●
● porq dos amigos ele teria nojo ●
● ele vomitaria mesmo morto ●
● porq goya criava e goya era deus ●
● porisso não tinha amigos ●
● goya tinha e tera sempre inimigos ●

*

 

marionetes

picasso 2

● essa peça ridicula das marionetes ●
● precisa chegar ao fim eu disse ●
● não ha mais musculos e luzes ●
● não ha mais força nas marionetes ●
● q de tão velhas esquecemos as falas ●
● ate entre nos esquecemos as peças ●
● precisamos mesmo escapar desse fim ●

● algumas entre nos tem coragem e diz ●
● ate o teatro desabou e chove dentro ●
● as cadeiras são florestas de mofo ●
● as cortinas são horizontes desabados ●
● muitas de nos se dissolveram sem saber ●
● nossas peças fugiram com a morte ●
● não sabemos mais dançar ou rir ●

● ja sabemos q as peças mentiam ●
● q cada uma daquelas historias mentiam ●
● q nenhuma de nos jamais representou ●
● porq eram aquelas figuras e cordões ●
● q nos fazia dizer e representar e sentir ●
● é preciso terminar essa coisa ridicula ●
● terminar isso q sempre foi repugnante ●

● se algumas de nos inda tiver forças ●
● é preciso jogar fogo esse fogo no teatro ●
● so assim faremos nossa peça ser real ●
● encenaremos algo verdadeiro e vivo ●
● criaremos as falas os gritos o cenario ●
● assim seremos interpretes de verdade ●
● e a vida se renovara bem alem do lixo ●

*

?why ?why ?why

Joe Cocker 4

● seria assim se fosse certo ●
● ?mas em nome do q ●
● o mesmo é sempre uma coisa pegajosa ●
● com umas asas de mariposa morta ●
● umas unhas de ratazana esmagada ●
● como uma sopa cheia de mofo ●
● quem sabe ate com uns olhos boiando ●

● é realmente porisso q digo sempre ●
● ?why ?why ?why e me acocoro ●
● como aquele q ve um filho ser morto ●
● sem nada poder fazer e diz chorando ●
● ?why ?why ?why mas isso é tolo ●
● isso não passa de uma tolice é dito ●
● porq isso nada quer dizer nem dira ●

● qualquer dia desses isso sera dito ●
●?why ?why ?why e tudo ficara claro ●
● de uma clareza tão violenta e so ●
● se dira por si mesma e rira ●
● ?why ?why ?why sumira sem deixar po ●
● é verdade q dançaremos todos nus ●
● brincaremos ate o outro dia ●

● ninguem tera vontade alguma de dizer ●
● ?why ?why ?why simplesmente e so ●
● todos nos nus trepando a noite toda ●
● rindo bebendo e livres enfim ●
● ?why ?why ?why jamais sera dito ●
● e dormiremos como cães novos ●
● inda mordendo cartilagens e miudos ●

● é verdade q nada disso nos salvara ●
● precisamos de muito mais coragem ●
● precisamos não apenas de culhões ●
● sera preciso primeiro se erguer ●
● deixar de lamber botas e gravatas ●
● deixar de ser um escravo idiota ●
● é preciso cortar muitos pescoços ●

*

mar morto

Jerome Witkin 3

● não encontramos aquilo q procuramos ●
● o novo começo um ponto de apoio ●
● as palavras certas os devidos corpos ●
● os desejos q fazem fluir o mundo ●
● patinamos nessa lama dos donos sim ●
● como se fossemos servos e lampreias ●
● agora é essa dura lassidão esse sufoco ●

● não encontramos aquilo q procuramos ●
● os desejos q fazem fluir o mundo ●
● as palavras certas os devidos corpos ●
● o novo começo um ponto de apoio ●
● agora é essa dura lassidão esse sufoco ●
● como se fossemos servos e lampreias ●
● patinamos nessa lama dos donos sim ●

● recomeçar é haver existido resistido ●
● tudo vazio essa covardia o silencio ●
● essa argamassa sem liga sem força ●
● assim tudo afunda nessa escuridão ●
● seculo pos seculo a mesma escravidão ●
● so os q escrevem os senhores e deus ●
● o formigueiro apodreceu e desmorona ●

● recomeçar é haver existido resistido ●
● assim tudo afunda nessa escuridão ●
● essa argamassa sem liga sem força ●
● tudo vazio essa covardia o silencio ●
● o formigueiro apodreceu e desmorona ●
● so os q escrevem os senhores e deus ●
● seculo pos seculo a mesma escravidão ●

*

glorioso movimento da patria

camilo josé cela

● q querendo eu prestar ●
● um serviço adequado a patria ●
● solicito o ingresso no corpo de delatores ●
● q eu vivendo nessa cidade ●
● creio prestar dados sobre pessoas ●
● sobre condutas e ideias ●
● q podem ser de muita utilidade ●

● q assim o glorioso movimento ●
● q leva o povo pra seu devido lugar ●
● tenha em mim um servidor valioso ●
● com meus serviços de maior eficacia sim ●
● posso ajudar e promover a grandeza ●
● do glorioso movimento nacional ●
● porisso espero a resposta com entusiasmo ●

● a roda do mundo se move com sangue ●
● com a benção de deus e dos senhores ●
● q hoje passam a dominar nosso mundo ●
● a guerra não é triste ela eleva as almas ●
● ela aprimora a vida e é seu segredo ●
● porisso espero boa replica a essa carta ●
● !viva a morte !morte ao pensamento ●

*

cromwell

Victoria Will

● esgotadas as negociatas ●
● uma vez fixados na destruição do inimigo ●
● o exterminio deve ser rapido deve ser exemplar ●

● antes mesmo de olhar em sua direção ●
● devo ter o nome dele pleno e legal num mandado ●
● saidas fechadas a esposa os amigos dele comprados ●

● o herdeiro dele sob meu poder ●
● o dinheiro dele na minha conta o cachorro dele correndo ●
● ao ouvir meu assobio porq ele foi sempre meu ●

● antes que o inimigo acorde pela manhã ●
● o machado ja deve ta com o carrasco e tão afiado ●
● q corte como faca em brasa sobre manteiga feita agora ●

● depois dele morto tratar do esquecimento ●
● matar a esposa matar o herdeiro queimar a casa e tudo ●
● q tenha sido dele ate mesmo amigos e inimigos ●

● apagar seu nome de todos os lugares ●
● pra isso apagar quem dele se recordar quem dele ficar ●
● com uma fatia de passado na carne e assar essa carne ●

● fazer seu dinheiro render e se multiplicar ●
● se tornando outro se tornando ouro e mercadorias ●
● q em nada sejam aquelas do desejo e luta do inimigo ●

● sem demora destruir tambem meus proprios amigos ●
● q sabem tudo e conspiraram comigo e esperam e deles ●
● devera ser tambem a morte e o esquecimento ●

● assar num bom domingo o cachorro e devorar ●
● com molho de aspargos com tomates verdes fritos ●
● tomando um conhaque duplamente refinado e dormir ●

● depois q acordar em casa quebrar os espelhos ●
● rasgar seus travesseiros rasgar os lençois matar ●
● as tartarugas q crio desde q nasceram e me olham ●

● fazer outra vida pra mim mesmo ate esquecer o inimigo ●
● como se fosse preciso sair andando por uma estrada ●
● se perder e com uma arma potente atirar no rosto ●

● de frente pra destruir tudo q o inimigo viu em mim ●
● isso q inda faz lembrar o inimigo e doi sabendo inutil ●
● insuficiente porq o inimigo jamais sera esquecido ●

*

louvadeus

Lee Jeffries

● logo agora ●
● depois dessa longa espera ●
● me aparece esse louvadeus ●
● assim dessa maneira ●
● como se me desejasse ●
● porisso entre suas patas ●
● me arrebata ●

● do chão e começa ●
● a me devorar nessa gula ●
● com essa coisa molhada e dura ●
● q me atravessa e suga ●
● logo agora ●
● depois dessa longa espera ●
● me aparece esse louva deus ●

*