Arquivo do autor:alberto lins caldas

sombras

Picasso - Minotaure - 1933

● vejo sempre a sombra do minotauro ●
● quando fujo e fujo sempre sem parar ●
● sei q é a sombra do minotauro ●
● pelos chifres pelo corpo de touro ●
● pelos urros de touro contrariado ●
● sei q é o minotauro porq sua sombra ●
● é a minha sombra de minotauro ●

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circulo de fogo

Leo Matiz

● fogo tão violento ●
● q arrasta tudo e torra ●
● o q existe na hora mesma ●
● em q pulsa e vive e sonha e luta ●
● sem deixar cinzas po ou vento ●
● apenas os rastros da destruição ●
● se repetem se reproduzem sem fim ●

● pra serem novamente destruidos ●
● na tempestade violenta na hora ●
● mesma em q pulsa e vive e sonha ●
● sem deixar nem o deserto q deseja ●
● ficar no lugar de tudo e nem ele ●
● permanece ao fogo violento q torra ●
● sem deixar cinzas po ou vento ●

● o q existe agora agora mesmo sim ●
● ja passou na tempestade violenta ●
● tão violenta q pensamos q existimos ●
● em passados presentes e vira futuro ●
● tudo torrado a cada nada pro nada ●

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hokusai

Sebastião Salgado

● quantas vezes hokusai sonhou ●
● com as garras das monstruosas ondas ●
● ate conseguir tocar o cinzel e começar ●
● com as unhas os dedos as patas o corpo ●
● monstruoso das ondas q se erguem raivosas ●
● desabando antes das rochas aos berros sim ●
● como animal faminto lutando so pra devorar ●

● praias mas antes mergulha serpente violenta ●
● nas aguas verdazuis do mar q respira se ergue ●
● como bufalo sonhando com hokusai sonhando ●
● com ondas monstruosas com medo do cinzel ●
● medo dos veios na madeira q respira como mar ●
● como bufalo atingido pela flecha mergulhando ●
● num penedo verdazul baleia plena de abismo ●

● flutuando nas dunas de areia do fundo do mar ●
● como se cavalgasse indo convencer hokusai sim ●
● de acordar pegar o cinzel criar a onda as ondas ●
● cavalgando no deserto do medo de hokusai sim ●
● foi dessa maneira q hokusai se levantou sim sim ●
● tomou a madeira o cinzel e vieram violentas sim ●
● ondas o mar inflado verdazul barcos e o vulcão ●

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sapho

La vie d'Adele 2013 - 2

● morro sapho ●
● por teus beijos q passarão ●
● teus seios teu halito de laranja ●
● morro de saudade do teu gozo ●
● minha boca na tua flor e pelos ao redor ●
● tudo q perderei quando teu barco partir ●
● nada como teus pelos sedosos teu gozo ●

● ao redor da minha dor quando vc goza ●
● me olhando espantada como um potro novo ●
● olha os olhos da noite e ouve morcegos ●
● horas borbulhando na minha boca ●
● teu canto gritos como o sono q nos toca ●
● assim eu durmo entre teus pelos sedosos ●
● sonhando os mesmos sonhos teus ●

● assim te vi partindo no porto toda azul ●
● q virão outros corpos outras vozes ●
● outras linguas entre teus pelos sedosos ●
● outras dormindo entre eles e sonhando ●
● os mesmos sonhos teus e acordando assim ●
● como eu agora chorando ao perder teus pelos ●
● teu gozo nosso sono nosso sono nossa dor ●

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pere lachaise

ragnar axelsson 4

● neve nevoa ●
● redemoinho de fumaça ●
● corpo de nada nada nonata ●
● rodopia no meio da estrada ●
● a rua a rua desaparece lama ●
● de neve de nevoa de nada ●
● os muros pesados dos mortos
● não entram no redemoinho ●

● redemoinho de neve nevoa ●
● fumaça corpo de nada nonata ●
● nada a rua a rua desaparece ●
● lama de neve de nevoa de nada ●
● os muros pesados dos mortos ●
● peso não entra no redemoinho ●
● ossos demais alem dos muros ●

● não entram no redemoinho ●
● os muros pesados dos mortos ●
● de neve de nevoa de nada ●
● a rua a rua desaparece lama ●
● rodopia no meio da estrada ●
● corpo de nada nada nonata ●
● redemoinho de fumaça nada ●

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eies ta fund ku

LES PONTS DE SARAJEVO

● cade podina flu ●
● ednaria graafa tu ●
● cade infri carde ●
● mom viragh parde ●
● au fa tido viraago ●
● li fa tido hamago ●
● cade podina flu ●

● slonia podia kuu ●
● pratula smirga ta ●
● tu infriq y heiddka ●
● maika tuah xamina ●
● fuca nozel puraka ●
● gass mom krabella ●
● slonia podia kuu ●

● vano slovano tuu ●
● dedey losq tuuo ●
● vanitis fu y wuoo ●
● maternutum cadez ●
● sgk sgot zapatez ●
● va vivt vormbatez ●
● vano slovano tuu ●

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minha senhora

DUARTE VITORIA 2

● minha senhora ●
● andam lavrando o fogo ●
● isso o tempo faz ja faz tempo ●
● mas agora minha senhora ●
● o fogo chegou em todas nos ●
● fogo sobre tudo q somos e vivemos ●
● o fogo minha senhora tudo devora ●

● depois arrastam os restos rasgados ●
● ate o lodo e jogam como cães mortos ●
● grito porq tamos com muito medo ●
● queimam seja na terra seja no mar ●
● nas ruas nas casas nas palavras ●
● porisso se riem tanto de todas nos ●
● como riem as crianças dos palhaços ●

● florestas ardem como carne de porco ●
● nossos cabelos estalam como capim ●
● esse nosso tão querido capim seco ●
● das vassouras q não voam mais ●
● tamos desaparecendo como sapos ●
● fugindo como aves depois de tiros ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

● tão todos loucos delirando no horror ●
● famintos da nossa carne no pantano ●
● nossa carne nas mesas carne aos cães ●
● perderam a vergonha o medo e riem ●
● antes de nos amarrarem pra morte ●
● isso vai demorar demais demais ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

● minha senhora ●
● alem de nos eles matam o diferente ●
● os q não vivem como eles não creem ●
● como eles não dormem como eles ●
● os q não sonham como eles e riem ●
● matando os q não riem como eles ●
● eles são verdes demais demais ●

● a terra ta em transe verde oliva ●
● em transe de serpente faminta ●
● verde demais e todos tão verde ●
● oliva o resto de nos ta morrendo ●
● como insetos como ratos e gado ●
● não ha onde não ardam fogueiras ●
● tudo é verde oliva e desalegria ●

● desaprendemos a voar e caimos ●
● nas teias porq não vimos os sinais ●
● os q se calam com medo esperam ●
● a morte a tortura ou se matam ●
● no ar minha senhora ha muito riso ●
● muita alegria e multidões dançam ●
● nesse carnaval q vai custar demais ●

● tudo isso foi construido por nos ●
● não destruimos o ovo da serpente ●
● temos q nos calar isso nos deforma ●
● logo logo seremos como vermes ●
● fuja minha senhora enquanto é tempo ●
● isso vai demorar demais demais ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

 

 

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