Arquivo do autor:alberto lins caldas

eies ta fund ku

LES PONTS DE SARAJEVO

● cade podina flu ●
● ednaria graafa tu ●
● cade infri carde ●
● mom viragh parde ●
● au fa tido viraago ●
● li fa tido hamago ●
● cade podina flu ●

● slonia podia kuu ●
● pratula smirga ta ●
● tu infriq y heiddka ●
● maika tuah xamina ●
● fuca nozel puraka ●
● gass mom krabella ●
● slonia podia kuu ●

● vano slovano tuu ●
● dedey losq tuuo ●
● vanitis fu y wuoo ●
● maternutum cadez ●
● sgk sgot zapatez ●
● va vivt vormbatez ●
● vano slovano tuu ●

*

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minha senhora

DUARTE VITORIA 2

● minha senhora ●
● andam lavrando o fogo ●
● isso o tempo faz ja faz tempo ●
● mas agora minha senhora ●
● o fogo chegou em todas nos ●
● fogo sobre tudo q somos e vivemos ●
● o fogo minha senhora tudo devora ●

● depois arrastam os restos rasgados ●
● ate o lodo e jogam como cães mortos ●
● grito porq tamos com muito medo ●
● queimam seja na terra seja no mar ●
● nas ruas nas casas nas palavras ●
● porisso se riem tanto de todas nos ●
● como riem as crianças dos palhaços ●

● florestas ardem como carne de porco ●
● nossos cabelos estalam como capim ●
● esse nosso tão querido capim seco ●
● das vassouras q não voam mais ●
● tamos desaparecendo como sapos ●
● fugindo como aves depois de tiros ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

● tão todos loucos delirando no horror ●
● famintos da nossa carne no pantano ●
● nossa carne nas mesas carne aos cães ●
● perderam a vergonha o medo e riem ●
● antes de nos amarrarem pra morte ●
● isso vai demorar demais demais ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

● minha senhora ●
● alem de nos eles matam o diferente ●
● os q não vivem como eles não creem ●
● como eles não dormem como eles ●
● os q não sonham como eles e riem ●
● matando os q não riem como eles ●
● eles são verdes demais demais ●

● a terra ta em transe verde oliva ●
● em transe de serpente faminta ●
● verde demais e todos tão verde ●
● oliva o resto de nos ta morrendo ●
● como insetos como ratos e gado ●
● não ha onde não ardam fogueiras ●
● tudo é verde oliva e desalegria ●

● desaprendemos a voar e caimos ●
● nas teias porq não vimos os sinais ●
● os q se calam com medo esperam ●
● a morte a tortura ou se matam ●
● no ar minha senhora ha muito riso ●
● muita alegria e multidões dançam ●
● nesse carnaval q vai custar demais ●

● tudo isso foi construido por nos ●
● não destruimos o ovo da serpente ●
● temos q nos calar isso nos deforma ●
● logo logo seremos como vermes ●
● fuja minha senhora enquanto é tempo ●
● isso vai demorar demais demais ●
● nosso tempo passou e nem vimos ●

 

 

*

todos nos depois do incendio

cimitero staglieno - comune di genova

● não sabemos de onde viemos ●
● ha tanto tempo talvez duma pocilga ●
● onde quase todos nos eramos porcos ●
● talvez duma igreja velha dum padre ●
● fornicador invejoso covarde punheteiro ●
● talvez das prisões por crimes demais ●
● talvez das feiras roubando migalhas ●

● quem sabe do trato rude da terra ●
● batatas cenouras beterrabas cebolas ●
● por seculos antes sem se dar conta ●
● sem sonhar saber sonhar isso jamais ●
● so as raizes da terra os senhores ●
● deus perverso matando aleijando roendo ●
● dissolvendo tudo como baratas cega ●

● comedores das pulgas dos senhores ●
● q eram senhores sem saber porq e sim ●
● mas as pulgas nos matavam a fome sim ●
● como faziam os ratos no fim da tarde ●
● olhando pros outros sem ter o q dizer ●
● ?dizer o q ?dizer pra q basta esse ser ●
● assim veio o tempo q demora e arrasta ●

● nos barcos pro outro mundo o novo sim ●
● aqui somos outros mas continuamos sim ●
● escondidos comedores de pulgas sim sim ●
● nos coçando no escuro covardes sim sim ●
● comedores de ratos no fim das tardes ●
● imitado os senhores q imitam senhores ●
● q imitam senhores todos sem saber sim ●

● na terra nova devoramos quem vivia aqui ●
● devoramos tudo como ratos ate o fim ●
● nada fizemos pra mudar a covardia o dia ●
● nenhuma noite sonhamos so mentimos ●
● dizendo q sonhamos e os senhores todos ●
● como ratos dos fins de tarde ordenando ●
● nossa vida nossa lingua nosso tempo ●

● arrastamos como torras de madeira ●
● escravizados povos sem fim tantas linguas ●
● tantos deuses comidas musicas amores ●
● o q fizemos foi tornar todos eles porcos ●
● reis artistas guerreiros mulheres e crianças ●
● q ardessem como vermes e pra tubarões ●
● nenhum deles comedores de pulgas ●

● nos comedores das pulgas dos senhores ●
● labios nos sacos ensebados dos senhores ●
● obedecemos como obedecemos o medo ●
● nunca nossa terra nossa lingua e casa ●
● jamais nossos caminhos jamais a alegria ●
● devorando a carne suja dos senhores ●
● so as pulga fizeram nosso mundo ●

● de tempos em tempos um incendio ●
● pra nos testar com outra vida outra força ●
● outro povo alem de comedores de pulgas ●
● incendio violento feito pelos senhores ●
● pra ver se somos o q somos de vera ●
● e vemos nas sombras nossa imagem ●
● vemos enrola bostas comendo pulgas ●

● alegre fazemos festas vamos as praias ●
● fazemos versinhos e canções ao amor ●
● dizemos ?é ilusão como rola bostas não ●
● gigantes adormecidos no verde oliva ●
● oceanos povo heroico e vara no anil ●
● sombras q mentem tomam cervejas ●
● jamais enrola bostas comendo pulgas ●

*

tristeza essa noite em paris

joyce

● cantos de baleias na noite ●
● pingos de chuva fria fria ●
● sempre fria demais demais ●
● cantos de baleias na noite ●
● sangue e tristeza na noite ●
● vento não sabe cantar ●
● são as baleias as baleias ●

● nada q voa o mar o mar ●
● sal correndo pela noite ●
● tanta tristeza a tristeza ●
● so esse frio esse sangue frio ●
● sobras sombras e sombras ●
● enquanto a vida descanta ●
● são as baleias as baleias ●

● vento não sabe cantar ●
● sangue e tristeza na noite ●
● cantos de baleias na noite ●
● sempre fria demais demais ●
● pingos de chuva fria fria ●
● cantos de baleias na noite ●
● são as baleias as baleias ●

● so as baleias inda cantam ●
● sangue e tristeza na noite ●
● sal correndo pela noite ●
● sobras sombras e sombras ●
● cantos de baleias na noite ●
● pingos de chuva fria fria ●
● sangue e tristeza na vida ●

*

os miolos o poeta e a faca samurai

jean-pierre ceytaire 3

● sobre a mesa ●
● sempre sobre a mesa ●
● de madeira velha e chula ●
● os grandes miolos do poeta vivo ●
● ?ou seria de boi como na fabula nula ●
● isso é preciso dizer porq o poeta vivo ●
● olha longe cheio de duvida e não ri ●

● bem ●
● vamos pois os miolos podem se partir ●
● podres como uma fruta q cai da arvore ●
● uma faca bem afiada é indispensavel ●
● afiada é indispensavel e japonesa ●
● como espada samurai ●
● é indispensavel ●

● continuemos sem o bem ●
● corte os miolos sem medo ●
● como cortando miolos de boi ●
● tire a pele corte no meio e olhe fixo ●
● pro centro dos miolos do poeta vivo ●
● vera o imenso vazio doce e cristão ●
● miolos dum cruzado em jerusalem ●

● ou mesmo continuemos ●
● uma coisa de algodão ou assucar ●
● q deve depressa ser esgarçada ●
● se de algodão ou rasgada se de assucar ●
● jamais por esse assucar na boca ●
● nos sonhos ou esse assucar nos olhos ●
● o poeta ta sentado acho q muito palido ●

● agora lave esses miolos bem lavados ●
● com agua pra tirar aroma costume e terror ●
● leve isso ao poeta e coloque ali essa massa ●
● onde é o devido lugar e vera o poeta ●
● sem rir desaparecer como pulga ●
● agora voltemos a mesa pois o tempo exige ●
● tratar de muitos corações de poetas ●

● todos amargos da lingua das crenças ●
● covardia e desejo de algum poderzinho ●
● nome historias ideias zinhas cervejas ●
● massa sempre doente e crente de tudo ●
● quando o poetinha recebe a nova massa ●
● se espanta se cansa não acredita chora ●
● poetas choram inutilmente tão inutilmente ●

● de repente o poeta descobre q não ha amor ●
● não ha deus natureza machos e femeas ●
● negros e brancos não ha povo e lingua ●
● q o universo é abstração perversa ●
● abelhas cogumelos serpentes sereias ●
● explorações torturas gulas e avarezas ●
● o horror freve como merda quente ●

● o poeta correndo ladeira abaixo ●
● sente q ele não existe nem importa ●
● q o mundo não existe so o horror ●
● o trabalho q tortura o parto a morte ●
● a dissolução absoluta nem o nome ●
● o poeta desaba e rola pela ladeira ●
● nem palavras podem dizem a fome ●

*

antes de dormir

roger ballen 2

● entre riso e gargalhada ●
● o horror me esfola indigno ●
● apartando a pele o sangue da carne ●
● a carne dos ossos cada viscera ●
● vejo a lingua primeiro as mãos os dedos ●
● depois pernas e braços cada entranha ●
● figado intestino olhos postos diante ●

● o q me leva a cantar ●
● sem instrumentos apenas palavras ●
● mesmo sem carne sem lingua e medula ●
● nem mesmo ossos q sustentem a voz ●
● so ao redor assustados os mornos ●
● os nulos os q não sonham ou miram ●
● canto quase rugindo quase mugido ●

● so assim ele vem violento e perverso ●
● trazendo a loucura de fazer doer e doi ●
● canto sem deuses sem pai sem mãe ●
● nem mesmo a musica dos patrões ●
● so a palavra nua a vida nua a dor nua ●
● pra cantar contra o horror q retorna ●
● com laminas afiadas sem saber cantar ●

● deve ser por isso q ele me esfola ●
● ele não sabe cantar apenas tocar ●
● aparelhos de morte ruido fumaça ●
● aparelhos de metal e madeira morta ●
● jamais a vibração do esperma da terra ●
● canto de guerra na caça sem cansaço ●
● contra tortura violencia e desrazão ●

 

 

*