Arquivo do autor:alberto lins caldas

o animal

Karl Ove Knausgård

● o serviço era simples ●
● devia velejar ate determinada ilha ●
● embarcar um selvagem q taria esperando no porto ●
● voltar com a mercadoria e pagavam bem ●
● na verdade eu tava enjoado de olhar o mar ●
● cheio de vontades misteriosas ●
● louco pela loucura violenta do mar ●

● sem pessoal sem dinheiro o navio apodrecendo ●
● com este negocio q aceitei sem pestanejar ●
● comprei tudo reuni homens parti ●
● quando a mare tava vazante ●
● os ventos os melhores q um capitão pode desejar ●
● enchi os pulmões de oceano e remocei ●
● uns trezentos anos ●

● nada igual a vida no mar dizemos nos ●
● os marinheiros de coração ●
● havia dinheiro no cofre e muito mais ●
● esperando na entrega ●
● chegando la assinei toneladas de papel ●
● comprovando ser o responsavel pelo selvagem ●
● e ele foi trancado numa jaula no porão ●

● mas a volta demorou demais ●
● e me vi entregue a mais negra melancolia ●
● mandei subir a jaula la de baixo com o selvagem ●
● talvez ele me alegrasse ●
● pelo menos teriamos uma cara diferente no conves ●
● isso de ter sempre o mesmo é coisa de gente da terra ●
● q se agarra como carrapato a um lugar e morre ali ●

● a gaiola não era grande ●
● o pobre inda tava vestido como se veste seu povo ●
● quase não podia se mexer ●
● era desumano demais e mandei soltar ●
● a principio não quis sair pensando ●
● q fosse uma caçada por dentro do navio ●
● mas em pouco tempo nos acostumamos entre nos ●

● os homens fizeram amizade com ele ●
● mas da minha parte não quis aproximação ●
● os dias demoravam a passar e o mar não ajudava ●
● nos achegamos devagar ●
● mas em pouco tempo eramos os maiores amigos ●
● ele contou sua vida os costumes da sua gente ●
● palavras bonitas do seu idioma e cantos da noite ●

● chegou a dormir no meu camarote e ao meu lado ●
● comia na grande mesa ●
● contei segredos intimos q jamais havia revelado ●
● pescamos os violentos peixes do oceano ●
● e nos tornamos irmãos ●
● cortamos os pulsos e os unimos ●
● pra q o sangue confirmasse aquela irmandade ●

● chegando ao porto paguei aos marinheiros ●
● organizei o navio pus as contas em dia ●
● ao meu lado o irmão de sangue sorria ●
● satisfeito em tambem se sentir capitão ●
● pedi q se vestisse como antigamente ●
● e nos pusemos a caminho ●
● como mandava o contrato ●

● la ele foi apresentado aos senhores ●
● q haviam me encarregado o serviço ●
● fui bem pago e mais uma comissão ●
● a mais inda foi acrescentada quando ●
● meu querido amigo e irmão foi entregue ●
● ao “museu dos estranhos animais empalhados” ●
● pra ser preservado das maldades do tempo ●

*

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vultus

Dino Valls 3

● caminhar nessa noite escura ●
● como se vai por um sonho ●
● sem saber quem se esconde ●
● entre as coisas indisiveis ●
● quem nos olha escondido ●
● sabendo o q sempre torceu ●
● como a gaivota ao pombo ●

● caminhar nessa noite escura ●
● sim basta abrir as asas flanar ●
● q o q chegou vai se guardar ●
● em nossa carne pele e ossos ●
● e nunca mais esqueceremos ●
● isso q recria sua toca em nos ●
● pondo bem aqui suas crias ●

● caminhar nessa noite escura ●
● como se não houvesse serpe ●
● nem o mal procurasse casa ●
● lugar apenas nosso o desejo ●
● q se deforma e se torna medo ●
● basta abrir os olhos na noite ●
● pra isso se mover na treva ●

*

 

 

celibatarios

Rui Palha

● os maridos não ●
● mas os celibatarios sempre voltam ●
● os serpentarios devoram as seis em ponto ●
● sua vasta refeição guilhotinada e nua ●
● se não fosse assim ●
● como subir essas escadas violentas ●
● q torcem tanto musculos quanto tendões ●

● os maridos não ●
● mas os celibatarios perdem a voz ●
● enquanto a lingua pega fogo e se reparte ●
● se multiplicando em serpentes assadas ●
● q os serpentarios adoram toda noite ●
● se não fosse assim nenhuma escada ●
● consumiria carne desejo e força ●

● os maridos não ●
● mas os celibatarios cavam a terra esteril ●
● com a mais impiedosa beleza ●
● deixando pros serpentarios os frutos ●
● imaginarios dessa terra q foi ate floresta ●
● mas hoje não passa de deserto em brasa ●
● nos sonhos inuteis dos maridos ●

● os maridos não ●
● mas os celibatarios podem caminhar ●
● entre camelos mascando tamaras e ovos ●
● cozidos de serpentes q devoram pombos ●
● enquanto serpentarios gritam desesperos ●
● quando a treva vai parir berrando ●
● a mais impiedosa beleza ●

*

 

 

albatroz

aye aye

● nada mais q a beleza do patrão ●
● as coisas feitas perfeitas para o patrão ●
● o marmore o cimento as telhas as ruas ●
● os livros os quadros as putas nas portas ●
● quantos hoteis quantos bancos e praças ●
● tudo com a mais perfeita e seria simetria ●
● tudo feito pra alegria do patrão ●

● nada mais q a beleza do patrão ●
● coisa dele entre as coisas dele pra ele ●
● a catedral o poema o romance a epopeia ●
● o alfabeto a revolucão deus e a terra ●
● o q permanece o q some o esquecimento ●
● o q se sabe a musica o dinheiro os filhos ●
● poetas recebendo medalhas pela servidão ●

● o rio o mar os portos a loucura os corpos ●
● a solidão como uma faca afiada na nuca ●
● nada mais nada menos o antes o agora ●
● todo o depois sem esquecer as estrelas ●
● nem a fome infinita no universo e alem ●
● a matematica a geometria e os porcos ●
● nada mais q a beleza do patrão ●

● o albatroz se despedaça na torre ●
● silenciosamente ate o chão entre penas ●
● trabalhava em la motte piquet grenelle ●
● agora jogam agua e se vai os restos ●
● vem vindo um frio de lascar o cano ●
● alguem diz amanhã não havera albatroz ●
● nada mais q a beleza do patrão ●

*

paris v

tourada 2

● essa materia sutil ●
● entre os corpos sensiveis ●
● esse nada q apenas a dor compreende ●
● lamina diversa do confuso existir ●
● agora fuma agora degusta camarões ●
● dorme entre malas de dinheiro ●
● dizendo ?quantos corvos num telhado ●

● é certo creio mesmo certissimo ●
● q essa materia sutil entre os corpos ●
● agora não tão sensiveis ●
● morde ate o osso estalar ●
● rindo com o gosto particular ●
● tão particular eu diria ●
● desse tutano entre carne e sangue ●

● ao redor ele diz ●
● um grama de carne sem sangue ●
● basta um pouco de tutano ●
● como ovas de esturjão eu diria ●
● mas ele rodopia quase voa voa ●
● nesse nada q apenas a dor compreende ●
● tão particular eu diria ●

● carne negra ossos tostados cinzas ●
● menos seria ofensa persistencia eu diria ●
● justo no fim do mundo ele diz ●
● pulando como criança ●
● quanto riso quanta alegria eu digo ●
● um grama de tutano e sangue ●
● nesse nada q apenas a dor compreende ●

*

 

paris iv

  USA. Teviston, California. 2001. Boy with an old farm truck.

● ?onde os ovos ●  

● dos corvos no silencio ●  

● desse crocitar ●  

● ovos de silencio ●  

● postos no silencio ●  

● desse crocitar ●  

● cevados por nos ●  

  

● ?onde se partem ●  

● os ovos dos corvos ●  

● q não crocitam mais ●  

● ?por q tão aqui ●  

● perto demais ●  

● dentro demais ●  

● saindo do silencio ●  

  

● agora voamos ●  

● entre casas e arvores ●  

● crocitando ●  

● devorando grãos e gralhas ●  

● pondo ovos ●  

● agora sabemos ●  

● no silencio ● 

 

paris iii

Bukowski
● os corvos sobre a mesa devoram ●
● todos os grãos as pequenas frutas ●
● guardadas desde o verão passado ●
● rasgam o pão bicam o miolo do pão ●
● deixando so a casca vazia do pão ●
● destroçando a torta inda quente de maçã ●
● flanam sobre as macieiras rasgadas ●
 
● os corvos desmancham nossos cabelos ●
● quebram vasilhas copos xicaras pratos ●
● deixam sobre os moveis no po ●
● a marca das patas unhas e passos ●
● crocitam desde la embaixo ate aqui ●
● como se dissessem se cuidem ●
● mesmo sendo sempre tarde demais ●
 
● os corvos devem tocar fogo na casa ●
● depois nos bicarão tanto e tanta a fome ●
● q nem nossos ossos dentes e unhas ●
● vão servir pro deserto q ja começou ●
● isso tudo se sabe e nada se faz ●
● mas isso é normal deve ser normal ●
● se fosse diferente nada seria visto ●
 
● os corvos ja comeram nossos olhos ●
● porisso essa loucura sem fim sim ●
● estouraram nossos timpanos sim ●
● destroçaram tudo q podia ter sido ●
● a verdade sucumbiu a força e violencia ●
● agora essa nuvem de corvos risonhos ●
● concluirão tudo o q tentamos criar ●
*