Arquivo do autor:alberto lins caldas

entre nos a sombra sem sonhos

roger ballen - 1993

● a terra de nos crianças ●
● se povoa de sombras q tragam sonhos ●
● com dor sincera me esmaga o coração ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● como aquilo q jorra do pensamento ●
● não ha pecado não ha punição ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● o sangue do odio q vem do nada ●
● ao odio voltara como dura fome ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● incendios q consomem carne e ossos ●
● nenhuma honra nem uma alma reta ●
● nem um amor quieto de grande alegria ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● digo apenas volto ao fundo silencio ●
● olhos sem movimento lingua chamas ●
● girando entre cegos numa multidão ●
● cegos todos eles surdos entorpecidos ●
● criaturas q se misturas com a chuva ●
● com dor sincera q devoram mortos ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● na carne apenas a essencia escura ●
● o q doi o q esmaga o q tritura e roi ●
● nada a altura dum simples rato morto ●
● na terra de nos crianças nada se eleva ●
● so inimigos a estancia escura e a dor ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

*

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instruções pra um ano prospero

Auschwitz 2

● podem bater bater e bater ●
● podem esfolar bater e bater ●
● podem arrancar dedos e unhas ●
● bater e bater ate cansar e bater ●
● depois cortar em partes e bater ●
● como se faz com as galinhas ●
● gado porcos negros velhos ●

● mulheres gays pobres surdos ●
● revoltados cegos tarados tudo ●
● esquerdistas anarquistas tudo ●
● q não for um de nos e cantar ●
● a santa milagreira ao pastor ●
● nisso continuar batendo bem ●
● como faz parte da grande vida ●

● sim so assim muda se purifica ●
● sim se edifica o novo mundo ●
● com a morte do q se deformou ●
● ate a lama e exige ser lavado ●
● sim sim com sangue de indios ●
● com sangue de tudo q não é ●
● branco todo branco sempre ●

● a morte a morte a morte bater ●
● ate q não reste senão a morte ●
● a grande morte q limpa a vida ●
● de todas as suas deformações ●
● o q faz sofrer e sossofrersso ●
● so porq não somos nos alegria ●
● no fim cova rasa cal e pedras ●

*

depois nem as penas

brassai notre dame de paris

● voltei e vou jantar ●
● aqui é quase sete da noite ●
● tou deixando de ser do deserto ●
● isso me preocupa e instiga ●
● logo não saberei quem sou ●
● e pensando ser um corvo ●
● vou gargralhar entre pontes ●

● buscando alem do voo a altura ●
● como quem purifica o ar ●
● planta a dor e olha o mundo ●
● depois pula do predio mais alto ●
● pra voar mais e fazer noites ●
● esquecido não so do deserto ●
● mas do q não foi ●

*

 

morrer

PJ Wright

● jogaram veneno nas fontes ●
● ao redor definhamos cegos falsos ●
● sem saber o q fazer e fazendo errado ●
● exaustos de todas as nossas devastações ●
● das desalegrias das traições da escuridão ●
● q sai das nossas lagrimas e suores ●
● do trabalho pros outros e definhamos ●

● um dia ●
● depois de levarem nossas ultimas gotas ●
● de suor sangue esperma leite e lagrimas ●
● deixamos a morte crescer engordar ●
● se tornar maior q nos mesmos ●
● se tornar um tumor q nos devora lambe ●
● como um animal q nos diz agora é tarde ●

● mentimos a alegria a amizade a saude ●
● odiamos desejando o q não somos ●
● depois nos unimos pra morrer ●
● depois de morrer seguimos a comer ●
● trabalhar dormir entorpecidos e mudos ●
● entregando nosso suor pros senhores ●
● a carcaça dizendo isso sim é a vida ●

*

heraclito

homeless-man

● não se põe duas vezes a mão ●
● em nada porq tudo é so uma vez ●
● e essa vez é quase nada de nada ●
● não chega a ser sequer uma vez ●
● nada roçando nada sem saber ●
● isso disse heraclito chorando ●
● enquanto a rã pulava nagua ●

● a dor nem chega a doer o gozo ●
● nem chega a gozar o grito nem ●
● chega a gritar morrer nem chega ●
● a se morrer nascer nem se chega ●
● a nascer nem o sol fica um dia ●
● isso disse heraclito chorando ●
● enquanto a rã pulava nagua ●

● o sonho se desfaz antes de ser ●
● palavras não atingem as coisas ●
● pensar se parte antes de juntar ●
● so a ilusão cria e descria tudo ●
● vivendo o q não se pode viver ●
● isso disse heraclito chorando ●
● enquanto a rã pulava nagua ●

*

 

ferroada

Marielle Franco 2

● eu gosto de mel ●
● das asas transparentes das abelhas ●
● do sangue q coagula depois do ferrão ●
● da morte da abelha depois da ferroada ●
● do silencio das colmeias do amargo mel ●
● q guarda a violencia das asas nos favos ●
● q apodrecem todos os dia com essa tristeza ●

*

caronte

Cortazar

● quando viu ●
● entre lodo e azinhavre ●
● no aqueronte duas sombras ●
● caronte abriu largos olhos ●
● e bem murmurou claro e duro ●
● pra q todas nos ouvissemos ●
● sem esquecer nem se perder ●

● um deles eu sei ●
● mortal agora morto e triste ●
● o outro ei de conhecer um dia ●
● me faço de não saber nem sei ●
● e cumpro o q tera q vir e vira ●
● mas antes fecho os olhos ●
● ante tal destino idiota ●

● perco tempo entre brumas ●
● entre trevas q perderam o nome ●
● dormirei o tempo q desejar ●
● sempre sem sonhos e ciumento ●
● rasgando almas como insetos ●
● ate acordar e cumprir as ordens ●
● pondo o barco a caminho ●

● sei o q dizer e o q ouvirei ●
● sei tudo q vira depois a eles ●
● sei q o rio não me perdoara ●
● longe mais longe q o sol ●
● e as estrelas ●
● labirinto de luzes q devoram ●
● quem não aceita logo as ordens ●

*