Arquivo do autor:alberto lins caldas

floresta de corais

SAÍGO

● flutua ●
● com olhos bem abertos ●
● sem nada ver ●
● sem se dar conta ●
● de tantos verdes ●
● tantos peixes ●
● o afogado ●

● correntes de alga ●
● todas tão azuis ●
● quentes e frios ●
● q se chocam no moinho ●
● entre rochas rubras ●
● enquanto baila ●
● sem saber o afogado ●

● todas as palavras ●
● grudadas numa lingua ●
● anemona fria na boca ●
● nenhuma delas pode ser ●
● as nuvens la em cima ●
● nem azuis entre verdes ●
● so rodopia o afogado ●

● com olhos tão abertos ●
● ?quem diria ele não ve ●
● quantos tubarões ●
● é de crua fome a vida ●
● logo logo ele sumira ●
● abismos alem de dentes ●
● se dissipa o afogado ●

● agora ninguem diz ●
● q existiu q viveu q nada ●
● ele agora é tempo ●
● bolhas depois da fina ●
● fatia de nada agora ●
● ele nem flutua ●
● nem nada o afogado ●

*

 

 

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entre nada e nada agora

Elihu Vedder 2

● tão fina a fatia ●
● do ser entre nadas ●
● isso aqui e so ●
● q tudo ja passou ●
● tudo ja foi vivido ●
● sem deixar rastros ●
● nem palavras ●

● nem um gemido ●
● nem as tempestades ●
● os redemoinhos ●
● entre nada e nada ●
● a dor a dor a dor ●
● nem ela demora ●
● a vida a dor ●

*

louvor

WWII LIBERATION KZ BUCHENWALD

● aqui meu povo virou cinza ●
● aqui ouvimos o desespero ●
● bem longe da casa do pai ●
● aqui choramos reunidos ●
● sem o alento da palavra ●
● aqui sentamos despojados ●
● sem ter o q contar ●

● vimos os filhos morrerem ●
● olhos de nunca mais ●
● aqui sonhamos luz e treva ●
● lenha de queimar o tempo ●
● aqui bem aqui no coração ●
● rosto preso na vidraça ●
● distraido louvei ao senhor ●

*

samsara

pietro baroni 2

● todos morrem ●
● eu morrerei tambem ●
● inclusive desejo essa morte ●
● so não compreendo porq não agora ●
● digo q é por covardia ou pela boa saude ●
● isso quer dizer q coloco a culpa de tudo ●
● na covardia no corpo q envelhecera demais ●

● existe a possibilidade qeu não morra ●
● q todos morram mas qeu não morra jamais ●
● digo q isso seria a coisa mais injusta ●
● digo mais se morrendo eu continuar ●
● imbecil como um mamifero gasoso ●
● atravessando paredes vendo ouvindo ●
● idiotas sera na pocilga do inferno ●

● é certo q preciso morrer ●
● q preciso sumir como a chama duma vela ●
● como perde calor a chama duma vela ●
● q dela não reste nem chama nem vela ●
● q de mim nem o nome nem os ossos os dentes ●
● nem coisas nem lembranças nem cinzas ●
● não porq seja um bosta mas porq mereço isso ●

● morrer como porco piolho rato ou deus ●
● não ficar sabendo não se alegrar de sumir ●
● desses sumires de nunca haver existido ●
● nem morrido nem sofrido ●
● nem alegria nem tristeza a chama q se apaga ●
● bosta como eu não se alegra nem na morte ●
● não porq seja bosta mas isso não importa ●

*

 

 

sr speears o deserto o tempo a esfinge

Andrei Tarkovsky - Stalker - 1979

● no centro desse deserto ●
● disso sem vida q se consome ●
● se mordendo se lambendo se rasgando ●
● sr speears encontra a cabeça imensa ●
● da esfinge enterrada porq tudo se roi ●
● se consome diz sr speears isso o tempo ●
● so o existente q se esfarela e nem cinzas ●

● diz isso bem perto da boca da esfinge ●
● como se beijasse o q jamais sera ●
● com as mãos em suas faces ●
● com os braços abertos ●
● ms speears diz não restou nada de mim ●
● nem de vc nem dos nossos mundos ●
● agora so o q sempre foi nada e po ●

● porisso posso rir assim na tua cara ●
● porisso podes ver q digo a verdade e so ●
● assim sr speears gargalha e chora ●
● dizendo a velhice é o pior dos horrores ●
● perversos do tempo pior q o esquecimento ●
● nisso a esfinge diz nem tanto e devora ●
● a cabeça do sr speears q se contorce ●

● nareia como uma cobra sem cabeça ●
● enquanto a esfinge mastiga a cabeça ●
● do sr speears com muito gosto e lambe ●
● nos dentes o sangue dizendo pensar ●
● é perigo sem perdão e disso não se ri ●
● agora posso dormir plena como o tempo ●
● e os miolos do sr speears e sua vidinha ●

*

narciso

Magnus Wennman vann stort

● apenas a vc posso dizer ●
● não me olho jamais me olhei ●
● so aos teus olhos q borbulham entre pedras ●
● cercados de musgo e restos de caramujo ●
● esses olhos q não cessam de me chamar ●
● dizendo narciso esquece o corpo a palavra ●
● mergulha se torna um de nos aprende a fluir ●

● sem peso sem dores sem loucura ●
● sendo so isso q é o tempo o q se dissolve ●
● o q se dispersa o q se espalhar sem ser ●
● forma ou sentido apenas beleza a beleza ●
● redemoiando sem se chamar narciso ●
● sem querer nome historias desejos ●
● vem narciso aqui é o centro do existir ●

*

albatroz

lucian freud

● nada mais q a beleza do patrão ●
● as coisas feitas perfeitas para o patrão ●
● o marmore o cimento as telhas as ruas ●
● os livros os quadros as putas nas portas ●
● quantos hoteis quantos bancos e praças ●
● tudo com a mais perfeita e seria simetria ●
● tudo feito pra alegria do patrão ●

● nada mais q a beleza do patrão ●
● coisa dele entre as coisas dele pra ele ●
● a catedral o poema o romance a epopeia ●
● o alfabeto a revolucão deus e a terra ●
● o q permanece o q some o esquecimento ●
● o q se sabe a musica o dinheiro os filhos ●
● poetas recebendo medalhas pela servidão ●

● o rio o mar os portos a loucura os corpos ●
● a solidão como uma faca afiada na nuca ●
● nada mais nada menos o antes o agora ●
● todo o depois sem esquecer as estrelas ●
● nem a fome infinita no universo e alem ●
● a matematica a geometria e os porcos ●
● nada mais q a beleza do patrão ●

● o albatroz se despedaça na torre ●
● silenciosamente ate o chão entre penas ●
● trabalhava em la motte piquet grenelle ●
● agora jogam agua e se vai os restos ●
● vem vindo um frio de lascar o cano ●
● alguem diz amanhã não havera albatroz ●
● nada mais q a beleza do patrão ●

*