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crônica lusa

Cá me encontro em viagem de trem de Lisboa (onde permaneci por três dias) ao Porto.

Há muito ouço dizer que na Europa a crise grassa. Se é verdade isso,  só posso definir o Brasil como trágico!

Na Terrinha vive-se muito, muito melhor que em Terra Brasilis. Tudo é mais em conta: aluguéis, transportes, alimentação, serviços. O respeito é a tônica. Os carros param quando o pedestre pisa na faixa. As pessoas andam tranquilas a qualquer hora do dia, em todos os lugares. No Rio, é guerra em tempos de Paes.

Não pensem que não amo meu país ou que me iludo. Sei que aqui existem problemas, além de um inverno longo e escuro e certa falta de calor humano tâo caro aos brazucas.

Mas ando cansado de morar num país onde professores são tratados à pimenta e corruptos a pão-de-ló. Cansado de ser explorado por empresas que cobram as tarifas monegascas e prestam serviços paquistaneses. Cansado dos comerciantes enganadores, dos falsos líderes de seitas que dominam as programações televisivas, dos hospitais que deixam os doentes morrer à míngua. Ando farto de ouvir que Deus é brasileiro (sou ateu, afinal) e que o Brasil é o país do futuro. Um futuro que nâo chega. E não chegará jamais. Pois um povo que não lê, não estuda, nâo questiona, nâo critica, nâo é povo. É arremedo.

Ando cansado de Anitas, de Telós, de Claudinhas, de Naldos, de Globos, Malafaias, Bolsonaros e Felicianos. E das pessoas com sorriso de beato afirmando que tudo há de melhorar.

Como se em minha terra nâo dominassem os urubus, mas os sabiás!

noite de inverno

Um dia acordei e percebi: sou velho demais para ser jovem e jovem demais para ser velho!
Que não me venham os psicólogos de botequim com suas frases de auto-ajuda.

Há um momento em que as dores (e as delícias da vida também) se cobram.

Em noites frias como as de hoje, o preço é alto demais!

 

 

A moça da esquina

A moça que vende queijo coalho
Na esquina da minha rua
Tem algo de Frida Khalo:
Olhos díspares, buço cerrado.
Uma vez
Me contou que seu marido
Tinha câncer em estágio terminal.

Depois não tivemos mais intimidades.

A moça que vende queijo coalho
Na esquina da minha rua
Tem os olhos tristes.

 

O rei e o substituto

Na Copa de 62, Amarildo Tavares de Souza substituiu um contundido Pelé e se tornou um dos maiores responsáveis pela conquista do bicampeonato mundial.

Há três semanas, seu xará, o morador da Rocinha Amarildo de Souza, 43, que nunca foi rei nem nada, foi levado como suspeito pela polícia e sumiu, desapareceu, escafedeu-se.

Coincidentemente, as câmeras da UPP e o GPS da viatura policial que o deteve para averiguação não funcionaram na noite de seu sumiço.

As coincidências não param por aí. Quarenta e três anos atrás, ao marcar seu milésimo gol, Pelé disse: cuidem das criancinhas do Brasil! Amarildo era, então, um recém-nascido ou um feto.

Fato é que as criancinhas não foram cuidadas. Principalmente se negras e moradoras das comunidades.

A PM continua agindo como ditadura. E os filhos dos Amarildos continuam chorando.

 

the potato is baking

Papa cancela missa em Guaratiba. “Na lama construístes meu altar, mas nele não poderei rezar.”
Eike Batista já não é mais multibilionário.  Não é mais sequer bilionário. Será este o X da questão? Eike que pobreza!
Cabral continua em queda. Livre, Paes continua se desculpando, O metrô continua parando. Os ônibus, não! Mas não eram peregrinos? Que peregrinem, ora!
Leblon novamente em polvorosa. E o povo? Não crê que Deus vai ajudar? Parece que não. Será?
Apesar do  frio avassalador, a batata está assando!

jornada mundial da velhacaria

Segurança voluntário que assassinou garoto negro de 17 anos nos EUA é absolvido. A Justiça agradece. A indústria de armas também.

Egito: o governo cai. Os militares sobem.

Em frente ao Copacabana Palace, a plebe protesta contra a recepção de casamento da neta de Jacob Barata, “o Rei dos ônibus”. A patuleia atira palavras de ordem. Os convidados, cinzeiros.

Papa Francisco (o Novo) já se encontra na Cidade Maravilhosa para aspergir suas bênçãos.

E a Jornada Mundial da Velhacaria continua.

Algo no ar

É o meio da noite, me levanto
O peito dói, terrível sensação
De algo me empurrando para o canto
E eu indo em nenhuma direção.

Algo que não fiz, e já é tarde
Tarde demais para começar
Meu cérebro explode, alarde
Sinto algo de podre no ar.

Minha vida presa, represada
Nem alegre nem triste, sou estranho
Na derrota não perco nada
Mas, na vitória, também não ganho

É uma voz surda que me cala
E fala baixinho ao coração:
Que a vida é o vazio, o zero, a vala
E que vou morrer de solidão.