Arquivo do autor:victorcolonna

crônica lusa

Cá me encontro em viagem de trem de Lisboa (onde permaneci por três dias) ao Porto.

Há muito ouço dizer que na Europa a crise grassa. Se é verdade isso,  só posso definir o Brasil como trágico!

Na Terrinha vive-se muito, muito melhor que em Terra Brasilis. Tudo é mais em conta: aluguéis, transportes, alimentação, serviços. O respeito é a tônica. Os carros param quando o pedestre pisa na faixa. As pessoas andam tranquilas a qualquer hora do dia, em todos os lugares. No Rio, é guerra em tempos de Paes.

Não pensem que não amo meu país ou que me iludo. Sei que aqui existem problemas, além de um inverno longo e escuro e certa falta de calor humano tâo caro aos brazucas.

Mas ando cansado de morar num país onde professores são tratados à pimenta e corruptos a pão-de-ló. Cansado de ser explorado por empresas que cobram as tarifas monegascas e prestam serviços paquistaneses. Cansado dos comerciantes enganadores, dos falsos líderes de seitas que dominam as programações televisivas, dos hospitais que deixam os doentes morrer à míngua. Ando farto de ouvir que Deus é brasileiro (sou ateu, afinal) e que o Brasil é o país do futuro. Um futuro que nâo chega. E não chegará jamais. Pois um povo que não lê, não estuda, nâo questiona, nâo critica, nâo é povo. É arremedo.

Ando cansado de Anitas, de Telós, de Claudinhas, de Naldos, de Globos, Malafaias, Bolsonaros e Felicianos. E das pessoas com sorriso de beato afirmando que tudo há de melhorar.

Como se em minha terra nâo dominassem os urubus, mas os sabiás!

Anúncios

noite de inverno

Um dia acordei e percebi: sou velho demais para ser jovem e jovem demais para ser velho!
Que não me venham os psicólogos de botequim com suas frases de auto-ajuda.

Há um momento em que as dores (e as delícias da vida também) se cobram.

Em noites frias como as de hoje, o preço é alto demais!

 

 

A moça da esquina

A moça que vende queijo coalho
Na esquina da minha rua
Tem algo de Frida Khalo:
Olhos díspares, buço cerrado.
Uma vez
Me contou que seu marido
Tinha câncer em estágio terminal.

Depois não tivemos mais intimidades.

A moça que vende queijo coalho
Na esquina da minha rua
Tem os olhos tristes.

 

O rei e o substituto

Na Copa de 62, Amarildo Tavares de Souza substituiu um contundido Pelé e se tornou um dos maiores responsáveis pela conquista do bicampeonato mundial.

Há três semanas, seu xará, o morador da Rocinha Amarildo de Souza, 43, que nunca foi rei nem nada, foi levado como suspeito pela polícia e sumiu, desapareceu, escafedeu-se.

Coincidentemente, as câmeras da UPP e o GPS da viatura policial que o deteve para averiguação não funcionaram na noite de seu sumiço.

As coincidências não param por aí. Quarenta e três anos atrás, ao marcar seu milésimo gol, Pelé disse: cuidem das criancinhas do Brasil! Amarildo era, então, um recém-nascido ou um feto.

Fato é que as criancinhas não foram cuidadas. Principalmente se negras e moradoras das comunidades.

A PM continua agindo como ditadura. E os filhos dos Amarildos continuam chorando.