FAZ SOL, MAS EU GRITO

Para Thiago de Mello

I

fartas horas inúteis
em que tragédias são recicladas
e se moldam por entre sombras e gestos desprezíveis
molduras da tarde disforme

ela diz:
“que tempo estranho…”

Estendo as mãos ao vento
algumas gotas ácidas corroem o meu desprezo

Reinvento uns versos esquecidos e ancoro tantas embarcações
em lugar nenhum
Enquanto a nova empresa americana ergue suas cercas

Modulo o tom de voz para não gritar
Mas antes pudesse gritar

II

ruas imóveis sangram
como essa lua vermelha
que escorre
entre os corpos desmedidos
estranhas estruturas de ossos
que sustentam ossos

aguda solidão
d’água cavando
o sólido chão

intacta simetria
de cada grito
moldado ao sol.

III

quartos, cômodos
corredores em espirais
bocas automatizam
cruas faces/membranas
em cruzes
sombras esquálidas
de meninos esquecidos
nos porões
frios
sem vista para o mar.

Leandro Rodrigues

do livro Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018, págs. 41, 42 e 43.

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