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DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha: – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

 

 

Publicado originalmente na revista Diversos Afins, em 2015.
(http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-37/)

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PASSARINHO QUE COME PEDRA

Havia na rua aquele sujeito entrão, que gostava de se inserir na conversa e sorrateiro acabava filando uma birita, uma batata, um salaminho. Aliás, filão tem em toda rua e todo bar. Figura fácil do folclore carioca, não dorme no ponto, ri pra todo mundo, anuncia quando chega, diz o resultado do bicho em voz alta pro dono do bar e então encontra o alvo.
– Você tá aí atrás, Neneto? Rapaz, tá sumido. Como vai sua mãe? As crianças? Já está sabendo o resultado do mengão?
Sejamos muito francos, Neneto era Naldonir (filho do Seu Naldo e da Dona Irenir) e ficava uma onça quando o chamavam por esse nome. Sumido, só estava mesmo da vista do cunhado, que lhe devia uns cobres. Cá pra nós, ele evitava falar da mãe porque ela odiava a mulher dele e pra completar, sobre saber resultado, nem da pelada de domingo
– Opa! Deixeu brindar aqui com meu camarada.
O copo surgia como mágica e na distribuição de apertos de mão e tapinhas sonoros no ombro o danado já estava inserido no assunto que nem abajur em casa de vó. Primeiro, dizem que trazia um copo americano no bolso da bermuda e como um prestidigitador de boteco, nem pedia no balcão, era o cumprimento numa mão e pimba, o copo aparecia na outra. O abajur, olha, esse tava lá na sala da minha velha, imóvel, decorativo e ninguém sabia quem tinha colocado ali – nem ela – e mesmo assim ninguém tirava o treco de lá. Eu sei que a história é esquisita, mas a minha avó também era e eu não estou aqui pra enfeitar o entrão da rua melhor do que isso. Como o abajur da minha avó, ninguém sabe de onde surge um encosto desses, então prossegue a história.
Devia ser um domingo de tarde, daqueles de final de mês, Pará e eu batíamos perna pra terminar de gastar o pouco que tínhamos e resolvemos mudar de ponto de pileque, justamente pra evitar o tipo. Note que nem nome eu faço questão de dar pro fulano. Estou pouco ligando se o péla-saco pode ler isso um dia, não dou o nome porque só me interessa o caso, não o chupim.
– Porra, Pará, você só atrasa a vida mesmo.
– Ah, não mete essa! A cabocla já tinha endereço marcado e você sabe. Na verdade, eu te livrei de um embaraço, isso sim.
– Porra nenhuma! Isso quem tinha que decidir era ela. Doidinha, perdida, do jeito que eu gosto.
– Oxi, to dizendo que já tinha boto na área e ia ficar feio pra você.
– Isso ninguém tinha como saber.
– Eu conheço.
– Conhece nada. Além disso, o que se come nessa birosca? Vamos ficar de cerveja e cachaça o dia todo?
Fome e birosca nem sempre é uma combinação vencedora numa tarde de domingo. Descansando no berço esplêndido da vitrine lambuzada do balcão da birosca, naquelas baixelas de aço que deviam ser patrimônio cultural da baixa gastronomia carioca, o jiló triste, pastel mole, ovo rosa e umas batatinhas douradas com lingüiça. Não tivemos dúvida:
– Ô meu bom, serve essas aqui pra gente.
– Ih, rapaz…
Pronto, tinha que ter uma pegadinha.
– Seguinte, deixaram cair uma pimenta nessas batatas e nessa lingüiça e ninguém quis. Vou avisando que tá pra macho, essa aí.
Isso tava fácil, que Pará e eu não recusávamos uma pimenta. Traz a baixela, duas pingas e uma cerveja que o resto, deixe que resolvemos aqui entre nós.
Pra ser bem sincero, as batatas estavam meio ardidas, mas desciam alegres gogó abaixo com cerveja ou pinga. Energético melhor não há, desde os tempos de J. Cristo. Ainda tinha um pãozinho pra agarrar o molhinho vermelho. Ia embora a tristeza, a sinusite, a coriza, as cordas vocais e as tripas dos desavisados. Estava perfeito o grude.
Pará e eu estávamos rindo um da cara do outro quando o chupim chega pela porta todo alegre e cheio de graça, distribuindo apertos de mão e tapinhas no ombro para chegados e desconhecidos. Um verdadeiro louvor de puxa-saquismo emoldurado em azulejos encardidos. Não deu pra escapar, porque no fundo do bar ninguém escapa e sabíamos que aquilo iria acabar ancorando ali na nossa cola. De onde aquele boçal tirava o raio do copo?
– Fala Pará, Fala Betão.
Fuzilei o cretino com meus olhos já vermelhos. Odeio que me chamem de Betão. Betão é… é… deixa, que todo mundo sabe completar a frase.
– E a patroa Pará? Espero que esteja bem. Seu pai, vi hoje mesmo. Estava lá na esquina, na birosca do Santos.
De repente, não mais que de repente, Pará, que sempre gostava de sair como sujeito bacana pra todos, estava partilhando a cerveja. Daí pro garfinho chegar na lingüiça e na batata, foi na mesma hora.
– Upa! Valeu mesmo rapaziada, vou provar um pouquinho.
Pouquinho foram logo umas quatro rodelas de lingüiça, mastigadas rapidamente pra caber mais na mala e logo ele tava com a segunda batata entre os dentes. Pará me olhava sério, e fazia que prestava atenção. Estava como que em uma pausa dramática, pela mastigação do recém-chegado.
O chupim terminou de engolir e já tava com os olhinhos cheios d’água. Tentou pegar mais ar, passou a mão no peito, mas a blusa já estava desabotoada, que malandro não abotoa blusa nem em velório.
– Eita rapá! Que pimenta! Não gosto assim não. Me ajuda aí, padrinho, onde vocês colocaram pimenta pra eu pegar um naco sem e cortar um pouco o ardido?
– Em tudo! – Respondemos, com os olhos esbugalhados diante da erupção do Vesúvio que acontecia na nossa frente.
Olhei pro Pará e ainda disse:
– Eita, porra! Falamos ao mesmo tempo.
Pará, muito solícito:
– Calma que já passa, não bebe água, que piora.
– Ai, padrinho, calma nada, acho que vou… vou precisar da chave. Meu chefe, adianta a chave do banheiro aí, meu chefe, que a situação não vai prestar.
Ele se dirigiu ao fundão do bar. Banheiro fica sempre no extremo sombrio da birosca. Estava vermelho, o suor descia pela testa em gotas brilhantes, tinha passos calculados, se arriscasse uma corrida o derrame acontecia ali mesmo, diante de todos. Assim, certo como o destino de toda cerveja é o fundão do bar, aquela erupção, aquela morte súbita, foi devastar a louça de Pompéia. Esta última, surgiu na história com propósito ilustrativo, de final menos digno, mas que sucumbiria soterrada como a cidade da antiguidade. Por outro lado, se bem me recordo, aquele banheiro era como se fosse uma peça de antiguidade também. A verdade é que “deu merda” tornou-se eufemismo naquela tarde.
Quando ele voltou, Pará descascou, com uma malícia diabólica:
– Se a beiçola não agüenta a ardência, não pode comer fogo, porra!
– Comer fogo? Eu cuspi fogo!
Daí, o resto virou lenda. Não teve perdão. Era Beiçola e ficou pra história das bocas de álcool da redondeza. Beiçola dobrava a esquina e alguém dava o alerta. Preparar contramedidas, garrafas a postos para reposição e até quem não era de pimenta pedia uma pra deixar por perto. Demorou pra deixar de ser motivo de gargalhada no meio dos pinguços e ser apenas o Beiçola. Pará pediu pros parentes enviarem umas pimentas da terra dele e fez uma mistura especial, que chamou de beiçola e ganhou até rótulo, com uma das letras em chamas, que sugeria uma rosquinha ardendo. Ambigüidade igualmente diabólica para os que conheciam os fatos inglórios daquela tarde. Ele e o pai venderam pros bares e deu pra levantar uma graninha. O Beiçola continuou sendo o mesmo, mas nunca mais petiscou de espertinho com Pará, nem comigo.

FILME CLASSE B

Dizem que noites de lua cheia são propensas a acontecimentos estranhos. O contrário também serve. Na verdade, sei lá. Eu não me lembro de tudo. Quem se preocupa em lembrar? Em todo caso, tentarei.

Entrei no bar e lá estava ela. Tinha aqueles olhos que perseguem você. Travam em cima, desejo recalcado, algo que atrai, magnéticos. Pensei em alguém como uma clarividente. Alguém que desvendaria toda a minha vida ali, na minha frente, se ousasse me aproximar. Alguém que me viraria pelo avesso, esfolando moralmente cada palavra minha, como se a língua fosse um chicote. Acho que foi isso mesmo que eu quis que acontecesse.

Corta. Preciso sair da minha cabeça e tentar contar isso mais naturalmente.

Fomos apresentados na mesa, ela já estava sentada e eu cheguei. Havia sido convidado por amigos em comum. Acho que a curiosidade mútua foi tão intensa que minutos depois procurávamos disfarçar, alternando a conversa entre nossos amigos. A conversa circulava, a bebida chegava e os lubrificantes sociais agiam naturalmente. Havia a inevitabilidade do eterno retorno. Inventei isso agora para dizer que sempre encontrávamos um ao outro no rolar da conversa fiada e nossa história recomeçava do mesmo ponto. Ela me olhava bem nos olhos e ordenou de repente que passasse minha perna na dela. Estava quente, esqueci de dizer. Mesmo assim, o que senti foi anormal. Minha perna deslizou pela dela, que estava encharcada de suor. Nunca sentira algo como aquilo. Ela me assegurou que era apenas o calor. Cansei das esquivas e disse a ela que poderia esquentar mais.

Corta. Eu não sei o que eu disse naquela noite. Algo idiota talvez. Algo pensado logo acima do joelho. Algo que foi o mínimo sensível de encontro com o joelho dela.

Estranho foi que no final da noite saímos para lados opostos. Fui numa festa —chatíssima — e retornei ao meu apartamento certo de que não deveria ter saído naquela noite. Moro num daqueles condomínios bunda suja onde tudo é mesmo uma bagunça e os moradores não dão a mínima para porra nenhuma. Dei dois passos no corredor rumo à escada e as luzes apagaram. Fiquei puto e resmunguei algo comigo mesmo que nem cheguei a terminar, minha boca foi tomada de assalto e meu corpo lembrou imediatamente do corpo dela quando as pernas suadas dela molharam os pelos da minha perna. Não estava mais sentindo minhas pernas, esqueci de mencionar. Ela sussurrou tranquila no meu ouvido:

— Estou logo acima de você.

Eu congelei, um mergulho em apneia na escuridão. O mistério mais excitante da minha vida desvendado. Ela morava no andar de cima, era isso?

Corta. Foda-se. Não ordenei os pensamentos de modo claro assim. A adrenalina lembra que a vida é um relâmpago.

Línguas invasoras num corredor escuro. Sei que parece nome de filme classe b. Imaginem como isso impede qualquer um de manter a menor coerência dos fatos. Talvez eu tivesse até revirado os olhos quando ela quis morder-me o peito, bem no meio, era o plexo, o alvo. Arranhava-me com os dentes. Tapei-lhe a boca mais de uma vez pois ela ficava escandalosa quando eu segurava seu rosto com as duas mãos, quase prendendo-lhe pelo pescoço.

— O corrimão tá gelado.
— Em pé mesmo.

Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Ar, ar, sem ar.

Sentamos no chão. Nada a dizer. Ficamos ali parados até o dia apontar. Levantei e abri a porta. Entramos e passei um café. Um gole, os ombros se soltaram, só aí um olhar de carinho mútuo, aquele sorrisinho enigmático que todos temos quando acordamos pela primeira vez com alguém.

Corta. Nem dormimos.

Depois do gole, dos ombros, sorriso, as primeiras palavras de nexo(?):

— Toda a minha vida…
— Huuum!
— Você primeiro!
— Não, você!
— Vai fala!
— Ah, foda-se!

Bocas furiosamente confundidas. Sei que parece nome de filme classe b. Não lembro mais nada. O que eu me esqueci não é mais da sua conta.

TEATRINHO CARIOCA [título provisório]

 

Cena 1

Bar…

Ela demora pacas pra sair.

Ele:
Então, vamos? Você não acha que podemos nos pegar em um lugar mais próprio?

Ela:
Péra. Já vamos. Eu só vou ali cumprimentar umas pessoas

 

Cena 2

Motel…

Ela pira com a hora de sair, a hora dela chegar em casa, cheiro de bom ar deixado no quarto… E as cortinas!

Ela:
Ai, porra. Eu não sei, como vou voltar pra casa de madrugada? Mas que droga. Mas que lugar é esse? Olha, o cheiro desse quarto é horrível. Eu mesma uso um outro spray em casa, esse me dá dor de cabeça. Mas que cortinas vermelhas horríveis

Ele, calado, achando tudo um filme de Almodóvar acontecendo na sua frente. Agora, ela havia ficado horrível. Na verdade, as cortinas eram perfeitamente aceitáveis, feitas sob medida pra janela, sem manchas, talvez até novas.

Ele ficou com vontade de pedir um vale-fodinha pro motel e sair correndo daquela cena de filme…

 

Cena 3

Fornicação…

Em que ele desempenha seu papel por… 50 min. Uma hora-aula, pensou. Ela atua mal até para uma atriz de vídeos adultos. Rasgava-se em berros estridentes de prazer nada convincentes. Ele já começava a olhar para ela com certa desconfiança. Por vezes ela olhava fixo para ele e fazia uma linguinha fina de lado a lado pela boca. Ele precisou se segurar para não rir da cena. O que essa mulher pensa estar fazendo?

Ela dorme pelas quatro horas restantes

 

Ato 2

Cena única.

Monologo mental.

Desempenhado por horas olhando o teto do motel. Ele revê toda a sua vida.

Pensa no fim, na eficácia da psicanálise, na reprodução dos pandas na China, camada de ozônio, na chuva lá fora, no dilúvio bíblico que poderia varrer o lugar e permitiria que  morresse feliz pois lavaria também essas memórias…

Ela ressona. Ela estava cansada. Ele sabe identificar pelo tipo de respiração.

 

Ato 3

Cena única.

Ela quer esperar os ônibus voltarem a circular. Ele quer se atirar no mar e voltar à nado pra África. Que pessoa sabe que vai para um motel e não separa grana pro táxi depois? Ah sim, claro. Uma indireta para que ele pagasse o táxi para ela. Ele paga. Ela diz que quer mais, muito mais e boceja antes de entrar no táxi.

A chuva parou. Ele poderia pegar um táxi para retornar. Prefere ficar sentindo a brisa gelada do inverno no rosto. Ouve o mar bater suave. Não há ninguém na rua e o sol ainda não nasceu. Vai demorar, está nublado. Que alívio, o silêncio, a brisa realmente gélida.

Ele retorna para o seu apartamento, come todos os doces que estavam esquecidos pelos quartos e pela despensa. Pensa que se estivesse com um sorvete agora, este seria o final de um episódio ruim de alguma série enlatada norte-americana.

Misantropia parece fazer mais sentido que nunca, agora.

SORTE DE BODE

Aquele havia sido um ano de merda. Perdera o emprego, o carro foi roubado, o pai enfartou e a diabetes da mãe acabou por subtrair-lhe a poupança, a esperança, a pouca fé e o humor.
Agora caminhava por três bairros para procurar emprego. Nem sempre tomava o café da manhã e à noite repartia a sopa de pedra com os velhos.
Compadecido, no balcão do bar, o Bedecildo lhe oferece uma branquinha:
– Por conta da casa. Essa tristeza um dia passa.
Acedeu com a cabeça enfiada nos ombros pesados, agradecendo em silêncio a cortesia. O álcool desceu quente na garganta e o sorriso se esboçou no rosto. Olhou em volta, o estabelecimento ainda era o mesmo há décadas. O Bedecildo parecia conhecer todos pelo nome, parecia que nunca fechava.
– Não aguento mais.
– Isso passa – responde o Bedecildo.
– Tudo passa.
– “Tudo passa” é receita de panetone ruim. Nem tudo, mas estamos aqui, não é mesmo?
– Nunca pensei em você como otimista.
– Anos de balcão, sabe? A vida se repete, como louça.
– … E acaba no ralo.
– Não. Os restos vão para o ralo, a louça fica limpa e recomeça o ciclo.
Refaz o sorriso e agradece. A curta conversa restaura o seu ânimo (mais provável ter sido a pinga).
– Pois pra provar, vou tirar você do prego. Olha aqui.
Dito isso, o Bedecildo pegou todas as notas e entregou sem hesitar. O outro levantou-se, emocionado como gesto, e profetizou:
– Pois vou lhe pagar com esta conta!
Uma semana depois, o Bedecildo quase perdeu o queixo. O outrora desesperado havia saído dali e usado os valores das notas no prego como dezenas do jogo do bicho. Então, comprou a sociedade no bar pelo dobro do que valia e colocou os pais pra trabalhar juntos no caixa. Era o fim de um ano de merda.
Os dois sócios nunca discutiram e o velho Bedecildo, a cada semana encontrava outro a quem servir da mesma garrafa que nunca tirava do armário – nunca havia mostrado nem ao sócio – com uma ferradura de bode dentro.

HISTÓRIA DE SAMSARA

De tanto olhar o teto, começou a divisar os mapas inscritos invisivelmente pelos sonhos anteriores aos dela. Há pouco mais de um ano naquele quarto, finalmente entendia o motivo do seu sono sempre tão agitado.
Naquele continente alado à sua frente, ela desceu montanhas e caminhou por vales, indo encontrar ocupação em uma cidade portuária na costa de Samsara. Todos os dias (que no mundo da sua cama, na verdade eram noites) ela partia em seu pesqueiro, com sua tripulação, buscando o sustento da cidade na linha marítima do horizonte. Retornavam com as redes cheias ou com pôr do Sol. Havia cantoria para recolher as redes. A capitã sempre sabia onde levar o barco para que as redes retornassem cheias de lazulatuns e celacantos. Predadores eram atraídos pela pulsação da rede cheia de vida e a promessa de uma refeição fácil. Por esse motivo, um bote auxiliar era posto nas ondas, com homens e arpões, tentando evitar que qualquer peixe fosse perdido ou que alguma fera ficasse presa na rede.
Numa tarde, a cantoria do recolhimento foi interrompida por gritos:
– Homem ao mar!
– Nade! Nade pela sua vida, marujo!
– Lancem as cordas!
Sem hesitar, a capitã se atirou ao mar com sua faca, certa de ferir mortalmente a fera, salvar seu marinheiro e ainda salvar a si mesma.
A luta, que deve ter sido dramática e sanguinolenta, não ficou na sua memória. Ela acordou sobressaltada e sentou-se na calma, ofegante. Respirou fundo e fez um esforço para trazer à mente toda a história e quem ela havia sido. O dia amanhecia e ela aos poucos se recompôs. Abriu as cortinas e deixou a luz inundar o que prometia ser mais um dia
… não fosse o tubarão em cima da escrivaninha do quarto.

Lambe-lambe, de Sérgio Fantini

A fotografia despudorada de Sérgio Fantini ou os olhos da empatia

 

 Por Adriane Garcia

 

    Passo pela cidade, minha cidade, tão feinha Belo Horizonte por onde passo. Lá onde veste seu melhor vestido, vou vez em quando, vou para lazer. No “todo dia”, percorro o que é para ficar no escuro.

    Há livros que não mudam nada, há livros mudos. Há livros que nos mudam, verdadeiros incômodos a cutucar verdades guardadinhas. E há livros que mudam a forma como olhamos as coisas. E isso é irremediável.

    Agora não tem mais jeito, abri este livro de fotografias. Este lambe-lambe não contente em lançar seu flash de magnésio pela sua própria vida, fez o favor de publicar suas impudências. Lançou luz sobre o escuro e não parei mais de ver a mendigaria, os moradores de rua, os gatos no parque, os camelôs e sua algazarra, os favelados, os hippies vendendo suas bugigangas e expondo essas diferenças do que somos, os meus preconceitos e os meus pós-conceitos flagrados.

    Nunca mais passar pelo Parque Municipal apenas passando, agora é ver os velhos, a sua solidão, os bancos sempre ocupados e essa vontade de gritar que quero me sentar na grama porque não aguento mais esse mundo imundo. Agora é olhar para o passado e me lembrar de minha mãe empregada doméstica, tão incômoda e tão necessária na casa dos patrões. Mamãe mulata, linda, jovem, passando por cima de assédios para não perder emprego e mudando móveis de lugar na ingenuidade amável de quem pensa que está agradando.

    Minha cidade que se droga para ver, que se droga para não ver. Os carroceiros de minha infância, os cavalos que comovem todas as crianças, pois nenhuma criança jamais entendeu a violência contra os cavalos. Agora saio pensando na violência contra os carroceiros, sua vida de açoite, essa transferência de quando as metáforas estão materializadas, quando sou interrompida pela inércia calculada dos jogadores de dama da praça 7 de Setembro. Quando um grito de um pastor evangélico quer sobrepor toda identidade. Cidade louca. Eu penso: independência ou morte.

    Valei-me. Continuo o álbum e vejo: que nunca entrei numa barbearia. Sempre as olhei de fora com muita curiosidade, as suas cadeiras-máquinas-do-tempo. E este cachorro na porta, fotografado pelo lambe-lambe, eu posso jurar que já o vi.

    É pela manhã que saio todos os dias, transporte público, esses motoristas que trabalham seis viagens sem parada, que almoçam em 15 minutos, que fazem suas necessidades fisiológicas em banheiros fétidos que as empresas de ônibus não se dão ao trabalho de mandar limpar. Digo a eles bom dia porque sei que não é fácil. Muitos respondem, surpresos que alguém ainda os veja. Agora é assim.

    Saio clicando com a lente do lambe-lambe, a cidade vai mudando aos pouquinhos e ainda carregando um tanto do que foi há 117 anos. Há 300, quando ainda era um arraial, mas trazia tantos pés descalços. Ao menos o amor mudou. Eu também já achei estranho as duas meninas se beijando publicamente. Como seria uma cidade que se beijasse?

    Nas páginas entre os contos, encontrei esses 3×4, amarelando. Anônimos que se tornam especiais apenas ali, na lateral da máquina-caixote de fotografia. Estão chegando na rodoviária, vêm tentar uma nova vida nesta Belo Horizonte, acreditam na promessa deste nome. E agora, iluminada por quem não tem medo de lamber o vidro, de verificar qual lado da chapa é doce e qual é o amargo, talvez eles possam se localizar.

    Passei a andar com este livro. Vou e volto para casa. Sim, eu encontro o caminho.

A verdadeira literatura é a que nos mostra o quanto estamos perdidos.

Lambe-Lambe
Sérgio Fantini
Ilustrações: Guga Schultze
Editora Jovens Escribas
2016