Arquivo do autor:filipemarinheiro

[um fruto debaixo…]

um fruto debaixo da boca iguala o circuito colorido da terra
a deslocar-se náufrago sobre a carne em sol
sinto a gravidade deste silêncio com que danço ao imaginável luar
filipe marinheiro, chiado editora, «noutros rostos», 2014
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[desabito um país…]

desabito um país de ruas desabitadas em que vejo tristes vagabundos
ou mendigos a embebedarem-se por dentro dessas ruas frias e sós

no sismo doloroso em que navego labiríntico
experimentei todos esses lugares todas essas dores sofridas

e é nos becos sujos hediondos onde tomo consciência das tristezas
a voarem com o aragem negra das coisas nada fantásticas

desabito um país de ruas desabitadas…

com a graça de um menino de ouro penso em toda a imundice
e pobrezas a caminhar juntas alojadas em cada pedaço de chão
escorregadio pelas chuvas de vinho

e ergo talvez ridículo as doenças pesarosas que deslizam nos olhos
dos vagabundos

e os mendigos enregelados nos seus podres cachecóis
de uma qualquer substância sulfúrica que lhes estrangula as noites
desabitadas silenciosas como a rodopiar sobre a força do medo
e das brumas a afundarem-se nos recantos que se inventam
neste vazio

desabito um país de ruas desabitadas se estou a habitar no festim
da loucura

 

Filipe Marinheiro, «Noutros Rostos», Chiado Editora, 2014

[aquele sono…]

aquele sono desamparado pela secura das noites angustiantes entranha-se nos buracos negros de todo o corpo num incêndio aonde não há a recordação ou concordância
entre sono sobre sono até se estender
o epicentro das mãos como um dilúvio
para tocarem, docemente, as ramificações da cama afogada nos uivos da escuridão: vadia e sádica.
as gotas do vento lunar turvam o nevoeiro principiado pelo medo nocturno.
gotas nos escalpes das nuvens engolem os firmamentos
dos lugares e os montes dos substantivos desaparecidos na carne do céu.
a cama enterrada, empurrada pela cova do silêncio impune.
de ambos os lados as sombras inexpressivas, covardes
a esconderem sorrisos e pensamentos severos
esfolando desde a tinta das paredes às portas do guarda-roupa fechadas
como que num sigilo disfarçado.
sombras impertinentes numa língua desconhecida.
tudo está num outro lado: muito bem escondido.
– depois é só plantar, plantando no nosso focinho animal e estático
entre o chão escancarado e os cobertores
aos lençóis pousados, moldados,
o enlouquecimento da própria noite sob as artérias das horas estancadas
a fermentarem doutras horas a expandirem-se,
até as raízes dos dedos despertarem outro acordar.
– nunca mais se acorda –

f.m.@2017

[descobri…]

descobri como repor o silêncio

basta tombar a alma em tudo quanto queima profundamente
e a alma sem nada que a prenda a esta vida obstruída estremece
noutra eternidade noutra coisa qualquer ardendo suspensa neste
infinito silêncio
começo a bater levemente com a ponta dos dedos na seiva
incandescente que se cola à lucidez

ponho a alma no lugar tiro a morte ao silêncio
mergulho o meu sangue em dilúvio sobre a terra sombria

ou todo o corpo como devaneio paranormal se desprende
das coisas terrenas caóticas

e louco o silêncio deriva perdidamente até ascender à alma
onde se descobre

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

[como em ti cai um repuxo…]

como em ti cai um repuxo de ventos a tocar violinos
dentro desse teu sangue fresco arrancas gotas de letras por escrever
 
as veias encharcadas em melodias solitárias caem à velocidade
dum terramoto a bater com toda a força na sua sombra
como a rodopiar nas cordas vocais abaixo
explodindo a voz astronómica entre as feridas
que se espalham no interior dos teus poucos passos
 
ou a sonoridade das águas que esmagam o peito aberto
à inspiração
 
és tu aquela que invade as folhas de papel inclinada amplamente
para o cemitério de fogos arrastando-os junto à tua boca doce
 
encolhes-te perante as cores brutais estremeces ao pernoitares
dentro das palavras e o vento pára diante o pôr do sol
onde te começas a lamentar ou a demorar
 
filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora 2014

[às escuras…]

às escuras enterro a chuva luminosa nos lábios que boa sensação
a de baloiçar assim molhado nas gotículas de ouro sem rumo
ou partida

brilho na amargura dos meus próprios dias
dias em que me encontro só sem companhia ou presenças

sinto o riso dos aromas a percorrem-me o olhar meigo
como a rastejar sobre as borboletas coloridas que me crescem
nos dedos e voam sem sequer me consolarem

resta-me agarrar o musgo fértil dos campos sem ruídos
contra os braços minerais enquanto sangro o voo das aves
que me levam para bem longe deste lugar para continuar vivo
dançando ao sabor das tempestades

 

filipe marinheiro, chiado editora, «noutros rostos», 2014

[quem sabe se é tarde…]

quem sabe se é tarde demais para morrer contigo
no mais oculto dos segredos

estarei longe das tuas apaixonantes palavras que me queimam
a saliva e o olhar perdido no teu ventre marítimo fura-me o sono
com que danço sobre este luar náufrago

sei que estou longe de ti
a esburacar o tempo que segue manso por detrás

e num impulso triturante ataca este vivo e impossível amor
onde a paixão sofre entre os dias tristes ou alegres

um dia pretendi cantar-te com voz de seda amar-te na morte
comigo adentro
enfeitar-me de rosas líquidas para te dizer o quanto sou terno
e igualmente teu mas sou demasiado pequeno para sentir tudo isso

vejo as tuas brancas mãos a cruzarem-se nas minhas
e a sombra delas a escorregarem lentas gota a gota na lua ferida
que fere os nossos peitos magros densos inocentes

oh… mas não
as águas frias da lua desmoronam-se nos recantos alagados de mim
mesmo

e nas palmas das nossas mãos
pulsam as loucas estrelas azuis esmeralda com sabor a destruição
dos momentos leves e amorais

não sei porque digo isto tudo desta forma: estranha bizarra

quem sabe se a viscosa lama que percorre todo o meu corpo
o teu o nosso nos possua magoando-nos tristemente

filipe marinheiro, chiado editora, noutros rostos, 2014