Arquivo do autor:filipemarinheiro

[emana um líquido…]

emana um líquido de aço desfeito nesta boca solta

o perfume do ar rebenta com as flores gigantes e as flores vestidas
pelo estilhaço de um aroma a ferir o lume denso que rasa a luz
orgânica fere então a vista inclinada para as pedras matinais

a boca a sair da boca ao sair pelos lábios fora sai de dentro
desta boca que vos fala e escuta
boca louca que pousa as suas curtas vestes no vento

e o líquido bate com violenta força no preso tempo ou o tempo
não é mais senão um mero tempo: uma insana memória

 

filipe marinheiro, chiado editora, 2014

Anúncios

[choraria na morte…]

choraria na morte que me empurra a pouco e pouco
para o perfume triste da solidão

solidão em gestos de um nada que me esgaça as profundezas
da cabeça a debruçar-se nessa comoção que é escrever

estou muito só e vivo desta tristeza inexplicável
que esmaga a respiração do corpo ou se choro a morte que nunca
morre

tenho de dizer isto: o sonho perfura a pele
a pele a bater na brancura apaixonante que bate rente às outras
cabeças adentro a triturarem-se

e somente espero que regressem outros dias benditos
e viva um lúcido destino mais e mais feliz

 

filipe marinheiro, chiado editora, 2014

[nele viverei…]

nele viverei a estender a saliva em lume marítimo naquele mar
imóvel

o sal começa a esmigalhar os meus braços abertos
e eu assustado vogava numa secreta nostalgia

cresciam-me na cabeça insectos e conchas em grão luzidio
é disto que pretendo ascender seja doença ou brisa a magoar-se
no sonolento vento aéreo

uma noite inundada pelas areias ou búzios de sémen estilhaçados

balouçava entre os ruídos frenéticos das quilhas dos navios
a explorar a ferrugem das penumbras e a longitude das gaivotas
lentíssimas sem asas fogo nunca me chegaram a descer no peito

tenho agora uma pele de espuma a sulcar as mãos enterradas
na lava da areia
areia a andar de gatas a segregar as melancólicas insónias
como a morrer com a escrita espetada neste coração desfeito
enigmático ou absorto

pouco se me faz se as algas chovem na ponta das minhas pálpebras
ou se viverei na abóbada deste mar infernal a dançar na erecção
da minha rotativa voz

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

[BUSCO…]

BUSCO tua pele inconfessável, tua pele ungida pela tristeza das serpentes; distingo teus assuntos invisíveis, o rastro frio do coração.

Havia visto tua fita ensanguentada, teu choro entre cristais e não tua chaga amarela,

mas meu sonho vive embaixo de tuas pálpebras.

 

Antonio Gamoneda

[mastigasses o aroma…]

mastigasses o aroma em volta do gemido nítido ao raiar do dia
inventarias os gestos as sombras e a luz a tecer o ar em órbita

ou a difícil melancolia que arrasta o teu corpo para o túmulo
aquátil e o tempo em memória sentar-te-ia no seu colo
para continuares vivo ou morto tanto faz…

 

filipe marinheiro, noutros rostos, chiado editora, 2014

[Sobre Uma Manhã Qualquer]

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho…
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que metal fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui sente-se já um cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã. Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal

antónio gancho