Arquivo do autor:filipemarinheiro

[volto-me…]

 

volto-me para a claridade do sol tardio e noto que a língua arde
dentro de uma substância inquieta

a carne do sol baila com rudeza na boca que entra na boca
ou o sol que sai da língua para as costuras dos lábios

se a claridade por mero acaso tocar no sexo escaldante saio
pelo buraco da boca e vivo extasiado

 

Luis Filipe Marinheiro

 

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[quisessem os olhos…]

 

quisessem os olhos queimariam a luz como numa extrema ardência

num vai e vem eufórico agressivo entre a saliva e suor convulsivo

a rasgar as costuras do amanhecer sobre as pálpebras a agitarem-se

imperceptíveis

 

e a beleza trágica do caminhar deslizante da minha mãe adivinho

só de ouvir a sua invisibilidade

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

[deixa o teu rosto apertar…]

deixa o teu rosto apertar o meu suavemente
contra as nossas vozes que afogam os olhos

olhos a amar os olhos como a saltarem de boca em boca
ligeiros

a boca esconde-se nos olhos os olhos dentro dos olhos rasgam-se
fora dos olhos

e os olhos a queimarem o coração palpitante dos olhos
desprendem-se dos rostos em flor

ouvimos ainda o ardor da noite estalar outros corpos
que se amam destemidos

deixa-me ter-te
saborear a obscuridade do amor doido

cheirar os beijinhos
ouvir a brisa a correr na tua língua tão ou tão louca e castiga

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», 2014

[toco com a carne do sonho…]

[toco com a carne do sonho no fósforo da morte.
morte em carne viva, tensa, até o lume rasgar toda a cabeça por fora.
não se sofre da morte.
treme-se antes.
sonho a sonho ou de morte em morte,
precipito-me por sobre o seu espelho de luxo, demente,
poupado o espelho animal,
deita no campo da carne, chispas, brechas, sopros súbitos:
os espelhos da morte são astronómicos, desleais, porquê?
sou uma harpa de mortes e não obstante torno-me ligeiro no crime.]

 

filipe marinheiro

[surpreendem as crianças…]

surpreendem as crianças
têm corações e emoções exactas
desviam o pulsar das tardes mergulhadas num calor redondo
extasiado tocam-se no exercício nas vozes
arrancam as vozes
as tardes desordenam-se
reabrem o sol ou o sol às tardes ao calor
olho-as
como quem pensa na criação de novas constelações
ou brinca entre a doçura desses ventos tórridos pesados
quando contaminam a matéria dos espaços
num cerco absurdo
sério e a eternidade pára de crescer
as crianças ignoram o sol a lua as estrelas os cometas de safira
tudo lhes é passageiro
nunca morrem enterram os dedinhos na luz em alta tensão
são disfuncionais consigo mesmas
nascem pelo ar através das forças que golpeiam o mundo
perdem-se todas as crianças
ao esmigalhar todas as ruas pintadas pelo fogo à mão
contra a sua alegria infinita de quem purifica o sangue a boiar
entre as suas brincadeiras
crianças em mágoa virada para dentro penetram nas pernas
uns dos outros
endoidecem a luz que rasga a pele que rasga as veias ondulantes

toda a criança desfalece por cima
dos milagres incorrectos quebram a alma a eternidade
gritam à espessura
das horas sem terra enlouquecida porque a loucura é o seu destino
a pulso ainda
e quando a tristeza calça as crianças elas gritam
porque querem alimentar-se da melancolia das coisas abandonadas
coisas solitárias a arderem na pureza do mundo alto e frio
depois as crianças festejam sempre com gritos acenos arbitrários
gritos de verdade de pureza
gritos a flutuarem na voz infantil sábia de quem se perde
e encontra o silêncio todo
nelas cortam-se as cores líricas com asas por caçar
toda a cor bela roda os olhos das crianças pela noite dentro
quando os seus rostos admiráveis
tomavam as correrias transformadas como assombramentos
correias a respirar a estenderem nas ideias mortas
ou ideias a romper palavras os ritmos de outros corpos a corpos
a parar nos corpos das crianças antigas
de dia e tarde ou noite as crianças só existem
quando gostam de roubar os espelhos ao sono
o sono sai do peito da criança em criança
que sai doutras crianças
que racham a vaidade dessas invulgares crianças
o sono estilhaça dolorosamente os lugares
as sílabas os pés os chapéus
as peúgas as sapatilhas sujas as calças largas para saltarem
com vontade os movimentos das pernas entrelaçadas
na criação do deserto
que se espalha à noitinha nas camas na almofada que está exausta
ou desponta o pólen
tudo tem um sentido e as crianças esperam-se fundamentais

cantam a essas ruas cantam na haste elevada das flores
enormes flores oscilantes
à volta das bocas pequenas a empurrar a água que ingerem
e as flores escorrem à frente das cabeças das crianças
como a pensarem no fundo sufocante
do mar submerso
mar a pensar na loucura das crianças mar lento que roça os poros
a dormir
gotas de mar a riscarem oculto o pequeno corpo
dessas crianças salgadas
as crianças pernoitam vigilantes com todas as inteligências
devastadoras
com todas as vinganças e inseguranças e a raiva
essa desfaz os brinquedos na garganta
sabemos através das crianças
que as águas são para esgaçar os céus reluzentes
e brincar com as pedras na língua afora porque são secretas
deixam-nos em paz as crianças quando iluminam
as nossas singelas vidas
ou tramam os orifícios para onde nos deslocamos
a romper o sangue o hélio na boca ou a romper o ouro pulmonar
vidas sem misérias ou hábitos sangrentos
vão-se embora
as crianças dentro de si fogem ao coração permanecendo abertas
criança após criança
parte-se o frio a neve as estações todas
é tão alegre que nos faz chorar arrepiando a frescura das palavras
não ditas ao caso que amam
são simplesmente crianças e como crianças fortes robustas
ou insuspeitas abatem este doido poema meio náufrago
das crianças nada somos
apenas uma mera distância mas com elas tudo aprendemos

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

 

[vibro às portas…]

vibro às portas deste céu cilíndrico que me engole
como a erguer todo o impossível azul platina
seja a repuxar os seus tentáculos no plural
e do inverso infinitivo colho a linguagem a bailar na fogueira
vestida pela luz a sair das mãos
linguagem a encolher nas minhas mãos luminescentes
contra uma força irresistível
celeste
onde viro do avesso toda a eternidade que vem de dentro
– a eternidade das coisas bestiais

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014