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[O sótão: era ali…]

O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.

 

albano martins, O NOME DA AUSÊNCIA

[despertei…]

despertei sobre o deserto da alva espetada no meu coração viajante com um sentimento de melancolia debruçada pela cabeça que todo me atordoou como se uma brisa triste sulcasse o corpo num claro abandono à beleza daquilo que nunca iremos tocar. repito. penso. penso que a beleza poderá ser isso mesmo:

– um esquecimento das coisas que jamais tocaremos ou viveremos.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

estou embrulhado no lençol de flores esplêndidas estendido perante a cama desarrumada todavia consigo olhar através dos cortinados e saborear vagarosamente a neblina que flutua lá fora. nada se mexe. nenhum raio de sol irrompe as vidraças quietas. só ouço os cânticos da música com que te escrevo este poema porque não sossegaria se não to escrevesse: nada há mais de sinceridade do que te acabo de transmitir. no fundo de mim transporto uma fonte de compaixão genuína que poucas pessoas compreendem quando a digo e a escrevo. sinto somente a voragem das coisas todas. perdoa-me se te afogo nessa melancolia tão minha e sofro com os confins do sofrimento dos outros. intransponível. coesa. coerente.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

no mais fundo dela a beleza não passa de uma desolação que nos queima ou devora quaisquer direcções que nesta vida não escolhemos rumar por sentirmo-nos isolados daquela compreensão estranha por dentro do silêncio e dalguma força irremediável que nos obriga a anular a nós próprios aonde os caminhos pertencem ao desconhecido ou à séria vontade de viver outra vida que não esta:

– a que quisemos escolher.

por isso escrevo-te para talvez uma tarde quem sabe me escreveres e agora neste precioso contexto de trevas me abraçares límpida misteriosa e doce como uma nuvem de mel enquanto te afago a firmeza da alma ao mesmo tempo que te acarinho as memórias da infância com convicção e paixão pela dor, sofrimento, mágoa, tristeza, alívio, solidão sentidos por ti.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

coragem. é isso que precisas: coragem para enfrentar o universo à tua frente e não desabares como as escarpas frágeis prontas a ruírem para uma morte de remorsos. seja qual for a morte. será sempre um renascimento noutra dimensão pressentida.

sabes:

mesmo com estas dores de cabeça tremendas que me trespassam os feixes de energia corporais e me deixam neste estado de completa inércia convalescente desfalecido numa morosidade inóspita mas sentindo profundamente o pensamento no que não existe para lá da morte ou antes do que existe noutra dimensão que nos é impossível atingir ou transportar-nos.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

digo-te então que vais sentir uma determinada beleza eterna na pessoa que partiu à breves semanas para regressar às tuas memórias puras iluminadas [e que te será sempre próxima] amando-a à tua maneira e desapareceu deixando-te só. muito só.

não deixa de ser estranho esse sentimento quase devedor inundado de um certa doçura existencial ou antes uma candeia de luz incandescente sobretudo porque te se acenderá uma acendalha de inabilidade ou habilidade para lhe pertenceres. e pertences. fixa isso.

sei que a vida por último não lhe foi fácil ausentando-se para a doença que a varreu do leito e a obrigou pois a escapulir às entranhas das noites assinaladas pela velhice e desilusão da monotonia diluída na carne apagada mas acredita que lhe foi concedida aquela misericórdia que nos ultrapassa a mente.

perdoa-a perdoando-te dos prejuízos, danos, medos, receios e omissões. lágrima a lágrima despontarás para as maravilhas da vida ainda não vividas por ti. prossegue ela o quererá desejando-o que o faças por ti mesma e que não te prendas às sombras sentadas contigo ao colo e todos os dias ou quase todos os dias te visitam povoando-te. rodeando-te a consciência do amor.

– sobe até ao mar acena à pessoa que zarpou para outro cais portuário com odores saboroso com vista bonita por sob paisagens inimaginadas como infinitos postais ilustrados pelas mais belas mãos de pintor e escultor. são paisagens que se vão sumindo para dar lugar a outras mais belas. purificadas aonde as cores rodam em torno dela e a fazem sorrir delicadamente para ti. essas paisagens cantam longas cantigas e ela dança com pés de asas e esvoaça entoando ela também outros cânticos novos. rejuvenescidos. contorcendo a flexibilidade do corpo como uma ave dança feliz por entre o céu azul claro e as galáxias em espiral tranquila. canta e dança rente à tua sabedoria para festejar a escolha dos teus sonhos concretizados e o amor que sussurras a quem te merece e deve ser amado por ti.

– questiona-te deitada defronte ao sol daquilo que queres de verdade [seja no que for] jamais por conveniência ou hábito ou comodismo. isso vai-te carcomer as veias do pescoço e asfixiarás com um nó de lâminas por dentro no dia que tentares erguer-te e não o conseguires não por falta de forças mas por não possuíres já uma imagem nítida de ti e do que um dia foste ou poderias ter sido. saltas para o espelho do quarto e sim não te reconhecerás mais. sim é tudo muito triste.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

está na hora do choro alastrado pelos veios do corpo acabar de arder e furar-te cessando estancando o espaço da ferida completa. fechando-a: poro por poro.

agora te digo que não se abrirá mais porque te contei o segredo da morte. por isso quando gesticulares um aceno de sorriso sorrirás para toda a eternidade para ela e ela te devolverá esse sorriso alegre.

este não é um poema de ódio, raiva, tristezas ou remorsos. é um poema para te relembrares da pessoa que a tua avó foi e é quando todas as noites esquecidas adormeces e sonhas com ela. é um poema de continuidade da tua vida. é isso que importa mais e ninguém tem que dar por isso a não seres tu própria.

agora pára de chorar e desperta.

 

«cartas», 2016, filipe marinheiro

 

 

[acordas com o susto…]

acordas com o susto da madrugada rodeada pela frescura do orvalho. despertas como as flores de sol na boca tapada.
atravessas a cama e abres a janela que dá acesso ao lado do mar e todo aquele mar invade-te o coração doce. comoves-te. não choras.

não te encontro em lugar nenhum ou então já aqui não estás para te dizer que te procuro no sono da noite.

estou deitado sobre uma tapete de erva verde prata, escuto a voz da lua a embater contra o mar de beleza. as estrelas dançam e rasam as outras estrelas. apaziguam a dor do desconforto.
depois, ato-me entre a distância das estrelas com uma corda de safiras e de uma ponta à outra: e eu danço loucamente.

procuro-te sem saber o porquê. julgo que o teu súbito desaparecimento não remedeia o perdão ou enterre os maus entendidos que nos afastaram um do outro. é muito triste: nós sabemos. permaneço prisioneiro da minha tristeza e alegria de viver.

ergo-me dentro de mim próprio com as forças matinais para te pedir que me perdoes.

o mar é uma ausência de ti.
incendeio as folhas de papel que vou escrevendo. ardo desde as pontas dos dedos aos pulsos.
peço ao mar que me apague as queimaduras e com os fios de sal me limpe as feridas e me cure.

no entanto o mar que és, permanece escondido nalguma estrada, edifício, rua ou cidade subterrânea sem avistamento porque não te consigo ver.

perdoa-me se te magoei e te peço uma só derradeira oportunidade de nos conhecermos e dizermos: a beleza.

 

«cartas», filipe marinheiro, 2016

[numa ébria…]

numa ébria noite de leve cumplicidade rodopiavas infinitamente o quanto restava de ti roçando o longo casaco de veludo avermelhado rente ao meu corpo espalhando um aroma de sedução atirado pelo ar denso encharcado de cinzas e poeira.

voltavas a passar-me uma e outras vezes sem precedentes como se estivesses prestes a morrer em curto-circuito.

corrias sempre à minha frente, não conseguias parar, permanecer quieta ali, e de imediato ou súbito fixei a luz sensível por detrás dos teus óculos pretos.
contemplava uma beleza melancólica e abstracta. frenética.

doutros corpos que se agitavam contra a melodia escorria-lhes aquele vapor de transpiração molhada colando-se-lhes as roupas à carne desértica. uma carne esquecida nalguma adolescência fugitiva ou nalgum prolongamento da memória alucinada.

dançava tudo doido. descolando os ossos da pele tão vasta.
pessoas freneticamente contorcidas pela loucura noctívaga de lume sonoro e das drogas ingeridas como transparências daquilo que são.

mais uma vez voltaste a passar-me diante o rosto vestido de barbas num vaivém etéreo. talvez eu emanasse algum brilho de mar cristalino ou de mistério lunar quando esbarrávamos olhos com olhos ou outro mistério maior.

estremeceste a minha cabeça como se me tivesses desatado a abanar as têmporas ou desatado à marretada dentro do meu cérebro dentro.

delicadamente como uma força de rasgo que vem do interior através entranhas tive que te tocar subtilmente por sobre a palma da tua mão direita. acariciando-a com limpeza e paixão. ias deixando-a permanecer ali sob o peso da minha mão e ias regressando sem saber porquê.

depois, flutuei até ao recanto da sala onde dançavas amarrada a ti própria e ergui-me para dançar doidamente. sabia que desconhecias
a minha enormíssima franja pelo meio do cabelo. inclinei-a, estiquei-a, apertei-a para tu a veres. voava enrolada nela como se enrolasse no teu nómada corpo.

fomos felizes naqueles solarengos momentos: expugnáveis. inadiáveis. soltos sem destino ou morada. ninguém se apercebia dos beijinhos que te dava na face junto ao pescoço arrepiado. apreendi-te o odor doce da tua pele macia. sussurrava-te coisas mirabolantes.

pois é, só nós detínhamos a chave daquela fábula subterrânea.

mais tarde antes de rumar a casa agarrei-te com determinação e fôlego nessa tua silhueta de cisne, arrastei-te até aquele corredor escuro, paralelo ao bar que já não existe. voltei a tua boca contra a minha e sem o teu consentimento e inflamado pela alegria, beijei-a: a boca toda.
não sei se te recordas todavia o beijo, esse, foi correspondido na própria boca fechada. arterial.
eu sei não estavas em ti.

desculpa meu querido amor preciso que me perdoes no tempo e na oportunidade que se calhar nunca me darás para estar perto de ti.
ainda hoje guardo com magia, inocência e nostalgia os teus lábios de flores.

sabes, por vezes, apetecia-me acordar a teu lado percorrer-te o corpo todo numa doçura de beleza inseparável e envelhecer contigo junto ao sol misturado ao mar. eis uma viagem que podemos ainda percorrer. beijo-te

 

«cartas», filipe marinheiro, 2016

[uma misteriosa noite…]

uma misteriosa noite colei-me aos vestígios do teu doce corpo, cúmplice da beleza abstracta. sussurrei. recordava. observei: escutava a força daqueles movimentos interiores e anatómicos
– que beleza correcta via.

encontrava-te onde te perdia. fugias, voltavas. e eu, aproximava-me do teu perfume curioso.
embatia contra o brilho cintilante do teu olhar cósmico, visceral, misterioso. mantive alguma distância sobre uma espiral de passos – triste, desiludido, magoado porque não sabia como te atingir com um sol de mar e dizer-te o que sentia. dizer-te da bondade e do despertar da vida feliz.

rodopiavas leve, solta, absorta tal uma bússola confusa sem sentido ou tal uma ave sem asas fortes. asas doiradas a pétalas coloridas.

via-te a flutuar nómada rasgando a minha carne frágil e os subúrbios da escuridão de um lado para o outro como um furacão de flores exóticas a dançar entre os fios de música e as labaredas de fumo. dançavas toda em sedução com as mãos livres pelo ar a arder quase a roçarem de encontro às minhas mãos de seda.

verteste gestos de noite, vigílias, alertas até à superfície das veias, olhares desconfiados, sorrisos contemplativos. só podias ser eras um verdadeiro anjo caído ao acaso do céu esplendoroso.
céu ausente e alegre.
assim te senti como num solitário sonho…

inesperadamente acendi o cigarro agarrado à tua boca meiga e fumámos inspiradamente a overdose do desconhecido.

levitaste dentro de ti mesma. descobriste a minha fala sem sentido. enganaste-me para te protegeres: eu sei meu amor que não me reconhecias ainda. e reconhecerás?

persegui-te contra a minha razão ternurenta por entre a multidão bêbada porque no mais profundo de mim sabia que nos merecíamos, mas não naquele momento, naquele lugar inclinado.
quem saberá se merecemos uma oportunidade. uma única oportunidade?
seria um milagre belíssimo até não querer mais…

deixaste-me abandonado ao meu próprio fracasso que assumi melancólico.
senti os incêndios do abuso das palavras a deflagrarem, a estrangularem-nos as gargantas húmidas, gélidas ou o estrangulamento talvez não passasse de um mero vislumbre luminoso da paixão ainda em forma duma mera expectativa. de nada valeu ter-te assediado daquela invasiva maneira com tantas palavras e bocejos noctívagos. errei. devia estar a sonhar impassível.
não importa, porque assumo o erro que me apagou quando te toquei com os dedos acesos de água morna.

depois, determinado em murmurar-te mais algumas palavras sentidas, iluminadas. somente palavras para vestirem as tuas não desisti de ti pois és preciosa demais para isso, então:
esperei. esperei. procurei-te. finalmente encontrei-te e decidi persistir, persistir com o coração aberto às tempestades e aos jardins fabulosos que um dia iremos ver juntos…

[jamais desistirei dessa tua beleza certa. beleza inquebrável. beleza hipnótica.
estremeço de alto a baixo. comovo-me só de pensar em ti porque tens a beleza que admiro.]

lembro agora que lá fora a paisagem chovia em redemoinho de ventos desérticos, cortantes.
prendeste-te aos ombros da tua querida amiga suspendendo os cabelos entrançando-os nas artérias da neblina espessa. enrolaram-se uma na outra com muita destreza corporal hábil. tu maravilhosa.

rumaram subitamente em direcção aos barulhos misturados das pessoas aos berros em plena voz e timbre trémulos, do alcatrão molhado à tona no chão, das redes de metal a dividirem os espaços, das casotas de madeira desfiguradas, dos pórticos de entrada com os seguranças a conversarem entre si sem querer saber de mais nada, das luzes da rulote das comidas plásticas, fritas a estilhaçarem as peles de todos que por ali caminhavam sem um destino certo.

os rastos desses ruídos, dessas vozes contorciam-se nervosamente para conseguirem erguer a brisa das memórias e das paixões por ferverem pelas saudades da ausência ou pelos acasos da vida.

[aprendemos e desaprendemos, é isto, quem sabe a vida a viver…]

quase cantava a madrugada mergulhada no nevoeiro quando surgiram os frenéticos autocarros encharcados de pessoas loucas e mais pessoas silenciosas. assemelhavam-se a longínquos túneis de aço abanado pelo uso gasto das máquinas que trituraram muito asfalto.

tentei usar as últimas palavras desesperadas que eu sabia deslizarem bondosas pelo rosto abaixo. as palavras inundadas de orvalho não me deram sorte. confesso que no mas íntimo de mim derramei vagarosas lágrimas sobre a sinceridade de quem sabe que tudo não passou de um mal entendido. um equívoco de percepção ou vertigem óptica aceitável.
aceitei. tive que aceitar.

por fim desisti.
a modesta salvação seria o meu repentino desaparecimento sob as estradas molhadas por folhas e ramos a girarem sobrepostas onde as árvores se confundiam com a tua sombra – contigo.

meses se passaram e nunca desistindo de ti encontrei-te de novo como a espuma escorrega por cima da onda do mar azul marinho. fui-te escrevendo com carinho e saudade ausente: o silêncio, a paz, a felicidade ou para te dizer que talvez te ame na oportunidade que poderemos vir a dar um ao outro. deverás anotar que não a irei desperdiçar em momento algum. fixa-a.

gostava de perder-me em redor à tua alma de mel e açúcar porque não sei como comover o teu cegante coração, e amar-te docemente até envelhecermos de lábios dados à beira-mar.

 

«cartas», filipe marinheiro, 2015

 

[certa noite…]

certa noite a arder como um íngreme mar colorido, ergueu-se um luminoso feixe de sorrisos, um ciciar vagaroso mergulhando noutros corpos atentos, gestos esvoaçantes, olhares a guardarem beijos para mais tarde talvez quem sabe se amarem ou uma navegante paixão por entre a penumbra da sala corroída pela sombras e névoas vermelhas a queimarem as luzes aéreas.

vi a acenderem-se rachas, fissuras nas paredes côncavas a chorarem de comoção e sedução. vertiam-se bebidas, músicas, timbres, espelhos oceânicos… toda a desarrumação daquelas velhas mobílias carcomidas a desabarem pelo tempo só. tempo muito só. tempo triste. tempo de solidão. aquele fabuloso tecto tatuado por figuras, saliências, frisos, gesso, lixo, insectos, curvas: geometrias melancólicas impassíveis.

as varandas interiores a cantarem à ninfa do mar – flores de estrelas e o ouro do meu corpo rijo a assolar-te com curiosidades bizarras. estranhas. assustadoras quem sabe senão a memória acordada antes mesmo em ti. desassossegaste-me o andamento. as horas sobre o arco-íris a irromperem toda a beleza abstracta. beleza delicada.

tremi. tremeste. vigiei-te a alma, o sol nocturno à deriva por ai. vigiei a textura, a substância subterrânea dos teus lábios curvilíneos, macilentos, redondos. lábios seda. dulcíssimos.

todos os objectos, ar, pessoas esfumando-se contra o doce estremecer da cadeiras sob as mesas celestiais. na força centrífuga o teu louco rosto abanava, em câmara lenta, duma margem para outra. impediu-me de te acenar anónimo ao desejo que senti invadir-me o coração de mel.

flutuava suspenso pelas minhas barbas: enormíssimos fios de sol ermitas até ver-te sussurrar de ouvido em ouvido, qualquer coisa movendo para uma outra coisa, talvez ousada. sincera. não sei. não sei se me derrubaste as trevas que carrega em mim ou me deste algum ânimo, alívio para esta vida morta. sem grande interesse. só tu. só tu. cerrava as pálpebras no esbatimento cardíaco – enaltecia-te pelo noite dentro.

tempos depois, entre tantas travessias sombrias sem que nada se desencadeasse – o fogo dalgum toque em ambos os corpos estranhos ou dalgum abraço, carícia ou dalguma ferida e cicatriz ou ainda dalgum beijo perpétuo até desaguar na eternidade adentro…

e sei agora que tu não o consentias porque tinhas algum receio, insegurança, vergonha, timidez mas acima de tudo não querias apagar as labaredas desse desejo a murmurar talvez de paixão arrebatadora ou somente uma curiosidade ou uma provocação ou um aceno meigo.      percebe-te tão bem. contudo, sinto-me afastado tanto de ti quanto de mim lua de deserto.

you are my silence. i’m the silence. fuck. it’s all true. the world is burning a body of lies. i’m not.

e ao escrever-te tudo isto, inundado de dor cintilante, sofrimento que se tece na cabeça por sobre os órgãos a esmagarem-se nas veias reflexas. lágrimas de açúcar a deslizarem para a boca fina. melancolia nos pensamentos e ideias. sons a palpitarem nas vidraças do meu quarto ao lusco-fusco. timbres a nomearem o medo e a rejeição. toda uma desolação aonde a  esperança sem esperança atraiçoa os corpos rastejantes. pétalas a bailarem no peito rasgado à terna felicidade. aromas a oscilarem na ponta dos dedos fecundos. tristeza a perfurar-me as palavras que te escrevo. as magníficas cores a deitarem-se dentro das palavras. alegrias nos cúmplices caminhos a inclinarem-se para nós.

então, gravei todos os teus movimentos de loucura nos pulsos a ferverem de futurismo. enumerei-os vezes sem conta defronte à suave brisa do belo entardecer. sol a pôr-se sulcando, espalhando os poços de luz contra a carne viva e atenta. carne exacta. excepcional.

cantava-te a imensidão do mar prata e as aves com asas de arte a planarem rente a nós.            não me ouvias? os sinais? os rumores? os pirilampos? as magnólias e os girassóis a entrançarem-se nas colinas desta vida fabulosa? a meditação intrínseca? quanta distância entre o meu corpo e o teu. porquê? nunca te persegui ou ousei-o fazer. criatura angelical. deixa lá, não ligues, talvez esta escrita não te diga realmente nada. não te aborreças. canto-te até à exaustão da madrugada.

mas jamais deveremos destruir tudo aquilo que construímos num único e exclusivo momento, mesmo que invisivelmente, sem recados escritos à mão ou o desmoronar de moradas sem destino ou rumo para sobreviver sem ti nalguma terra sem nome ou razão.

tudo se apagou à minha volta, derreteu-se… menos tu, a beleza luz rodopiando entre o corredor exíguo, corredor estreito a saltitar de porta em porta, e a palma da mão esquerda beijada com subtil beleza absoluta.

disse o jovem poeta arthur rimbaud em 1871: «qualquer coisa que mantenha as famílias, casais juntos não é amor. é imbecilidade. egoísmo ou medo. interesse pessoal  numa ligação baseada no proveito pessoal existe. o prazer existe. cumplicidade existe. mas não o amor.  o amor não existe. o amor deve ser reinventado…»

«o amor não existe. o amor deve ser reinventado

podem semear as trevas, a maldade, os sustos, a inveja, a raiva, o ódio, a miséria ou mesmo a morte compacta. podemos continuar a acender cigarros, lume ao mesmo tempo ou se quiseres poderemos esboçar um desenho a rir-se. íamos memória em memória fumando cada uma no seu alcance. outro cigarro. outro poema. outro verso. outra estrofe alquímica.

c’est l’amour dans le bleu. maybe a ilusion. maybe a kind of poetic words. maybe… a open window into the poem. vient… i want to know you better like a sunshine star. so silence. l’a vie. l’amort.

eis que me ergo das profundezas da lava sísmica universal como um céu azul solar com asas transparentes, repleto por forças e certezas. tomar-te-ei nos meus elásticos braços de água. quem sabe um dia beijar-te infinitamente.

sei lá, temos tanto tempo de sobra aonde a vida começa uma nova rota e reinventar-mos o amor e envelhecermos juntos à beira-mar…

filipe marinheiro, 2015

[acordas com o susto…]

acordas com o susto da madrugada rodeada pela frescura do orvalho. despertas como as flores de sol na boca tapada.
atravessas a cama e abres a janela que dá acesso ao lado do mar e todo aquele mar invade-te o coração doce. comoves-te. não choras.

não te encontro em lugar nenhum ou então já aqui não estás para te dizer que te procuro no sono da noite.

estou deitado sobre uma tapete de erva verde prata, escuto a voz da lua a embater contra o mar de beleza. as estrelas dançam e rasam as outras estrelas. apaziguam a dor do desconforto.
depois, ato-me entre a distância das estrelas com uma corda de safiras e de uma ponta à outra: e eu danço loucamente.

procuro-te sem saber o porquê. julgo que o teu súbito desaparecimento não remedeia o perdão ou enterre os maus entendidos que nos afastaram um do outro. é muito triste: nós sabemos. permaneço prisioneiro da minha tristeza e alegria de viver.

ergo-me dentro de mim próprio com as forças matinais para te pedir que me perdoes.

o mar é uma ausência de ti.
incendeio as folhas de papel que vou escrevendo. ardo desde as pontas dos dedos aos pulsos.
peço ao mar que me apague as queimaduras e com os fios de sal me limpe as feridas e me cure.

no entanto o mar que és, permanece escondido nalguma estrada, edifício, rua ou cidade subterrânea sem avistamento porque não te consigo ver.

perdoa-me se te magoei e te peço uma só derradeira oportunidade de nos conhecermos e dizermos: a beleza.

filipe marinheiro, 2016