Arquivo do autor:filipemarinheiro

[surpreendem as crianças…]

surpreendem as crianças
têm corações e emoções exactas
desviam o pulsar das tardes mergulhadas num calor redondo
extasiado tocam-se no exercício nas vozes
arrancam as vozes
as tardes desordenam-se
reabrem o sol ou o sol às tardes ao calor
olho-as
como quem pensa na criação de novas constelações
ou brinca entre a doçura desses ventos tórridos pesados
quando contaminam a matéria dos espaços
num cerco absurdo
sério e a eternidade pára de crescer
as crianças ignoram o sol a lua as estrelas os cometas de safira
tudo lhes é passageiro
nunca morrem enterram os dedinhos na luz em alta tensão
são disfuncionais consigo mesmas
nascem pelo ar através das forças que golpeiam o mundo
perdem-se todas as crianças
ao esmigalhar todas as ruas pintadas pelo fogo à mão
contra a sua alegria infinita de quem purifica o sangue a boiar
entre as suas brincadeiras
crianças em mágoa virada para dentro penetram nas pernas
uns dos outros
endoidecem a luz que rasga a pele que rasga as veias ondulantes

toda a criança desfalece por cima
dos milagres incorrectos quebram a alma a eternidade
gritam à espessura
das horas sem terra enlouquecida porque a loucura é o seu destino
a pulso ainda
e quando a tristeza calça as crianças elas gritam
porque querem alimentar-se da melancolia das coisas abandonadas
coisas solitárias a arderem na pureza do mundo alto e frio
depois as crianças festejam sempre com gritos acenos arbitrários
gritos de verdade de pureza
gritos a flutuarem na voz infantil sábia de quem se perde
e encontra o silêncio todo
nelas cortam-se as cores líricas com asas por caçar
toda a cor bela roda os olhos das crianças pela noite dentro
quando os seus rostos admiráveis
tomavam as correrias transformadas como assombramentos
correias a respirar a estenderem nas ideias mortas
ou ideias a romper palavras os ritmos de outros corpos a corpos
a parar nos corpos das crianças antigas
de dia e tarde ou noite as crianças só existem
quando gostam de roubar os espelhos ao sono
o sono sai do peito da criança em criança
que sai doutras crianças
que racham a vaidade dessas invulgares crianças
o sono estilhaça dolorosamente os lugares
as sílabas os pés os chapéus
as peúgas as sapatilhas sujas as calças largas para saltarem
com vontade os movimentos das pernas entrelaçadas
na criação do deserto
que se espalha à noitinha nas camas na almofada que está exausta
ou desponta o pólen
tudo tem um sentido e as crianças esperam-se fundamentais

cantam a essas ruas cantam na haste elevada das flores
enormes flores oscilantes
à volta das bocas pequenas a empurrar a água que ingerem
e as flores escorrem à frente das cabeças das crianças
como a pensarem no fundo sufocante
do mar submerso
mar a pensar na loucura das crianças mar lento que roça os poros
a dormir
gotas de mar a riscarem oculto o pequeno corpo
dessas crianças salgadas
as crianças pernoitam vigilantes com todas as inteligências
devastadoras
com todas as vinganças e inseguranças e a raiva
essa desfaz os brinquedos na garganta
sabemos através das crianças
que as águas são para esgaçar os céus reluzentes
e brincar com as pedras na língua afora porque são secretas
deixam-nos em paz as crianças quando iluminam
as nossas singelas vidas
ou tramam os orifícios para onde nos deslocamos
a romper o sangue o hélio na boca ou a romper o ouro pulmonar
vidas sem misérias ou hábitos sangrentos
vão-se embora
as crianças dentro de si fogem ao coração permanecendo abertas
criança após criança
parte-se o frio a neve as estações todas
é tão alegre que nos faz chorar arrepiando a frescura das palavras
não ditas ao caso que amam
são simplesmente crianças e como crianças fortes robustas
ou insuspeitas abatem este doido poema meio náufrago
das crianças nada somos
apenas uma mera distância mas com elas tudo aprendemos

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

 

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[vibro às portas…]

vibro às portas deste céu cilíndrico que me engole
como a erguer todo o impossível azul platina
seja a repuxar os seus tentáculos no plural
e do inverso infinitivo colho a linguagem a bailar na fogueira
vestida pela luz a sair das mãos
linguagem a encolher nas minhas mãos luminescentes
contra uma força irresistível
celeste
onde viro do avesso toda a eternidade que vem de dentro
– a eternidade das coisas bestiais

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014

[rios que pensam…]

rios que pensam como se podem cortar os pulsos aos pecadores
escrevem as sombras nas palavras para a humanidade
se tornar mais veloz ou então rasgar o disfarce da frescura
do corpo soterrado nas margens em louvor
 
todos os rios pensam qualquer coisa estranha
e os pecadores aliciam-se pelo susto
filipe marinheiro, «noutros rostos», 2014

[voga a luz no corpo…]

voga a luz no corpo visceral
descola-se nos órgãos internos
os órgãos mexem-se para os órgãos externos que voam
de dentro por fora numa queda a pique
dos órgãos a planar noutros órgãos na periferia sai uma substância
inocente crua grave
loucas imagens concentram-se no movimento velho
imagens panorâmicas a morrer
asfixiadas e côncavas no sangue que se afoga no corpo
corpo em chamas queima-se sobre os espelhos
um jardim de espelhos que sopram cada dia
cada osso cada carne cada ferida cada cicatriz cada órgão dormente
e os espelhos ferozes fotografam a carne a alma
a luz é lenta perde-se neste poema
o poema fura a luz da luz
todo o corpo como um dom não escapa ileso ao seu esquecimento
ilimitado genial: luz atómica a palpitar no poema
o poema como um golpe em pavor
se mexe no medo à massa do sangue rasgando as entranhas
ou o poema não se move não se toca
cose-se à força ao grito ao gemido à invisibilidade das coisas
o poema corporal como desordem poema delicado renasce no dom
mas o dom é esquecer o que nos escapa docemente ao corpo
qualquer perdão é inocência
ou voga neste esquecimento e a nossa luz corporal morre eterna

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora 2014

[rapidamente entro…]

rapidamente entro na selva queimada pelo perfume recente
das crateras sem pó ou seiva debaixo das plantações apetitosas

e desço num amor belo vulcânico para voltar a subir como lava
de chuvas acima

com as flores vegetais a rodar os caules
aonde a infância
representa os meus olhos a escorregar perenes nos corações
das labaredas que derrubam a curvatura do sol frágil
como lastro perfeito de animais selvagens de pequeno porte
a atravessarem toda a matéria das trovoadas

e o meu pensamento ao espalhar-se no poço de vegetação densa
é subterrâneo tenso moribundo – impenetrável

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora, 2014