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Deuses

é sempre o mesmo poema
este em que digo do amor
ou outra espécie de orfandade

mas ele pede que eu escreva
ele teme que eu me esqueça
e à semelhança de outros deuses
se põe a catar serpentes sob meus ossos

é sempre o mesmo poema
que me abre
que me quebra
que me come

e nunca nasce

Daniela Delias

A rosa

alice dispõe de mim
uma rosa vermelha, sonora
uns olhos de engendrar ternuras
sobre a descostura das coisas

feito pétala que se desprendesse
do zelo ardiloso de outras pétalas

e num voo furioso e lento
acordasse de vez o rio

A marcha

move o pequeno corpo
pela linha extrema
de um eixo invisível

ergue-se sobre as horas
fosse inteira
aquele lábio entre os dentes
aquele cerco de fibras e ossos
devastando a tempestade

sabe deus do que é feita
o que molha quando anda
o que cala quando goza

mas nunca
do que se evade

Roda

há este pequeno círculo
de lábios e pernas
girando as horas
acima de teus ombros

são duas, três voltas
mil vozes nuas
mil passos cegos
a dar em coisa alguma

deste pequeno círculo
sou o furo, a sombra
o olho que cobre a fresta

não sei se escapo
ou espio o mundo