Arquivo do autor:danieladelias

Serpentes

a mulher de que falo
põe os pés sobre a noite
e supõe que outros olhos
se abrem e velam
entre átomos
de rotas invisíveis

não diga a ela
que à vida não cabe
o drama que excede
as cartas de amor:

a mulher de que falo
dança agora entre serpentes

Pão

alguma coisa arranha seu lábio
e corta o canto de sua boca
e você pensa: é o frio
o fio súbito e displicente
de uma lâmina de papel

então você toma
a folha entre os dedos
e com uma pequena parte
alimenta o fogo
e você diz: é só o corpo
meu bem, é só o corpo

é quando guarda
o pão sob a língua
e come a própria espera

Daniela Delias

Linha

perdida toda palavra
haveria ainda
um anjo tatuado
entre teu nome e o meu
e quando a beleza impiedosa
de sua imensa asa escurecida
partisse de vez
a pequena linha escondida
entre teu nome e o meu
perdida toda palavra
haveria ainda
a delicadeza inequívoca
dos que se movem lentamente
em frente aos leões

Deuses

é sempre o mesmo poema
este em que digo do amor
ou outra espécie de orfandade

mas ele pede que eu escreva
ele teme que eu me esqueça
e à semelhança de outros deuses
se põe a catar serpentes sob meus ossos

é sempre o mesmo poema
que me abre
que me quebra
que me come

e nunca nasce

Daniela Delias

A rosa

alice dispõe de mim
uma rosa vermelha, sonora
uns olhos de engendrar ternuras
sobre a descostura das coisas

feito pétala que se desprendesse
do zelo ardiloso de outras pétalas

e num voo furioso e lento
acordasse de vez o rio