Arquivo do autor:danieladelias

Nós

é assim
desde que chegamos
eu e meu outro
desesperando
a única hora
o último dia
a fúria de uma estrela
repetindo
repetindo
repetindo
o primeiro silêncio

desde que estamos
meu outro e eu
não há memória sem corpo
não há noite sem olhar

Daniela Delias

 

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Vão

isso que dissemos
quando abrimos os olhos
se ao menos banisse do corpo
o barulho incessante dos órgãos
se ao menos coubesse
no vão entre as costelas
mas há coisas que excedem
a linha dura da linguagem
feito ossos que abrissem
janelas contra a pele
(todas a dar pro fim do mundo)
cada vez que respondo
à pergunta em teus olhos

Daniela Delias

O olho

dar um nome
à sombra larga em teus olhos
e desde um quarto escuro
devorá-la inteira:
músculo, lágrima, fome
mil páginas belas e nuas
batendo às portas do teu corpo

prender-me
à espiral do teu olho
e desde o ponto mais alto
dizer-me em tudo
no exato instante
em que entre teu olho
e o mundo
tudo se desloca

Daniela Delias

Doce

a ele não importa o veneno
que eu seja em sua língua
o amargo, o vermelho
a certeza de um corte

ele prova, esgota, entorna
e repete que é doce
esse todo que arde

Sua

tão sua e ainda assim errante
porque tudo em si movia
mãos, lábios, montes

tudo era assim
prelúdio, além, afora
tudo era assim adiante

Tear

ela tece com fio lilás
as rotas do seu olhar

mas quando ele chega
ensaia outras cores
inventa moda
cobre-se de rendas

ele anseia por suas saias
e rende-se às suas teias

(Poemas do livro Boneca Russa em Casa de Silêncios – Daniela Delias/Editora Patuá – 2012)