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Sobre Roberto Dutra jr.

Autor da CASA. Paredes e asas. Escrevo e isto basta.

MEMÓRIAS VELHAS (poesia para tempos de sangue)

Se pudesse respirar (eu queria mais ar),
pensaria em escrever qualquer coisa
mas não penso claramente coisa alguma.
Isso não é caso, nem conversa mole, pois bem.
A velhice já foi das pessoas e era plena.
Além dos oitenta; quase árvore em essência.
Tanta conversa em praças que já não existem.
Não é nostalgia (eu queria mais ar),
era um país em que o tempo se estendia.
Veio a vez da fala vazia, da carteira vazia,
da falta de empatia com a barriga vazia.
Veio a vez da perversidade acolhida e nenhuma partilha.
Dia após dia a perversidade fazia a mesa e se servia
dos corpos, dos ossos, das almas, dos dias (eu queria mais ar).
A pessoas se acostumaram.
A perversidade continuou.
Eu entendi a perversidade de acostumar-se com a milhagem da morte.
Eu queria mais ar, mas já vão desligar.

ZÉ MARIA (poesia para tempos de sangue)

estou cansada
tão cansada que me tremem as mãos
as pernas falseiam o passo
e já não posso dormir
pois me sobressalta o ar
dispara o peito
que não bate nada

estou cansada
como se me gastasse
os ossos uma lima
o pó acumula-se abaixo
incessante
incessante
incessante

e daí?
estou cansada e sei
que ninguém se importa
eu não tenho pele e o ar
foge pelos sinos vazios
ainda assim suspiro
estou cansada

um cansaço da moléstia
de me partirem os ossos
de cair duzentas mil vezes cansada
ainda assim me perguntam
pra que essa angústia?

certa como deus é brasileiro
eu não sou coveira
pra abrir tanto loteamento
só entrego a sala rasa
que a cada um cabe no solo da pátria

Prosa de manjedoura

Tudo que você precisa deve ser capaz de produzir por si próprio. Assim o essencial se revela, na solidão da sobrevivência.
A sistematização da vida social tirou isso de nós. Temos mesa farta para celebrar a pobreza de uma manjedoura. O símbolo esvaziado de uma prática inexistente. Nem empatia, nem caridade, disso a máscara não nos protege.
A pandemia não acabou e não tornou ninguém mais forte. No período as mensagens positivas passaram a ser geradas em um nível industrial e continuam tão vazias quanto sempre foram. Não vamos atingir nada em petições que se acumulam no servidor de um gerador de petições.
Vai passar, mas é por cima.
Eu sei que alguma luz se manifesta dentro de mim. Por isso mesmo quero me calar. O mundo já era belo e cruel antes de mim, mas é preciso ouvi-lo, ou me devorará.

DOIS POEMAS PARA MATAR A ESPERANÇA (poesia para tempos de sangue)

MATAR A ESPERANÇA, VERSÃO 2020

o direito de brincar na rua
o direito a merenda boa
o direito de subir em árvores
o direito a ficar à toa

pular na calçada e merecer a farra
a liberdade é pouca e a vida um dia
será lembrança do enquanto

lá na esquina um rastilho de metal azul

as vozes
as avós
as vidas
mais que sentidas
no lapso do espanto

sete anos acabam
parecem menos que quatro
menos que este verso
que não tem crianças

MATAR A ESPERANÇA, VERSÃO 2019

o antipássaro vigilante
abre suas asas de metal
sobre todas as crianças

o céu entrou pelas costas
não mais que um instante escarlate

oito anos passam
muito mais depressa
que oito versos

NOTA: Chove copiosamente no Rio de Janeiro na noite de sete de setembro do ano de sangue. Não mais que o pranto das mães e avós de crianças abatidas à bala.

QUEM ARRUMA A CASA? (poesia para tempos de sangue)

Acontece que a cidade morre
igualzinha àquele parente.
Lembra, de sangue quente?
Quem vai arrumar a casa
trocar a lâmpada
limpar a calha
e a geladeira?

O ar está sujo.
O quintal está sujo.
O nome está sujo.
O pleito está sujo.

É insolúvel esta tarde contaminada.

Sangue e radiopatrulha,
corre-corre sem rumo.
Não tem trave na rua.
Não tem festa no bar.

O mormaço do subúrbio
tem cheiro de lama seca,
cisterna vazia,
suor e poeira.

É impossível respirar a conjuntura.

As águas pluviais
e as lágrimas da população
encontram seu caminho
embaixo da terra.

É a cidade que morre de amargura.

FIAT LUX IN TENEBRIS (poesia para tempos de sangue)

Joãozinho colecionava fósforos.
Cada caixinha quarenta lumes.

As primeiras palavras, a tabuada, a rima
do primeiro samba –
cabiam na caixinha os brinquedos
e a infância.

Aos 10 anos o apelido de palito de fósforo queimado apagou no seu peito a igualdade.
Na pele a sua identidade.

Aos 15 no chão do mercado em que trabalhava
(o peso do homem da guarda lhe esmagava)
esvaziaram-lhe os bolsos as calças e a dignidade.
“O cliente tem convicção, deve ser verdade.
Apreende, que o neguinho canta da grade.”

O silêncio dos colegas – a face da falsidade.

Dali em diante, pra cada costela quebrada, cada aula perdida, mais valia a regra da caixinha:
mantenha distância do rosto, a direção contrária dos olhos.

E toda nota de repúdio arde
na rede de mercados da cidade.

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NOVA POLÍTICA (poesia para tempos de sangue)

É fato conhecido
que cada político vê o mundo
nos olhos de uma criança
faminta.

Aprende-se muito nas ruas.
Cada sorriso capitaliza sufrágio
nas ruas de asfalto liso.
Cada abraço conta um voto
no barro das casas sem piso.

o pastel com caldo na padaria
arreia joelhos em romaria.

Aprende-se muito nas ruas, só não acredite em tudo.

Quanta benfeitoria, coreto com engenharia,
luzes de Natal e patifaria.
Quanta alegria!
A esperança é um cheque para outro dia.

É fato conhecido que cada político
fecha os olhos às crianças famintas
porque quer.

Não há pátria para maricas.

EM VERDADE (poesia para tempos de sangue)

Vivo nas vielas amargas com os ossos das avós que deixaram na terra suas histórias.
Quem tudo produz tem fome.
Quem tudo produz morre sozinho.
A terra é santa, as escolhas jamais,
Bar Abbas é filho do pai.
Em cada boca há flores para o Gólgota.
Este pranto abafado não diz nada.
Em silêncio, as gavetas esquecem.
A carne calada é menos que cova.

As urnas de Pilatos não contam com Lázaros.

AMÉM E NECROTÉRIO (poesia para tempos de sangue)

Canto a história de como a alegria vira lágrima
na viela e erguida a bala

nossa de cada dia, comungamos a antivida
metálica e a segurança falsa da tv na sala.

O programa não é documentário, ou revista,
ninguém fala, tampouco o morto dá entrevistas.

Assembleias cheias de estratégia, prataria
demagógica e ignorância velha, das cadeiras, à galeria.

Gavetas e valas sempre abertas, as mães vazias
em romaria soam preces anestésicas.

As catedrais erguidas com ossos,
todos os oceanos secos são olhos.

Pai nosso, de cada vida que nos tira
agora, santificada seja a terra que agoniza

a hora da nossa morte.