Arquivo do autor:Roberto Dutra jr.

Sobre Roberto Dutra jr.

Escrevo.

APORTADA

Amanheci deslumbramento.
Cessa o cego que fui
por tanto tempo.

O Sol no seu porto moreno
ressoa
oceanos e invernos.
Voa, gabbiano, voa!

Não mais o périplo
incerto ou tormentas.
Desfaz-se o sonho denso.
Voa, gabbiano, voa.
O argonauta enfim descansa.

Amanheci intenso
na sua encosta
mais serena.

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CÁLIDA

há muito, meu amor, entre os lençóis
labirintos e quebrantos
o elenco de um sonho in italiano
o galope do desejo
distante de tudo que é perfeito
finito e puro, bate no peito
o abrigo que resta ao intenso estio

chamei-te pelo nome
e era cálida, cálice, alvorada
pradaria, gramínea orvalhada
assim chamei-te pelo nome

carrega-me contigo além do vazio
além da solidão da sala
a loucura da vida diária

há muito mais, amor, é pleno o corpo
de mergulho e assombro, uivo
terreno, vento contínuo
e o pecado é dos ingênuos

AGONOFRENÓS

Seu vento chega pela janela tomando-me pelos braços.
Traz o invisível zumbido do vazio.
Ausências que despedaçam a carne.
A igualmente invisível presença da morte.
Nas paredes brancas e nos quadros
nada encontro além de hiatos no tempo.
Um fio,sempre esticado, sem roca, dança sem sentido.
Trago comigo o fim da tarde.
Há lugares silenciosos em ambos os hemisférios,
trago-os comigo também.
o arcano derradeiro da vida sem espelho.
O arbusto que seca, o suspiro do braseiro.
A impossibilidade dos suicidas.
Desconheço esses braços dormentes
e suas veias e tendões atados ao meu peito.
Quem opera esta dor que não sinto?
Com seu tamanho, Deus absoluto e silencioso tuíta
novos pecados em algarismos romanos.
Teço orações não respondidas em uma colcha de avemarias.
Agulhas assustadoras como verdades
e sinos silentes à divina ira.
Minhas mãos não alcançam seu corpo.
O peito queima socorros:
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora mortis nostrae.
Não é meu ou seu, ou novo.
O Sol secreto do ovo.
(pausa grave, o céu em cefaléia)
Duas xícaras na janela contém todas
as perguntas não respondidas.
Há sal no parapeito e a vida,
não saberíamos dizer se está prolixa ou meio dita.
Melhor senti-la, como abraço,
ou nome pronunciado bem alto.
Seu nome direi contra o vento.
Serei broto, depois tronco, então relva, depois solo.
Todas as emoções me atravessam e murmuram
dissabores na música atonal das árvores.
As coisas mais importantes são aquelas que falam de ti.
Tão longe está, que os olhos cansados somem.
Tremor de horas e insônias.
Toda mudez agora assombra.
As palavras se transformaram em bocas.
A fantasia abandona do dia supondo
abismos distantes e nuances.
Perdi minhas verdes folhas verdes.
Tornei-me oceano marulhoso
e insistente gabiano.
Incessante e dormente asas brandas nas termais.
Flutuando em seu nome:
noite morena e distante.
As coisas mais importantes são aquelas que falam o seu nome.

DECLÍNIO DO SOL

Agora, já não é meu.
J. L. Borges

Armo jogos de palavras
São batalhões em campos claros
acercados entre linhas
Cada nova investida
muda o rumo de uma vida
Não há sangue nessa farsa
que sempre se repete
Ladainha clara
Artifício opaco
Nada soa como deve
nem sua curva me ampara
O poema tem seu passo
O poeta mede o ocaso

DESLIMITE

para Marcos Vidal

qualquer imagem
sem palavras
qualquer alegria
sem receios
qualquer passeio
ao infinito
qualquer foto
sem moldura
qualquer disco
arranhado para voltar ao começo
qualquer tudo
sem nada adiante

a não ser a si mesmo.

 

1999 – in: Quatro estações: O trevo

 

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2018. Foto de Marcos Vidal @vidalcost

TOADA (Ela é o mar)

Há muito peixe no mar
Eu ouço o povo falar
Há muito peixe no mar
Espere o vento soprar

Navego, navego, sonhei o mar

Eu não sou pescador
Eu levo meu barco pro mar
Carrego em mim tanta dor
Qu’ eu levo pra longe no mar

Navego, navego, ela é o mar
Navego, navego, sonhei o mar

Eu sou bom remador
O vento me leva pro mar
Eu não navego ao sabor
Com vela eu sei navegar

Navego, navego, nos braços do mar
Navego, navego, nos olhos do mar
Navego, navego, ela é o mar
Navego, navego, sonhei o mar

Este gosto salgado no rosto sereno
Amargo sabor do mar
Maninha não vem no meu barco pequeno
Carrego pro mei’ do mar

Pra longe, pra longe, pro mei’ do mar
Pra longe, pra longe, nos olhos do mar
Pra longe, pra longe, ela é o mar
Pra longe, pra longe, sonhei o mar

Navego, pra longe, pro mei’ do mar
Pra longe, pra longe, ela é o mar

 

ela e o mar