Arquivo do autor:Roberto Dutra jr.

Sobre Roberto Dutra jr.

Um escritor.

O BAR DO BEIJO

Todo cronista entende de memórias de bar. Sentado sozinho na mesa, quantas vezes, quem nunca? Destino certo daquele que não suporta nem a própria companhia. A noite é uma mera sucessão de horas indistintas, pois se parecem e passam inexoráveis, mas também sozinhas.

Em certas noites há o violeiro, o cantador do sereno, do amor, seja ele correspondido ou não. Ele sempre fica no fundo do bar. A luz sempre falha ali e às vezes ele perde a letra. Fundamental é não deixar de se envolver pela noite. A bossa soa como se a noite emanasse do violão. As pessoas movem-se lentas, escorregam pelo balcão. O cachorro chega sonolento, como que em câmera lenta – poderia ser também efeito de alguma luz estroboscópica – , e cheira as pernas de todos. Neste momento, o violeiro está tão intimista que o cachorro se chega como se ali houvesse um tapete. O lugar era dele, sob o calor das luzes, que nem acendem mais. O cachorro se deita no lugar onde se iluminaria, caso as luzes funcionassem – sabedoria animal, certamente. O cachorro é o cliente mais antigo dali.

Nos bares mais sofisticados há mesas para fregueses espaçosos e estes, são chamados de clientes. Não é deste lugar que estou falando. Embora exista uma mesa e meia no salão. Há uma mesa e mais quatro cadeiras extra, estas contam como meia mesa. É tecnicamente a mesma coisa, só que sem a mesa. Há uma televisão, que quando não habitada por poltergeists, exibe imagens em vermelho e verde fora de sintonia. Não dura muito. Ninguém ousa desligar esse aparelho. Ninguém menciona que o bar foi erguido com o suor de descendentes de escravos que ainda eram praticamente escravos. Morreram ali, mas não se sabe a história. Eles nunca veriam um aparelho de televisão. O dono do bar diz que por isso não permitem que as imagens fiquem nítidas. Algo como suas freqüências serem próximas. Coisas da ciência inexplorada dos ectoplasmas.

O bar é um ecossistema não estudado. Os estudantes de biologia esqueceram aquele habitat. Alguns cronistas apenas observam, outros não conseguem erguer a cabeça do balcão. O violeiro anterior a este, maledicente, dizia que chutava rato morto enquanto tocava. O dono não gostou. Os fregueses, se conseguissem levantar a cabeça das bordas das catuabas, quinados, traçados e afins, também concordariam com o dono. Maledicente o rapaz, o rato, que era vivo e atuante, antes de dormir fazia o serviço do cachorro espantando os gatos da casa. O dono sente falta do rato. O dono não sabe o nome do cachorro, mas o rato era quase da idade do filho dele.

O filho do dono do bar ficava no caixa e ria com mais dentes que um pacote de pastilhas de hortelã aberto. Nas noites de violeiro, a namorada senta com ele no caixa e pede músicas. Ela gosta de digitar os números e ri quando a calculadora faz um barulhinho calculador. A tecnologia é porreta, ela ria.

A televisão funcionou quando as Torres Gêmeas foram alvo. Alguém levantou a cabeça e pensou que fossem fogos de fim de ano – adiantados, claro. De certa forma, foi mesmo um fim. Quando o presidente negro assumiu o aparelho transmitiu em três cores. Os funcionários passaram a achar que o poltergeist de escravos expressava sua opinião assim.

Uma vez alguém entrou acompanhado. Os bebuns ombreando o balcão levantaram a cabeça. Eles sentaram na mesa, na única mesa. Ela não quis colocar os braços na mesa, era grudenta. O dono passou um pano. Ficou grudenta e molhada e ela fez nojinho. Ele pediu um quinado. Ela disse que era quente. O quê? O lugar, a bebida ou a atitude? Ele disse que o beijasse que ele também estava quente. Foi um beijo pensado, sem abraço, mas sentido, sem língua, mas com entrega, e sincera. O violeiro parou, o cachorro latiu, a televisão funcionou (o filme da sessão coruja era uma pornochanchada, e o filho do dono riu). Os cronistas acordaram e o dono achou que era um gol do América que era comemorado.

Desde então, o bar dos maus companheiros de si mesmo chama-se Bar do beijo.

ANÁLISE E EXERCÍCIO

Aqui tem início o disco. Princípio de Sísifo.
Retorcendo o malho, alimentando a pena,
simulacro ou vendeta: eu não sei o que me recomenda.
Vidros se espatifam na cozinha e serena
a cantilena sussurra vozes no edifício.

Repete-se o refrão, refere-se à matilha.
Transe de coisas, clarão de idéias
Pergunta vida ao universo indiferente
a tudo. Uma silenciosa tarde branca
e infinita. Sei que armazena o tempo em frestas.

Faz-se um corpo de estilhaços, aduncos
cacos nacarados, sulcos e esquinas do sonhado.
Não é jovem, nem manhã; linha a linha fina
tinta sob a quilha navega o nãosser. Não é velha,
nem noite, cem braços cegos espraiam-se e nenhum plexo.

Guardo o tempo inexistente, malmequeres, diamantes,
opaca pedraria de instantes – tudo quase.
Vazam abstrações da realidade e a carne guarda
em si órbitas, espáduas, a cintilância da palavra rara.
Não sou o mesmo que digo, sei que agora não sou antes.

O ETERNO AMORDAÇADO

todas as complexidades rasas
todas as profundidades simples

outro minuto se foi
(- pressinto a morte – cuidado -)
entre ponteiros
a vertigem das horas
marés de memórias

o eterno amordaçado

dois e nenhum
outro algum
um outro
nenhum ser
(\coisoutro/)

cavalga a égua da noite
as chamas do passado

A VOZ DO BAR

Todas as noites ele se arruma, pensa na camisa correta, se vai usar um chapéu ou se pentear, repassa detalhes e então pega o violão. Ninguém vê este esmero, mas existe, no fundo do bar, em consonância com a voz que faz a trilha da noite. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar.

Sozinho, na frente de todos, mas nem tão visível, ele continua com um acorde menor. Segue-se uma bossa. Alguém apregoa em voz alta o nome do compositor. Ouvem-se palmas solitárias, que logo silenciam. Ninguém para de falar para ouvir a nota preciosa, o intervalo da harmonia, a flexão correta dos dedos.  As cordas dançam suaves no corpo do violão. Um burburinho, como uma revoada de gafanhotos, alastra-se por todas as mesas do recinto. A voz estridente da gorda explode em uma gargalhada acima do teto. Há cheiro de alho e gordura, frango a passarinho poderia ser a colônia da estação. Um casal há duas mesas dele estava em uma clara crise conjugal. Ela estava furiosa porque ele nunca passava as camisas que usava. Todos gesticulavam, um claro ritual de atenção a ser cumprido. Um grupo estava de pé, todos com um copo em uma das mãos e com os queixos caídos diante da televisão. O choque geral com o time, que aos quarenta e quatro do segundo tempo, baixara as defesas e o adversário invertia o rumo da partida a seu favor, selando o destino do favorito com uma quase goleada e a eliminação certa do campeonato.

Pausa para virar a página das cifras das músicas que apresenta todas as noites, então reinicia. Diz uma vida que não é a sua. Cada canção um personagem diferente assume a sua voz. Um palco mínimo com uma tempestade de personagens amalgamados na expressão do violeiro. Tranquilo, distante e ao mesmo tempo envolto em si. Poderia ser comparado a um poderoso iogue, nada desviava-lhe a atenção da sua meditação. No caso, da canção que interpretava. No meio da algazarra, a indiferença das crianças ao menos era sincera. Alguém lhe entrega um papelzinho com um pedido. A caligrafia desafiava um professor experiente. Não sabia se era algo sobre uma piña colada ou o primeiro verso do Caymmi. Poderia ser algo sobre uma rede em Itapoã com uma piña colada. Há sempre mistérios da música popular brasileira circulando entre as mesas de bar.

Olhe bem, amor, preste atenção, de cada amor tu herdarás só o cinismo. Entre tudo mais, cada momento, entre cada gole a voz dele lhe marcará. Cada uma das centenas de vidas invadirá suas memórias entre a desilusão amorosa e a eliminação do campeonato, o lamento do violeiro que entende todos, a verdadeira voz do bar. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar e ela comunga com todos.

ODE ESTRANHA

Da morte eu lhe direi as entranhas, o po-
ro, o ósculo, o caminho entre vál-
vulas, a passagem estreita, a golfa-
da, a bile naufragando, os órgãos em cal-
do ácido, uma bolha de metano que
exalando calor e sibilando um cer-
to ruído profano, abre-se. As memó-
rias de Zurique, os ventos de Belchior, o trân-
sito de Mercúrio, o dia passando na
alameda sombria, Zéfiro de páginas
amareladas, o seminário dos cala-
dos, as fantasias sorriam em disparada,
os paralelepípedos em displasia. Ár-
vores semicerradas na paisagem. Quem sa-
beria o som que faz a romaria? Não sendo
vida, quem saberia? Escolha apenas a
palavra frígida. Uma palavra ruga,
entalhe, ruptura, a marca dos dias, o
sabor da rua, os carros passaram, também o
cachorro, o vendedor de picolé não é
mais moço. Uma palavra carranca, abre-se o bar-
co, desfaz-se toda tranca, fere-se o céu
acima, cinde-se a onda abaixo, no
cimo do casco, carícia, penhasco, pesa-
delo, desejo, aquela que afogou-se
em seu peito. Uma palavra tripa, contra-
tura, tubarão na barriga, linguiça, lom-
beira, vilosidade, inchaço, ferida,
genuflexório, corrida de pique, coisa
funda, gordura encruada, aquilo que
se cala, grito no ralo.
Da morte eu lhe direi
das minhas entranhas,
qual vapor oculto:
Ninguém mais é puro!

A VIDA NÃO TEM JEITO

– Vou sair.
– Vai pra onde?
– Pro Centro, na praça.
– Vai sozinho?
– Não, o pessoal da escola vai estar lá e os professores também.
– Vocês deveriam ir pra aula.
– É atividade extra-classe. Aula na rua.
– Olha se isso acaba em confusão.
– Claro que não! Atividade ao ar livre, nada de mais. De vez em quando é bom sair da sala, viu?
– E precisa levar mochila?
– Como assim?
– O que tem na mochila?
– Um bloco, uma caneta, outra camisa…
– Leva água!
– Vou pegar uma garrafa agora.
– Tem na geladeira.
– Não né! Coloquei água num pet de refrigerante. Eu posso jogar fora depois de beber.
– Deixa o dinheiro da passagem separado.
– Está separado no bolso de trás. Fica tranquila.
– E volta quando?
– Não sei. Antes de anoitecer. E pára, que a senhora já está fazendo inquérito. É uma aula como outra qualquer, só estaremos na praça. Tá bem?

Despediu-se com o sorriso trincado, como de costume, mas feliz porque o garoto parecia ter entendido tudo. Afinal, não havia por quê se preocupar. As notas estavam altas, então tentava não se opor muito aos programas do garoto. Ele não era tão diferente dela mesma na idade dele. Ainda observou pelo muro baixo o garoto descer a rua até o ponto de ônibus. Depois retornou para dentro da casa e começou a organizar as costuras da tarde.

Com a casa silenciosa, parecia que o tempo se desdobrava. Começou com os consertos simples, botões e bainhas que os vizinhos traziam. Ela mal cobrava por certos consertos. Muitos vizinhos a ajudavam com outras coisas, então não se sentia confortável em cobrar. Mesmo assim, se não pagavam, retribuíam com um bolo, uma carona ao posto de saúde, livros pro garoto, o que conseguissem pensar.

Terminou as costuras miúdas e resolveu pegar na cortina que preparava. Estivera na sala da cliente semana passada e fez as medidas precisas. O pano lhe fora entregue logo em seguida. Tudo chuleado com esmero. Aos olhos de todos estaria perfeito.

O sol descia e ela pensou em passar na cozinha para uma pausa e um café. Foi quando a Norminha entrou e perguntou se ela estava com o rádio ligado. Não estava, mas precisava ligar. Já que a Norminha havia entrado, que esquentasse o café. Ela pegou a manteiga e o bolo de fubá. Ligou o rádio e perguntou à amiga o que se passava. Norminha nem precisou se explicar, o rádio já interrompia os comerciais para notícias de última hora.

– Está acontecendo um tumulto no Centro, a polícia está com o batalhão todo na rua.

Enquanto isso a vinheta elétrica, que sempre introduzia as piores notícias, rasgava a tarde e cessava para a voz metalizada e com um reverb funesto, que dava um tom macabro à voz do locutor de notícias policiais, que transmitia ao vivo, in loco, o tumulto deflagrado no Centro. A polícia havia localizado uma célula de subversivos em plena luz do dia. Todos em uma concentração, ou comício, não sabiam, mas estando na frente à Câmara dos deputados coisa boa não seria. Todas aquelas pessoas ali, sem um rumo aparente, alguns estavam até sentados no chão, enquanto os líderes pregavam palavras de ordem para quem quisesse ouvir.

– Esses subversivos não tem mais vergonha na cara. Imagina, se reunir sem nenhum motivo na frente da instituição política mais séria da cidade.

Ouviam quase atônitas aos berros ao fundo, que rasgavam a narração na voz indiferente do radialista, que dizia que polícia apenas cumpria seu dever. Eram tempos perigosos aqueles, em que uma pessoa não podia mais sair à rua sem correr o risco de esbarrar com uma manifestação suspeita, um grupo de arruaceiros, havia vagabundos em cada esquina. Era preciso ter esperança que tempo melhores viriam. A vida não tinha jeito assim.

Ao final do dia, estranhou que o garoto não veio. Perguntou pra Norminha se o filho havia voltado pra casa; voltara. Atravessou a rua e perguntou do filho da Fátima; voltara. O filho da Clementina também. Todas consternadas, desconversaram. Até o fim da noite todas reuniam-se na sala dela, que não entendia com clareza o que as amigas tentavam explicar. Era aula ou não era? Era, mas a polícia não quis saber. Foi truculência, alguém gritou. Não foi consolo, ela agora entendia menos ainda e alguém tinha que dar um jeito que ela queria o garoto de volta em casa. Onde que tá?

Depois das nove da noite, dois homens de farda entram pela casa, seríssimos com notícias ainda mais sinistras que o cinza das roupas e o ruído de botas. Olhando as luzes vermelhas do giroscópio da viatura parada em frente a sua casa, ela levou as mãos à boca e entendeu.

– A vida não tem jeito, viu Norma?

O CÁLAMO DE MARCO POLO

escrever mil páginas
em mil folhas de mil palavras cada
o cálamo de marco polo
rara viagem pelas linhas para
ensaiar outra viagem além
de horizontes ou margens sempre
vizinhas margens no poente este
horizonte e o patente medo da viagem
afunilada para dentro qual
agulhada redemoinho sem
vento o caminho para o centro
onde percebo o começo
o cerne da noz
aquilo dentro enrodilhado
inquilino pequeno
em mim dentro e eu atento
a sangria do tempo que
me sinto sendo
o passado e o presente
no mesmo engenho
moinho de tempo
moinho sem tampo
batendo batendo batendo e pronto
sozinho não o tempo
moendo em si e de novo batendo o ponto
mas outro engenho substrato
efêmero esfarelando alvo macerado bem
dentro que finge ser centro
atento a tudo isso passando frio calor e sono recalque e molho de taturana
vertigem mesmo que o centro presente dentro
não é ventre dentro é aperto em mim
que compreendo o sentido sendo
só sonho terreno
enfim
menino
e veneno