Arquivo do autor:Roberto Dutra jr.

Sobre Roberto Dutra jr.

Um escritor.

DE TIGRES

tigre de papel
abre em páginas seus enigmas de nanquim
a pele alva sob as listras negras
apalpa a presa na imaginação
indefesa
trama invisível
incessante
tudo que ama dilacera
passa tranquilo
não fere a tarde
o vento
não fende a relva
apenas resite
naquilo que escreve

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FRAGMENTOS MARINHOS

Carreguei este peixe no meu ventre.
Farfalhar de espuma e risadas durante o dia, uivo submerso durante a noite.
Sombra na água interna do corpo, cartilagens, brânquias, lâminas, sangue de vidro, pele de couro, palavras impronunciáveis como lixas na língua áspera de ofensas.
Mergulho insondável e chamas líquidas.
Vi brotar nadadeiras onde dorso nu havia.
A pele dividindo-se em padrões geométricos, ora branca, ora enegrecida, por vezes tão confusa e revoltosa na água, que desaparecia e tudo era um gelatinoso rumor salino, elétrico, viscoso, opaco – redemoinho do ocaso.
Leve a história agora.
Num grão de sal a fala do mar, além do vento será

anágua de prata na calma
a luz do luar assim paira
vivágua brilha e talha
dança nas ondas peixe-criança

 

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TORRE DESPERCEBIDA

os olhos tão cansados da invasão da tarde
há tanta dor no sol e nas ruas
a realidade arde por cada fresta
da torre as horas se anunciam sem vozes
os homens rendem-se em anunciações
o mais acontece silenciosamente
a vida e a fila contorcem rumores
alimentando a distância
(o longe aguarda na outra calçada)
os pássaros desarvorados riscam o ar
a torre amarga e dobra
não está nos passos nem nas folhas da tarde
os carros na rua nem vermelhos param
não está no astro combalido que suspende a chama
o vento rodopia morno
como se perdesse coisa rara
coisa fina coisa abstrata
longe a torre grita
a vida anoitece sem drama

VIDA SECRETA

A porta aberta,
o ar completa a sala repleta
(fere o real).

Sussurra o alho saltando no fogo,
adivinha a espera, mas nada dizemos
(nada nos afeta).

Labirintos, dias ásperos,
olhos abertos,
tudo nos torna
(ainda mais)
cegos.
Vemos e não estamos despertos.

Sem mistérios na mesa,
é abaixo que tateia
a pele cega dos pés,
a nudez na latitude do plexo.

Um impropério sem palavras
(em todos os lábios):
essa rima que cala.

ESTRANHA

o coração inefável irá parar
também o uivo
e seu cão insolente aflito
para um satélite surdo
sem adjetivos
refém ou algoz
algo entre
algo mito
somente aquilo
fatal
interdito
dardo
tranquilo
a morte do tempo
o mito contido onde não
existimos
sendo sido sereno sibila de signos
ainda não ainda não existimos
entre rugas e enigmas
nunca sabemos a margem
apenas perdemos os trens
e as árias do nosso tempo escritas
não sabemos as infâmias
restamos cinzas e entranhas
tudo mais Rudá

matéria estranha

MURO

Tristemente teço a madrugada
enquanto perco minha veste de sombra.
Agora acordo e o som em mim sonha
e o olhar percorre longo as lombadas da rua.
O céu repartido, ouro escuro,
já não invade, posto que é tudo
flutuante, absoluto e imenso.
Os postes seguram a tenda do mundo.
Muitos instantes, anos, assim como horas, não tem peso,
nenhum atrito, ileso vento dobra a esquina.

O som dos pássaros recai em meus ombros
esvai-se além
e o muro revoa em absurdos.

ARMADILHA

eu sei que você não vem
falha e imprecisa sua anunciação
reparte a tarde e não tem nome
o que resta entre o canto dessa voz
e a escuta imprecisa que ora falha
ora antiga ora amiga ora vila
de de vontades enfileiradas
agora é imagem que dentro tarda

eu sinto a linha tênue
entre as armadilhas de vento
entre sons e nomes nos corredores
e escadarias
não há mãos ou pés nessas passagens
as portas abertas nada dizem
pensamos a ausência como um nome
uma armadilha entre lugares.

incêndio ou insônia
o brilho na face
não diz
nem sonha

de longe a liberdade nos retalha