Arquivo do autor:Roberto Dutra jr.

Sobre Roberto Dutra jr.

Um escritor.

VIDA SECRETA

A porta aberta,
o ar completa a sala repleta
(fere o real).

Sussurra o alho saltando no fogo,
adivinha a espera, mas nada dizemos
(nada nos afeta).

Labirintos, dias ásperos,
olhos abertos,
tudo nos torna
(ainda mais)
cegos.
Vemos e não estamos despertos.

Sem mistérios na mesa,
é abaixo que tateia
a pele cega dos pés,
a nudez na latitude do plexo.

Um impropério sem palavras
(em todos os lábios):
essa rima que cala.

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ESTRANHA

o coração inefável irá parar
também o uivo
e seu cão insolente aflito
para um satélite surdo
sem adjetivos
refém ou algoz
algo entre
algo mito
somente aquilo
fatal
interdito
dardo
tranquilo
a morte do tempo
o mito contido onde não
existimos
sendo sido sereno sibila de signos
ainda não ainda não existimos
entre rugas e enigmas
nunca sabemos a margem
apenas perdemos os trens
e as árias do nosso tempo escritas
não sabemos as infâmias
restamos cinzas e entranhas
tudo mais Rudá

matéria estranha

MURO

Tristemente teço a madrugada
enquanto perco minha veste de sombra.
Agora acordo e o som em mim sonha
e o olhar percorre longo as lombadas da rua.
O céu repartido, ouro escuro,
já não invade, posto que é tudo
flutuante, absoluto e imenso.
Os postes seguram a tenda do mundo.
Muitos instantes, anos, assim como horas, não tem peso,
nenhum atrito, ileso vento dobra a esquina.

O som dos pássaros recai em meus ombros
esvai-se além
e o muro revoa em absurdos.

ARMADILHA

eu sei que você não vem
falha e imprecisa sua anunciação
reparte a tarde e não tem nome
o que resta entre o canto dessa voz
e a escuta imprecisa que ora falha
ora antiga ora amiga ora vila
de de vontades enfileiradas
agora é imagem que dentro tarda

eu sinto a linha tênue
entre as armadilhas de vento
entre sons e nomes nos corredores
e escadarias
não há mãos ou pés nessas passagens
as portas abertas nada dizem
pensamos a ausência como um nome
uma armadilha entre lugares.

incêndio ou insônia
o brilho na face
não diz
nem sonha

de longe a liberdade nos retalha

BARRO BRILHO

barro
brilho
nas mãos
brilho
quem sabe estio
rastilho
decerto pavio
luta latente do fogo
o novo
aquilo que participo
princípio
película ou precipício
vontade ou arbítrio
espectro ou rútilo
no abismo abre-se
olho ou ovo
partido fendido
em cacos
variáveis e inconstantes
cortando fagulhas do
instante
impossível quantum
arranjo sem sombras
ondas sinuosas abundâncias
perturbação contínua em afluência
a primeira original depois outra conseqüência
ainda mais constante que a primeira
pederneira aviso fio cimeira
de eventos surgida ou surgindo no tempo
desdobrando-se intensa imprecisa imensa
uma volta inteira órbita crista
imprecisa
partícula iridescente
calminando culminando aquiescente
nascimento sem ventre nem dentro
o fora enovela em si mesmo
a compreensão impossível do evento

uma revolução sem epicentro

SENTIDO

Nas ruas,
entre pernas, autos, semáforos,
debaixo das marquises,
com ou sem saltos,
soam sirenes
(que são passos sonoros da urgência).
A borracha relincha no asfalto
quente.
Tantas pessoas
(suas cabeças quentes)
invadem a esquina, a padaria, a sapataria,
a calçada, a faixa de pedestres,
atravessam o beco e entram
pelo saguão do edifício.
Despacham, debitam, liquidam:
– Está na mão o que você nem precisa!
Ao longo das lojas, ao longo da avenida,
a sinfonia grave
(sua cadência no calçamento)
o viaduto grave,
o coletivo grave,
o suor grave,
os ouvidos graves
(calados)
Na constipada garganta
o grito
(não há).
O apito interrompe
o passo, o intervalo, o descanso.
Não há que se contrariar,
todo andamento é manso.

Quieto no tempo das ruas
o grito
(pavio em chamas)
devora as entranhas de novo.

FILME CLASSE B

Dizem que noites de lua cheia são propensas a acontecimentos estranhos. O contrário também serve. Na verdade, sei lá. Eu não me lembro de tudo. Quem se preocupa em lembrar? Em todo caso, tentarei.

Entrei no bar e lá estava ela. Tinha aqueles olhos que perseguem você. Travam em cima, desejo recalcado, algo que atrai, magnéticos. Pensei em alguém como uma clarividente. Alguém que desvendaria toda a minha vida ali, na minha frente, se ousasse me aproximar. Alguém que me viraria pelo avesso, esfolando moralmente cada palavra minha, como se a língua fosse um chicote. Acho que foi isso mesmo que eu quis que acontecesse.

Corta. Preciso sair da minha cabeça e tentar contar isso mais naturalmente.

Fomos apresentados na mesa, ela já estava sentada e eu cheguei. Havia sido convidado por amigos em comum. Acho que a curiosidade mútua foi tão intensa que minutos depois procurávamos disfarçar, alternando a conversa entre nossos amigos. A conversa circulava, a bebida chegava e os lubrificantes sociais agiam naturalmente. Havia a inevitabilidade do eterno retorno. Inventei isso agora para dizer que sempre encontrávamos um ao outro no rolar da conversa fiada e nossa história recomeçava do mesmo ponto. Ela me olhava bem nos olhos e ordenou de repente que passasse minha perna na dela. Estava quente, esqueci de dizer. Mesmo assim, o que senti foi anormal. Minha perna deslizou pela dela, que estava encharcada de suor. Nunca sentira algo como aquilo. Ela me assegurou que era apenas o calor. Cansei das esquivas e disse a ela que poderia esquentar mais.

Corta. Eu não sei o que eu disse naquela noite. Algo idiota talvez. Algo pensado logo acima do joelho. Algo que foi o mínimo sensível de encontro com o joelho dela.

Estranho foi que no final da noite saímos para lados opostos. Fui numa festa —chatíssima — e retornei ao meu apartamento certo de que não deveria ter saído naquela noite. Moro num daqueles condomínios bunda suja onde tudo é mesmo uma bagunça e os moradores não dão a mínima para porra nenhuma. Dei dois passos no corredor rumo à escada e as luzes apagaram. Fiquei puto e resmunguei algo comigo mesmo que nem cheguei a terminar, minha boca foi tomada de assalto e meu corpo lembrou imediatamente do corpo dela quando as pernas suadas dela molharam os pelos da minha perna. Não estava mais sentindo minhas pernas, esqueci de mencionar. Ela sussurrou tranquila no meu ouvido:

— Estou logo acima de você.

Eu congelei, um mergulho em apneia na escuridão. O mistério mais excitante da minha vida desvendado. Ela morava no andar de cima, era isso?

Corta. Foda-se. Não ordenei os pensamentos de modo claro assim. A adrenalina lembra que a vida é um relâmpago.

Línguas invasoras num corredor escuro. Sei que parece nome de filme classe b. Imaginem como isso impede qualquer um de manter a menor coerência dos fatos. Talvez eu tivesse até revirado os olhos quando ela quis morder-me o peito, bem no meio, era o plexo, o alvo. Arranhava-me com os dentes. Tapei-lhe a boca mais de uma vez pois ela ficava escandalosa quando eu segurava seu rosto com as duas mãos, quase prendendo-lhe pelo pescoço.

— O corrimão tá gelado.
— Em pé mesmo.

Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Ar, ar, sem ar.

Sentamos no chão. Nada a dizer. Ficamos ali parados até o dia apontar. Levantei e abri a porta. Entramos e passei um café. Um gole, os ombros se soltaram, só aí um olhar de carinho mútuo, aquele sorrisinho enigmático que todos temos quando acordamos pela primeira vez com alguém.

Corta. Nem dormimos.

Depois do gole, dos ombros, sorriso, as primeiras palavras de nexo(?):

— Toda a minha vida…
— Huuum!
— Você primeiro!
— Não, você!
— Vai fala!
— Ah, foda-se!

Bocas furiosamente confundidas. Sei que parece nome de filme classe b. Não lembro mais nada. O que eu me esqueci não é mais da sua conta.