Arquivo da tag: poema

ECOS DO PAÍS DOS MORTOS (três poemas)

OS SEM-NÚMERO

ontem morreram
hoje morrem
amanhã morrerão

“E daí?”

 

 

PAÍS

Não é tão ruim quanto parece.
É ainda pior.

“E daí?”

 

 

ACIMA DE TODOS

três gerações
no leito comum
nem sete palmos
nem país

“E daí?”

 

_ars_mundi_3___B-UqCYiHYsW___

QUANDO BATE A SÍSTOLE

À luz da febre, silenciosamente,
ossos, pele e esquecimento.
Já conversamos todos neste corpo.
Afinal não somos o mesmo substrato?
Os mesmos tendões unidos pelo passado?

Quando bate a sístole, todos sopramos
mais um passo e num instante,
seguimos adiante e nos tornamos o inesperado.

Acontecemos no tempo que não alcançamos.
Estamos no mundo, mas não estamos.
Dentro encerramos o mistério da vida:

Não saireis vivo.

 

_ars_mundi_6___B-UqCYiHYsW___

QAMPO-SANTO (poesia para tempos de sangue)

i.

a quimera é esperta
invisível
dispersa
no ar
besta fera

ii.

o xadrez tem sua dança
no tabuleiro diversas
distintas seletas
peça após peça avança
a morte é luz e trevas

iii.

sem abraços nem mãos
povoar a pólis
todos deitados inertes
lívidos e sem sonhos
pálidos como preces

_ars_mundi_2___B-UqCYiHYsW___

AULA DE DIREITO (poesia para tempos de sangue)

 

Bandido bom é bandido morto.
Direitos humanos é palhaçada de efeminado.
Aquela roupa, ela ‘tava pedindo.
Tudo puta, tudo preto, tudo viado, tudo poeta.
Essaí, ó. Esseaí ó. Essaí, ó. Esseaí ó.
Alguém perguntou tua opinião?
Segue teu caminho.
Alguém per-gun-tou t’opinião?
Eu já num falei pratutomar teu rumo?
O senhor sabe com quem está falando?
O senhor sabe com quem está falando?
O SENHOR SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?

As leis não resistem à realidade social.

(não resistem)

ENCRUZAMENTO (poesia para tempos de sangue)

há ali uma esquina que arde
mesmo apagados os postes
mesmo sem eletricidade
mesmo sem nome marcante
mesmo sem uivos das carpideiras

as ruas se cruzam como rastilhos
os caminhos violentos se emendam

há tantas cruzes no chão da cidade
anjos atormentados rondam incansáveis
as lágrimas que não podem apagar

senta-se um menino como um espectro
ou espelho embaçado, um reflexo
despedaçado de gente
fome e espasmo

onde tudo se fez sufoco e sangue
essa solidão crivada arde
e ainda entrelaça caminhos
na alma

ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.