Poema (8) de Alexandre Pilati

[Doméstica]

o cheiro do frango
cozinhando na pressão
temperado com alho sal
e outras pobres especiarias em pó

arremeda

os fósforos vivos
a flor imbatível
o travesseiro alienado
a onda do mar a sorrir
a bunda cosmonáutica
o coice dos déficits

também arremeda
a mão quente

com que qualquer um
é capaz de escrever
luz avião contrapelo Liechtenstein…

não é preciso arte
para entrar de cabeça
neste pântano perfumado
que se deslumbra entre

as teias de aranha
e as casas de botão
as porcas as gelosias
furos de fechaduras
reentrâncias de insetos
no rejunte os vãos de garfos

que a poesia num repente
preenche sem titubear

apenas um corpo que mais ou menos
funcione é o que basta

um corpo em severa desatenção
em apetite sonâmbulo
um corpo buraco

quando a cozinha se enche
do cheiro de frango
cozinhando na pressão

convocando-nos
às agulhas do indiscernido

Alexandre Pilati

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