POEMA

  Q U A S E   H I S T Ó R I A

   Esta é a utilidade da
           memória: libertação.
                   T. S. Eliot

É vão entender os caminhos
que os insetos traçaram nas paredes da casa
e as voçorocas que o tempo
abriu em meu rosto.
Memorial de enigmas.

Não é a mesma casa da minha infância.
nem é o mesmo esse corpo debruçado sobre o inefável artesanato
de Cloto Áquesis Átropos.

As dobradiças enferrujadas
convivendo com a promiscuidade
dos ácaros em antigos lençóis
e as teias de aranha denunciando a tirania do passado
habitam o alpendre
e testemunham o peso dos anos
que vergaram as costas dos avós.

No jardim sem dálias
no orquidário desnutrido
agora coreto de fantasmas
sobrevive o espírito dos gatos
e o que restou de Nenéca atropelada
e sua mudez mais fulminante que nossas dores.

Adentro o portão:
Beethoven já não late
e meus pulmões embrutecidos colhem o pó de amianto
impregnado nas rosas mortas
num jardim de inutilidades
onde um dia vicejaram as orquídeas
enquanto Laura ouvia Ataulfo Alves
e fritava ovos para o ajudante de farmácia.

A vida, como a fumaça do cigarro,
desaparece em espirais de engano
nessa plataforma envelhecida
envilecida pelos sustos de cada manhã.

[ RONALDO CAGIANO, Isfahan, Irã, maio de 2007 ]

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