C O N T O

                                  F O S S O: F O S S A S

“A história é dessas dos quotidianos desgastes, a invisível erosão de ser casal, dois em nenhum.” (Mia Couto, “Na berma de nenhuma estrada”)

Ronaldo Cagiano

 

[Lá fora a vida passando feito uma correnteza] Antes de jogar-se na cama e do definitivo breu e mudez da noite, aquelas chagas abertas na perna, desenhando estranhos contornos na sua epiderme tão antiga quanto suas dores. A alma também é um terreno marcado pelos anos de hiato e sofrimento. Por enquanto, a vida ainda insistia, apesar dos engulhos da convivência, de cada dia o estômago digladiar-se com a tormenta de incontáveis punhais abrigados dentro de si.  Há os filhos e os netos. E os almoços nos finais de semana, “é sempre a reprise do frango assado, com farofa e macarronada, como nos velhos tempos, regada a ki-suco”, juntando o que restou. Uma escolta de luzes ao longe sinalizava com um postergar de dias cavalgando na vasta solidão da linha do horizonte. Ela me chama de solene e frio nesses quarenta anos de matrimônio. Eu retruco: viver a dois é esse calvário, um saco furado, todo dia uma waterloo e não sabemos quem é o outro. Sei que ela se aborrecia por eu não ser uma surpresa a cada dia. Eu digo: casamento é isso mesmo. Ela emenda, com opulência na contestação: mata-se um leão por dia e não sabemos quem está do lado. A sua cota de insatisfações saindo pelas bordas. E eu: é como realizar os doze trabalhos de Hércules para me redimir da insanidade. Agora, estamos no ventre da baleia. Nínive ainda está longe. Desconheço se toda essa tormenta um dia vai passar. Enquanto isso, ao longe uma cidade brilha debaixo das estrelas. Ele comenta sobre seu dia a dia. Ela vem com outro assunto, alfinetando seu desdém: ensaiado pouco-caso.  Mas eu tento despistar, olhando lá fora, pela janela, os olhos num ponto cego na escuridão, quando sou atormentado pela imagem do cão Evilásio e da gata Madellon, parelha de animais de dona Laurita e seu Gusmán (o casal galego que vende “quentinhas” nas ruas da cidade), seus bichinhos que vivem ladrando pelas ruas, entrando em nossos quintais, porém denunciam mais felicidade e harmonia do que nós. E volto para ela. E fico sabendo que a Cilene está com o Mal de Parkinson e que o Bar do Afonso vai fechar. Eu sou Jonas nesse claustro compulsório entre vísceras desconhecidas. E entre um e outro desatar de coisas sem importância, o vazio continua fazendo as honras da casa. E os ácaros se empanturram em sua festa no quarto de empregada. O ar lá fora carrega um hálito antigo de cidade do interior nesse condomínio afastado. A fumaça do cigarro desaparece em redemoinhos, enquanto os olhos deles estão mais distantes que seus rostos. Ele olha para o teto arranhando a cabeceira da cama com as unhas enquanto ela finge que não é com ela, lendo o Riders Digest. “Hoje está um gelo.” O frio passa — ele pensa. E no abismo da inércia emocional que os separa, corre um rio caudaloso de tanta bile e ressentimento, como essa rua imensa que divide a cidade em duas e parece separar-nos (e a eles) ainda mais. E o inverno é eterno como o inferno de um matrimônio que atravessou o maio de 68, a primavera de Praga, os acordes revolucionários de Wo­odstock, a intentona americana na Baía dos Porcos, os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King, o golpe de 64, a renúncia de Nixon, a guerra do Vietnã, a transição conservadora de Tancredo-Sarney, as Copas perdidas, a violência nas favelas (tão mortais quando o pavoroso deserto daquela casa), a queda do muro de Berlim, os assédios a/de Mônica Levinsky, a desastrosa era Bush, a invasão do Iraque, o ataque aos talebãs, a ruína das torres gêmeas, a tsunami na Ásia, a forca para Sadam Hussein, a ascensão de Khomeini, as quedas de Mubarak e Kadhafi, a febre suína…  e quantas vezes a voz inquieta da dúvida entrou pela casa vestindo de luto aqueles corações, como se trouxesse lobisomens do quintal. E eles nem precisaram atravessar o Letes, pois há tanto corria pressuroso em suas veias o sangue do esquecimento. A convivência no formol. A madrugada comprida dos sonâmbulos ainda não acabou. Mas o sol, que chega pontual e imperturbável todas as manhãs, só alcança as feridas, com seus golpes de carnívoro silêncio. [Dentro, incurável monotonia, a vida os atravessando feito um punhal e as queimaduras no sinteco provocadas pelas guimbas atiradas nas madrugadas em que o sono não veio] {Fora, a poluição polvilhando os ares como a fuligem em suas existências, a cantilena inútil de um vento distante. Colóquio espalhafatoso de pássaros num jardim de plantas raquíticas. Azáfama de nuvens fustigadas por um sopro estranho, sob uma lua desanimada que não ilumina o idioma das rãs} Não mais o tumulto de pernas sob os lençóis. Nem a barroca melancolia de uma relação estagnada como as águas do Mar Morto. Só a ordenha do nada absoluto.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s