Coerente com a vida

                                                     Leo Barbosa

                                     (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                Coerente com a vida

      Estou aqui tentando controlar a minha ânsia que parece aumentar na medida em que o tempo passa. Faço um discurso, mas nem sempre sou coerente. Essa tribulação se ordena com paciência e centralização naquilo que é mais essencial: ser o máximo de si, sempre se respeitando. Há pessoas que esperam de mim algo que não parece caber em si. Minha perplexidade tem um nome: poesia. É ela que rege os meus ofícios; sou poeta e professor. Reassumo o compromisso de guiar as palavras para frutificarem em quem eu as dirijo. Sou instrumento da minha vontade, mas desta não posso ser refém.

     Há duas filosofias que me guiam hoje. Uma tem base leminskiana (de Paulo Leminski). A outra, não sei quem disse, mas pouco importa. O poeta diz: “Isto de querer ser exatamente o que é ainda vai nos levar além”. Ser e estar porque serestar é preciso. O desafio está em se reconhecer pessoa, autoridade para exercer a humanidade potencialmente.  A outra guia: disciplina é fazer o que tem que ser feito, mesmo sem disposição.

    Foi o Leminski quem disse que ser poeta aos 20, 25 anos é fácil. Difícil é manter a poesia até os 80, como foi o caso de Drummond, Bandeira, Quintana. Verdade. Que não me falte a gana de poetizar. Digo sempre que o maior desafio não é escrever poemas, mas retirá-los do papel. Todo o esbanjamento e a catarse, de nada valem se a purificação não for assimilada.

   O fruto da solidão não fenece se for suplantado em câmaras de sentido. Como emoldurar essa força estranha que invade e perfura a vida? É urgente manter a fé em algo, seja em Deus ou no humano. Sem a crença em algo toda a luz se dissolve. Distâncias se inauguram, mas não são garantia de que o afastamento ocorra. Tal como um quadro que precisa ser visto sob vários ângulos assim é a vida. O passado se mistura ao presente que se envolve no futuro. É tempo uno. O destino se inclina a se fazer profundo. O que mais me encanta na vida são esses os súbitos espaços entre o que é de nosso controle e o que nos escapa às mãos.

    “Se aprouvesse a Deus que nossas mãos fossem como nossos olhos – tão dispostas no agarrar, tão despreocupadas no soltar as coisas –, seríamos verdadeiramente ricos”, reflete Rainer Maria Rilke. Mas nossos corações segredam as nossas falas, os nossos encantos e despreparos sentimentais. Quero seguir em profundidade, analisando-me e tocando no cerne de cada pessoa para que eu possa entender os “comos” e os “porquês” de cada indivíduo ser o que é.

   Nessa tentativa, por vezes me frustrarei porque me reconhecerei também no que não me agrada. Quero consumir a flama das palavras em busca de perguntas e respostas. Sabedoria talvez me caberá no dia em que eu não me exceda e possa me mostrar sereno. Se a vida me bater, eu choro, mas depois a beijarei.

                                                                       Leo Barbosa é professor e poeta

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