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Sete poemas de “Migalha” de André Luiz Pinto

A cara hilária é culpa do youtube, não tenho nada a ver com isso.

 

I

Confesso
Alan Moore
veio antes
de Drummond

Nos quadrinhos
a ficção tinha
que ser inventada
até porque

a mesada
não cobria
todas
as edições

Hoje a coisa mudou
Os heróis não tem idade

Seguem
com suas vidas
Pagam as suas contas.
II

As igrejas de Ouro Preto sempre impressionam: são como porta-estandartes de um passado que não morreu… mesmo o moderno, o hotel de Niemeyer é acanhado na cidade antiga… e as ruas são uma atração à parte… sobem morros íngremes, com um talento que em outras cidades eu encontro nas paredes.

III

Pensa que está livre, sossegado
no entanto só depois descobre
a casa foi construída na areia
Os fantasmas serão encarados, sozinho
em meio à maré cheia
Despedidas não te livram do fracasso
emoções não marcam hora
A razão talvez seja: entender que acabou
e que a saudade pode ser saudável
e que separar pode ser necessário
para curar a vida

SUGESTÃO

Depois de levar o filho ao zoológico, não esqueça de o levar também a uma prisão.
Assim o garoto terá uma visão completa das espécies esquecidas.

V

Ironia? Sem dúvida, mas sem cicuta.
Cada um sonha com a revolução que merece
Revolução sem sair da poltrona
Amor em não sair do lugar
Um post em repúdio à ação da polícia.
Sonho (apenas sonho) com muitas formas de rebeldia.

VI

Quanto
mais amo
a cidade esnoba
o muro segue
como um pergaminho
vai do anúncio
de compra
de carro batido
à propaganda da cartomante
O trem passa
de bairro em bairro
Há circulação de milhares
gente batendo na trave
Há também muitos mendigos
pernas cheios
de pinos, consertadas
numa espelunca

VII

Vive imaginando coisas
De alguma forma precisa começar
Começa por alfinetar a alma
emoldurando-a
num cartaz

Juro que não vou lhe empurrar
em quinze minutos
lhe convenço
a não pular

Mas você já sabe
que eu não vou

 

 

POEMA ISTO DE ANDRÉ LUIZ PINTO

Pensei no início, como o vídeo comprova, que não daria para pô-lo em texto. Mas deu. Foram só cem exemplares. E ainda acho que aquela experiência vale.

PINTO, André Luiz. Isto. Posfácio de Marcelo Diniz. Espectro Editorial: Belo Horizonte, 2005.

 

“Não pense, mas veja!”

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

 

Sem saber por onde ir. Por onde vai dar. Fechado. Definiu-se. Sozinho.

 

O que poderia ser aquilo que deseja? E o que poderia se tem? Interrogações estouram sua cabeça mas não a fazem explodir. Assim era. Assim fora. Sozinho. Sem definição. Apenas isto.

 

Das lembranças que teve, nenhuma ficou. Não sabe de nada, não cheira a nada, não pensa em nada. Quando nasceu. Quando vai morrer. Um ponto em branco. Sem altitude ou medida. Pelo que definitivamente sempre esteve: aquilo que não sabe.

 

Assim era. Assim foi. Sempre será. Sozinho. Sem definições. Isto. Apenas Isto pousado na inobservância de gênero ou qualidade. Apenas isto. Sem distinção. Apenas isto. Sem valer. Apenas isto. Por ser isto e nada mais.

 

O que ele pensara, não se pensou. Algo brota e não tem a menor qualidade. As lições existem e não aprendemos. Talvez porque elas não chegassem a ser tornar verdadeiras lições. Se foi além do vento em busca do sol. Ser apenas o que foi e o que estiver ao lado. Ele frente ao espelho.

 

Não custa nada deixar de ser algo. Alguma coisa é sempre indefinida. Alguma coisa não se sabe. Como interrogar as mãos? E os pés? E o sentido da vida?

 

Há sentido? Pensa isto ser verdade? Não sabe e não mede. A vida é a vida e pronto. Fez-se coisa e coisa já é. A vida começa onde se deu e termina quando se for. A vida pousa no coração. O coração bate, o tempo escorre. Isto sabe e não pensa. Por si mesmo.

 

Por isso, o ato de escrever. Por isso, sem rumo ou direção, que atingisse parte alguma: Isto sabe e Isto é. O que pensa e o que chega. E o que for até lá.

 

Pisar chega-se perto. Perto a perto, chega-se longe. Não importam distâncias ou metros, o que é avançar de um plano até um plano, voltar de um ponto a outro. Tudo a um palmo do braço. Só ele existe. Só ele é. Isto.

 

Ao pisar tão longe, viu-se no mesmo lugar. Nele mesmo. Era o bastante. Tomado pela forma que não pensou. O dia começa termina noite. Que são duas faces senão a mesma moeda?

 

Isto sabe. Isto viu. Isto lê. Sabe que a medida não cabe na mão. O ventre chegou à luz. Quase chorando.

 

Agora sim. Sem ponto de partida. Estrada sem entrada. Dirigir-se a um lugar sem saber onde. Quem define os corpos é a prática do sexo. Dessa maneira se conhece a polaridade. O basal deixou de ser chão. Faça o que bem quiser. Os pontos se foram. Polos se furam. Quem está em cima foi por água abaixo.

 

Quem está embaixo foi por água acima. Ficou quem ficou. Isto. É o que sobra afinal.

 

Ele sabe perfeitamente o que é. Ele é isto. Um corpo na multidão. Silêncio no máximo volume. A diferença entre duas tonalidades é a tonalidade terceira. Não deveríamos chegar. Quando não chegar é o que deveríamos. Saber que pariu.

 

Antes da mãe.

 

Não veio porque chegou. As estradas cortam lentas, premeditando círculos. Circuito de uma festa. Você vai se tivermos que ir. Você já sentiu?

 

Isto não lhe interessa.

 

O fato de caminhar, não caminhou. De não se levar, não se levou. Ficou sentado vendo o dia. Deixou de ser se um dia fosse. Sonhar alto custa caro. Não era o que eu queria. As rosas não nasceram. Que fazem essas pétalas no chão?

 

Abrir os olhos e ver. Escorria pelas paredes. Doía saber que o caminho despencava pelos risos de um palhaço. Essa virgem viagem. É preciso chegar. Mas o pensamento, a própria vida, Deus meu, nada adianta.

 

Alcançar alguma coisa não permite. Como atingir algum lugar se o único lugar é aqui? Partir do ponto ao ponto mesmo?

 

Exceto quando escreve. Correr palavras, se as letras, substrato comum, não passam de vinte e três. Discurso vai, discurso vem na mesma angústia. Mesmo dia. Escrever é falar da mesmice da morte. Crianças matam.

 

Escrever diz a mesma coisa de maneira diferente. Olhar a pedra. Oi-pedra. Um ato isolado no centro da solidão. Quem não entende. Todos podem ver o sol apagando, concerne ao escrito ser mais do que sol, luz, fogo nuclear ao dia.

 

Isto é dito ou escrito? Ei-lo, sem compreensão. Indo, quem volta? Sair de um ponto quando esse ponto é o ponto seguinte. Por caminhadas, pontapés, sapatos no chão, soluções simples de uma vida congestionada de trânsito e vício. Ruas como escolha.

 

Isto não sabe. Pisa e questiona. Pisa e revela através de portas inabitáveis. Se tão importante que abra, bem mais importante que entre?! Necessidades são coisas que queremos. Pensamos alcançar. Isto quer. Isto procura. Isto age. Isto tem.

 

Descobrir não é a tarefa mais fácil. Nem a mais impossível. Não é tarefa nenhuma descobrir, isto não faz. Fazer o feito, repetir a fossa inócua.

 

Sujeito e objeto: produto de uma causa. De coisa sem coisa. Onde sempre esteve. Sozinho. Estar, condição do que é. Isto-consigo porque não pode se afastar dele. Alguém que nunca separa: nós mesmos. Isto questiona: devo me levar até onde?

 

Ou não devo me levar para nunca. Lugar-pensamento: chega-se onde quer. Montanha ou vale, cidade ou campo, pedra, arco-íris, pequenas brechas onde se escondem ratos, por onde os ratos fogem. Entre pedras, atrás dos armários, em autofalantes, pelo céu

 

onde as ondas batem e repousam. Alta velocidade. Na cadeira de balanço, rodeando flores, andando de bicicleta, pela cozinha, com baratas, pratos e talheres.

 

Na sala de estar, no dia do trabalho, televisão aberta, atrás dos rádios, cantando, dizendo, no sexo, enquanto alguém, que não sabemos, goza.

 

Onde for, no lugar-pensamento que chegamos. Se chegar lá, Lá existe. Só existe o que vemos. Ler no espelho algo invertido. Deus não soube encontrar. Só encontra nisto. Isto, isto mesmo. Assim é a vida, nela mesma. As coisas no que são. Sozinhas, começam a partilhar de outra natureza.

 

Isto se lembra, tem lembranças. Lembranças de uma terceira pessoa. Viver é lembrar-se depois.

 

Toda misericórdia. Morrer é uma memória profunda. Como haverá o além, se atinge um único ponto, senão ele mesmo? Deixar interrogações no eco? Qualquer coisa que não esteja sozinha. Isto sozinho. Solitude acarreta solidão. Umbigo do furacão, imenso nada a nada. Peixes nadam. Tudo passa pela cabeça. Se ela existir.

 

Isto não pode ser partido. Daí solidão. A mão precisa de outra para abraçar, olhos que se enxerguem vesgos. Unitário e sólido. Ele é porque foi. Tempo e abismo se perdem. A desimportância de lembrar. A lembrança que restou é o presente. Futuro e passado estão dissolvidos no emaranhado da teia.

 

Ele está sozinho. Sente falta de si, fechado em si mesmo. Veias trancadas, lábios mordidos. Fechado por estar fechado, toda dificuldade é abrir. Isto não abre nem fecha. Ovo sem gema; coisa trancada e propícia a novas experiências, se o melhor é abrir os olhos, se o que resta é aqui. Isto. Sozinho.

 

Isto não enxerga. Não olha nem podem lhe ver. Seu mundo é assim. Isto não existe. Silenciado pelo grito. Pensando sem raciocinar. Isto é suficiente. Sol tendo um planeta-sol de testemunha; indiscriminação de coisas; nada a dizer.

 

Isto é coisa que define. Eis a lógica.

 

Onde o passo não chega, a visita não aprova. Ouço a resposta: um grito oco. Cada coisa em seu lugar. Não pode ser outro. Criar é morrer. Caso a luz não incida, sei que está sozinho. A esperança de compartilhar algo que não seja o dele. Certeza de que entre ele e a origem, nada existe. De que alguém se fez eco. Eco de outro. Gesto cuja mensagem te chama.

 

Peço perdão por ontem, pela página anterior. Pela nódoa do corpo, pelo corpo-zero. Por ontem e por hoje, na boca de Isto. Isto não tem boca, não vai a Roma, prefere aqui.

 

Tudo é insuspeitável, o silêncio lhe roga. Entre eu e Isto, não há mais isto. Ele comigo não há, seria apenas um peito dizendo sim. Um Isto ao avesso.

 

Somos dois. Não demos conta disso. Não há de ser Isto. Não me quero com ele. Ele de fora sou inteiro, luso, só trabalho.

 

Mas Isto tem fôlego e viagem. Passou por boas. Consigo. Não grita nem foge. Não ceifa nem dorme, seu movimento não ressoa. Isto não pode ser assim. Se Isto ressoa, é suado.

 

Voltei sem ele, sem consolo. A praia exausta das ondas secou. É uma noite interminável, um desafeto urgente, um pânico, onde as respostas desgovernadas sobem pela cabeça, espantam moscas, alimentam rugas, é um nexo

 

de Isto para consigo, pervertendo-se no que não era: aquilo. Aquilo, quando Isto entra de férias. Cansado de existir. Existindo porque não precisava. Pedira emprestado.

 

Isto é só voar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois poemas de Mauro Gama

GERADOR DE TRÊS FASES
A Mauro Villar

1

Lateja. Você sente que lateja
além do corpo – entre o ausente
e a escuridão –
algo que em cal ou sal se re-
compõe e paira: algo tecido
de vento e movimento de cambraia,
pulsação. Lateja. Você sente:
sob um fundo de alçapão
uma presença – ou concha
– de algodão que
ali espera que palpita aquém
e além da vida – meio bicho
e meio búzio mar em som e
mar em sombra com seu dente
seu desenho
no deserto sua lã e seu
lábio no ladrilho. Você sente:
faz-se uma ponte entre o porão
e o sol o gargalo
da garganta e
o oceano. Mas lateja. Mas vive

2

e desde então vêm a ser
embaraços
os grudes de mel e gula
de fel e sede que se acumulam
ou na goela ou na baço.
Vêm a ser excesso
de pressa e fardo
até esses músculos de molusco
essa cafua de lua esse capuz
de caramujo: Você,
poeta mouro – e mínimo –
debatendo-se
entre o útero e a urna o
rosto e o rótulo o relógio
e a relva (ou o verão
e a víscera):
ostra em ácido nós nos nervos
válvula visgo voz
no exercício – vão?
– da travessia. Para quê? Para
onde,

3

se lateja você sente que lateja
adiante mais adiante a
projeção
o ultra o salto o leque
se abre – máximo – em suas asas?
Pois lateja. Você sente que lateja
e vai além da chuva
ou dos cabelos
entre a pelúcia do amor – ou de
seu mofo –
e se faz luz muita luz muito acima
dos comboios e dos campos das aves
e dos estofos dobras debruns
do azul:
algo – ou alguém –
de compassos e espaços
sem limites: luz e éter luz e
rio luz-paixão
que se desdobra
se amplifica
reconcentra-se
espirala
faz-se ventre faz-se ovo
faz-se fala
verso
parto
(de um nosso novo universo)
MANDO MEDO
A Emmanuel O Araújo

Os monstrengos verdoengos – com suas
capas e carapaças – estão em todas
as ruas estão trepados pelos telhados têm
olhos múltiplos e máscaras de mosca: às
vezes passam com suas tenazes para o ar
voltadas e onde eles passam – verdoengos –
tudo se põe a secar ou se decompõe ou só
se indispõe e esconde-se na terra. Os
monstrengos não se perturbam e se masturbam
com suas bananas de guerra. É
forte então o ruído de seus bramidos:
e eles próprios parecem fortes parecem
feitos de pedra de um sempre forte rolar
de pedras e pretas farpas da morte. Tudo
isso porém é falho e não diz bastante
dos monstrengos verdoengos: nesse instante
seu gozo é velho e esponjoso. Um ouvido
mais atento verá em todo alarido desses
monstrengos verdoengos uma espécie
de lamento – fruto de mútuo segredo;
eles têm medo verdoengos medos que se
espicham e incham nos seus cachaços de
aço (aparente, apenas): têm medo de insetos
ventos crianças espetos talvez ocultos
naqueles vultos que desconhecem. E tecem
muros farpados onde os ventos se embaraçam
e se estraçalham os alentos de mudança. Mu-
dança ou dança mesmo, somente ou o
movimento do novo. Ante cada furo
onde se mova o futuro os monstrengos verdoengos
mascam cegos seu segredo ou o agouro de seu medo

Mauro Gama em “Expresso na noite”

 

Quatro poemas de Donizete Galvão em “O antipássaro”

Quatro poemas de “O antipássaro”, livro póstumo de Donizete Galvão, organização de Tarso de Melo e Paulo Ferraz

 

O MIJÃO

 

 

 

Fui tomar cerveja

no boteco em frente

ao edifício do Mário.

O bar nos expulsou

depois da uma da manhã.

Os bares fecham cedo.

As padarias não podem

vender mais cerveja.

Temos que respeitar

a lei do silêncio.

São Paulo, dizem,

é uma cidade cosmopolita.

Mijei atrás da caçamba

de entulho.

Mijei quente, grosso

e demorado.

E me deu vontade

de mijar nos monumentos,

nos prédios neoclássicos,

nos shoppings e avenidas.

Como a demarcar

um território nesta

cidade onde

eu possa beber e mijar

quanto queira.

Mas era hora

de ir para casa

recolhi o pinto

e tomei um táxi.

 

 

 

 

 

 

NÃO SABE

 

 

O amor que não sabe morrer

persiste no olhar do cão

abandonado que,

ao menor gesto,

abana o rabo

na espera do afago.

Está no vaso de planta

esquecido no sobrado

sem moradores.

 

O amor que não sabe morrer

não pretende tocar o céu.

Quer ficar aqui mesmo –

Pedestre, incauto e reles.

Não ouve a ladainha dos mortos.

Nem quer a extrema-unção.

 

 

 

 

ANJO EXTERMINADOR _ para Waly Salomão

 

 

 

 

Não me venha

com essa conversa

de anjo da anunciação.

Você vai enfrentar

um anjo exterminador.

Tateie na caverna

e encontre na sombra

esse predador ancestral

com asas de galo-índio –

pronto para golpear a presa.

Ele crava as esporas

no peito do adversário

e lhe retalha as carnes.

Com o bico,

fura os olhos.

Louco por sangue

quer o gosto da agonia.

Esqueça os versos

que os poetas sussurram

em seu ouvido.

São traidores –

anjos enganadores.

Têm-lhe ódio

quando dizem

morrer de amores.

Negam a si mesmos.

Negam os amigos.

Só têm as palavras

como seus abrigos.

 

 

 

NEGRUME

 

podem me dar tarja preta

tentem me tirar do breu

o carvão aqui sou eu

 

 

 

 

GALVÃO, Donizete. O antipássaro. Apresentação de Paulo Ferraz e Tarso de Melo, Posfácio de Antonio Carlos Secchin. Goiânia: martelo, 2018 (Cabeça de Poeta 22)

 

 

 

Três poemas de André Luiz Pinto

A ideia é publicar pelo menos todo sábado, alguns poemas meus e, havendo a possibilidade, de outros poetas que admiro.

Os poemas escolhidos fazem parte do livro “Ao léu”, de 2007,  Editora Bem-te-vi.

i

A cidade comove, risível quanto
o mar, qual o sentido
da palavra risível onde as casas
se amotinam sob a grossa poeira?

Onde minha mãe nascera
minha avó morrera
o subúrbio não se cansa de dizer
mais esquecido que o nordeste.

Escrever é proibido, artistas vivem
de pagode, bate no peito
a ruína de quem cedo
aprendeu a ler e eu não devia.

Tudo isso contado junto
enquanto os vagões
desandam por entre os bairros
poderia ser Nova Iorque.

Madureira, matadouro de homens
dos secos e molhados
nas praças e nos
congados, de nossas vítimas.

v

É noite. Tudo parece escondido.
Silêncio entre os carros que rodam
a madrugada. Tudo se passa
na cabeça: manhã, os trens lentos
e lotados, o olhar da mulher que amo,
a solidão dos livros. Tudo assim,
sob a mira do fuzil. De repente,
o relógio toca: é preciso acordar,
antes, porém, precisa-se dormir.
Sigo o poema para vê-lo onde termina.
Tudo está nu, debruçado na janela,
feito um latido. O frio anuncia
o fastio do próximo verão. Não
por esta noite, num abraço acolhedor.
Não agora. Tudo range nessa hora:
os pelos crescem, ela vira para o lado
e dorme, ouço entre os batimentos
a voz do coração. Ouço calado,
sem par. Haverá outro momento
para escutá-la senão o de dormir?

vi

“Viu eles?
Viu eles, tio?
São irmões!”
Diz o menino
atrás de mim
no ônibus.
A vida
surpreende
o mais ateu
dos homens.
Pouco sabem
o gozo de andar
assim pela cidade.
Somos feito as cotias
no Campo de Santana.