CONFESSÓRIO

 Antônio Mariano

 

Nem precisaram bater muito e eu já confessei tudo. Não que eu seja um sujeito frouxo, que não aguente pancada. Nada disso. Se fosse minha intenção calar, elas me fariam uma pasta e só teriam de mim o silêncio, nenhum aceno positivo ou negativo, nenhum protesto de dor. E ainda mais tapinhas de mulher! Tolas, tolas, tolas. Só porque me quebraram dois dentes, um braço e duas costelas, me racharam um supercílio e partiram o nariz, só por isso, elas pensam que eu fraquejei, que falhei em razão da suas técnicas? Ah, conversa minha? Então tragam aí uns brutamontes pra ver se eu cedo. Eles farão de mim pó de porrada, e o único som que vão ouvir aqui são a respiração ofegante deles mesmos e o assovio do vento para levar o que sobrar dessa minha carcaça pro inferno. Se não acreditam, paguem pra ver.

 

Elas me dominaram porque eu quis e assim me conduziram ao tribunal das mulheres traídas. E é de se esperar que não haja nenhum um homem ali além do réu. O processo delas é rápido: ali mesmo a inquirição, ali mesmo a sentença. Na antessala, a polícia feminina que conclui o inquérito. Não há advogada de defesa, só de acusação. Mais a promotora, a juíza e as juradas.

 

Eu era acusado de alta traição contra a recém criada revolucionária república das amazonas. E o crime? Ter deitado com a mulher do vizinho. Também, era impossível negar. Havia robustas provas deixadas na cama dela, além de testemunhas ilibadas: minha sogra, minha mulher e a mãe da vítima, todas presentes no tribunal.

 

 

O vizinho também seria julgado dali a pouco, como réu. Por ter relegado a esposa com quem assinara um contrato de cobertura total em completa inanição sexual a ponto de ela rogar os favores de um homem próximo. A minha acusação era gravíssima: ceder a uma mulher comprometida necessitada com a agravante de trair a própria esposa.

 

O regimento interno do tribunal permitia que as testemunhas se convertessem em seguida em juradas e lá estavam elas, minha mulher, a mãe dela e a mãe da vítima, ansiosas por engrossar os votos do veredicto a seguir.

 

A punição reservada para este tipo de crime é a pena capital: enfrentar o paredão e ser alvejado pelo esquadrão de arqueiras. Para os réus confessos, a lei prevê o abrandamento para outra talvez mais dolorosa para um machão como eu: ser mutilado nas partes e virar eunuco para servir as novas mulheres sem harém nenhum.

 

A sentença do vizinho até que foi leve: transformar-se em um dono de casa exemplar, zeloso dos afazeres domésticos e servidor da esposa nas suas carências de mulher sem nada contestar. A simples desculpa daquela dorzinha de cabeça como indisposição poderia condená-lo à pena que sofri.

 

 

Não sei se fui fraco em confessar tudo tão rápido. Poderia ter esperneado até o último momento. Ter referido o assédio da vizinha por semanas, os relatos que fiz para o marido dela e para minha mulher que, claro, não acreditaram. Ou negado, negado, apesar de todas as evidências. A chuva de flechas seria melhor. Por que eu quis falar? Desconfio de uma certa doçura do olhar das inquisidoras que me doía mais que o maior tormento e que só agora me dei conta. Idiota, eu!

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