Arquivo da categoria: Avulso

zumbido

Gary Hoang

eis a parte que me cabe neste latifúndio:
um copo de vinho para me dar coragem
uma boca precisa para oferecer a minha
uma conversa de velha para me lembrar
um estojinho que me sacoleje os trocos
uma mão para pedir gomos de tangerina
um problema para resolver nos silêncios
uma brasa que não durma quando apago
uma flor murcha enfiada cabelo adentro
um peito ainda sensível para as ternuras
uma noite a cair à frente dos meus olhos
um poema por dia ou o quanto me baste

(Amanda Vital)

ressurreição

Sylvie Riches

(para Mar Wolkers)

falamos a palavra deus da mesma forma
com um misto de culpa desdém e medo
não sei se é do sotaque: uma fala caipira
de camponesa rebelde que não larga a fé
mínima que seja ligada a objetos miúdos
um bibelô de nossa senhora da conceição
o rosário de madrepérolas herdado de vó
será que ela dizia também a palavra deus
com um misto de culpa desdém e medo?
será que vem das nossas avós essa língua
pesada de arrastar enxadas a contragosto
de carregar sacos de juta pelas corcundas
de viver a punição de nunca ir às missas?
afinal a língua também pode vingar avós
nascer de novo ligeiramente cosmopolita
comer a culpa libertar-se do desdém: não
ter mais medo de se dizer a palavra deus?

(Amanda Vital)

caipira

Lourdes de Deus

era sempre no início de maio: mãe e eu subíamos
o morro até a casa de dona Luzia atrás de vestido
para ir dançar quadrilha em festa junina: nós duas
sempre mais cedo assim que chegavam da costura
direto para lá: um cheiro de tecido e suor de moça
pelo quarto uma chuva de sainhas de tule armadas
em pilhas por cima de uma cadeira de computador
um espelho de corpo inteiro cheio de fitas métricas
e os vestidos apertados dentro dos armários velhos
:esse é novo chegou pra mim esse ano: e me despia
e apertava as pernas fazia de tudo para entrar neles
Luzia enfiava anáguas por baixo da saia me botava
repolhuda como devia ser :ela já tá na idade desses
mais curtinhos: eu girava toda em balão multicores
morro abaixo noite acima dias afora e casa adentro:
xuxinhas pelos cabelos a cara pintada o dente preto
uma euforia indomável da graça da espera: até hoje
não sei se o meu álibi era Luzia ou se era o são joão

(Amanda Vital)

quitanda

Alfredo Vieira

em Minas as mães ensinam a fazer amarração
com biscoito frito de polvilho: modelar as letras
do primeiro nome ou apelido da pessoa amada
fritar em óleo no fogo alto e ir tomando cuidado
:para o ritual não pipocar para cima dos braços:
pode dar muito errado mas tem comida à mesa
dentro do estômago ou encortiçada nos dentes
a gente aprende nova a manejar a escumadeira

em Minas as mães ensinam a durar casamento
com bolo pega-marido molhadinho e com coco
o detalhe é que o marido precisa gostar de coco
na receita o forno já é mais brando mais estável
cresce muito sossegado a cento e oitenta graus
ou para as mais corajosas cresce à lenha média
em brasa: aqui já se leva ao forno e tem ínfimas
possibilidades de queimadura é muito de dedos

as mães aprendem com as quituteiras da família
e as quituteiras ensinam umas às outras o que é
de casa: e depois de pronto vão vender para fora
pelas ruas nos portões e até na frente das igrejas
exceto em velório por respeito ao coração partido
o balaio cheio soltando fumo pelas entranhas das
palhas vai incensando as avenidas: mas qualquer
semelhança ao amor é mera questão de medidas

(Amanda Vital)

Pandemia em mim

Foto: Márcio Leitão

O gesto que vaza de nós

ou para nós

e o movimento

que esgarça o céu

viram, em alguns momentos, pó

neuronal

Grãos que se grudam a axonios

e dendritos no fundo

do fundo de nós.

Quando algo ou alguém

espana a ventania

ou sacode o azul

surgem nuvens de poeira

embrulhando medos

mais quietos.

Como não há aspirador

ou desifentantes para mentes

e tempestades

talvez o melhor a fazer

é deixar o vento guiar as nuvens

e a dor

na tentativa

de desfazer os nós.

Márcio Leitão

Poema (1) de Jéssica Iancoski

Imagem: Pinterest.com (Nicole Law)

ERVILHA VERMELHA

Ontem me perguntaram se eu era uma menina

E eu não soube responder

Esse inferno de pergunta.

Não que eu não seja mulher —

Mais que isso

— É que eu sou tantas coisas:

Uma garota,

Uma amante

Uma gota,

Um semblante,

Um inverno

Um menino,

Um pingo

E um girino,

Um giro de roda

No vento leste que sopra

No ponto final em cada esquina.

Uma menina é pouca coisa

Quando eu sou tantas outras

Entre cada ervilha vermelha Do interno do punho em meu ventre.

Jésssica Iancoski

Poema 1 de Giulia Nogueira

Imagem: Pinterest.com

um poema quando nasce esparrama pelo chão

livros de poesia

amuletos panfletos etc

talhados um a um

pelo silêncio-princípio

inconformado

da sua própria capa

cidade

não almejam

servir-lhe

de portas abertas

menos ainda

de oráculos certos:

a tua procura é quem

devora por onde

pisa.

Giulia Nogueira

diário

Vida de Menina, fotografia de filme

para Alice Dayrell Caldeira Brant


também como helena morley fazia eu mesma castelos
dentro da palavra nas entrelinhas dos livros impressos
na tentativa de fazer minerar diamantes do atrito entre
o grafite e a folha de papel antigo: o ato da escrita tem
essa coisa de se poder esconder numa estante intocada
com a própria caligrafia – nada mais que a poeira :presa
distorcida: colecionada em viagens pelo centro da terra
também eu deixei os papéis voarem nas janelas abertas
e o vento já apagou-me os candeeiros para tentar evitar
que eu escrevesse do que não acontece à minha cidade
porque só se escreve pela luz, helena, fazendo castelos
de dentro da cabeça para fora do comedimento da mão
como fazem as garotas inglesas com diários de verdade
mas assim como você também ergui-os comigo mesma
cascalho a cascalho :em frente a um riacho de garimpo:
e inventei o meu nome no sopé incerto das montanhas.

(Amanda Vital)

canapé

Brassaii

nos tantos jantares da usina as esposas dos chefes
não diziam uma palavra: era como se não falassem
a linguagem das mesas dos colarinhos dos homens
comiam pouco e sorriam muito sempre impecáveis
tinham corretivo nas olheiras e gel repuxando o frizz
de cabelos exaustos traziam o cansaço nos cabelos
e seguravam seus filhos pela manguinha dos blazers
feitos sob medida a combinarem com o terno do pai
eram bonitas e melancólicas as esposas dos chefes
levando o peso dos vestidos das pedrarias enormes
seguravam xixi toda a noite para não arrastarem pelo
saguão as bitucas de cigarros e os ossinhos de peru
tinham uma candura insistente uma atmosfera muda
pobres mulheres se comunicando por olhar e suspiro
ouvindo os homens falando dos números e de como
os filhos dos operários gritavam tanto aquelas noites
de homens esses copos gordos de uísque até o topo
e as mulheres canapés quebradiços no meio do chão

(Amanda Vital)

criação

Pinterest

na casa com cheiro de gato que já se sente da porta
minha mãe varre bolas de pelos sobre tacos antigos
de madeira desgastados as cerdas ressoam rítmicas
da copa ao último quarto à esquerda minha mãe faz
filhotes de mentira com os pêlos misturados na mão
em laranja preto branco cinza bege e marrom escuro
enquanto a vassoura descansa encostada na parede
minha mãe vai fazendo as orelhas o rabo as patinhas
deixa um a um sobre a cama lotada mesmo sabendo
que não dura inteiro nem quinze segundos entre eles
até espalharem tudo pelo chão outra vez restaurando
o estado original da natureza daquela casa para mãe
é um ritual de delicadeza e de graça juntar um pouco
de todos os gatos e fazer cabê-los – sobre suas mãos
a vassoura descansa e mãe é um pouquinho de deus

(Amanda Vital)