Arquivo da categoria: Avulso

ferroada

Marielle Franco 2

● eu gosto de mel ●
● das asas transparentes das abelhas ●
● do sangue q coagula depois do ferrão ●
● da morte da abelha depois da ferroada ●
● do silencio das colmeias do amargo mel ●
● q guarda a violencia das asas nos favos ●
● q apodrecem todos os dia com essa tristeza ●

*

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fascismo

formigas observam a passeata dos grilos
pisoteando o chão entre manchas verdes
e vermelhas crescentes o furor uníssono
ao modo de quem toma a terra para si
os grilos e suas capas carapaças opacas 
à luz solar suas patas pisoteiam sangue
pisoteiam flores pisoteiam as próprias
patas roçando umas contra as outras as
formigas veladas sob folhas sob galhos
sob o cascalho dos corpos de suas irmãs
mortas observam a passeata das ruínas
percebem talvez não há muito o que se
possa fazer pensam em subverter raízes
para baixo da terra refazer formigueiros
colmeias casulos ninhos refazer as casas
para baixo da terra tecer seus caminhos
atravessar rotas de fuga a esconderijos
mas basta o intervalo dos pensamentos
o hiato entre a ideia e a ação e os grilos
se atropelam marcham suas automortes
predomina o líquido encarnado o abismo
o desgoverno da ciranda que era para ser
predomina a tendência natural dos grilos
surgir cricrilar saltitar consumir fenecer

(Amanda Vital)

caronte

Cortazar

● quando viu ●
● entre lodo e azinhavre ●
● no aqueronte duas sombras ●
● caronte abriu largos olhos ●
● e bem murmurou claro e duro ●
● pra q todas nos ouvissemos ●
● sem esquecer nem se perder ●

● um deles eu sei ●
● mortal agora morto e triste ●
● o outro ei de conhecer um dia ●
● me faço de não saber nem sei ●
● e cumpro o q tera q vir e vira ●
● mas antes fecho os olhos ●
● ante tal destino idiota ●

● perco tempo entre brumas ●
● entre trevas q perderam o nome ●
● dormirei o tempo q desejar ●
● sempre sem sonhos e ciumento ●
● rasgando almas como insetos ●
● ate acordar e cumprir as ordens ●
● pondo o barco a caminho ●

● sei o q dizer e o q ouvirei ●
● sei tudo q vira depois a eles ●
● sei q o rio não me perdoara ●
● longe mais longe q o sol ●
● e as estrelas ●
● labirinto de luzes q devoram ●
● quem não aceita logo as ordens ●

*

garota-propaganda

mommm

era década de oitenta
minha mãe saía num outdoor
em cima do Foto Horto

a pele dourada em manteiga
prolongava os sábados de clube

imagino minha mãe
divindade extemporânea
amarrando os cabelos
em tomilho e lavanda

enquanto olhava para a câmera

um ou outro traço do rosto
do bibelô de Santa Luzia
arriscava um contraste barroco
na beleza ardida

ainda hoje a reconhecem
dizem que é pelo olhar triste

(Amanda Vital)

não nascido

criança siria morta

● nonata devora areia ●
● bebe toda essa agua do mar ●
● isso q vai e vem e vai ●
● isso q dorme isso q morre ●
● sem o peso de existir mais ●
● o ceu esse azul da porra ●
● o mar esse verde da porra ●

● uma baleia olha ●
● seu filhote não nadara mais ●
● ele sonha na areia da praia ●
● a gaivota olha ●
● seu filhote não voara ●
● ele sonha na areia da praia ●
● tão profundamente ate o fim ●

● os homens olham ●
● seu filhote não importa ●
● ele não sera homem ●
● não sentira tudo q sentiria ●
● não vivera tudo q viveria ●
● ele é apenas uma carne morta ●
● q viveu tudo pra viver e nada ●

● a morte o não nascer o sono ●
● isso entorpecido q não existe ●
● não sonha não deseja o ser ●
● embriagado zonzo de vazio ●
● sem palavras sem dor sem ar ●
● nem a terra nem o desejo ●
● muito menos menos o gozo ●

*

museu nacional

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da potência dos atritos se entendia o fogo
pedra contra pedra em precisão atenta

da urgência de ser vida se fazia o fogo
olhos repousados no inflamar da lenha

da latência do apetite se servia o fogo
em novos hábitos que a carne sustenta

da exigência do divino se sagrava o fogo
de orações vertidas a hecatombes lentas

da carência de poder se corrompia o fogo
lançado ao labor contrariado que inocenta

da dormência do homem se perdia o fogo
ruínas repousam entre um par de algemas

da incoerência de um fim se reinicia o fogo
história irrepousável em cíclica contenda.

(Amanda Vital)