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O Marceneiro

marceneiro

Imagem: Pinterest.com

 

O marceneiro

 

acorda com gosto de farpa

todo santo dia

mesmo que à noite

só deite longe dos troncos

e da madeira inflamada,

a picada e o paladar duro

fazem encorpar os poros

e a saliva marrom.

 

Mesmo que de dia

trepe madeira a madeira

no assoalho das ideias

e do suor,

mesmo que aproxime texturas velozes

que desembocam em cor e aspereza

sabe que a superfície

polida

sempre foi sozinha

e inalcançável,

sabe também

que o pó

sempre foi ele

e o amor aos cupins.

 

Márcio Leitão

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Poema (5) de Lilian Sais

chuvas

IMagem: Pinterest.com

 

Cinza

te esmeraste bem nisso de viver.
acumulaste diplomas,
tens títulos. aprendeste até
a calar os desejos

– sobrevivência –

mas os dias descem
em ralos
de chumbo
e os silêncios agravados
denunciam

a fala do psiquiatra
que abana a cabeça
em negativa:

– para a sanidade
não há
remédio –

viver é
acumular as etapas
das chuvas.

 

Lilian Sais

o animal

Karl Ove Knausgård

● o serviço era simples ●
● devia velejar ate determinada ilha ●
● embarcar um selvagem q taria esperando no porto ●
● voltar com a mercadoria e pagavam bem ●
● na verdade eu tava enjoado de olhar o mar ●
● cheio de vontades misteriosas ●
● louco pela loucura violenta do mar ●

● sem pessoal sem dinheiro o navio apodrecendo ●
● com este negocio q aceitei sem pestanejar ●
● comprei tudo reuni homens parti ●
● quando a mare tava vazante ●
● os ventos os melhores q um capitão pode desejar ●
● enchi os pulmões de oceano e remocei ●
● uns trezentos anos ●

● nada igual a vida no mar dizemos nos ●
● os marinheiros de coração ●
● havia dinheiro no cofre e muito mais ●
● esperando na entrega ●
● chegando la assinei toneladas de papel ●
● comprovando ser o responsavel pelo selvagem ●
● e ele foi trancado numa jaula no porão ●

● mas a volta demorou demais ●
● e me vi entregue a mais negra melancolia ●
● mandei subir a jaula la de baixo com o selvagem ●
● talvez ele me alegrasse ●
● pelo menos teriamos uma cara diferente no conves ●
● isso de ter sempre o mesmo é coisa de gente da terra ●
● q se agarra como carrapato a um lugar e morre ali ●

● a gaiola não era grande ●
● o pobre inda tava vestido como se veste seu povo ●
● quase não podia se mexer ●
● era desumano demais e mandei soltar ●
● a principio não quis sair pensando ●
● q fosse uma caçada por dentro do navio ●
● mas em pouco tempo nos acostumamos entre nos ●

● os homens fizeram amizade com ele ●
● mas da minha parte não quis aproximação ●
● os dias demoravam a passar e o mar não ajudava ●
● nos achegamos devagar ●
● mas em pouco tempo eramos os maiores amigos ●
● ele contou sua vida os costumes da sua gente ●
● palavras bonitas do seu idioma e cantos da noite ●

● chegou a dormir no meu camarote e ao meu lado ●
● comia na grande mesa ●
● contei segredos intimos q jamais havia revelado ●
● pescamos os violentos peixes do oceano ●
● e nos tornamos irmãos ●
● cortamos os pulsos e os unimos ●
● pra q o sangue confirmasse aquela irmandade ●

● chegando ao porto paguei aos marinheiros ●
● organizei o navio pus as contas em dia ●
● ao meu lado o irmão de sangue sorria ●
● satisfeito em tambem se sentir capitão ●
● pedi q se vestisse como antigamente ●
● e nos pusemos a caminho ●
● como mandava o contrato ●

● la ele foi apresentado aos senhores ●
● q haviam me encarregado o serviço ●
● fui bem pago e mais uma comissão ●
● a mais inda foi acrescentada quando ●
● meu querido amigo e irmão foi entregue ●
● ao “museu dos estranhos animais empalhados” ●
● pra ser preservado das maldades do tempo ●

*

[voga a luz no corpo…]

voga a luz no corpo visceral
descola-se nos órgãos internos
os órgãos mexem-se para os órgãos externos que voam
de dentro por fora numa queda a pique
dos órgãos a planar noutros órgãos na periferia sai uma substância
inocente crua grave
loucas imagens concentram-se no movimento velho
imagens panorâmicas a morrer
asfixiadas e côncavas no sangue que se afoga no corpo
corpo em chamas queima-se sobre os espelhos
um jardim de espelhos que sopram cada dia
cada osso cada carne cada ferida cada cicatriz cada órgão dormente
e os espelhos ferozes fotografam a carne a alma
a luz é lenta perde-se neste poema
o poema fura a luz da luz
todo o corpo como um dom não escapa ileso ao seu esquecimento
ilimitado genial: luz atómica a palpitar no poema
o poema como um golpe em pavor
se mexe no medo à massa do sangue rasgando as entranhas
ou o poema não se move não se toca
cose-se à força ao grito ao gemido à invisibilidade das coisas
o poema corporal como desordem poema delicado renasce no dom
mas o dom é esquecer o que nos escapa docemente ao corpo
qualquer perdão é inocência
ou voga neste esquecimento e a nossa luz corporal morre eterna

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora 2014

costas

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eu te conheço pelas costas, irmã
pela forma como tua pele se acomoda na carne
entre pintas salpicadas e marcas de nascença
nadando soltas em cada curvatura

te saberia de longe, essas costas orquideais
por onde passa toda a tua seiva e sumo

: compostas tom a tom em paletas brancas,
pétalas deificamente bem delineadas, banhadas
de odor abaunilhado, cria das serpentes órficas

da nuca ao último ponto que tua espinha toca.

(Amanda Vital)

vultus

Dino Valls 3

● caminhar nessa noite escura ●
● como se vai por um sonho ●
● sem saber quem se esconde ●
● entre as coisas indisiveis ●
● quem nos olha escondido ●
● sabendo o q sempre torceu ●
● como a gaivota ao pombo ●

● caminhar nessa noite escura ●
● sim basta abrir as asas flanar ●
● q o q chegou vai se guardar ●
● em nossa carne pele e ossos ●
● e nunca mais esqueceremos ●
● isso q recria sua toca em nos ●
● pondo bem aqui suas crias ●

● caminhar nessa noite escura ●
● como se não houvesse serpe ●
● nem o mal procurasse casa ●
● lugar apenas nosso o desejo ●
● q se deforma e se torna medo ●
● basta abrir os olhos na noite ●
● pra isso se mover na treva ●

*