Arquivo da categoria: Avulso

pardal

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Arte de Sir Edward Poynter

hoje sonhei que meu pai era homem e era pássaro
podia migrar de uma forma a outra dentro de meu
sono corria e saltava para levantar voo em seu par
de asas castanhas bicava-me os cabelos e braços
abanando um vento tranquilo seguia como pedisse
para deixá-lo guiar: meu pai de frente ao meu rosto
uma ave rajada tão pequena às voltas incansáveis
ia me passeando nas praças nas portas de igrejas
ciscou uma hortênsia seca a um canteiro qualquer
pousou em um campo de futebol onde os meninos
jogavam recolheu as penas criou os pés descalços
pediu para pontuar todos os gols com giz branco à
escada de concreto. eu me lembro que ele fez dois
e já não pude distinguir mais o homem do pássaro.

(Amanda Vital)

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Poema (1) de Mbate Pedro

feet

Imagem: Pinterest.com

 

os desertos

 

o barulho escutado quando uma flor cai lá do alto

numa noite sem o teu rosto

sem a tua luminosidade

para suster o peso da música

entre a escuridão do verso e a demora

 

porque eu sei

não há verso que abra a porta e entre nos olhos de um gato

e o silêncio é um rio que transborda

algures

sobre os teus pés nus

 

a cidade envergonhada

resvala para um domingo de facas

mas que importa?

 

um gato

agora

 

é como se dentro de mim alguém de repente

levantasse

a meia-

-haste

uma parede

 

Mbate Pedro

(In: Vácuos: Cavalo do Mar edições)

avalanche

GirlMirror

“Girl at Mirror”, de Norman Rockwell

posicionar o corpo de joelhos: o tronco voltado
para a frente a escova de dentes pela metade
dentro da garganta todo dia depois do almoço

os cabelos amarrados a maneira de abafar os
ruídos e de esconder os laxantes debaixo das
meias sentir a tarde definhando carne adentro
e os ossos da bacia se encaixando nos dedos
ver estrelas ao final do dia as paredes escuras
rodando o suor frio rodando voltas ao pescoço
onde as saboneteiras já despontam delicadas
como ficam no colo das meninas bonitas essa
fraqueza nas pernas suspirar de fascínio entre
os dois lábios e a acidez impregnada na úvula

morrer à frente do espelho em um único sopro

 

(Amanda Vital)

Poemas (17) de Marcelo Maldonado

deserto oasis

Imagem: Pinterest.com

 

(das sublimações)

todo orgulho
ferido que
se preza
passa pelo
mundo
despercebido
escondido
no fundo
de uma
reza

=============

(dos desertos)

pois
que no
olhar me
trazes a
secura
sem
piedade
nem um
oásis te
livra da
loucura
nem um
milagre te
assegura a
verdade

=============

(das constatações)

também a
ternura
no adeus
se costura

 

Marcelo Maldonado

hóstia

reclining-nude

“Reclining Nude”, de Jacob Collins

para Pedro

oferecer-te meu sexo: a latência e o desespero
de meu sexo entre as dobras do lençol à cama
a pele suja ainda o não-lugar das minhas mãos

os olhos em convite essa indiscrição dos olhos
da boca sua tentativa quase falha de conter-se
a respiração sibilante perfurando os dentes e o
lábio uma oração incognoscível entrecorta o ar
em sinal de cruz meus pelos se rasgam com o
fogo de dentro para fora se rasgam em sangue

oferecer-te os movimentos do meu corpo para
que o pacifique enquanto estiver inteiro: assim
como uma hóstia na umidade quente da língua

(Amanda Vital)

Poema (1) de Rafael Mendes

poeta polonesa

Imagem: Pinterest.com

 

polônia

quando a mão empunha caneta

sobre o papel ainda virgem

no mais da vezes viaja

como andarilho que desvenda

o mistério de um cume

ainda intocado pelo conhecimento dos mapas

 

no curso da viagem verbal

não há norte estabelecido

nem sol que nasce no leste

trazendo primavera e mistério

duma tão antiga ásia

 

sim, talvez o traçado da tinta

busque dar conta de questão ínfima

e a resposta seja longa o bastante

para tornar habitáveis os gélidos

anéis de saturno e o inescapável

coma de putão

 

tantos poemas rompem com incisiva força

dos ligamentos da mão inquieta

deve-se perguntar se toda força

é provida de propósito e sentido

 

este caminho aqui traçado

extensão dum sóbrio poema

da poeta polonesa que me sorri

empunha, nao caneta, mas o cigarro

 

necessário entender o veganismo

destas palavras avulsas

regurgitadas após a antropofagia

da leitura do grão de areia

escrita tão orgânica

resultou numa peça

que nasceu e viveu

sem o autor saber por que

 

sim, neste poema nada acontece

resta apenas a imagem do cume inóspito

rodeando o andarilho

 

Rafael Mendes

família

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Pinterest

enterraram-me as rosas e deixaram-me os mortos
vagando sobre as cidades os ossos tilintando pelo
centro os corações dependurados de sangue seco
nada além do sorriso de seus crânios no esqueleto
frio nada além do hábito de vagarem em conjunto
perseguindo as flores em dia de finados nada além
de deitarem cada vez mais seus coágulos cerebrais
pelas lápides dos que ainda vivem dentro da língua
entre a memória e o verbo os mortos já não sabem
do calor da carne dizem ter problemas em recordar
do toque das pétalas e do cheiro eles já não sabem
a vida é uma lápide por escrever é uma urna aberta
é a última tábua a ser martelada até que se apague
o sol sob a terra e os mortos não souberam semear
regar atirar para baixo da terra os mortos só sabem
dessa clausura de nunca saber o lume ou a lágrima

(Amanda Vital)