Arquivo da categoria: Avulso

usiminas

usimeenas

os resíduos que saem dos filtros das chaminés
não fazem mal: assim indicam os placares com
a qualidade do ar nos bairros de ipatinga muito
pontuais em letras luminosas aferem excelente
ótima raras vezes boa e razoável quase nunca
enquanto lavamos o chão o corredor a calçada
vezes sem conta com nossos pés enfiados nos
chinelos pintando de preto as solas e os dedos
nos perguntamos alguém não teria notícia para
dar às viúvas do massacre dos operários de 63
será que essas cinzas são mesmo dos minérios
fundidos nós nos perguntamos o que se respira
fora dos alto-fornos porque o que eles queimam
que se acumula assim nas paredes das narinas
só tem duas hipóteses: ou é minério ou é morte

(Amanda Vital)

A imensa força de quem sucumbe

laura beth

Arte de Laura Beth

aos Migliaccios

A imensa força de quem sucumbe

– e sucumbir é fera que a todos cerca
soslaio olhar que a tudo espreita
fardo das manhãs anoitecidas
refrão do instante
e diz-se instante deste perecer sob novas peles –

É a força de perceber, ainda,
no jogo dos signos
morada da morte
E na mecânica diversa dos gestos
um só adeus, contínuo, à delicadeza

(Lucas Trindade da Silva)

muralha

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Arte de Carl Larrson

para Pedro

o seu gato respira mal pelo nariz e fede da boca
mas ainda assim há mais vida nisso do que pelo
lado de fora da porta nessa aspereza desinibida
das tempestades ao lado de fora da porta e nem
me lembro onde paramos qual inicial é reservada
para nomear a próxima tempestade e perco tanto
as contas me distraio na respiração do teu gato e
nos espasmos do teu cão sonhando conosco isso
tudo me soa tão mais gentil mais preferível ter de
levar com o peso e o odor dos teus animais sujos
sobre minha manta me tirando o espaço da perna
direita mas estarmos juntos em tempos de recusa
e reclusão é sinal de que é melhor dormir sempre
um pouco mais até perceber: agora podemos sair

(Amanda Vital)

Três poemas de Talden Farias

pinterst

 

 

 

 

 

Ilustração: Pinterest

 

Caminhante
A Antonio Machado

 

se o fim
da estrada
é a morte
estar no caminho
é a própria sorte
(viver é buscar
– e não achar –
um norte)

***

Amar

amar é
dizer
adeus

 

(a quem
se era)
amar é
dizer
a Deus

 

(quem
– se tornou
o que –
se é)

***

Persona

viver
só cabe
a trena

onde houver
beleza

viver
só vale
a pena

porque existe
natureza

(viver
só abre
a cena

quase tudo
incerteza)

Poema de Daniela Delias

 

noite

Imagem: Pinterest.com

 

por vezes
amanhecíamos indiferentes
à ventania da outra noite

e quem visse de longe
grades abertas, entre bocejos
o abrir e fechar
de nossas extraordinárias mandíbulas
sequer desconfiaria:

há dias que duram mais do que deveriam

mas ainda assim
quando nos viam ali, de longe
como que engolindo o mundo
as feras presumiam alguma fúria

Daniela Delias

Poema de Marilize Bentes

anastasia lisich

Arte: Anastasia Lisich

Eu preciso sair pra vida
Botar roupa de viver
Pra desintoxicar
Eu to farta de paredes e tetos
To farta de mim
Porque eu, em excesso, sou demasia
Eu preciso do outro
Do ar
Dos ares
Das canções das ruas
Do vento importunando meus cabelos
Eu não gosto de vento
Preciso de vento
Preciso do céu
Sem quadrados
Sem telas
Sem distâncias
Estou farta de mim
Não é pessoal, juro
Juro pela minha dor
Pela minha falta
Pela minha saudade
Preciso do mundo
Dos corredores
Da minha mesa emprestada
Do sussurrar dos livros
Dos insights
Dos orgasmos acadêmicos
Do maldito prazo
Da agonia
Da luta
Da procrastinação legítima, não imposta
Da lida
Da utopia
Encontros
Pessoas
Carne
To com saudade dos cafés
Poéticos
Confidentes
Terapêuticos
Do barulho das bandejas
Da música tocada
Dentro e fora da gente
Burburinhos
Gargalhadas
Lamentos solitários
Estamos solitários
Detesto vídeos
Eles doem
Implicam saudade
Implicam distância
Sou eu, distante
Vídeo, distância, saudade, paliativo
To farta do ciclo
To precisando sumir
De mim
Do exagero de mim

espaço em branco

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Arte de Dan May

para Marcelo Labes

amigo, ouve com atenção os grilos no fundo da tua
memória: são desses ruídos que têm qualquer coisa
de melodia em looping ou de rádio má de rodoviária
e vão só ficando automáticos quase imperceptíveis
acostumando ao ritmo o martelo a bigorna o estribo
mas apura os ouvidos à lacuna carcomida dos grilos
que se reproduziram com a tua ausência dentro de ti
se reproduziram sem vigilância sem fúria para temer,
amigo, te revisita te ouve não deixa faltar um timbre
para catalogar vai com força com rigidez nas pernas
vai e enfrenta a mesma visão de um trajeto inevitável
vai com a vingança e uma pá para cavar enfim a cova
e enterrar tua culpa viva: os grilos te chamam, amigo.

Amanda Vital