Arquivo da categoria: Avulso

paragem de autocarro

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Foto de Fernando Porto

as noites em óbidos são de derrubar qualquer coração
desgraçado: a muralha iluminada de um amarelo suave
ao fundo das casinhas brancas ao fim do resto de fado
que ainda se ouve no largo. casais de velhos asiáticos
tiram fotos com flash em frente ao santuário do senhor
da pedra. as senhoras têm blusas de cores combinadas.
um último gole de ginja samba na língua da menina ao
pé da escada no snack bar. dois carros entram no hotel.
juro ouvir sotaque baiano saindo da janela de um deles
mas a essa altura qualquer espanto é mais um espanto.
descanso os pés na sarjeta: meu coração é desgraçado.

(Amanda Vital)

Poemas de Expedito Ferraz Jr.

folha morrendo

Imagem: Pinterest.com

 

NOTURNO

 

(

Desfolham-se os olhos.

Pousa no branco

o improvável outono.

)

Descansa,

logo virá o sono.

)

 

 

 

 

ETERNIDADE

 

De repente,

nada

acontece.

 

E depois,

é como se nada

tivesse acontecido.

 

 

 

DESCONCERTO

 

Um quarteto

de cordas.

 

Um arranjo

de flores.

 

Um solo

infinito.

 

 

VISTA AÉREA

 

a certa altura,

a vista de um cemitério

se afigura

como a visão

de uma única

sepultura

 

a certa altura,

já a toda uma cidade

se mistura

essa impressão,

e a arquitetura

de alamedas,

letreiros e ladrilhos

faz ver

canteiros,

lápides,

jazigos.

 

a certa altura,

impossível distinguir

entre ruína e criação;

entre o milagre

da civilização

e o terremoto:

tudo quer nos parecer

destroços.

 

a certa altura,

resta aprender

a carregar os mortos

na vala comum

dos nossos próprios

ossos.

 

Expedito Ferraz Jr.

couro

blonde-girl-combing-her-hair-pierre-auguste-renoir

“Young girl combing her hair”, de Renoir

hoje resolvi pentear os cabelos antes de me deitar.
nunca tive sequer esse hábito: nunca desembaracei
os nós nunca ouvi minha escova trincando entre as
mechas e tinha uma certa sensação de deformá-las
quando penteava os cabelos ainda secos. hoje, não.
hoje resolvi voltar dezoito anos atrás quando fomos
as amigas todas dormir na casa de uma de nós cinco
depois da aula juntas em colchões arrumados à sala.
ainda a meio do papo elas pegaram em suas escovas
com a naturalidade de um combinado já foram logo
penteando umas às outras. me ofereceram. não quis
porque a sensação porque a falta de hábito fiquei ali
feito parva vendo seus cabelos se alongando na noite
os cuidados que elas tomavam com a força das mãos
ali entre bocados de fios sobre os nossos travesseiros.
juro que vi uma delas passar até perfume no pescoço
de um cheiro que não sai da minha garganta até hoje.
hoje deixei a minha escova sobre a mesa de cabeceira
com fios pendentes e tudo. hoje fui procurar a menina
que não fui. amanhã volto a ter os cabelos embolados.

(Amanda Vital)

vagalume

shootingstars

Arte de Nidhi Chanani

finjo procurar a ursa maior contigo: mesmo que
eu nunca me lembre de seu formato nem saiba
ao certo onde localizá-la entre as constelações
chego perto de seu ombro olho para a reta que
seu dedo indicador faz com o antebraço por fim
só você encontra a ursa maior e precisa repetir
que ela se parece uma panela de alça comprida
brilhando um bocado mais forte eu acabo então
encontrando o cheiro de suor a mão atraída por
cabelos subo pela manga da camiseta até a sua
pele e eu acabo encontrando o que quase nunca
ninguém passa um tempo à procura assim como
constelações e sujeiras de bola de berlim e café
para limpar no rosto do outro e bocados de noite
que vêm brilhando mais fortes sob a ursa maior.

(Amanda Vital)

Poema LVIII de Líria Porto

lua clarao

Imagem: Pinterest.com

 

EGO

 

eu de mim não me queria

minhas grandes inconstâncias

minhas tantas insolências

meu saltitar cansativo

e de mim quase abortei

 

então de mim fui ficando

fui gostando dessa mim

acomodando-me às beiras

e se eiras eu não tinha

agora tenho

 

eu de mim já muito quero

pus-me à frente em minha fila

mas porém sem holofote

dessa lua eu não preciso

tenho eu clarão de mim

 

Líria Porto

in: Cadela Prateada, Editora Penalux.

bisturi

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Arte de Asta Norregaard

eu não quero saber desses afetos da palavra:
leia minha poesia me olhe nos olhos e diga se
é boa ou má. não me toque pelos ombros não
me imagine despida não tome meu partido em
rixas. mas me leia como lê os seus comparsas.
com o mesmo cuidado e fundura, talvez calma.
sobretudo me leia como quem busca os óculos
para examinar um corpo. me leia com as mãos
cobertas de álcool em gel. eu não quero saber
desses afetos do lado de fora da palavra: atrás
da porta, tudo é ruído e espera. se quer me ler,
leia como alguém que não goste tanto de mim.

(Amanda Vital)