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ponto fraco

eu quero a elegância dos homens ao dizerem às mulheres
você tem o rosto tão jovem nem parece ser avó: eu quero
a graça dos retornos do sorriso que se abre de volta como
se revelasse que tudo atrás dos dentes se desmontou aqui
e agora: a beleza das pessoas se desmoronando pelo peito
a respiração mais calma vê-se no relaxamento dos ombros
a calma: o agradecimento dessas pequeníssimas salvações
que o corpo resolve em questão de segundos querer tanto:
são os segundos que não recusam a necessidade das ruínas
que não se esquecem nunca e muitas vezes até pedem para
ver: estruturas armadas caindo por dentro a soltar a limalha
a bambear os andaimes: em nós sempre há alguns andaimes
e tijolos mal arrematados que fazem os joelhos fraquejarem
pelo menos um bocadinho: eu quero perseguir as quedas do
mundo fazer desmoronar as ruínas das ruínas até achar seus
fundos falsos: onde as ternuras se escondem feito minhocas.

(Amanda Vital)

Poema (2) de Lázara Papandrea

Imagem: Pinterest.com

II-

Do que há de ser

Não somos.

Não seremos o ser

Que sabe

Fratura exposta,

Sol causticante.

Onde cabe

Vir até aqui?

Como

Ir para de onde não se vem

?

Sêmen quente

D’outro dia a negar

Dia novo

O tempo em fastio

Levando

para longe a memória

Prensada em atroz

Despertencimento.

Lázara Papandrea

agouro

para Florentina

tia Fló sabe analisar casamentos apenas pelo bolo da festa:
dá para calcular pela expressão com que ela volta pra casa
ou se traz uma vasilhinha tupperware bem cheia nas mãos
bolo de casamento é coisa premonitória e tia é meticulosa
na previsão: a noiva estava linda mas ô bolo ruim meu pai
ali vai dar azar coisa ruim começa logo pelo sabor do glacê
a massa esfarelou nas entradas do garfo que dó que me deu
observei as mesas e vi que todo mundo deixou pela metade
eu já vi casamento acabar em coisa de uma semana quando
os noivos e os pais dos noivos se desentendem nos recheios
a gente sabe quando bolo é feito à base de contragosto sabe
a gente sente: me dizia enquanto punha meu cabelo em rabo
alto meio-preso: vê se não alisa que é pra tia ver seus cachos
em canudos grossos atrás da sua cabeça escorrendo pelo véu
e repensava: até isso é perdoável: só não me faz o vexame de
encomendar nada que não seja um bolo branco da Dona Tuca
tia reparou que os canudos já sumiram: mas só por precaução
guardo os telefones de Dona Tuca Boleira na agenda até hoje

(Amanda Vital)

costura

“Afternoon on the Water”, de T. S. Harris

mãe, hoje eu vi o mar: parecia um lençol de seda
que avó abanava e quando estendia sobre a cama
sempre ficavam algumas preguinhas ela precisava
puxar com cuidado deixando liso sobre o colchão
a maré também evita preguinhas por cima da areia
o mar é um bocado de avó perfeccionista de gênio
instável a estender um imenso tecido infinito para
cosê-lo: o mar afinal é uma avó abanando as águas
em viscose azul em tafetá turquesa em seda verde
espetando barcos em pequenas almofadas de areia
um ventilador atrás da nuca a assoprar suas ondas
os pés no pedal: os pés nos pedalinhos: duas mãos
deslizando numa bancada de granito a desfazer-se
entre os dedos: uma fita métrica anil no horizonte:
mãe, hoje eu vi o mar e meus cabelos têm retalhos

(Amanda Vital)

rapina

Foto: Hulki Ukan Tabak

para Mô Ribeiro

contar todas as pregas da minha língua no não-dito
apenas nos silêncios poder contá-las :uma por uma:
roçando-as nas estrias do céu da boca e ter a língua
como um exercício de se fazer no escuro esconder a
portas fechadas sem frestas para respiração atrás dos
dentes a movimentar-se entre os caninos toda úmida
cheia de vida avulsa vida de músculo ininterruptível
de animal encarcerado contando as pulgas que caem
das unhas: o trabalhar no ócio: contar as calosidades
e as pregas da língua que farfalha ressonando os tons
cavidade adentro: língua: esse animal tímido noturno
tangendo ao alto a musicalidade secreta da sua chaga

(Amanda Vital)

Prosa de manjedoura

Tudo que você precisa deve ser capaz de produzir por si próprio. Assim o essencial se revela, na solidão da sobrevivência.
A sistematização da vida social tirou isso de nós. Temos mesa farta para celebrar a pobreza de uma manjedoura. O símbolo esvaziado de uma prática inexistente. Nem empatia, nem caridade, disso a máscara não nos protege.
A pandemia não acabou e não tornou ninguém mais forte. No período as mensagens positivas passaram a ser geradas em um nível industrial e continuam tão vazias quanto sempre foram. Não vamos atingir nada em petições que se acumulam no servidor de um gerador de petições.
Vai passar, mas é por cima.
Eu sei que alguma luz se manifesta dentro de mim. Por isso mesmo quero me calar. O mundo já era belo e cruel antes de mim, mas é preciso ouvi-lo, ou me devorará.

roda

Arte: Sérgio Vidal

para Caio Augusto Leite e Marcelo Labes

em dia de samba eu fico misturando feijão tropeiro
em fogareiro velho sobre uma mesinha de alumínio
toda pintada de branco armada na quina da varanda
fico separando prato garfo distribuindo guardanapo
espanando farofa do avental ao tabuleiro de doces
em dia de samba eu quero chegar só para ver gente
quero ver a boca cheia e feliz dos meus camaradas
quero ver tapa na cara de homem safado no samba
botado pra fora pela camisa até a parada de ônibus
quero ver as meninas douradas de pernas douradas
dançando pra cegar todos os penetras desavisados
e ver as velhas silenciosas cortando pelas beiradas
atirando linguiças cheias de couve a cães famintos
galera me chama menina mas você não samba não
eu olho os meninos mirrados de canela fina com os
copos americanos deslizando úmidos pelos dedos
digo nem sei: o samba que sei é isso aqui e é tanto
que se eu me descuido até me transborda do tacho

(Amanda Vital)

Poema (1) de Lázara Papandrea

Imagem: Pinterest.com

I-

Me doem os ombros

A virilha, o sexo,

O amor.

É quinta-feira de

Um tempo bem pesado

A chuva não desce

Só escoa pelo asfalto

O suor das pedras

O engulho farto

O grito preso, a barriga

Grande, a seringa,

A insulina.

O cabelo da moça

Atrapalhando os olhos

O sorriso da moça

Sem sal.

Estamos todos doloridos

E abafados.

Estamos com medo

E vamos ao mercado

Sabão e suor

Sabão e suor

Não há o que baste

Lavar a pele

Lavar a carne

Lavar o osso.

E a dor já dilacerada

É maior que a estátua

Da liberdade

É infinitamente maior

Que o Taj Mahal

E tão quente como

O vale da Morte

Ou o Raso da Catarina

No verão de 2016.

Me dói o útero

Agora tão vazio

O espaço, o vácuo

As mãos

A respiração ofegante

Quantas máscaras

A arrancar de mim?

Quando a chuva não vem

Não há razão nenhuma para

Respirar hortênsias

Entretanto a cor púrpura

Me persegue

Desde o nado.

O jardim do Éden

Estrangulado

A carne podre

O cão cansado

E no rádio uma canção

De amor.

Lázara Papandrea

sedimento

Arte de Alfredo Vieira

buscar na minha cidade já desabitada em que
cemitério enterrei minha força: buscar com um
detector de metais à mão a apitar em negativo
perdi as contas de quantas camadas verteram
acima da biologia original antes de sumirem os
jogos de amarelinha pintados de azul e branco
no meio da rua os pares de tênis atirados pelos
fios telefônicos e as aroeiras sobre as calçadas
que há muito nem dão sombra nem levam com
mijo dos cães minha cidade já inodora insípida
não faz mais queijos que se comam com rosca
minha cidade tão inaudível afônica irressonante
espanto é haver vento ainda suspendendo o pó
minha cidade sem velhos que nos furem a bola
sem os meninos que com o esforço mais risível
encontrem força meio a espólios ou escombros

(Amanda Vital)

Poema de Hélia Correia (Prêmio Camões 2015)

Imagem: Pinterest.com

ESMOLA

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.

Hélia Correia (poema do livro “ACIDENTES”)