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banho

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“Water Dance”, por Kurt Arrigo

flertar com a corrente de água que pariu nereidas
tocar o sereno impregnado nas paredes de dentro
molhar a pele lamber a carne demandar a invasão

abrir pernas abrir braços
oferecer os seios e o sexo

suspiros perfurando o vapor dessas quatro paredes
melodiam a gradação da febre subversiva do corpo
uma silhueta em transe marca os vidros embaçados

contemplo o mar absoluto, a inversão dos estados
frente aos meus olhos fechados de mergulho aceso

ao fundo do rio
é para onde vai
todo o meu desejo

 

(Amanda Vital)

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entre nos a sombra sem sonhos

roger ballen - 1993

● a terra de nos crianças ●
● se povoa de sombras q tragam sonhos ●
● com dor sincera me esmaga o coração ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● como aquilo q jorra do pensamento ●
● não ha pecado não ha punição ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● o sangue do odio q vem do nada ●
● ao odio voltara como dura fome ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● incendios q consomem carne e ossos ●
● nenhuma honra nem uma alma reta ●
● nem um amor quieto de grande alegria ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● digo apenas volto ao fundo silencio ●
● olhos sem movimento lingua chamas ●
● girando entre cegos numa multidão ●
● cegos todos eles surdos entorpecidos ●
● criaturas q se misturas com a chuva ●
● com dor sincera q devoram mortos ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

● na carne apenas a essencia escura ●
● o q doi o q esmaga o q tritura e roi ●
● nada a altura dum simples rato morto ●
● na terra de nos crianças nada se eleva ●
● so inimigos a estancia escura e a dor ●
● avareza orgulho inveja e estrume ●
● apenas sombras q devoram sonhos ●

*

Três poemas de André Luiz Pinto

A ideia é publicar pelo menos todo sábado, alguns poemas meus e, havendo a possibilidade, de outros poetas que admiro.

Os poemas escolhidos fazem parte do livro “Ao léu”, de 2007,  Editora Bem-te-vi.

i

A cidade comove, risível quanto
o mar, qual o sentido
da palavra risível onde as casas
se amotinam sob a grossa poeira?

Onde minha mãe nascera
minha avó morrera
o subúrbio não se cansa de dizer
mais esquecido que o nordeste.

Escrever é proibido, artistas vivem
de pagode, bate no peito
a ruína de quem cedo
aprendeu a ler e eu não devia.

Tudo isso contado junto
enquanto os vagões
desandam por entre os bairros
poderia ser Nova Iorque.

Madureira, matadouro de homens
dos secos e molhados
nas praças e nos
congados, de nossas vítimas.

v

É noite. Tudo parece escondido.
Silêncio entre os carros que rodam
a madrugada. Tudo se passa
na cabeça: manhã, os trens lentos
e lotados, o olhar da mulher que amo,
a solidão dos livros. Tudo assim,
sob a mira do fuzil. De repente,
o relógio toca: é preciso acordar,
antes, porém, precisa-se dormir.
Sigo o poema para vê-lo onde termina.
Tudo está nu, debruçado na janela,
feito um latido. O frio anuncia
o fastio do próximo verão. Não
por esta noite, num abraço acolhedor.
Não agora. Tudo range nessa hora:
os pelos crescem, ela vira para o lado
e dorme, ouço entre os batimentos
a voz do coração. Ouço calado,
sem par. Haverá outro momento
para escutá-la senão o de dormir?

vi

“Viu eles?
Viu eles, tio?
São irmões!”
Diz o menino
atrás de mim
no ônibus.
A vida
surpreende
o mais ateu
dos homens.
Pouco sabem
o gozo de andar
assim pela cidade.
Somos feito as cotias
no Campo de Santana.

Poema (101) de Tito Leite

flor de ipe

IMagem: Pinterest.com

 

DESORDINES

 

O sol flúmen.

A palavra iluminura.

A musa na noite, flórea.

 

Na encantação do poema,

o inesperado

é a melhor flor de ipê.

 

O poeta pós-miragem

tira do bloco de notas

os minérios póstumos

como quem      degela

uma aurora

 

ou lucífera

com um ferro de passar

o que é de Cesar.

 

Tito Leite

frenesi

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para Pedro Tiago

ouço a tua voz de fascínio a repetir o meu nome
veludo encarnado saindo da boca tua boca santa
poço de mel e de sonho onde me lavo me banho

moro no delírio vulcânico das garotas de colégio
quando se embriagam de seus primeiros amores
viciadas em palpitações percorrendo seus corpos

sou uma pequena ninfa bailando sobre tuas mãos
movida pela própria febre que emaranha sentidos
eu danço o transe da confluência de nossos fogos
o meu ponto de equilíbrio é contemplar a tua face

eu trago a energia bela do caos à altura da barriga

e eu canto nosso canto de amor para que ele viva

(Amanda Vital)

instruções pra um ano prospero

Auschwitz 2

● podem bater bater e bater ●
● podem esfolar bater e bater ●
● podem arrancar dedos e unhas ●
● bater e bater ate cansar e bater ●
● depois cortar em partes e bater ●
● como se faz com as galinhas ●
● gado porcos negros velhos ●

● mulheres gays pobres surdos ●
● revoltados cegos tarados tudo ●
● esquerdistas anarquistas tudo ●
● q não for um de nos e cantar ●
● a santa milagreira ao pastor ●
● nisso continuar batendo bem ●
● como faz parte da grande vida ●

● sim so assim muda se purifica ●
● sim se edifica o novo mundo ●
● com a morte do q se deformou ●
● ate a lama e exige ser lavado ●
● sim sim com sangue de indios ●
● com sangue de tudo q não é ●
● branco todo branco sempre ●

● a morte a morte a morte bater ●
● ate q não reste senão a morte ●
● a grande morte q limpa a vida ●
● de todas as suas deformações ●
● o q faz sofrer e sossofrersso ●
● so porq não somos nos alegria ●
● no fim cova rasa cal e pedras ●

*