Arquivo da categoria: Avulso

Poemas (2) Virginia Finzetto

nua e livros

Imagem: Pinterest.com (Yuri Krotov)

 

DEVASSA

ignorava conselhos,

aceitava qualquer bagulho

dirigindo seus olhos

para a complacência que

seu fígado não processava,

porque o perfeito e o mais que perfeito

só existiam em um tempo verbal

que o amor desse coração desregrado,

na real, nem sempre decorava

amava e sofria, sem ponto e travessão,

engatava um verso em outro,

e foi assim até a exaustão

 

……………………………………………………

 

 

DES (A)TINO

deu você e eu

e essa demora

o meu agora

não casou com o seu

 

Virginia Finzetto

Anúncios

Palavra

à espera de um nome
a coisa de mãos imensas
e olhos extraordinários
desprende-se dos ossos
e espalha pela garganta
a sede de que é feita

digo a ela: um nome,
meu bem, é nada
é sebo de vela no copo
estrada sumindo no olho

a água da chuva
é que inventa o cântaro

palavra
a gente inventa pra silenciar

floresta de corais

SAÍGO

● flutua ●
● com olhos bem abertos ●
● sem nada ver ●
● sem se dar conta ●
● de tantos verdes ●
● tantos peixes ●
● o afogado ●

● correntes de alga ●
● todas tão azuis ●
● quentes e frios ●
● q se chocam no moinho ●
● entre rochas rubras ●
● enquanto baila ●
● sem saber o afogado ●

● todas as palavras ●
● grudadas numa lingua ●
● anemona fria na boca ●
● nenhuma delas pode ser ●
● as nuvens la em cima ●
● nem azuis entre verdes ●
● so rodopia o afogado ●

● com olhos tão abertos ●
● ?quem diria ele não ve ●
● quantos tubarões ●
● é de crua fome a vida ●
● logo logo ele sumira ●
● abismos alem de dentes ●
● se dissipa o afogado ●

● agora ninguem diz ●
● q existiu q viveu q nada ●
● ele agora é tempo ●
● bolhas depois da fina ●
● fatia de nada agora ●
● ele nem flutua ●
● nem nada o afogado ●

*

 

 

DESASSOMBRO

M’illumino / d’immenso
con un breve / moto di sguardo
Ungaretti

É noite nas janelas.
Todos sorriem menos, eu sorrio menos.
A vida passa na tela dos jornais.
Diz pouco, ou não entendo tanto,
ou menos, ou nada, do mesmo.
A infância partida –
as ruas perdem-se em uma névoa branca.
Rumor de folhas –
o tempo leva as vilas.
A adolescência perdida –
logo some com os latidos
detrás dos muros,
as sessões vespertinas,
as canções de amor,
os hinos de liberdade.
Parecia tão longe
o outro lado da cidade.
Não ouço ninguém na alameda.

Apenas meu copo na mesa.

Poema (93) de Tito Leite

Stravinsky

Imagem: Pinterest.com (Gjon Mili)

 

STRAVINSKY

 

A vida, ainda que hercúlea,

é estreita: não há iluminuras

sem o extermínio de uma estrela.

 

Em cada ode, o poeta

canta uma morte:

como quem recria

uma semente de alegria

no recreio dos segregados.

 

Rosa primavera sacrificada.

Que voltem os bárbaros!

Queremos o insonhável:

a sagração do juízo inicial.

 

Tito Leite

Poema de Herberto Helder

Bicicleta mae

Imagem: Pinterest.com

 

A bicicleta pela lua dentro – mãe, mãe –
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha –
mãe, mãe – as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro – mãe – com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos – filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto – meu filho – os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome –
minha mãe, minha máquina –
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra – mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.

Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era novembro.

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe – se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.

Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.

Herberto Helder, in ‘Poemas Completos’

verborragia

tumblr_ofyqkm812x1rhza9ko1_500

as palavras me engatam a garganta pelas úngulas
escalando paredes massudas de vazio acumulado

sinto o amargo dos farelos as camadas raspadas
a saliva confinada nas grossas grades da afasia
sinto cada gota desse sumo chorumoso e espesso
desgarrado à força na degeneração dos silêncios

tento cobrir a boca reprimir o ímpeto delinquente
numa hipótese vã de fazer descerem os demônios
chego a engolir pressionar empurrar impelir sigilos

mas vozes correm em desespero entre meus dedos
explodindo faringe laringe mandíbula cordas vocais
fere a carne coagula o verbo na arma que impunha

as palavras me sepultam a mudez pela insistência
arrebentando pontos repetidos de eternas suturas

(Amanda Vital)