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Poema (10) de Chris Herrmann

fumando

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Adrenalina

ali parada
esperando o nada
nem a calçada
me socorria

já não ouvia
le tais ruídos
corre-escorres
rodas gigantes
passos apertados
os cem rostos
os mil desalentos
apostando corrida
(em combustão)
com os meus

só fiquei ali
naquela fumaça
com meu cigarro
– naquele momento
único que me sorria –
dopaminando
meus pensamentos

 

Chris Herrmann

[O sótão: era ali…]

O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.

 

albano martins, O NOME DA AUSÊNCIA

goya

Vera Crichton - 1924 2

● isso não ha como negar ●
● foi um dia desses ●
● q aquele porra do goya ●
● com aqueles olhos de medusa ●
● admirava corvos sobre cão morto ●
● como morto deveria ta era goya ●
● como agora goya na praia ●

● bicado por corvos ●
● mas não fui eu quem matou goya ●
● não foram com certeza os corvos ●
● nem os q queriam matar goya ●
● ninguem tinha coragem de matar ●
● aquele porra ●
● q foi goya sendo goya quem era ●

● suicidio não digo e repito ●
● porq goya era covarde demais ●
● tanto pra matar quanto pra se matar ●
● era pulha cretino e avarento ●
● isso vcs podem perguntar a todos ●
● qualquer um dira o q tou dizendo ●
● q goya não valia nem merda ●

● q aquelas velas aqueles carvões ●
● aquelas telas martelos e pregos ●
● as tintas os oleos os raspadores ●
● os pinceis q fizeram goya ●
● o q goya pensava quem era e podia ●
● não fizeram goya valer um gole ●
● terminou assim bicado por corvos ●

● sangrado depois de torturado ●
● enquanto era sim bem garroteado ●
● isso jamais ●
● goya era tudo q digo e dizem ●
● covarde e babaovo pra se matar ●
● mas tinha inimigos como formigas ●
● nesse formigueiro onde vivemos ●

● eu mesmo jamais poderia indicar ●
● quem arrastou o corpo morto de goya ●
● pro bico afiado dos corvos ●
● pros admirares dos bons inimigos ●
● q os amigos não vão aparecer ●
● os amigos se é q existem tão sujos ●
● de tão cagados mijados e com medo ●

● goya assim bem servido de corvos ●
● precisa mesmo é dos certos inimigos ●
● porq dos amigos ele teria nojo ●
● ele vomitaria mesmo morto ●
● porq goya criava e goya era deus ●
● porisso não tinha amigos ●
● goya tinha e tera sempre inimigos ●

*

 

Poema (7) de André Luiz Pinto

 

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VII

 

Agora um dia imenso de sol.

Que não se compara aos cueiros

de sofrimento e grilo.

Nada que meu corpo apazigue

deverá movimentar o lodo

de uma vida inteira;

a miséria de um silêncio in loco

nas paredes e nos retratos

meus avós depois de tantos anos

sorriem da penteadeira

para mim. Não da maneira

como eu os imaginava

mas chulos, de uma tal crueza

que me arranca os pés;

nulos, de uma tal vergonha

que eu apareça no dia

seguinte e ninguém se ofenda.

Nada deverá constar nos ramais

de sangue, nos ideais que

só cabem num homem;

que não venha abonar seus

crimes – o de miserável

principalmente –, o de ruminar

a mesma indigesta inquietude.

De olhar um quadro e sorrir.

 

André Luiz Pinto

Poema (12) de Fiori Esaú Ferrari

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A canção comum

 

Soube que um canto

cobriu as asas e as flores,

dissipou no ar os humores

tristes que levo entre

o rio e esse pedaço

de vida.

 

Soube que afável

o voo da abelha

assumiu de música as pedras,

a cavidade acolhedora

de uma sombra sobre as horas

de trabalho e sangramento.

 

Soube da aragem,

na cova o grão de milho,

o descanso da semente

e próximo o pão

com que pagamos a aurora.

 

A canção que canta a gente

podia ser reunida.

 

Cada som, cada suor,

cada harmonia e amor,

cada ritmo, gota e colheita,

a canção que canta a gente

não tem língua nem nação.

 

É ato comum,

no eito,

parte e ilha

de envelhecer

sem tradução.

 

Fiori Esaú Ferrari