Arquivo da categoria: Avulso

incumbência

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“Bastianinha”, de Alfredo Vieira

para Léa

trago minha avó comigo através das mãos:

não por nossas covinhas abaixo dos dedos
que se repetem ou pelo formato das unhas
que se repetem mas por tudo o que agarro
contra as palmas o suor da carne os ossos

por ter na pele das mãos o cheiro dum alho
que me perfuma há tanto tempo que penso
que já nasci com ele e com as cicatrizes dos
cortes de faca da cozinha de um bar a servir
café da manhã almoço e janta todos os dias

as palmas riscadas e os cortes da minha avó

tenho um jeito de bater bolo de fazer taioba
picar cebola mal picado por ter o óleo aceso
mas saber regular a chama de cada panela

minha avó em uma cozinha era impenetrável
e aqui estou apresentando-a palavra e corpo
trazendo-a nas minhas mãos moldando broas
para assá-las em um tabuleiro de fundo baixo
como me manda em seu caderno de receitas

(Amanda Vital)

antes disso tudo

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“Silhouette Of Boys Playing, Brazil”, de Jose Azel

deixo para trás um país de onde sinto saudades
onde abraçava forte as amigas à frente de casa
descíamos meu morro com uns saltos enormes
que era noite de dançar e rir até a dor de cabeça
fazer a gente voltar tropeçando caindo a cidade
onde passei na faculdade me senti tão contente
fiz estágio escrevi poesia feito uma desgraçada
comia coxinha na cantina com os meus colegas
onde ajudei minha mãe a enrolar doce pra festa
e meus primos brincavam comigo até uns doze
onde chorei muito e onde quase já fui assaltada
onde vi injustiça dos outros aos outros em mim
entre tantos sofrimentos que gente dá em gente
mas todo ele fica pouco entre as coisas geniais
deixo para trás um país de nem faz muito tempo
mas que é uma versão mais bonita e que prefiro
trazer comigo nesse eterno espanto disfarçado

(Amanda Vital)

livro

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“Pulling Strings”, de Jonathan Wolstenholme

deixá-lo ir: deixar que atravesse a rua sozinho e compre
seus primeiros chicletes sem ir agarrando meus dedos
nem a barra da saia não correr feito babaca até a janela
do lado para vê-lo subir a rua tão sem pernas direito tão
verde tão cru, meu filho, tão desengonçado andando ali
com o dedo no nariz e justo a única camisa amarrotada
imaginá-lo só ali com as moedinhas tilintando soltas no
bolso da bermuda chegar ao rapaz do comércio e pedir
os chicletes com um me dá com um eu quero posso até
ouvi-lo gaguejar enquanto o rapaz lhe passa uma bronca
bem passada uma bronca que não dei que não se pede
nada daquele jeito, meu filho, pensar que volta chorando
sem chicletes e sem entender nada mas já na porta ver
o alívio de um bubbaloo melar a palma das mãozinhas e
pensar: não queira ser mãe e ser pai de texto tão arisco.

(Amanda Vital)

Querer de ano novo (Diana Andrade)

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Fonte: Pinterest

 

Ser o mar de altivo porte
Era o que queria Florbela
O amor de Dulcineia
Eis o sonho de Quixote

A sorte de um amor tranquilo
Foi desejo de Cazuza
Te querer, senão por te querer
Declarou Pablo Neruda

Expandir sua luz
Anseia Fred Zero Quatro
Dar cor à realidade
Quis a grande Frida Kahlo

A autoria do crime perfeito
Perseguiu Raskolnikov
Assassinar as criancinhas
Quis o Vampiro de Düsseldorf

Saber quantas almas tinha
Era o querer de Pessoa
De tudo ao seu amor ser bem atento
Desejo vão do poetinha

Revelar-se à bela Roxane
Nada mais queria Cyrano
Ser exatamente o que se é
– o que Leminski desejou

Nossa coragem é o querer da vida
Disse Guimarães Rosa
No ano novo, porém,
Eu só quero ser gostosa.

Fernando Pessoa no final de ano da zonadapalavra

Fernando Pessoa

Imagem: Pinterest.com

 

Colhe o dia porque és ele”!

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

 

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Poema (17) de Iara Maria Carvalho

arvore
Imagem: Pinterest.com
São as pequenas alegrias
e as grandes quedas
que fazem a árvore frondosa.
É a vida e seu irônico jeito
de nivelar por baixo
a felicidade.
Só pra gente se surpreender
e descobrir que vencer é uma
coisa pra todo mundo.
Abrir os olhos pras lonjuras,
plantar o mel nos risos e
sonhar o sonho dos pequenos.
Que, de pouco em pouco,
a árvore cresce milenar,
e, se tomba,
é pra nascer de novo.
Iara Maria Carvalho

dissimulação

Girl Fishing

“Girl Fishing”, de John Singer Sargent

pego um poema como quem pega uma vara de pescar:
passiva, mas atenta. há uma falsa serenidade no poeta
por saber esconder muito bem a sua fome. fincar iscas
no anzol verificar se estão seguras lançar a linha n’água
esperar que o primeiro peixe entorte o bastão sentir os
dentes a língua secos de não poder falar nem se mexer
estar lá por horas com o mesmo corpo já dormente e a
mesma oração a são sebastião viciada na necessidade
pedindo fartura e paciência. um poema é tão desespero
quanto benção: pego-o como quem não espera por ele.

(Amanda Vital)