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R E S E N H A

INVENTÁRIO DE UMA AUSÊNCIA

                 Ronaldo Cagiano

 

“A instrução da noite” (Ed. Rocco, 2016, 144 pgs, R$ 19,50), novo romance do premiado escritor Maurício de Oliveira, nascido em Campinas e radicado em Brasília, remete-nos àquela sensação catártica e dilacerante de “Carta ao Pai”, de Kafka, no qual, em clave autobiográfica, o autor tcheco faz um doloroso percurso pelo passado de silêncios e ausências na relação com um pai autoritário e que relegou o filho a uma vivência marcada pela frustração e pelo descrédito.

Ainda que aqui o autor paulista trate de matéria ficcional, seu personagem também guarda (in)tensa analogia com esse mesmo território penoso e dilacerante, porém alvejando uma convivência marcada por um espectro da ausência e silêncio tão torturante quanto uma presença totalitária e demolidora.

O enredo centra-se no retono de um pai após anos de abandono da família, quando retirou-se sem qualquer explicação, deixando como rastro o luto de uma escuridão abissal na alma dos filhos, uma sombra a camuflar a razão que teria provocado essa ruptura, desencadeando uma eterna incógnita para esse passivo afetivo.

Tão forte (e desconcertante) quando o desaparecimento foi a reaparição, ambos abruptos, deflagrando um estado eruptivo de sentimentos contraditórios, que emergiam no caudal de lembranças e recordações, em razão do fosso causado pelo isolamento.

O personagem central (não nomeado no romance) é um filho que tomou as rédeas da casa tão logo o pai defenestrou-se de suas vidas. Recorrendo ao fluxo de memória e consciência, ele vai deslindando, por meio de carta endereçada à sua irmã Teresa (que há pouco também fugiu de casa), as mágoas e a opressão interiores provocadas por essa falta paterna, responsável pelo imenso fosso em suas vidas, dilaceradas por esses anos de incorrigível vazio, em que a família se desconstruía sob a força imponderável de uma realidade sufocante.

Alternando tempos cronológicos com o viés psicológico, o autor construiu um poderoso relato centrado do reencontro entre pai e filho,  cuja carga sentimental é explorada com extremo rigor e com a destreza de linguagem fluente e densa. Há um desencadeando de reminiscências torturantes e recomposição doída de cenas, flashes e episódios da infância, quando o fantasma dessa orfandade em vida cada dia os assombrava mais e impingia de luto a casa, tutelado por outras ausências. De um lado, a da própria mãe, insularizada em sua própria apatia, abduzida pela televisão; por outro, a da esposa Alice, com as quais tentava compartilhar seus sofrimentos, porém,  alienadas dessa dor, mais ajudavam a projetar esse estado de incomunicabilidade e profunda melancolia.

A volta do pai não reduz as fundas cicatrizes esculpidas pelo golpe da sua partida e, ao colocá-los, ao final, frente a frente num encontro (ou ajuste) de contas numa mesa de bar, expõe, de forma visceral, as fragilidades íntimas de um e a penúria financeira e material de outro. Nesse ponto  a narrativa vai se amalgamando com peculiares recursos formais, quando o autor injeta períodos sem maiúsculas ou pontos finais, como numa visão fragmentária do próprio caos instalado, lembrando-nos o processo criativo peculiar de um Lobo Antunes.

Durante o desenrolar da história percebe-se um tom claustrofóbico, mas intrinsecamente humano, em que o autor explora com sutileza a severa angústia que perpassa aquelas vivências frustradas e sem volta, tentando juntar os cacos do espólio de uma unidade inconclusa. Trata-se de um romance que mergulha na brutalidade poética própria das circunstâncias vividas pelo protagonista, em que o caos interior atinge um momento de rara e trágica beleza. Algo que se assemelha aos romances de atmosfera, em que menos interessa o enredo e mais a força de uma linguagem que comunica o desassossego e o desconforto, assim como nos legaram uma Clarice Lispector, uma Virginia Woolf ou um Raduan Nassar que, como Mauricio de Almeida, chafurdam nos escuros labirintos existenciais com o facho luminoso e candente de uma ficção cirúrgica e penetrante, para inventariar as perdas e danos decorrentes dos tempestuosos conflitos e relações, de pequenos dramas ou de grandes dilemas em que personagens são condenados e um eterno naufrágio.

Poema de RONALDO CAGIANO

ELEGIA  DA  NOITE  INSONE
                        Eu creio que os labirintos são
                         signos evidentes da perplexidade.
                                                  Jorge Luis Borges
Quase os ponteiros mudando pro outro dia.
A rua é uma babel de silêncios,
a lua um espectro no esconde-esconde entre as nuvens.
No intercurso dos ventos, a memória pulula sem cessar,
esse rio insone povoado de lembranças.
Há uma procissão de insetos
cortejando o poste da esquina.
Um bêbado passa entoando delírios
sem saber que em frente à Tabacaria portuguesa
passou um Esteves sem metafísica
e desse lado do Atlântico
uma pequena tritura seu arsenal de chocolates
e o mundo continua o mesmo.
Há uma precisa orgia nas coisas
que deambulam nessa imprecisa madrugada.
A fatalidade dos escombros da alma
impõe um escuro luto na manhã que ainda não nasceu.
Há um jardim de flores mortas na casa ao lado,
nenhuma luz penetra em seus canteiros
a não ser a débil claridade fugaz dos vagalumes
serpenteando por esses descaminhos
tão lúgubres quanto os labirintos que me habitam.
Sinto o olor de folhas desidratadas
e os miasmas de suor dos sem-teto
que adernam no oceano de misérias das ruas.
Enquanto a sorte grande não vem
e o zika vírus comanda a passeata
dos infortúnios,
os pássaros sonados
tentando penetrar o confuso caminho de Dédalo
gaguejam melodias no ipê desmotivado
que viceja solitário na estação imprópria.
Há rumores de sapos nas cercanias,
a porta do condomínio se abre como uma boca ávida
para os filhos diários do anonimato,
criaturas automáticas
que saem nas manhãs burocráticas
e retornam nas tardes fatigadas.
Vejo lá fora… e
tudo parece um esqueleto do que não vivi:
em cada pedaço de asfalto, com suas cáries
e seus percalços,
há um acúmulo da ferrugem das idades,
essas concubinas de Chronos
que nos consomem e nos aviltam
no redemoinho permanente da perplexidade.
O mundo é besta
e o beijo nasceu morto.
Deus é uma ditadura.
Os olhos fechados da criança
que passa, intocada, no colo da mãe
ensina-me tanto quanto Platão ou
as verdades escancaradas nas dores do mundo.
Em vão procuro respostas,
as lembranças perseveram
como patuás no pensamento:
onde devo ancorar a existência,
se viver é perigoso?

R E S E N H A

O MITO DA IMPOTÊNCIA REVISITADO

Ronaldo Cagiano (*)

Autor revelação e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2012 (na categoria estreante com menos de 40 anos) com o romance “Antiterapias” (Ed. Scriptum, BH,), nessa obra Jacques Fux realizou um trânsito onírico entre a memória e a invenção, mapeando a cultura e os valores judaicos a partir de uma história em que a vida foi sendo deslindada com requintes de fantasia e ironia.

Nesse projeto, percebe-se o intenso flerte com a filosofia e o humor, dialogando com as ciências (entre elas, a matemática e a psicanálise) em meio as inquietações metafísicas, para falar da relação de um personagem com um mundo povoado de valores e mitologias, numa espécie de percurso crítico sobre questões intrigantes da própria vida individual, com reverberação do inconsciente pessoal e coletivo, na esteira de um profundo mergulho no passado e nas próprias lembranças, culminando num estranhamento para o leitor.

Em seu segundo livro, “Brochadas” (Ed. Rocco, Rio, 2015), Fux busca aprofunda, com a mesma agudeza seu senso cri(p)tico e escrutinatório, já em outro cenário, o da masculinidade afetada, o leitmotiv para uma viagem, também filosófica, crítica e bem-bumorada, a um tabu tão explorado explorado pela piada e raro num tratamento literário, o da brochada. Nesse particular, o autor utiliza-se de topônimo judaico para criar um protagonista que busca entender suas trepadas inglórias, o Jacozinho, ao qual dá vez e voz para elencar os episódios brochantes ocorridos nas suas relações amorosas.

Para amalgamar o relato, o autor usou o precioso recurso das analogias históricas, que vão da Bíblia à Tora, do mundos da arte ao da política, em que exuma casos de brochadas de célebres e antológicas, de personalidades de todos os tempos e lugares, numa tentativa de demonstrar que essa débâcle sexual e essa falência inexplicável do tesão é mais comum do que parece.

Como nomeia o autor logo de entrada, “No princípio era a brochada”, numa clara alusão aos primórdios dessa tão decantada (e detestada) falha de desempenho sexual, Fux delineia seu romance intercalando a troca de farta correspondência entre o personagem e suas namoradas (ou vítimas de suas brochadas), com referências históricas e acadêmicas sobre o assunto, discussão que, muitas vezes, culmina em troca de farpas entre os antigos parceiros.

Num fluxo candente de e-mails entre Jacozinho e as ex-namoradas, vão desfilando situações inusitadas, lembranças, reminiscências de encontros (e desencantos), oscilando entre o desabafo e a autorreferência, que, ao fim, incorre num encontre de contas entre as partes afetadas. No caso, Agnes, Alice, Carla, Deborah, Juliana, Jacqueline, Leah e Sarah são as coadjuvantes acionadas por esse escrutínio desesperado do fálico (e falível) Jacozinho, as quais sentindo-se vítimas das revelações do personagem, que lhes comunica a escritura de um romance em que abordará a questão com suas confissões sexuais, acaba desencadeando reações de variado grau de insatisfação ou de contundente repúdio, uma vez que sempre atribui a elas a parcela maior da culpa pelo fracasso da virilidade.

Entre a ironia e o escárnio, o autor empresta à sua obra um debate peculiar, na medida em que realiza uma simbiose entre a inflexão científica e a sutileza do deboche, para tratar de um assunto espinhoso até nos consultórios de psicanálise, mas tudo permeado de uma linguagem intrinsecamente literária, que carrega sopros ensaísticos e inegável nível estético. Dos gregos aos contemporâneos, de políticos a artistas, ninguém escapa a essa minuciosa prospecção de casos no imenso aluvião dos corpos cavernosos que deixaram o candidato ao prazer literalmente na frustrante condição de machos de bandeira arriada.

Transcendendo o humor, a caricatura e a gozação, Brochadas ultrapassa as fronteiras da fantasia e da realidade e transforma essas “confissões sexuais de um jovem escritor num livro para ser levado a sério tanto quanto o trauma da impotência, porque trata de um tema que atravessa todos os tempos e lugares, num espectro amplo, que vai do social ao cultural, do político ao econômico, mas que continua movimentando o imaginário geral, como um eterno desafio para o homem comum e os especialistas na relação com esse passivo erétil que tanto atormenta os homens (e mulheres) na iminência de um coito frustrado (a libido em baixa), que nenhum Viagra é capaz de reverter.

Se o autor adverte ao leitor que “Tudo aqui é verdade, exceto o que invento”, também não é mentira que brochar continua sendo o momento crucial que coloca em cheque a supremacia masculina dainte de uma compulsória negação peniana e alimenta a angústia também feminina, mas que, com boa dose de humor e compreensão das razões psicológicas que culminam nessa sensação desagradável da de um homem declarar que “isso nunca aconteceu antes comigo”, pode ser vencida e enfrentada com espírito , sem pudor e com discernimento e também com uma boa dose de leitura, como a de “Brochadas”, em tudo, estimulante.
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(*) Escritor, autor de “Dicionário de pequenas solidões” (Ed. Língua Geral, Rio, 2006), “O sol ans feridas” (Dobra, SP, 2012) e “Eles não moram mais aqui” (Ed. Patuá, SP, 2015), dentre outros, reside em São Paulo.

R E S E N H A

ASSIM É,  SE LHE PARECE

Ronaldo Cagiano

 

          !Inverossímil, novo livro do editor e escritor gaúcho Rodrigo Rosp, lançado no final do ano em Porto Alegre, é uma novela que aborda uma questão intrigante na literatura, a fronteira entre realidade e ficção, culminando no fato relevante de que autor e personagens acabam por incursionar por uma crítica sobre o próprio ato da criação e as diatribes do mercado editorial.

Livro dentro do livro, tendo a experiência pessoal como leitmovit e recursos da metaliteratura e da intertextualidade, Inverossímil faz um recorte do ambiente que circunda a vida de um professor de literatura que ministra aulas de escrita criativa. Do texto, depreende-se um forte exercício de argumentação e mergulho nos escaninhos da profissão e da própria oficina literária, e como pano de fundo contracenam situações que remetem a um envolvimento com suas alunas. E nesse contexto muito peculiar, a construção do próprio romance é permeado de sutilezas, quando o processo de criação do autor se imiscui no de suas alunas, num trânsito onírico permeado de humor, de uma ironia às vezes corrosiva e forte carga erótica.

O personagem principal é Caio, o professor que, num vai-e-vem de mensagens entre suas alunas, estabelece um vínculo não apenas acadêmico com elas, mas uma projeção afetiva. Essa interferência é determinante na confecção das obras, que acabam por adquirir um caráter simbiótico, aliás, perceptível por Lucinha, sua esposa, que o coloca contra a parede ao notar sua relação não apenas funcional, mas pessoal, nesse enredo, ao detectar o flerte e troca de intimidades com suas alunas.

No fluxo fragmentário de mensagens e no diálogo crítico entre professor e alunas (Mirella, Paulinha, Tati…), entremeado de janelas que reproduzem a correspondência eletrônica entre eles (na qual afloram a informalidade, o escracho verbal e insinuações sensuais em meio às críticas), os contos surgem como produto dessa interação. Ao mesmo tempo funcionam como plataforma para uma vasta discussão sobre o desenvolvimento da escrita nesse mundo contemporâneo condicionado aos suportes tecnológicos, as técnicas narrativas, os métodos de confecção literária e sobre as motivações do próprio meio acadêmico. São projeções críticas em que o universo literário vai sendo esmiuçado paralelamente à imposição sedutora do professor, em diálogos que mapeiam as idiossincrasias de cada um, estabelecendo uma nítida expansão do próprio espaço da comunicação literária e interior, numa clara referência à confusão que, muitas vezes fazem os próprios leitores, entre autor e personagem, ficção e realidade, fantasia e mundo objetivo.

A obra de Rosp é uma deliciosa e debochada imersão nesse escuro que é o próprio ambiente da criação e das vaidades literárias, reportando a fatos e situações que nos lembram a insegurança e/ou as ambições de todo escritor, colocando ainda em questionamento o valor da própria literatura num tempo de mercantilização e banalização do ofício, de cooptação pelos fetiches do deus mercado. No decorrer da obra, surgem os referenciais estéticos do autor, numa alusão a essa arte suscetível de interações com outras linguagens e sempre pronta a novas miradas.

Entre o que é e o que parece ser, a obra rospiana traz analogia com a peça pirandelliana, da qual retirei o título dessas breves impressões, porque tanto numa quanto na outra, o texto funciona como uma ponte entre realidades contrastantes, ou seja: verdade versus aparência, quando há um confronto  entre o mundo racional e evidente à nossa volta e o desejo subjetivo de ver as coisas de outro modo, num jogo (ou movimento) permanente e pendular entre criar ou ser personagem, uma metáfora do homem contemporâneo diante das ferramentas da internet, como o Facebook, onde nem sempre cada indivíduo é o que aparenta ser, mas se traveste de outro para uma platéia sempre ávida de fantasia.

           Inverossímil é uma obra instigante e que acompanha a tendência da literatura contemporânea, que busca ousadias e contravenções no plano formal e temático, além de ser fruto não somente da intenção ficcional do autor, mas nasceu desse trabalho que vem realizando, na ministração de oficinas literárias, ambiente profícuo às inquietações íntimas e estéticas. Nesse território, onde pululam idéias, temas e situações que fornecem motivo e circunstância para uma boa literatura, Rosp explora sem pudor todas as facetas do escreviver, invocando o leitor a fazer sua(s) própria(s) leituras, e, se possível descobrir onde estão a verdade e a literatura: no texto ou na vida. E por isso, não se trata, como nomeiam os capítulos em que está dividido o livro, uma obra inverossímil, inacessível, muito menos impublicável. Está tudo aí, rodrigueanamente. Como no texto. Como na vida. Como eles são. Num e/ou noutro contexto.

 

POEMA

  Q U A S E   H I S T Ó R I A

   Esta é a utilidade da
           memória: libertação.
                   T. S. Eliot

É vão entender os caminhos
que os insetos traçaram nas paredes da casa
e as voçorocas que o tempo
abriu em meu rosto.
Memorial de enigmas.

Não é a mesma casa da minha infância.
nem é o mesmo esse corpo debruçado sobre o inefável artesanato
de Cloto Áquesis Átropos.

As dobradiças enferrujadas
convivendo com a promiscuidade
dos ácaros em antigos lençóis
e as teias de aranha denunciando a tirania do passado
habitam o alpendre
e testemunham o peso dos anos
que vergaram as costas dos avós.

No jardim sem dálias
no orquidário desnutrido
agora coreto de fantasmas
sobrevive o espírito dos gatos
e o que restou de Nenéca atropelada
e sua mudez mais fulminante que nossas dores.

Adentro o portão:
Beethoven já não late
e meus pulmões embrutecidos colhem o pó de amianto
impregnado nas rosas mortas
num jardim de inutilidades
onde um dia vicejaram as orquídeas
enquanto Laura ouvia Ataulfo Alves
e fritava ovos para o ajudante de farmácia.

A vida, como a fumaça do cigarro,
desaparece em espirais de engano
nessa plataforma envelhecida
envilecida pelos sustos de cada manhã.

[ RONALDO CAGIANO, Isfahan, Irã, maio de 2007 ]

Poema de RONALDO CAGIANO

D E S A B R I G O

 

O abismo não no separa,

                    o abismo nos cerca.

Wislawa Szymorska

 

De pequenas mortes

faz-se a morte derradeira:

do beijo negado

do amor inapreensível

da melancolia interditando as horas

da miséria que se arregala à nossa porta

do ritual diário de infortúnios

 

O corpo é testado

pelos rituais de cada manhã,

na liturgia que a guerra de nervos

nos impõe

pelo servilismo às convenções.

 

Em cada canto

a mesa posta

com seu farnel exposto

para a viagem ao descacontecer.

 

A existência se consome

amiúde

com seu cardume de insolências

nesse mar

vertiginoso e abissal

num fosso

onde os sentidos se desnorteiam

e a procela se impõe

como verdade e caminho.

 

O tempo,

deus totalitário e inclemente,

conduzindo o abrasivo

das Parcas

vem soldar o destino

que não escolhemos:

defenestração e desabrigo.

 

E o amanhã será apenas

confissão desse abismo

entre o chegar e partir:

 

banquete dos vermes

festa dos micróbios

na carne aviltada pelo desastre.

POESIA EM TRADUÇÃO

BAIRRO PRATEADO PELA LUA

EDUARDO DALTER (*)

[ Tradução: Ronaldo Cagiano ]
Os vizinhos desocupados e
mesquinhos
atiram pedras e porcas à distância de minha casa,
ainda que eu não seja a exceção
neste bairro
que tem duas valetas feias
a céu aberto.
Na hora mais inesperada
– algumas vezes nos feriados –
batem
sobre o zinco e ressoam
como passinhos
de rato quando vão circulando.
Acalmem-se,
digo sempre aos meus cães
arruaceiros,
que isso é assim desde que o
mundo
é mundo. E eu não perco tempo
e continuo atento à minha bendita
horta
de cebolinhas e chicória,
mais três tufos
de arruda macho, por si
desgraçada.
E tomo mate no pátio,
à sombra
do eterno pinheiro entre os
alfeneiros,
quando sinto que os
murmúrios
vêm pelo ar, e não me
deixam
escutar o vento.

(*) Escritor argentino, nascido em Buenos Aires em 1947, onde reside. Poeta, tradutor, crítico e ensaísta, editou nos anos 1990 a revista Cuaderno Camin de Poesía, em que divulgava a poesia latino-americana. Estreou em 1971 com “Aviso de empleo”,  e destacamos, entre sua vasta bibliografia,  “En la medida de tus fuerzas” (1982), “Versus” (1984), “Silbos” (1986), “Hojas de sábila” (1992), “Mareas” (1997), “Bocas baldías” (2001) e “Nídia” (2008).

C O N T O

                                  F O S S O: F O S S A S

“A história é dessas dos quotidianos desgastes, a invisível erosão de ser casal, dois em nenhum.” (Mia Couto, “Na berma de nenhuma estrada”)

Ronaldo Cagiano

 

[Lá fora a vida passando feito uma correnteza] Antes de jogar-se na cama e do definitivo breu e mudez da noite, aquelas chagas abertas na perna, desenhando estranhos contornos na sua epiderme tão antiga quanto suas dores. A alma também é um terreno marcado pelos anos de hiato e sofrimento. Por enquanto, a vida ainda insistia, apesar dos engulhos da convivência, de cada dia o estômago digladiar-se com a tormenta de incontáveis punhais abrigados dentro de si.  Há os filhos e os netos. E os almoços nos finais de semana, “é sempre a reprise do frango assado, com farofa e macarronada, como nos velhos tempos, regada a ki-suco”, juntando o que restou. Uma escolta de luzes ao longe sinalizava com um postergar de dias cavalgando na vasta solidão da linha do horizonte. Ela me chama de solene e frio nesses quarenta anos de matrimônio. Eu retruco: viver a dois é esse calvário, um saco furado, todo dia uma waterloo e não sabemos quem é o outro. Sei que ela se aborrecia por eu não ser uma surpresa a cada dia. Eu digo: casamento é isso mesmo. Ela emenda, com opulência na contestação: mata-se um leão por dia e não sabemos quem está do lado. A sua cota de insatisfações saindo pelas bordas. E eu: é como realizar os doze trabalhos de Hércules para me redimir da insanidade. Agora, estamos no ventre da baleia. Nínive ainda está longe. Desconheço se toda essa tormenta um dia vai passar. Enquanto isso, ao longe uma cidade brilha debaixo das estrelas. Ele comenta sobre seu dia a dia. Ela vem com outro assunto, alfinetando seu desdém: ensaiado pouco-caso.  Mas eu tento despistar, olhando lá fora, pela janela, os olhos num ponto cego na escuridão, quando sou atormentado pela imagem do cão Evilásio e da gata Madellon, parelha de animais de dona Laurita e seu Gusmán (o casal galego que vende “quentinhas” nas ruas da cidade), seus bichinhos que vivem ladrando pelas ruas, entrando em nossos quintais, porém denunciam mais felicidade e harmonia do que nós. E volto para ela. E fico sabendo que a Cilene está com o Mal de Parkinson e que o Bar do Afonso vai fechar. Eu sou Jonas nesse claustro compulsório entre vísceras desconhecidas. E entre um e outro desatar de coisas sem importância, o vazio continua fazendo as honras da casa. E os ácaros se empanturram em sua festa no quarto de empregada. O ar lá fora carrega um hálito antigo de cidade do interior nesse condomínio afastado. A fumaça do cigarro desaparece em redemoinhos, enquanto os olhos deles estão mais distantes que seus rostos. Ele olha para o teto arranhando a cabeceira da cama com as unhas enquanto ela finge que não é com ela, lendo o Riders Digest. “Hoje está um gelo.” O frio passa — ele pensa. E no abismo da inércia emocional que os separa, corre um rio caudaloso de tanta bile e ressentimento, como essa rua imensa que divide a cidade em duas e parece separar-nos (e a eles) ainda mais. E o inverno é eterno como o inferno de um matrimônio que atravessou o maio de 68, a primavera de Praga, os acordes revolucionários de Wo­odstock, a intentona americana na Baía dos Porcos, os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King, o golpe de 64, a renúncia de Nixon, a guerra do Vietnã, a transição conservadora de Tancredo-Sarney, as Copas perdidas, a violência nas favelas (tão mortais quando o pavoroso deserto daquela casa), a queda do muro de Berlim, os assédios a/de Mônica Levinsky, a desastrosa era Bush, a invasão do Iraque, o ataque aos talebãs, a ruína das torres gêmeas, a tsunami na Ásia, a forca para Sadam Hussein, a ascensão de Khomeini, as quedas de Mubarak e Kadhafi, a febre suína…  e quantas vezes a voz inquieta da dúvida entrou pela casa vestindo de luto aqueles corações, como se trouxesse lobisomens do quintal. E eles nem precisaram atravessar o Letes, pois há tanto corria pressuroso em suas veias o sangue do esquecimento. A convivência no formol. A madrugada comprida dos sonâmbulos ainda não acabou. Mas o sol, que chega pontual e imperturbável todas as manhãs, só alcança as feridas, com seus golpes de carnívoro silêncio. [Dentro, incurável monotonia, a vida os atravessando feito um punhal e as queimaduras no sinteco provocadas pelas guimbas atiradas nas madrugadas em que o sono não veio] {Fora, a poluição polvilhando os ares como a fuligem em suas existências, a cantilena inútil de um vento distante. Colóquio espalhafatoso de pássaros num jardim de plantas raquíticas. Azáfama de nuvens fustigadas por um sopro estranho, sob uma lua desanimada que não ilumina o idioma das rãs} Não mais o tumulto de pernas sob os lençóis. Nem a barroca melancolia de uma relação estagnada como as águas do Mar Morto. Só a ordenha do nada absoluto.

 

 

 

P O E M A

VIAGEM ÀS VÍSCERAS DO INACONTECIDO

Ronaldo Cagiano

Entre o delírio e o esquecimento
sou um homem transitório:
perdido entre a gramática dos lutos
e a sintaxe das lutas.

Feito a chama que se exaure, lenta,
na lamparina das horas,
cumpro o papel dicotômico
de equilibrar-me entre
a claridade perseverante das lembranças
e a versatilidde inconclusa
dos versos que oscilam
entre o desacato da morte
e o beijo negado
no espalhar das cinzas do futuro
no cais tenebrodo desse Tejo de tantas ausências.

Sou aquele que navega
desde as ínfimas encostas
do barrento rio Pomba
desde o leito assoreado
do acossado Meia Pataca
à imensidão de Tabatinga
ao sol possível da praia do Jacaré.

É nessa confluência de díspares horizontes
(fusão de margens que não se cansam de ser afeto e geografia)
que o poeta retorna ao mundo das ideias
e navega no oceano das palavras que não se fatigam.

Onde estarei amanhã

[- depois do tédio e dos atentados,
– além da miséria e da corrupção,
– passada a culpa de meus silêncios,
– entre a indiferença das masssas
e a vergonha da inflação,
-com tanto passivo a me atormentar? ]

com tanto inventário de prejuízos?
além dessas víceras de sangue
que é o nunca realizado?

Em que pese o inverno da alma,
busco escapar ao Lete
na bacia de outro destino.

Nesse tempo de armadilhas
nesse mundo de refúgios
a hora crepuscular surge
como a bomba que não detém.

Usina de meus desacertos,
hospital de extensas labutas
nesse trajeto de fezes
nesse percurso de cinzas
invento o caminho possível
à espera de uma manhã vertical.

Penso em Florbela Espanca
em Jean Cocteau, em Hilda Hilst,
em Dora Ferreira da Silva
na incontida Orides Fontella
nesse horizonte de espantos
e nenhum milagre
onde tudo fede a terror
e exala ambiguidade.

Meu peito,
diafragma enlouquecido,
se confunde com esse
crepúsculo hemorrágico
entristecendo a tarde
com um sol esquartejado

e, não muito longe,
antes mesmo que caia implacável
a noite ocidental
com sua navalha de escárnio,
o mundo segue imune
às paixões fabris
aos gestos automáticos
ao sexo mecânico
à assepsia de todos os sentimentos.

E eu, hóspede do verso-libelo,
treino braçadas vorazes
nesse proceloso esgoto
e tento escapar do naufrágio.