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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) é editora-adjunta da revista Mallarmargens. Bacharel em Estudos Literários pela UFMG, atualmente cursa Mestrado em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa. Autora dos livros 'Lux' (Penalux, 2015) e 'Passagem' (Patuá, 2018). Tem poemas e traduções publicados em revistas, blogs e jornais – virtuais e impressos – como Germina, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Correio das Artes, Acrobata, Equimoses, Zona da Palavra, RelevO e Caliban. Também participou de antologias como '29 de abril: o verso da violência' (Patuá, 2015) e 'Ventre Urbano' (Penalux, 2016). Foi curadora da 4ª edição da antologia 'Carnavalhame' (2020). Tem poemas traduzidos para inglês e catalão. Contato: amandavital@live.com

forbidden

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Arte de Daria Petrilli

i think i’ve got to be more european from now on, you know?
talvez se eu aprendesse a cerrar mais os lábios para conversar
esconder os brasis dos cabelos pagar cinquenta euros no salão
para tentar me alisar talvez usar tons mais sóbrios nos olhos e
conter toda essa breguice: essa estética kitsch latinoamericana
que se põe a meter o sol as cores em tudo e mais alguma coisa
porque o neutro é refinado ou só há beleza possível se refinada
achei que assim camuflava razoavelmente bem até abrir a boca
vou aprendendo a disfarçar as manias na parte de trás da língua
e andar sempre ao canto e ao fundo apenas marchas silenciosas
tão difícil se enturmar me pergunto como se fazem amigos aqui
quando o medo é maior que o primeiro impulso da primeira fala
mas i really have to be more european from now on e até tentar
terminar o poema sem dizer assim às claras que eu venho do b-

(Amanda Vital)

desato

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Arte de Max Nowas

me esqueço de mim com uma frequência desconfortável
algumas vezes ao ano é como se eu não me reconhecesse
à frente do espelho dura mais ou menos uns três minutos
já decorei todo o processo de repetir meu nome completo
data de nascimento de quem sou filha minha cidade-natal
vou fazendo listas a última foi das minhas professoras das
escolas digo cada nome enquanto meus dedos nos relevos
no nariz na boca no pescoço também mostro meus dentes
sempre preciso rever o sorriso e as mãos: duas prioridades
enquanto vou me revisitando pelo verbo levanto a camisa
abaixo as calcinhas aperto as coxas mexo na bunda eu vou
mais pela memória do tato porque costuma ser rápida para
sair dessa sensação ruim de ter que me reapresentar a mim
porque sinto que me sei mas ao mesmo tempo há qualquer
vácuo dentro do corpo que se manifesta desde criança fico
morando com uma espécie de interferência seletiva interna
para que eu me protagonize aqui de novo como o costume
uns dirão é desapego uns dirão parece droga mas de graça
outros tentarão fazer diagnósticos clínicos e eu só digo que
é desesperador perder o domínio de mim demanda esforços
me encontrar no limite disso que pensava que era todo meu

(Amanda Vital)

recruta

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Arte: Blick

tenho recusado os convites para servir a exércitos
peço perdão aos amigos mas me doem os braços
de tanto vestir seus uniformes me trocar destrocar
tenho pedido tréguas e assisto calada às batalhas
peço perdão aos amigos pela infidelidade a tantos
belicismos que lhes cabem crescem calos dentro
das botas e minhas mãos ardem feridas de lixívia
removendo as manchas enquanto houver sangue
no tecido dos uniformes fico só me lembrando de
como suas pátrias se reerguem tão depressa e eu
acabo nas trincheiras com os tímpanos explodidos
e a boca suspirando o cansaço aberta às formigas

(Amanda Vital)

renda

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Arte de Daria Petrilli

morar na cabeça dos outros: essa tarefa exaustiva
ser montada desmontada e me aguentar sem partir
os nervos e as costuras seguir assim reboco intacto
parede que parece nunca ter visto furadeira na vida
adélia prado diz que mulher é desdobrável e eu sou
mais uma dessas criaturas de polarização oscilante
mudando de assento ou de sentença a cada cabeça
que me acolha enquanto essa inquilina mal de paga
aceito aquela casa de costas para o sol por também
ser eu mesma uma casa assim de costas para o sol
e insisto em não fechar as janelas nem as persianas
porque eu e todas de mim ainda esperamos por nós
para avançarmos lúcidas e inteiras até o lobo frontal

(Amanda Vital)

corredor

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Pinterest

tão cedo e elas todas ali sentadas ao pé da porta
com as pernas esticadas barrando as passagens
de quem vinha olhavam se era gente que valesse
a pena dobrar seus joelhos até tinham a gentileza
mas nunca na minha vez: seguia pelas trincheiras
procurando caminhos livres entre suas canelas ou
buracos onde encaixasse o passo e mesmo assim
tive tanta sorte tanta bênção de nem ter tropeçado
nem caído literalmente sobre seus pés não nutriria
esse hábito triste um costume com eternos triunfos
mas meu santo era forte me enrijecia em decência
e eu só olhava do alto para sustentar os equilíbrios
coitadas das meninas da minha sala mereciam um
fragmento mais agradável do que me lembro delas
mas essa visão de toras de madeira no meio do rio
tem qualquer coisa de desviável e efêmero como é
uma manhã de travessias custosas até a sua tarde

(Amanda Vital)

usiminas

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os resíduos que saem dos filtros das chaminés
não fazem mal: assim indicam os placares com
a qualidade do ar nos bairros de ipatinga muito
pontuais em letras luminosas aferem excelente
ótima raras vezes boa e razoável quase nunca
enquanto lavamos o chão o corredor a calçada
vezes sem conta com nossos pés enfiados nos
chinelos pintando de preto as solas e os dedos
nos perguntamos alguém não teria notícia para
dar às viúvas do massacre dos operários de 63
será que essas cinzas são mesmo dos minérios
fundidos nós nos perguntamos o que se respira
fora dos alto-fornos porque o que eles queimam
que se acumula assim nas paredes das narinas
só tem duas hipóteses: ou é minério ou é morte

(Amanda Vital)

muralha

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Arte de Carl Larrson

para Pedro

o seu gato respira mal pelo nariz e fede da boca
mas ainda assim há mais vida nisso do que pelo
lado de fora da porta nessa aspereza desinibida
das tempestades ao lado de fora da porta e nem
me lembro onde paramos qual inicial é reservada
para nomear a próxima tempestade e perco tanto
as contas me distraio na respiração do teu gato e
nos espasmos do teu cão sonhando conosco isso
tudo me soa tão mais gentil mais preferível ter de
levar com o peso e o odor dos teus animais sujos
sobre minha manta me tirando o espaço da perna
direita mas estarmos juntos em tempos de recusa
e reclusão é sinal de que é melhor dormir sempre
um pouco mais até perceber: agora podemos sair

(Amanda Vital)

espaço em branco

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Arte de Dan May

para Marcelo Labes

amigo, ouve com atenção os grilos no fundo da tua
memória: são desses ruídos que têm qualquer coisa
de melodia em looping ou de rádio má de rodoviária
e vão só ficando automáticos quase imperceptíveis
acostumando ao ritmo o martelo a bigorna o estribo
mas apura os ouvidos à lacuna carcomida dos grilos
que se reproduziram com a tua ausência dentro de ti
se reproduziram sem vigilância sem fúria para temer,
amigo, te revisita te ouve não deixa faltar um timbre
para catalogar vai com força com rigidez nas pernas
vai e enfrenta a mesma visão de um trajeto inevitável
vai com a vingança e uma pá para cavar enfim a cova
e enterrar tua culpa viva: os grilos te chamam, amigo.

Amanda Vital

à francesa

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Arte de Daria Petrilli

menti que dormi para acreditarem que descansei
menti que jamais cruzaria a linha amarela e preta
menti todas as doses extras de péssima cachaça
menti com as pernas abertas e as calças no chão
menti o cigarro na bolsa entre balinhas de hortelã
menti meu afeto para que me achassem profunda
menti orações apenas com o movimento da boca
menti o nível de voz rompi lustres janelas e taças
menti já estar morta: nunca tive um sono tão bom

Amanda Vital

bisturi n. 5

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Arte de Thomas Pollock Anshutz

minha voz se propaga melhor entre caracteres talvez
da maneira pacífica como os silêncios ressoam e se
permitem existir tranquilos dormem e acordam só na
hora a que lhes apetecem talvez da acústica ser bem
melhor assim em uma disposição de letras que tanto
me salva nesses pequenos momentos quando não é
preciso lidar com o imediatismo da oralidade e tomar
cuidado com modulações vocais e onde pôr as mãos
quando não lido com essa urgência de mostrar o que
sei no que acredito ou do que falo: no fundo eu tenho
mesmo é muito medo de me mostrar fora daqui levar
tudo disso que é tão meu para fora do poema protejo
isso que tem qualquer coisa de conforto e de morada
e isso que sou eu mais do que eu própria devo me ser

Amanda Vital