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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) é Bacharel em Letras - Estudos Literários pela UFMG. Atualmente, cursa Mestrado em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa. Autora dos livros Lux (Editora Penalux, 2015) e Passagem (Editora Patuá, 2018). Seus poemas são encontrados nos blogs Amanda Vital Poesia, Equimoses e Zona da Palavra, além de espaços virtuais como Germina, Ruído Manifesto e Literatura & Fechadura. Também participou de antologias como Ventre Urbano e 29 de abril: o verso da violência. Foi curadora da 4ª edição da antologia Carnavalhame. Integra o conselho editorial da revista Mallarmargens. Contato: amandavital@live.com

paragem de autocarro

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Foto de Fernando Porto

as noites em óbidos são de derrubar qualquer coração
desgraçado: a muralha iluminada de um amarelo suave
ao fundo das casinhas brancas ao fim do resto de fado
que ainda se ouve no largo. casais de velhos asiáticos
tiram fotos com flash em frente ao santuário do senhor
da pedra. as senhoras têm blusas de cores combinadas.
um último gole de ginja samba na língua da menina ao
pé da escada no snack bar. dois carros entram no hotel.
juro ouvir sotaque baiano saindo da janela de um deles
mas a essa altura qualquer espanto é mais um espanto.
descanso os pés na sarjeta: meu coração é desgraçado.

(Amanda Vital)

couro

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“Young girl combing her hair”, de Renoir

hoje resolvi pentear os cabelos antes de me deitar.
nunca tive sequer esse hábito: nunca desembaracei
os nós nunca ouvi minha escova trincando entre as
mechas e tinha uma certa sensação de deformá-las
quando penteava os cabelos ainda secos. hoje, não.
hoje resolvi voltar dezoito anos atrás quando fomos
as amigas todas dormir na casa de uma de nós cinco
depois da aula juntas em colchões arrumados à sala.
ainda a meio do papo elas pegaram em suas escovas
com a naturalidade de um combinado já foram logo
penteando umas às outras. me ofereceram. não quis
porque a sensação porque a falta de hábito fiquei ali
feito parva vendo seus cabelos se alongando na noite
os cuidados que elas tomavam com a força das mãos
ali entre bocados de fios sobre os nossos travesseiros.
juro que vi uma delas passar até perfume no pescoço
de um cheiro que não sai da minha garganta até hoje.
hoje deixei a minha escova sobre a mesa de cabeceira
com fios pendentes e tudo. hoje fui procurar a menina
que não fui. amanhã volto a ter os cabelos embolados.

(Amanda Vital)

vagalume

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Arte de Nidhi Chanani

finjo procurar a ursa maior contigo: mesmo que
eu nunca me lembre de seu formato nem saiba
ao certo onde localizá-la entre as constelações
chego perto de seu ombro olho para a reta que
seu dedo indicador faz com o antebraço por fim
só você encontra a ursa maior e precisa repetir
que ela se parece uma panela de alça comprida
brilhando um bocado mais forte eu acabo então
encontrando o cheiro de suor a mão atraída por
cabelos subo pela manga da camiseta até a sua
pele e eu acabo encontrando o que quase nunca
ninguém passa um tempo à procura assim como
constelações e sujeiras de bola de berlim e café
para limpar no rosto do outro e bocados de noite
que vêm brilhando mais fortes sob a ursa maior.

(Amanda Vital)

bisturi

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Arte de Asta Norregaard

eu não quero saber desses afetos da palavra:
leia minha poesia me olhe nos olhos e diga se
é boa ou má. não me toque pelos ombros não
me imagine despida não tome meu partido em
rixas. mas me leia como lê os seus comparsas.
com o mesmo cuidado e fundura, talvez calma.
sobretudo me leia como quem busca os óculos
para examinar um corpo. me leia com as mãos
cobertas de álcool em gel. eu não quero saber
desses afetos do lado de fora da palavra: atrás
da porta, tudo é ruído e espera. se quer me ler,
leia como alguém que não goste tanto de mim.

(Amanda Vital)

desvelo

aaaaaaaaaaa

Arte de William-Adolphe Bouguereau

para Lara

acho que é coisa de irmã mais velha: perguntar
das noites e das fomes com certa entonação de
quem envolve o outro com os braços e o fôlego
sempre muito fortes. caminhar atrás para vigiar
os passos os matos as pedras ou as trincheiras.
perceber as influências crescendo rijas em volta
da rotina. perceber a fala os modos a expressão
e todas essas sutilezas a atravessarem os olhos
capturando as fagulhas em vulto de fuga e medo.
acho que é coisa de irmã mais velha: não chorar
na despedida como se chora abraçado às mães.
calcar a saudade contra as paredes da garganta.

(Amanda Vital)

berlinda

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Foto de Christer Strömholm

para Pedro

somos os sem grupo, meu amor, os desgarrados,
os indesejáveis sentados na última mesa do café,
os das listas de espera, os vencidos pelo cansaço,
os das migalhas, dos fins de feira, dos escanteios
à quadra, somos os notados pela beirada do olho,
somos o silêncio repentino dos outros, o não-dito,
o lado contrário intermitente, as ervas miseráveis
brotadas nas frestas do meio-fio. seguro tua mão
macia e calma: somos mesa para dois, meu amor

(Amanda Vital)

joão pessoa

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Arte de Clóvis Jr.

os amigos em volta do jardim da universidade
sentados com um violão as mesmas vozes do
mesmo conjunto de pessoas postos em roda
sobre a grama cantavam alto contra o silêncio

esses amigos e suas apostilas sobre as coxas
as mãos batucando os cadernos seus sorrisos
fáceis sua fonética quente quando íamos para
as aulas suas histórias ecoando pelas paredes
do corredor os amigos me convidando com as
falas com a indução tão perfeita das suas falas

aqueles mesmos amigos em volta da memória
me abraçando sempre pelos ouvidos primeiro

(Amanda Vital)