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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) é Bacharel em Letras - Estudos Literários pela UFMG. Atualmente, cursa Mestrado em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa. Autora dos livros Lux (Editora Penalux, 2015) e Passagem (Editora Patuá, 2018). Seus poemas são encontrados nos blogs Amanda Vital Poesia, Equimoses e Zona da Palavra, além de espaços virtuais como Germina, Ruído Manifesto e Literatura & Fechadura. Também participou de antologias como Ventre Urbano e 29 de abril: o verso da violência. Foi curadora da 4ª edição da antologia Carnavalhame. Integra o conselho editorial da revista Mallarmargens. Contato: amandavital@live.com

pardal

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Arte de Sir Edward Poynter

hoje sonhei que meu pai era homem e era pássaro
podia migrar de uma forma a outra dentro de meu
sono corria e saltava para levantar voo em seu par
de asas castanhas bicava-me os cabelos e braços
abanando um vento tranquilo seguia como pedisse
para deixá-lo guiar: meu pai de frente ao meu rosto
uma ave rajada tão pequena às voltas incansáveis
ia me passeando nas praças nas portas de igrejas
ciscou uma hortênsia seca a um canteiro qualquer
pousou em um campo de futebol onde os meninos
jogavam recolheu as penas criou os pés descalços
pediu para pontuar todos os gols com giz branco à
escada de concreto. eu me lembro que ele fez dois
e já não pude distinguir mais o homem do pássaro.

(Amanda Vital)

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avalanche

GirlMirror

“Girl at Mirror”, de Norman Rockwell

posicionar o corpo de joelhos: o tronco voltado
para a frente a escova de dentes pela metade
dentro da garganta todo dia depois do almoço

os cabelos amarrados a maneira de abafar os
ruídos e de esconder os laxantes debaixo das
meias sentir a tarde definhando carne adentro
e os ossos da bacia se encaixando nos dedos
ver estrelas ao final do dia as paredes escuras
rodando o suor frio rodando voltas ao pescoço
onde as saboneteiras já despontam delicadas
como ficam no colo das meninas bonitas essa
fraqueza nas pernas suspirar de fascínio entre
os dois lábios e a acidez impregnada na úvula

morrer à frente do espelho em um único sopro

 

(Amanda Vital)

hóstia

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“Reclining Nude”, de Jacob Collins

para Pedro

oferecer-te meu sexo: a latência e o desespero
de meu sexo entre as dobras do lençol à cama
a pele suja ainda o não-lugar das minhas mãos

os olhos em convite essa indiscrição dos olhos
da boca sua tentativa quase falha de conter-se
a respiração sibilante perfurando os dentes e o
lábio uma oração incognoscível entrecorta o ar
em sinal de cruz meus pelos se rasgam com o
fogo de dentro para fora se rasgam em sangue

oferecer-te os movimentos do meu corpo para
que o pacifique enquanto estiver inteiro: assim
como uma hóstia na umidade quente da língua

(Amanda Vital)

família

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Pinterest

enterraram-me as rosas e deixaram-me os mortos
vagando sobre as cidades os ossos tilintando pelo
centro os corações dependurados de sangue seco
nada além do sorriso de seus crânios no esqueleto
frio nada além do hábito de vagarem em conjunto
perseguindo as flores em dia de finados nada além
de deitarem cada vez mais seus coágulos cerebrais
pelas lápides dos que ainda vivem dentro da língua
entre a memória e o verbo os mortos já não sabem
do calor da carne dizem ter problemas em recordar
do toque das pétalas e do cheiro eles já não sabem
a vida é uma lápide por escrever é uma urna aberta
é a última tábua a ser martelada até que se apague
o sol sob a terra e os mortos não souberam semear
regar atirar para baixo da terra os mortos só sabem
dessa clausura de nunca saber o lume ou a lágrima

(Amanda Vital)

distância

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“Morning”, de Eric Zener

para Pedro

no lado da cama que guardei a você pendurado
em duas voltas um rosário de pérola com a cruz
voltada para a frente: se existe mesmo proteção
que te guarde primeiro e que te salve em dobro
deixo três travesseiros em linha reta ensaiando
o volume do seu corpo sob a coberta de flanela
antecipo nosso jeito de dormir mantenho fresca
e cheia a garrafa d’água o abajur com luz acesa
a janela entreaberta para ouvirmos os carros de
som com promoções de supermercado o preço
do fubá ecoando em meu bairro um isqueiro no
criado-mudo junto de um quartzo rosa lapidado
que é quando eu não acredito em uma ou outra
conta do rosário em meu lado suspiro a espera
tateio a noite representada em seu devido lugar
preservando o templo com a quentura das mãos

(Amanda Vital)

ossos de vidro

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“Insecurity”, de Mario Tsota

arrasto um cavalo invisível montado em minhas costas
não o vejo pelos espelhos não aparece nas fotografias
escondo-o bem: escondo-o bem sob a cabeça ao alto
cubro as marcas da crina chicoteando o vento na pele
com a soltura dos cabelos reaprendi a andar com essa
carga pela teimosia eu aro viciosa meus descampados
na esperança de nascer dali nem que sejam margaridas
taiobas ora-pro-nóbis ervas daninhas plantas tão fáceis
imagino as pétalas erguidas e a dança de suas sombras
na contagem das horas mas volto trazendo o colo vazio
tranco o haras e durmo novamente sobre os quatro pés

(Amanda Vital)

carapuça

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“Writer”, de George Condo

o poeta contemporâneo gosta das discussões entre
panelinhas gosta de falar dos nomes e dos adjetivos
e daquilo que foi verbalizado fora do papel impresso
gosta tanto das revoluções inacabadas entre o dedo
e o pertencimento o poeta contemporâneo leva seu
corpinho mirrado ao fundo dos saraus toma uísques
com água de coco na calçada e diz sou marginal aos
berros corridos de sua garganta puída do seu cigarro
de menta às vésperas da décima segunda oficina que
ministra na zona sul onde paquera algumas calouras
da universidade ouriçadas com a erudição importada
direto da bibliografia dos ensaios de seus comparsas
o poeta contemporâneo dá tapinhas nas costas como
quem pede aliados a seu próximo linchamento virtual
enquanto adia os versinhos os plágios afinal a poesia

(Amanda Vital)