Arquivo do autor:vitalamanda

Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga-MG, 1995) cursa Letras na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Apaixonada por poesia contemporânea, publicou seu primeiro livro de poemas, "Lux", pela Editora Penalux em 2015. Contato: amandavital@live.com Facebook: https://www.facebook.com/vitalamanda

fome

tumblr_opidbsuJRP1vmt9y4o1_500

o corpo agora é uma casa no escuro
abrigando vibrações e gemidos vários

camadas desfeitas rodopiam em si

: relógio que dança entre seus minutos
cambaleando por ter a bateria fraca
sustentado apenas pela própria função

percebe-se as luzes, as névoas inquietas
se formando numa tela preta localizada
atrás da cabeça, vagalumeando na órbita

todos os sentidos sobem lentos à tez
envolvidos pela sutileza das cócegas

o corpo se imerge entre o frio e a febre

a alma se perde no instante da verve.

(Amanda Vital)

Anúncios

dardo

carnaval-tumblr

à noite

todos os gatos

são pardos

 

todos os drinques

são dardos

 

e todos os bêbados

são bardos.

 

(Amanda Vital)

chama

7c716b8c7bf790ae8469ff2aba886260

nem mesmo a crosta cinzenta dessa cidade

feita de ferro, brasa e sangue, nem mesmo

as chuvas de fuligem que tudo monotonam

puxando pela raiz cada cor que se sustenta

ou até esse cheiro ainda fresco de massacre

fugindo das memórias e das reminiscências

 

é capaz de te fazer algum dano, minha irmã

nada disso consegue penetrar seu invólucro

você é um campo livre inteiro e transborda

pelos poros toda a luminescência constelar

daqueles céus que os nossos antepassados

tentaram nos deixar como herança etérea

 

dou a você as que me cabiam, irmã minha:

eu gosto de ver sua alma trajando estrelas

essa chama tão inquieta desafiando a urbe

numa vanguarda de riso e de desasosssego

fazendo reacender cada partícula de vida

desde o chão aonde nossos pés alcançam.

 

(Amanda Vital)

 

costas

tumblr_ncibz3LRY01sx1gkpo1_500

eu te conheço pelas costas, irmã
pela forma como tua pele se acomoda na carne
entre pintas salpicadas e marcas de nascença
nadando soltas em cada curvatura

te saberia de longe, essas costas orquideais
por onde passa toda a tua seiva e sumo

: compostas tom a tom em paletas brancas,
pétalas deificamente bem delineadas, banhadas
de odor abaunilhado, cria das serpentes órficas

da nuca ao último ponto que tua espinha toca.

(Amanda Vital)

a cigarra não canta a própria morte

b11e54965b262f20e740853c5c1e40eb--writing-inspiration-spaces

a cigarra não canta a própria morte
ela vocifera, urge, ralha e brada
em agudos polifônicos dispersados
ao primeiro sinal de nuvem negra

mas não canta a própria morte

ela anuncia o arrancar da própria tez
ovacionando a nueza às semelhantes
prolificando-se em ciclos axiomáticos

mas não canta a própria morte

ela se espalha entre toras e troncos
pisa na terra, equilibra-se em galhos
voa tardes que lhe resumem a vida
numa inconsciência pura e indolor

e isso é estar bem longe da morte

(Amanda Vital)

apetite

22894038_526765020990873_4381500660066073889_n

basta o desgastante falar das maturações

do tempo do verbo que nunca se alcança

 

tez algodoada de um azul inquebrantável

onde a palavra é lúcida e a poesia é mansa

 

que o fruto ainda verde caia sobre as mãos

em um só sentido, uníssono e irreversível

desfazendo-se em grãos ao puir nos dentes

 

e confronte a etérea solombra atmosférica

com toda a força desgarrada das urgências

interrompendo o tempo sacro da semente

 

bendita seja a palavra daquilo que se consome

bendita a rebelião do lado de dentro da fome

 

(Amanda Vital)

infante

marys-head

os sinos badalavam seis vezes
grilos e cigarras faziam suas anunciações
embaixo de um rosa-alaranjado eterno

a Ave Maria despontava na vizinhança
uníssona e inquebrantável

pés fincados na grama ainda quente
entre escolinhas e padarias imaginárias
flores arrancadas entre os dedos

pés que se guiavam como um semideus

se existe mesmo uma Ave Maria
ela tem pés como eram os meus

(Amanda Vital)