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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) cursa Letras com ênfase em Estudos Literários na UFMG, em Belo Horizonte, transferida da UFPB. Autora dos livros "Lux" (Editora Penalux, 2015) e "Passagem" (Editora Patuá, 2018). Entre 2014 e 2016, participou do grupo de declamação Aedos, em João Pessoa. Atualmente posta seus poemas nos blogs “Amanda Vital Poesia”, "Equimoses" e “Zona da Palavra”. Publica videopoemas e declamações no Youtube. É colaboradora da revista Mallarmargens. Contato: amandavital@live.com

caipirinha

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Arte de Igor Shulman

ninguém diz da solidão das meninas bebendo sozinhas
as noites partidas das capitais bebem inteiras sozinhas
suas angústias seus copos suas gotículas sobre a mesa
seus olhos exaustos pairam entre o nada e as gentes e
as pilastras e os copos russos pairam em vertigem crua
elas fogem de suas casas escolhem seus bares salgados
preferidos se banham todas de açúcar limão álcool gelo
banham suas mesas de cevada e de gordura as meninas
cantam silenciosas seus repertórios em lábios trêmulos
desafiando seus corpos garganta abaixo deixam tontear
e flambar a solidão das meninas que se bebem sozinhas

(Amanda Vital)

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depressão

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escondida no canto do lábio do riso uma angústia
forçando os músculos para cima a esgotar o motor
do corpo cada movimento uma combustão precisa
os olhos abandonam as janelas da alma à mimese
a cobrir de lucidez o desespero a guerra interna do
que não se sabe como nasce se é dissipado no céu
se corre com a rapidez das pernas de um menino e
não se sabe a quem escolhe ou quando é sua hora
de atirar a rede aprisionar os peixes confinar a fuga
se debatendo no fundo do aquário de areia de vidro
esse deserto intemporal do lado de dentro do peito

(Amanda Vital)

naufrágio

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“Sea of Blood”, de Santiago Caruso

deixei o sangue entre as pernas encharcar-me o sono
embebido pelo algodão bem trabalhado dos lençóis
o sangue a conta-gotas no tecido branco a pinceladas
sempre tão lento esse caldo ardente monocromático
em pequenas ondas alto-relevo de carmim coagulado
figuras se criam à noite com o movimento das pernas
ora ave ora cálice ora cruz todas veladas sob o manto
pardo da imaginação que a mim finge estar dormindo

(Amanda Vital)

ritual

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para Pedro

fumo para lembrar de ti – como se a cada trago respirasse
diretamente o ar dos teus pulmões o ar de tabaco solto e
dos cafés cheios que você bebe devagar durante teus dias

fumo a ti em tragos lentos a fumaça da tua voz dissipando
inteira em uma atmosfera particular que crio a cada dia de
espera as cinzas sobre o colo as queimaduras no corpo nu

o cigarro em meus dedos carbura entre a sucção e o vento

deixo arder sem apagar deixo que queime apenas a borda
moldada ao cair as cinzas da mortalha da pele da memória

(Amanda Vital)

ditado

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ainda que se beba águas radioativas ainda
que se fume um maço e meio por dia ainda
que se peque que se fuja que se adie ainda
depois de seis copos de vinho na sala vazia
ainda os pés estáticos na rotação dos anos
viver ainda é se aproximar da vida – porque
só se aproxima da morte quem leva agulhas
em mãos furando a película do mundo e só
se aproxima da morte sob gritos de angústia
da legítima angústia que faz perder de vista
a beleza do mundo e que faz beber o último
gole de consciência líquida enquanto se fere
a película do mundo sob a ponta das agulhas

(Amanda Vital)

pára-quedas

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“Young Girl Writing”, de Berthe Morisot

habituei-me a estar sozinha com minha poesia
enquanto observo os colegas saindo pela porta
da frente em uma fila indiana solene mas breve
vez ou outra chego a sentir tapinhas no ombro
desestabilizando a escrita da caneta aos papeis
ouço-os falarem da divisão da conta do boteco
para onde não posso ir com a menina que sou
ou com a falta da leitura do último lançamento
só eu e meu corpo sentados com minha poesia
em uma biblioteca despovoada e me pergunto
se o afeto até onde o sei é utopia ou simulacro

(Amanda Vital)

pai

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“Reach for the stars”, de Jen Norton

há treze anos eu via você tomar o último gole
via você respirar a última inspiração do outono
rosado da minha infância enquanto os céus se
despediam bem mais cedo do que eu poderia

tentei guardar a memória de como costumava
ser o nosso modo de ver as cores e as pessoas
e as formas e de como tudo só parecia inédito
quando piscávamos os olhos ao mesmo tempo

tentei me guardar como você guardava a mim
uma fenda de pureza numa linha descosturada
de retalho antigo um bebê de olhos fechados
um sentimento preso no canto direito da boca

e eu me agarro nos mínimos sinais dos acasos
como uma folha cair sobre minha cabeça uma
ave pousar no parapeito da janela da varanda

só para ter certeza de que você olha por mim

enquanto reconstruo a nossa terra devastada

(Amanda Vital)