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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) cursa Letras com ênfase em Estudos Literários na UFMG, em Belo Horizonte, transferida da UFPB. Publicou seu primeiro livro, “Lux”, pela Editora Penalux em 2015. Entre 2014 e 2016, participou do grupo de declamação Aedos, em João Pessoa. Atualmente posta seus poemas nos blogs “Amanda Vital Poesia” e “Zona da Palavra”, e também produz videopoemas experimentais. É colaboradora da revista Mallarmargens. Contato: amandavital@live.com Facebook: https://www.facebook.com/vitalamanda

fascismo

formigas observam a passeata dos grilos
pisoteando o chão entre manchas verdes
e vermelhas crescentes o furor uníssono
ao modo de quem toma a terra para si
os grilos e suas capas carapaças opacas 
à luz solar suas patas pisoteiam sangue
pisoteiam flores pisoteiam as próprias
patas roçando umas contra as outras as
formigas veladas sob folhas sob galhos
sob o cascalho dos corpos de suas irmãs
mortas observam a passeata das ruínas
percebem talvez não há muito o que se
possa fazer pensam em subverter raízes
para baixo da terra refazer formigueiros
colmeias casulos ninhos refazer as casas
para baixo da terra tecer seus caminhos
atravessar rotas de fuga a esconderijos
mas basta o intervalo dos pensamentos
o hiato entre a ideia e a ação e os grilos
se atropelam marcham suas automortes
predomina o líquido encarnado o abismo
o desgoverno da ciranda que era para ser
predomina a tendência natural dos grilos
surgir cricrilar saltitar consumir fenecer

(Amanda Vital)

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garota-propaganda

mommm

era década de oitenta
minha mãe saía num outdoor
em cima do Foto Horto

a pele dourada em manteiga
prolongava os sábados de clube

imagino minha mãe
divindade extemporânea
amarrando os cabelos
em tomilho e lavanda

enquanto olhava para a câmera

um ou outro traço do rosto
do bibelô de Santa Luzia
arriscava um contraste barroco
na beleza ardida

ainda hoje a reconhecem
dizem que é pelo olhar triste

(Amanda Vital)

museu nacional

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da potência dos atritos se entendia o fogo
pedra contra pedra em precisão atenta

da urgência de ser vida se fazia o fogo
olhos repousados no inflamar da lenha

da latência do apetite se servia o fogo
em novos hábitos que a carne sustenta

da exigência do divino se sagrava o fogo
de orações vertidas a hecatombes lentas

da carência de poder se corrompia o fogo
lançado ao labor contrariado que inocenta

da dormência do homem se perdia o fogo
ruínas repousam entre um par de algemas

da incoerência de um fim se reinicia o fogo
história irrepousável em cíclica contenda.

(Amanda Vital)

mulheres de Ítaca

 

 

as mulheres de Ítaca esperavam pelo belo
veladas aos cuidados dos banhos de azeite

em cada nau rasgando o coração da costa
e no farfalhar das migrações dos pássaros
toda uma década de motivos para esperar

tateavam os seus corpos às possibilidades
invocando as vontades vertidas nas mãos
com a força imantada no cativeiro dos pés

o desejo era libação jorrando das margens
a certa altura incontido, dada sua potência

essas mulheres e seus silêncios absolutos
e suas rotinas ao redor do regresso tardio
adornando a pátria contra o esquecimento

esperavam pelo belo em seu duplo sentido:

a promessa no mar e o destino no Olimpo.

(Amanda Vital)

procissão de Baco

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recolhei os profanos sóbrios
os praticantes do contradelírio
recolhei, recolhei as estátuas 
de lábios de gesso

as carnes navais estão passando
bailando na ciranda do desejo

recolhei suas crias selvagens
Baco irá comê-las mudas e cruas
para que não germinem
comê-las cruas e cedo

as carnes navais estão passando
bailando na ciranda do desejo

seus pais e mães, as gêneses do perverso,
dos ovos mal fecundados recolhei
toda a casta impura dos muros do sossego

as carnes navais estão passando
bailando na ciranda do desejo

assim como seus pares, cônjuges soturnos
que nunca derramaram uma gota de vinho
em seus corpos de sucumbida virgindade

recolhei, recolhei os estáticos companheiros

as carnes navais estão passando
bailando na ciranda do desejo.

 

(Amanda Vital)

memória

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memória
:
tempo da nuvem rasgando o céu
lume de estrelas nas retinas cósmicas
o sentido do sangue após o corte
a direção do crescimento das plantas
espelhos em inversões cristalizadas
as feições, as ciências genéticas
as modificações das rochas
a sustentação das calçadas aos passos
a rotina do asfalto
o impulso do ventre
:
o caminho da bala à mira de sempre

(Amanda Vital)