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Sobre vitalamanda

Amanda Vital (Ipatinga/MG, 1995) cursa Letras com ênfase em Estudos Literários na UFMG, em Belo Horizonte, transferida da UFPB. Autora dos livros "Lux" (Editora Penalux, 2015) e "Passagem" (Editora Patuá, 2018). Entre 2014 e 2016, participou do grupo de declamação Aedos, em João Pessoa. Atualmente posta seus poemas nos blogs “Amanda Vital Poesia” e “Zona da Palavra”, e também produz videopoemas experimentais. É colaboradora da revista Mallarmargens. Contato: amandavital@live.com Facebook: https://www.facebook.com/vitalamanda

banho

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“Water Dance”, por Kurt Arrigo

flertar com a corrente de água que pariu nereidas
tocar o sereno impregnado nas paredes de dentro
molhar a pele lamber a carne demandar a invasão

abrir pernas abrir braços
oferecer os seios e o sexo

suspiros perfurando o vapor dessas quatro paredes
melodiam a gradação da febre subversiva do corpo
uma silhueta em transe marca os vidros embaçados

contemplo o mar absoluto, a inversão dos estados
frente aos meus olhos fechados de mergulho aceso

ao fundo do rio
é para onde vai
todo o meu desejo

 

(Amanda Vital)

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frenesi

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para Pedro Tiago

ouço a tua voz de fascínio a repetir o meu nome
veludo encarnado saindo da boca tua boca santa
poço de mel e de sonho onde me lavo me banho

moro no delírio vulcânico das garotas de colégio
quando se embriagam de seus primeiros amores
viciadas em palpitações percorrendo seus corpos

sou uma pequena ninfa bailando sobre tuas mãos
movida pela própria febre que emaranha sentidos
eu danço o transe da confluência de nossos fogos
o meu ponto de equilíbrio é contemplar a tua face

eu trago a energia bela do caos à altura da barriga

e eu canto nosso canto de amor para que ele viva

(Amanda Vital)

abertura

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Foto: Tumblr

um cavalo brilhante de crina negra afunda
os cascos nos umbigos do espírito da terra

suas pernas são de fome e marcham dureza
como teimam todas as asas mal resolvidas

atravessa a cidade sob gritos de tempestade
o raio bestial tateia a pele exposta do mundo

mulheres abrem as pernas para suas janelas
invocando a lua sob o nome de seus amores

frutos despencam das copas ao mesmo tempo
ouvindo o coro dos corpos que agem por cima

e assim vibram juntos os herdeiros das flores
entregues ao delírio oceânico ao mel cadente

o orgasmo – essa anarquia de toda a natureza

(Amanda Vital)

extinção

formigas observam a passeata dos grilos
pisoteando o chão entre manchas verdes
e vermelhas crescentes o furor uníssono
ao modo de quem toma a terra para si
os grilos e suas capas carapaças opacas 
à luz solar suas patas pisoteiam sangue
pisoteiam flores pisoteiam as próprias
patas roçando umas contra as outras as
formigas veladas sob folhas sob galhos
sob o cascalho dos corpos de suas irmãs
mortas observam a passeata das ruínas
percebem talvez não há muito o que se
possa fazer pensam em subverter raízes
para baixo da terra refazer formigueiros
colmeias casulos ninhos refazer as casas
para baixo da terra tecer seus caminhos
atravessar rotas de fuga a esconderijos
mas basta o intervalo dos pensamentos
o hiato entre a ideia e a ação e os grilos
se atropelam marcham suas automortes
predomina o líquido encarnado o abismo
o desgoverno da ciranda que era para ser
predomina a tendência natural dos grilos
surgir cricrilar saltitar consumir fenecer

(Amanda Vital)

garota-propaganda

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era década de oitenta
minha mãe saía num outdoor
em cima do Foto Horto

a pele dourada em manteiga
prolongava os sábados de clube

imagino minha mãe
divindade extemporânea
amarrando os cabelos
em tomilho e lavanda

enquanto olhava para a câmera

um ou outro traço do rosto
do bibelô de Santa Luzia
arriscava um contraste barroco
na beleza ardida

ainda hoje a reconhecem
dizem que é pelo olhar triste

(Amanda Vital)

museu nacional

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da potência dos atritos se entendia o fogo
pedra contra pedra em precisão atenta

da urgência de ser vida se fazia o fogo
olhos repousados no inflamar da lenha

da latência do apetite se servia o fogo
em novos hábitos que a carne sustenta

da exigência do divino se sagrava o fogo
de orações vertidas a hecatombes lentas

da carência de poder se corrompia o fogo
lançado ao labor contrariado que inocenta

da dormência do homem se perdia o fogo
ruínas repousam entre um par de algemas

da incoerência de um fim se reinicia o fogo
história irrepousável em cíclica contenda.

(Amanda Vital)