Arquivo da categoria: Poesia

PÁRIA (poesia para tempos de sangue)

Ser brasileiro
Todos os dias
Chorar sorrir morrer
Amar jamais

Desconheço outra ordem
Os dias mesmos poeira tardia

Abraços da morte
Triste visita
Que fazer?
Ao meu lado caem sombrios
Irmãos que poderiam ser meus

O país debaixo da terra
Meus pais e irmãs
Mãos dadas
Sufocam e cessam
Desertos
Indiferentes

Como qualquer brasileiro

MAIS DÍSTICOS DA MORTE (poesia para tempos de sangue)

Alguém que morre na tv.
Amanhã pode ser você.

§

Aquela festa que você posta
só diz que você não se importa

§

As asas do vento ao sol.
Pulmão vazio de outra avó.

§

Direto do Planalto sai a ordem:
Não tem vacina. Deixe que sufoquem.

§

Em um governo genocida sem guerra
funda-se um novo país sob a terra.

§

Entuba, vai! Com morte cerebral!
Bonde do covidão pega geral!

§

Genocida no poder.
Façam fila pra morrer.

§

Outro desconhecido entubado:
colateral, governo do descaso.

§

Praia cheia, caipirinha, aglomeração,
o ouriço do povo é contaminação.

§

Sem censo, sem dados,
todos cancelados.

§

Taxa de ocupação elevada.
A UTI começa na calçada.

§

Você sai pra trabalhar
pro patrão se vacinar.

§

DÍSTICOS DA MORTE (poesia para tempos de sangue)

A família no supermercado
passa o vírus por atacado

§

A política da morte
é brasileira e forte

§

Com seu nariz à mostra o idiota
aspira a morte do compatriota

§

Corre o governo da chacina
os mortos não sonham com vacina

§

Consumidor morto não volta
mas o patrão não se importa

§

Fé e indiferença
comungam nessa mesa

§

Maldita economia
com a barriga vazia

§

Milhares de vozes sem ar
e você nem saiu do bar

§

O governo vacina a conta-gotas
no entanto o povo bate as botas

§

Os assassinos armados
não vêem caixões fechados

§

Patriotas da cloroquina
morrendo secos na surdina

§

Sem máscara nem isolamento
você na festa de casamento

§

Shoppings de indiferentes
são covas de indigentes

§

Ratoeiras motorizadas pela cidade
multidões contaminadas contra a verdade

§

Regurgita mi mi mi o presidente
que espera que você morra contente

§

Vermífugo mental
com máscara anal

§

Um estado de usurários
desmascarados e apoiados

§

Morreram todos tá tudo escuro
O Brasil é o país do futuro

§

NÚMEROS APENAS (poesia para tempos de sangue)

Os números não respiram.

Contemos:
duzentos, duzentos e cinquenta mil…

Em três versos, mais um
(outros são entrelinhas).

Como tudo que é sagrado, o ar
escapa à nos
sa compreensão
(escapa à milhares de vidas).

Este é o pão que partilhamos.

Cada voz perdida sem ar (sem respirador)
é um numero indigente (a indiferença abraça)
com calma e violência (a morte alcança)
de pulmões cheios de terra.

Contemos:
duzentos e noventa trezentos mil…
(transbordam prontuários)

A indiferença é uma forma de inexistência
em que nos falta o ar.

MEMÓRIAS VELHAS (poesia para tempos de sangue)

Se pudesse respirar (eu queria mais ar),
pensaria em escrever qualquer coisa
mas não penso claramente coisa alguma.
Isso não é caso, nem conversa mole, pois bem.
A velhice já foi das pessoas e era plena.
Além dos oitenta; quase árvore em essência.
Tanta conversa em praças que já não existem.
Não é nostalgia (eu queria mais ar),
era um país em que o tempo se estendia.
Veio a vez da fala vazia, da carteira vazia,
da falta de empatia com a barriga vazia.
Veio a vez da perversidade acolhida e nenhuma partilha.
Dia após dia a perversidade fazia a mesa e se servia
dos corpos, dos ossos, das almas, dos dias (eu queria mais ar).
A pessoas se acostumaram.
A perversidade continuou.
Eu entendi a perversidade de acostumar-se com a milhagem da morte.
Eu queria mais ar, mas já vão desligar.

ZÉ MARIA (poesia para tempos de sangue)

estou cansada
tão cansada que me tremem as mãos
as pernas falseiam o passo
e já não posso dormir
pois me sobressalta o ar
dispara o peito
que não bate nada

estou cansada
como se me gastasse
os ossos uma lima
o pó acumula-se abaixo
incessante
incessante
incessante

e daí?
estou cansada e sei
que ninguém se importa
eu não tenho pele e o ar
foge pelos sinos vazios
ainda assim suspiro
estou cansada

um cansaço da moléstia
de me partirem os ossos
de cair duzentas mil vezes cansada
ainda assim me perguntam
pra que essa angústia?

certa como deus é brasileiro
eu não sou coveira
pra abrir tanto loteamento
só entrego a sala rasa
que a cada um cabe no solo da pátria

DOIS POEMAS PARA MATAR A ESPERANÇA (poesia para tempos de sangue)

MATAR A ESPERANÇA, VERSÃO 2020

o direito de brincar na rua
o direito a merenda boa
o direito de subir em árvores
o direito a ficar à toa

pular na calçada e merecer a farra
a liberdade é pouca e a vida um dia
será lembrança do enquanto

lá na esquina um rastilho de metal azul

as vozes
as avós
as vidas
mais que sentidas
no lapso do espanto

sete anos acabam
parecem menos que quatro
menos que este verso
que não tem crianças

MATAR A ESPERANÇA, VERSÃO 2019

o antipássaro vigilante
abre suas asas de metal
sobre todas as crianças

o céu entrou pelas costas
não mais que um instante escarlate

oito anos passam
muito mais depressa
que oito versos

NOTA: Chove copiosamente no Rio de Janeiro na noite de sete de setembro do ano de sangue. Não mais que o pranto das mães e avós de crianças abatidas à bala.

VAROA UMA OVA: A POÉTICA DA DESCONSTRUÇÃO DE ADRIANE GARCIA

Por Evilásio Júnior

Com todos os avanços que a humanidade passou, toda a produção de conhecimento, conseguimos olhar para a mitologia grega, percebemos que era uma narrativa que lançava um olhar sobre o mundo e sobre o homem, contudo, não trazia uma verdade absoluta que devia ser seguida de forma muda e cega. Basta uma simples volta à Grécia Clássica, para que percebamos a importância da narrativa mítica na fundação do pensamento filosófico, mas isso não implica que o mito fosse tratado como uma verdade, era apenas uma possibilidade de compreensão do homem e do mundo a sua volta.

Toda e qualquer civilização tem os seus ritos de passagem, suas narrativas mitológicas, por que apenas a narrativa mítica presente na Bíblia tem que ser a verdadeira, já que outros povos versaram sobre muitos temas ali presentes e suas narrativas não se tornaram o caminho para a tal verdade absoluta e o caminho para um paraíso metafísico, libertando o homem do corpo pecaminoso e terreno? Como fica a situação da mulher, que segundo o livro do Gênesis, ou texto de origem mundo (para os cristãos, é claro!), diz que o pecado entrou no mundo através da primeira mulher, Eva, ou seria segunda?

Pensando em todas as lacunas e interpretações enviesadas deixadas pelo livro sagrado, Adriane Garcia traz uma releitura de algumas personagens presentes nas sagradas escrituras, usando sua verve poética cheia de uma ironia fina, descontruindo a tal leitura literal gritada nos templos, que jogou durante muito tempo e ainda joga sobre os ombros da mulher a culpa por todas as pestilências, usando o corpo feminino como instrumento de expiação para as desgraças humanamente construídas.

Pensando em tirar as escamas dos olhos do leitor, Adriane Garcia, em Eva-proto-poeta, traz uma poética que grita ao mundo os séculos de silenciamento da figura feminina, o eu lírico rebela-se e diz: “Varoa/Uma/Ova (p.22).”, esse poema-desconstrução demole a etimologia da figura subalternizada das mulheres, da varoa valorosa, mantra entoado nos púlpitos patriarcais e frios de um neopentecostalismo que impera em nosso país, pregando que a mulher deve acatar em silêncio os mandos e desmandos do cabeça da relação: o homem.

A mulher não baixa a cabeça e nem mostra subserviência no livro de Adriane, ela grita que é constituída da mesma matéria, colocando homem e mulher em pé de igualdade, como podemos ler em Adão não se enxerga: “Do mesmo pó/Do mesmo barro/ Da mesma merda (p.26).” A navalha poética de Adriane pega o discurso falocêntrico e o decepa, deixando um rio de interpretações para o leitor.

Em Patriarcal, há um questionamento sobre a famosa posição de mando homem: “Adão só quer/ Ficar por cima (p.28).” Mesmo com uma construção histórica e sociológica que confirme o poema-sentença aqui analisado, o que fica por cima é o verso cortante da poeta, que nos faz refletir sobre a constituição do patriarcalismo e suas nuances na sociedade.

O livro de Adriane é um convite à desconstrução do pecado original, aliás, é um convite a uma releitura da narrativa do Jardim e da tal queda do homem. A poeta injeta o veneno de Samael nos olhos do leitor, fazendo-o contemplar as possibilidades além do mundo fechado e pequeno do Éden, traz também a rebeldia de Lilith “que não volta nem fodendo”.

Eva-proto-poeta foi o livro mais forte que li nos últimos tempos. Passear por um tema delicado e desconstruí-lo não é uma tarefa para medrosos, mas para pessoas de coragem. A navalha afiada da pena de Adriane Garcia é uma katana retalhadora de mitos. Na obra da poeta a mulher não fica por baixo, mas por cima.

Evilásio Júnior

Poeta e Ativista Underground

QUEM ARRUMA A CASA? (poesia para tempos de sangue)

Acontece que a cidade morre
igualzinha àquele parente.
Lembra, de sangue quente?
Quem vai arrumar a casa
trocar a lâmpada
limpar a calha
e a geladeira?

O ar está sujo.
O quintal está sujo.
O nome está sujo.
O pleito está sujo.

É insolúvel esta tarde contaminada.

Sangue e radiopatrulha,
corre-corre sem rumo.
Não tem trave na rua.
Não tem festa no bar.

O mormaço do subúrbio
tem cheiro de lama seca,
cisterna vazia,
suor e poeira.

É impossível respirar a conjuntura.

As águas pluviais
e as lágrimas da população
encontram seu caminho
embaixo da terra.

É a cidade que morre de amargura.

FIAT LUX IN TENEBRIS (poesia para tempos de sangue)

Joãozinho colecionava fósforos.
Cada caixinha quarenta lumes.

As primeiras palavras, a tabuada, a rima
do primeiro samba –
cabiam na caixinha os brinquedos
e a infância.

Aos 10 anos o apelido de palito de fósforo queimado apagou no seu peito a igualdade.
Na pele a sua identidade.

Aos 15 no chão do mercado em que trabalhava
(o peso do homem da guarda lhe esmagava)
esvaziaram-lhe os bolsos as calças e a dignidade.
“O cliente tem convicção, deve ser verdade.
Apreende, que o neguinho canta da grade.”

O silêncio dos colegas – a face da falsidade.

Dali em diante, pra cada costela quebrada, cada aula perdida, mais valia a regra da caixinha:
mantenha distância do rosto, a direção contrária dos olhos.

E toda nota de repúdio arde
na rede de mercados da cidade.

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