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A lojinha da CASA

Agora a CASA está na lojinha da Editora Urutau para todos os leitores encomendarem o seu exemplar. Passe lá e confira, além do meu livro o catálogo da editora abriga uma rica parcela da literatura brasileira contemporânea em edições belíssimas.

Você pode acessar e adquirir seu exemplar aqui.

Para fechar a coluna hoje, que não há o que dizer que o livro em si já não esteja dizendo por si, o poema homônimo.
Pode entrar, que a casa é sua. Não repare não, as paredes de vento, o telhado de versos (infinito). Achegue-se, que há espaço para todos.

CASA

Eu te recebo
E como nada temo que venha de ti
Mantenho abertos os braços
Os abraços restaram sozinhos
Desta cama eu nunca parti
Os momentos e a memória amanhecem
Com sono juvenil dos que não têm rumo
Os que pouco conhecem a névoa do corpo
Esquinas e quebradas com derradeiro fogo
Que cidades esquecidas arderam em plena vida
Nunca descansamos
A boca e o mar nunca afastamos da borda
E nossas próprias rochas arrefeceram
Na maré, no lençol e na despedida

Guardamos no peito os lobos
As noites sedentas e o frio imenso na pele
Mansa silenciam guerras passadas
E o desejo em cada pessoa –
Uma casa

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Crédito da foto: Débora Rendelli

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A CASA é sua, pode chegar pro lançamento.

 

Lance o verso fundamental e a CASA surge.

Falta pouco, menos de uma semana, na verdade.
Há um lançamento no Rio de Janeiro.
Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade.
Será no próximo domingo à tarde, para constar como o passeio geral (todo mundo mesmo) e esticarmos numa conversa bem amigável.
Haverá abraços e assinaturas.
A Editora Urutau fez um evento no Facebook. Eu pretendo postar reflexões poéticas e outros absurdos durante esta semana.
O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Nesta tarde, a CASA posou pra sua primeira sessão de fotos.

primeira foto da casa

A todos eu entrego as chaves da CASA.

AS CHAVES

que chave você abre
quando quer se fechar
naquilo que sabe?
onde cabem
as estranhas formas de amar,
os pedidos de seda e as
palavras de armar?
naquele tolo encaixe?
não cale o lascivo.
esse equilíbrio sem sentido
de tudo que queremos escravo.
agora diga que não sabe
agora peça que não pare
agora venha e me fale
coisas delicadas e bobas
que mancham a camisa
respingam a saia
com cores boas e confissões,
tons de verdades inventadas.
tudo mais em nós é cartada
vislumbre de uma sala.
o cego contorno da pele rara
entoada em cantigas em braile,
nos dedos, a fala.

qual delírio cabe
quando se quer se fechar
naquilo que se abre?
onde pôr
as entranhas e as marés do mar,
as ondas de suor e o esforço,
esse querer remar?
todos somos tolos, relaxe.
abra o mel da libido.
esse carnaval e
as malas, a atravessada
risada da vida dobrada nas roupas
usadas, tudo passando
ala após ala e
um beijo.
o equilíbrio desmedido
do nunca e do sempre,
o impossível balanço entre
o rente e o quente.

agora morda, torça sem força.
agora ouça o curso da boca.
agora rouca, o que restou da
fala respira.

tudo mais em nós é essa voz
tão rasa, uma pressa molhada
essa escrita borrada em cada
canto da casa.
esse pronto alívio, essa brisa na cara.
esse perfeito vislumbre da vida,
que mesmo calada
aquarela a tela
e desfalece,
que a moldura
ampara.

ANGÚSTIA (poesia para tempos de sangue)

não há luta
também não há vagas
empregos tampouco
a estática, a deriva
a massa, a medida coletiva
a mídia, a medida preventiva
as mesas ainda flutuam
na inatividade da vida
a vergonha pública
os corredores acesos
as portas trancadas
os carros, os mesmos
os rastros nos acessos
as fraudes de peso
os funcionários fantasmas
o dinheiro, este sim, não ectoplasma
desmaterializa-se com as matas
os borra-botas e cabotinos
atados às suas pastas
o poder desfaz-se dos tontos
o poder está pronto mas não
cabe nas mãos de todos
sobre os ombros de todos
resta dentro de todas as casas
o rastilho
o contido
seria grito
ou seria fome?

não há luta
alguém escuta
no silêncio?

ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

ATO PÚBLICO (poesia para tempos de sangue)

eu sei que se atravessasse a rua
atravessasse a faixa
abaixasse a cara
e deixasse a caminhada
minha mão encontraria a sua

eu sei que luta é longa
que a vantagem é pouca
que a boia falta
e ainda por cima a vida
é curta pra levar tanta porrada

eu sei que estamos cercados
que a cidade exuda fogo e esgoto
que as bombas surgem no lugar do diálogo
e que a esperança não vale o que pagam
vergonhosamente ao fim da jornada de trabalho

eu sei que quando atravessar a rua
rompendo a fúria descabida dessa guarda
driblando as botas como um santo de várzea
e surgir invicto de susto borracha e bala
minha vida encontrará a sua e de mãos dadas incendiaremos o país

a poesia explode a realidade

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais