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POEMA (quase) COM FOME

OVO

DE

NOVO

AMAVIO

se pronuncio o seu nome
uma tempestade de avessos
anuncia-se no poente azul
do meu átrio

trilhas e escarpas
a distância correta
escapa entre os dedos
quando a língua risca
a palavra o ar molhado
carregando o seu nome

era quase manhã era busca
o vento soprava no jardim de vênus
era quase manhã era pausa
a respiração e a reparação
era quase manhã era cansaço
a vida exsudava no espaço

sei seu nome não é fardo
assim cuido que jamais suma
tanto mais pesado se parece à alma
é ainda mais leve quando dorme
leve brisa que floresce calma
leve rosto pousado na minha palma

ENCRUZAMENTO (poesia para tempos de sangue)

há ali uma esquina que arde
mesmo apagados os postes
mesmo sem eletricidade
mesmo sem nome marcante
mesmo sem uivos das carpideiras

as ruas se cruzam como rastilhos
os caminhos violentos se emendam

há tantas cruzes no chão da cidade
anjos atormentados rondam incansáveis
as lágrimas que não podem apagar

senta-se um menino como um espectro
ou espelho embaçado, um reflexo
despedaçado de gente
fome e espasmo

onde tudo se fez sufoco e sangue
essa solidão crivada arde
e ainda entrelaça caminhos
na alma

ASCENSORISTA (poesia para tempos de sangue)

Aconteceu que naquela tarde a morte atravessou a parede e se alojou no átrio. Era pai, era irmão, era mãe gritando no chão. O homem na tevê noticiou num instante que o conflito atingia toda a região.

Aconteceu que naquela tarde a trajetória da bala interrompeu João, que morava mal, cursava o ensino médio, lia o jornal todo dia, tinha sonhos e dores de cabeça, sofria no trânsito, tinha gastrite, sorria pra mãe, iria sair dali e comprar um casa melhor com o futuro emprego de ascensorista.

Aconteceu que João tinha sonhos.
Aconteceu que João era ninguém.
E nem manchete teve.

BANDOLEIRO (poesia para tempos de sangue)

meu coração é um coquetel molotov
que não posso acender, então explodo
a palavra, letra por letra até sobrarem
as tônicas abafadas, os objetos cortantes,
os desejos insones, os cacos, todo o lodo
da rua abafando a garganta e a liberdade.

meu coração no papel é vermelho rabiscado,
intragável, violento, azedo, uma bile
que trago enjaulada no peito, um aperto,
uma forma de desespero, sempre que eu vejo
a opressão embaixo de qualquer viaduto.
papelão, concreto, granito pontiagudo:
a real marca e presença dos nomeados ao estado.

meu coração é denso, rubro e maculado
uma tempestade, um combate sem céu,
que um dia sobre as escadas do palácio
acederá incendiário.

CANTO SECO (poesia para tempos de sangue)

hoje escreverei como quem volta do trabalho
sobremaneira, não direi nada
pois nunca se retorna do batente
nunca sairei do trem lotado
por isso o desgosto
o molho ansioso de suor
o desodorante enlatado
e as pessoas também

passam as estações
você pode estar tendo uma crise
passam as decepções
você pode sempre melhorar
passam as vidas inúteis
você pode estar dentro de um filme
se apenas você sumisse
esquecido além da velhice

estamos a trezentos dias sem acidentes
diz a placa na parede
estamos secos por dentro das mentes

sei que canto distante de casa
sei que o canto não resolve nada
sei que a fome às vezes passa
sei que a sopa na mesa é rala
sei que a voz é rouca e falha
sei que canso
sei que passo
sei que morro
sem abraço