Arquivo do autor:bethocardoso

Cortejo

Fruta podre.jpg

Imagem: Pinterest.com

 

Não mais que a dor.

Esta pausa breve, incômoda

de quando os frutos apodrecem, o alimento

esgota-se.

O vazio pronto. O amor vazio. Vazio. E

cantamos

assustados

por nos trazerem outra despedida, mais que a

nossa.

A primavera estranha das calçadas,

Talvez nascemos, menos.

Como um tiro que se escuta.

 

Valberto  Cardoso

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A terra escrita

Terra escrita

Imagem: Pinterest.com (Christian Hetzel)

 

Quasinada.

Um fruto na mão.

Sem nódoa, ferro

crédito.

Terra morta

sem pele,

recôndita.

Grito meu e do universo.

Amanhã,

Amanhã

Voltaremos

Com as repetidas flores,

ùnicas margaridas

a enfeitar

                      os corpos horizontalmente santos.

Valberto Cardoso

Um homem adormecido

adormecido

Imagem: Pinterest.com (Nikos Gyftakis)

 

Por mais que investigue

E não haja teto, lâmpada, fechadura

Uma evidência mais tátil

Eu vagaroso me aconchego

 

Um homem adormecido

Em sua bagagem simbólica

O ar de costas, modificado

Escuro, agônico, devidamente exposto

 

Como parte redobrada

História e arte

A instaurar-se sem porta

Medida, plano e arrasto.

 

Em que pesem vacilantes

Carne, amor, público,

Uma sinfonia vaga, personagem

Declínio e imagem.

 

Valberto Cardoso

Jardim dos Ruminantes

bosques

Imagem: Pinterest.com(Jen Evenhus)

 

Há mais árvores que homens.

E aludimos os bosques

À missão de escurecê-los

Como se fossem gruas lançadas

à corrente marítima

 

Contrário, outras qudrilhas se formam

Dependentes de luz e aroma

São jardins de ruminantes

Inscritos no amor distante

 

Ei-los adestrados em terras frias

onde perfuram os doutos títulos

e assim se encaminham à escavação

do ouro mínimo, com distinção.

 

E triunfam:

Há mais títulos do que nome.

 

Valberto Cardoso

 

 

De Abrahão para Beto – presente de poeta

 

Que a cachaça do Tempo me devore
A primitiva urina de cervejas.
Que me devore e a ti devolva
O rosto de pingente, de orelha.
Mas tão desconformado que a bebida
Como se um caminhão desordenado
Me enchesse de luz, silêncio, de outro.

E na noite ébria de tua ausência
Ei fosse vasto como dois biscoitos
Por me sentir da fome pertencido
Nas agruras da vida, esse vício,
Na adolescência nunca vinda, esse mito,

Que eu reinvento na dor e nesse grito.
Esse grito que são farpas na lira da palavra,
na corda vocal do amor de Hilda, em riste.

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Abrahão Costa Andrade

Os dias lindos – Carlos Drummond de Andrade

para Lolita, que me presenteou com o belo livro de crônicas – Os dias Lindos – de Drummond (Cia das Letras, 2013).  Aproveito e  proclamo: tem feito dias lindos de sois… (usando-se do ‘s’ dos recifenses). A vcs, boa leitura!
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Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: “Os dias ficaram lindos”.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.

A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.

O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença dos dias lindos.

Foi certamente num dia como estes que Cecília Meireles escreveu: “A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados”. Porque a primeira conseqüência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.

Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão. Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: “Repare como o dia está lindo”. Não precisa botar ênfase na exclamação. Pode até fazê-la baixinho, como quem transmite boato e não deseja comprometer-se com a segurança nacional. Mesmo assim, a afirmação pega. Não só o dia fica mais lindo, como também o ouvinte, quem sabe se distraído ou de lenta percepção sensorial, ganha a chance de descobri-lo igualmente. Descobre e passa adiante a informação.

A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.

Pode ser que o desconhecido lhe responda com um palavrão, desses em moda na sociedade mais fina. Não faz mal. Não se ofenda. Ele descarregou sobre a sua observação amical o azedume que ameaçava corroê-lo no íntimo. Livre desse fel, talvez se habilite a olhar também para o céu e a descobrir mesmo certa beleza esvoaçante no urubu. De qualquer modo foi avisado. Já sabe o que estava perdendo: a consciência de que certos dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente.