São Paulo V

Sombras refletidas nos prédios espelhados da Paulista
Homens brancos carecas ajeitam suas barrigas nos suspensórios
Arrotos de cifrões na tarde cinza

§

As sombras se movem nessas noites incólumes
paridas num ventre seco
São exumadas coreografias de criaturas estranhas
que não dançam
antes, serpenteiam sem nenhuma graça
Com trajes formais e
Gordas barrigas de suspensórios e cifrão
Mapeiam o escuro e calculam pilhérias
A escravidão possível

Arrotam lustres de ignorâncias e
contaminam infinitas distâncias

Em seus prédios espelhados
Gritam, vociferam contra os subalternos

Da guerra medida as úlceras não fecham
Do leite de papel nada desce por essa garganta seca

As noites derretem em claustros – usinas de fetos
Eles sabem
Estendemos nossos olhos para sepulturas que dão a perder de vista
Nuvens cinzas antecipam
Enxugam essa dor com os poucos medos que nos restam
Palavras jorram de poemas, muros, epitáfios – cores frias

As criaturas embrionárias de cifrões
Manipulam nossa euforia, nosso desprezo, nossa taquicardia
Mudam seu aspecto, vestem-se de outras sombras desvalidas
Calculam os dias e a morte
Dobram invólucros em 8 partes menores
Extrema unção decantada em curto pavio
E ainda sopramos a vela.

Leandro Rodrigues – de Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018.

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