Poema de RONALDO CAGIANO

D E S A B R I G O

 

O abismo não no separa,

                    o abismo nos cerca.

Wislawa Szymorska

 

De pequenas mortes

faz-se a morte derradeira:

do beijo negado

do amor inapreensível

da melancolia interditando as horas

da miséria que se arregala à nossa porta

do ritual diário de infortúnios

 

O corpo é testado

pelos rituais de cada manhã,

na liturgia que a guerra de nervos

nos impõe

pelo servilismo às convenções.

 

Em cada canto

a mesa posta

com seu farnel exposto

para a viagem ao descacontecer.

 

A existência se consome

amiúde

com seu cardume de insolências

nesse mar

vertiginoso e abissal

num fosso

onde os sentidos se desnorteiam

e a procela se impõe

como verdade e caminho.

 

O tempo,

deus totalitário e inclemente,

conduzindo o abrasivo

das Parcas

vem soldar o destino

que não escolhemos:

defenestração e desabrigo.

 

E o amanhã será apenas

confissão desse abismo

entre o chegar e partir:

 

banquete dos vermes

festa dos micróbios

na carne aviltada pelo desastre.

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