A mulher de meu pai

Antônio Mariano

 

Papai nos recebia sempre a contragosto quando a nossa mãe se hospitalizava e tínhamos que ficar na casa dele. Nós também não fazíamos questão de estar ali, não fosse razão de não termos nenhum outro parente na cidade e o atrativo daquela casa: a mulher dele. Ela tinha um quê de mistério que nos fascinava, que nos deixava de olhos cativos dela tão logo a víamos. Nosso pai não disfarçava o ciúme, se irritava, ralhava conosco o tempo todo, essa nossa mania de incomodar a sua mulher com o nosso olhar pegajoso. Ela simulava perturbação, mas no fundo parecia gostar de ser distinguida com aquele grau de veneração.

Éramos três garotos, sendo eu o mais velho com quatorze anos, o do meio com doze e o caçula com dez. Nosso pai, um homem de meia idade, sentia-se inseguro ao ver que a sua mulher era de uma geração mais próxima da nossa. Tinha receio de que com o passar do tempo ela começasse a se interessar por um de nós. Quando chegávamos perto dela ele apertava as sobrancelhas e emitia um brilho no olho que dava medo. Devia pressioná-la a não nos dar atenção, o que fazia com que ela nos dirigisse um tratamento artificialmente hostil, que nos doía mais do que o descaso dele.

Meus irmãos eram mais sensíveis à indiferença dela. Dirigiam-se a ela, chorosos, desejos da mínima demonstração de afetividade e iam aos prantos vendo que nada recebiam do que esperavam. Eu nada lhe pedia e nada esperava, portanto.

Um dia planejei uma forma de vingança. Contra meu pai e contra ela. Aconteceu às vésperas de nossa mãe receber alta do hospital, restabelecida até a próxima recaída.

Eu tinha aguardado pela oportunidade com a paciência de um religioso. A deixa veio no dia em que encontrei meus irmãos chorando com a indelicadeza dela ao pedirem um pequeno cuidado numa coisa de rotina.

Nosso pai havia saído depois de recomendações que não fez questão de baixar o tom de voz. Deveria voltar em pouco tempo. Eu teria que me apressar.

Quem mandou você entrar aqui? disse ela, assustada, quando me viu dentro do quarto do casal. Estava sentada na cama e lia algo.

Vim lhe dar uma lição, respondi.

O quê?, disse ela.

Para você aprender a tratar quem sempre lhe quis bem.

Sai daqui, fedelho, gritou. Seu pai já vem aí, tá sabendo?

Deixa ele chegar, respondi.

Ora, mas que audácia…

Avancei e lhe roubei um beijo. Toda noção que tinha daquilo era das cenas de novelas. Não sabia como era nem que gosto tinha colar os lábios em outra boca. Ela ficou sem ação, com os lábios tremendo entre os meus.

Como a mulher de meu pai não se movia, tripudiei.

Esse é por minha mãe, que nunca mais foi a mesma desde que você apareceu na nossa vida.

O que fiz com mais furor, mordendo e abanando aqueles lábios na mordida, como os cachorros num pedaço de carne fresca, como se quisesse arrancá-los fora.

Esse é por meus irmãos que você machuca todos os dias com seu desprezo.

E esse é por mim, contra você e contra meu pai.

Antes que nosso pai chegasse, nossa mãe nos pegou de táxi.

Ao chegar em casa, comuniquei o meu desejo de frequentar o mosteiro da cidade vizinha. Nunca beijei outra boca. Hoje, vivo numa clausura e pouco sei do ciúme dos homens.

 

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