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Notícias lá de CASA

Veio domingo, veio a tarde e fui caminhando sozinho pro bar onde foi o meu open house. Quando você termina um livro chamado CASA o que acontece é um open house, não é? Caminhei pela zona portuária do Rio prestando atenção no entardecer, nas folhas, nos galhos que dobravam e faziam as árvores sussurrarem o testemunho dos anos. Sons apenas para os transeuntes atentos. Um instante eu era um passageiro no bonde elétrico que corta a região, no outro eu era um escritor perdido em pensamentos pelas calçadas em busca de um bar. Seria o clichê perfeito para a crônica se o resultado fosse um copo, um traçado, uma pinga, mas o bar entra como cenário do lançamento de um livro.

Meu livro nasceu no bar, eu estava no balcão, meu lugar preferido para beber e oferecer autógrafos modestos e abraços sinceros. Meu livro nasceu amparado por uma casa editorial movida por uma paixão pela literatura. Obrigado Editora Urutau. Recebi escritores que considero maiores do que eu, recebi alunos, recebi desconhecidos e amigos de infância, recebi meus melhores amigos e recebi meu amor. Abri as portas da CASA e todos entraram radiantes de sorrisos e lembranças, colorindo as paredes da CASA como um arco-íris perfeito em uma tarde amena de inverno. Eu ofereço as páginas e cada leitor suas cores. O mais fascinante de tudo isto é que não se trata de um registro lírico de um poeta, e sim um registro biográfico e jornalístico de como a tarde realmente foi. A CASA é um sopro na voz dos leitores.

Tenho paredes de vento
Telhado de versos
Assim construí minha CASA

Não são tempos fáceis para a arte. Toda a poesia, por definição tornou-se “poesia para tempos de sangue”. Cada verso é resistir com inteligência num país que abjura sua ciência e estrangula sua cultura. Resta a página; a cada página uma vida e esperança que um dia todos poderão ler sem fome no país. Resistir é do homem. Lembrar é da História. Gritar a verdade, já e poesia.

Deixarei aqui apenas algumas fotos. Aqueles que quiserem mais, eu postarei na minha página de autor naquela rede social, o link é esse:
https://www.facebook.com/robertodutrajr/

Evoeh!

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PASSARINHO QUE COME PEDRA

Havia na rua aquele sujeito entrão, que gostava de se inserir na conversa e sorrateiro acabava filando uma birita, uma batata, um salaminho. Aliás, filão tem em toda rua e todo bar. Figura fácil do folclore carioca, não dorme no ponto, ri pra todo mundo, anuncia quando chega, diz o resultado do bicho em voz alta pro dono do bar e então encontra o alvo.
– Você tá aí atrás, Neneto? Rapaz, tá sumido. Como vai sua mãe? As crianças? Já está sabendo o resultado do mengão?
Sejamos muito francos, Neneto era Naldonir (filho do Seu Naldo e da Dona Irenir) e ficava uma onça quando o chamavam por esse nome. Sumido, só estava mesmo da vista do cunhado, que lhe devia uns cobres. Cá pra nós, ele evitava falar da mãe porque ela odiava a mulher dele e pra completar, sobre saber resultado, nem da pelada de domingo
– Opa! Deixeu brindar aqui com meu camarada.
O copo surgia como mágica e na distribuição de apertos de mão e tapinhas sonoros no ombro o danado já estava inserido no assunto que nem abajur em casa de vó. Primeiro, dizem que trazia um copo americano no bolso da bermuda e como um prestidigitador de boteco, nem pedia no balcão, era o cumprimento numa mão e pimba, o copo aparecia na outra. O abajur, olha, esse tava lá na sala da minha velha, imóvel, decorativo e ninguém sabia quem tinha colocado ali – nem ela – e mesmo assim ninguém tirava o treco de lá. Eu sei que a história é esquisita, mas a minha avó também era e eu não estou aqui pra enfeitar o entrão da rua melhor do que isso. Como o abajur da minha avó, ninguém sabe de onde surge um encosto desses, então prossegue a história.
Devia ser um domingo de tarde, daqueles de final de mês, Pará e eu batíamos perna pra terminar de gastar o pouco que tínhamos e resolvemos mudar de ponto de pileque, justamente pra evitar o tipo. Note que nem nome eu faço questão de dar pro fulano. Estou pouco ligando se o péla-saco pode ler isso um dia, não dou o nome porque só me interessa o caso, não o chupim.
– Porra, Pará, você só atrasa a vida mesmo.
– Ah, não mete essa! A cabocla já tinha endereço marcado e você sabe. Na verdade, eu te livrei de um embaraço, isso sim.
– Porra nenhuma! Isso quem tinha que decidir era ela. Doidinha, perdida, do jeito que eu gosto.
– Oxi, to dizendo que já tinha boto na área e ia ficar feio pra você.
– Isso ninguém tinha como saber.
– Eu conheço.
– Conhece nada. Além disso, o que se come nessa birosca? Vamos ficar de cerveja e cachaça o dia todo?
Fome e birosca nem sempre é uma combinação vencedora numa tarde de domingo. Descansando no berço esplêndido da vitrine lambuzada do balcão da birosca, naquelas baixelas de aço que deviam ser patrimônio cultural da baixa gastronomia carioca, o jiló triste, pastel mole, ovo rosa e umas batatinhas douradas com lingüiça. Não tivemos dúvida:
– Ô meu bom, serve essas aqui pra gente.
– Ih, rapaz…
Pronto, tinha que ter uma pegadinha.
– Seguinte, deixaram cair uma pimenta nessas batatas e nessa lingüiça e ninguém quis. Vou avisando que tá pra macho, essa aí.
Isso tava fácil, que Pará e eu não recusávamos uma pimenta. Traz a baixela, duas pingas e uma cerveja que o resto, deixe que resolvemos aqui entre nós.
Pra ser bem sincero, as batatas estavam meio ardidas, mas desciam alegres gogó abaixo com cerveja ou pinga. Energético melhor não há, desde os tempos de J. Cristo. Ainda tinha um pãozinho pra agarrar o molhinho vermelho. Ia embora a tristeza, a sinusite, a coriza, as cordas vocais e as tripas dos desavisados. Estava perfeito o grude.
Pará e eu estávamos rindo um da cara do outro quando o chupim chega pela porta todo alegre e cheio de graça, distribuindo apertos de mão e tapinhas no ombro para chegados e desconhecidos. Um verdadeiro louvor de puxa-saquismo emoldurado em azulejos encardidos. Não deu pra escapar, porque no fundo do bar ninguém escapa e sabíamos que aquilo iria acabar ancorando ali na nossa cola. De onde aquele boçal tirava o raio do copo?
– Fala Pará, Fala Betão.
Fuzilei o cretino com meus olhos já vermelhos. Odeio que me chamem de Betão. Betão é… é… deixa, que todo mundo sabe completar a frase.
– E a patroa Pará? Espero que esteja bem. Seu pai, vi hoje mesmo. Estava lá na esquina, na birosca do Santos.
De repente, não mais que de repente, Pará, que sempre gostava de sair como sujeito bacana pra todos, estava partilhando a cerveja. Daí pro garfinho chegar na lingüiça e na batata, foi na mesma hora.
– Upa! Valeu mesmo rapaziada, vou provar um pouquinho.
Pouquinho foram logo umas quatro rodelas de lingüiça, mastigadas rapidamente pra caber mais na mala e logo ele tava com a segunda batata entre os dentes. Pará me olhava sério, e fazia que prestava atenção. Estava como que em uma pausa dramática, pela mastigação do recém-chegado.
O chupim terminou de engolir e já tava com os olhinhos cheios d’água. Tentou pegar mais ar, passou a mão no peito, mas a blusa já estava desabotoada, que malandro não abotoa blusa nem em velório.
– Eita rapá! Que pimenta! Não gosto assim não. Me ajuda aí, padrinho, onde vocês colocaram pimenta pra eu pegar um naco sem e cortar um pouco o ardido?
– Em tudo! – Respondemos, com os olhos esbugalhados diante da erupção do Vesúvio que acontecia na nossa frente.
Olhei pro Pará e ainda disse:
– Eita, porra! Falamos ao mesmo tempo.
Pará, muito solícito:
– Calma que já passa, não bebe água, que piora.
– Ai, padrinho, calma nada, acho que vou… vou precisar da chave. Meu chefe, adianta a chave do banheiro aí, meu chefe, que a situação não vai prestar.
Ele se dirigiu ao fundão do bar. Banheiro fica sempre no extremo sombrio da birosca. Estava vermelho, o suor descia pela testa em gotas brilhantes, tinha passos calculados, se arriscasse uma corrida o derrame acontecia ali mesmo, diante de todos. Assim, certo como o destino de toda cerveja é o fundão do bar, aquela erupção, aquela morte súbita, foi devastar a louça de Pompéia. Esta última, surgiu na história com propósito ilustrativo, de final menos digno, mas que sucumbiria soterrada como a cidade da antiguidade. Por outro lado, se bem me recordo, aquele banheiro era como se fosse uma peça de antiguidade também. A verdade é que “deu merda” tornou-se eufemismo naquela tarde.
Quando ele voltou, Pará descascou, com uma malícia diabólica:
– Se a beiçola não agüenta a ardência, não pode comer fogo, porra!
– Comer fogo? Eu cuspi fogo!
Daí, o resto virou lenda. Não teve perdão. Era Beiçola e ficou pra história das bocas de álcool da redondeza. Beiçola dobrava a esquina e alguém dava o alerta. Preparar contramedidas, garrafas a postos para reposição e até quem não era de pimenta pedia uma pra deixar por perto. Demorou pra deixar de ser motivo de gargalhada no meio dos pinguços e ser apenas o Beiçola. Pará pediu pros parentes enviarem umas pimentas da terra dele e fez uma mistura especial, que chamou de beiçola e ganhou até rótulo, com uma das letras em chamas, que sugeria uma rosquinha ardendo. Ambigüidade igualmente diabólica para os que conheciam os fatos inglórios daquela tarde. Ele e o pai venderam pros bares e deu pra levantar uma graninha. O Beiçola continuou sendo o mesmo, mas nunca mais petiscou de espertinho com Pará, nem comigo.

O BAR DO BEIJO

Todo cronista entende de memórias de bar. Sentado sozinho na mesa, quantas vezes, quem nunca? Destino certo daquele que não suporta nem a própria companhia. A noite é uma mera sucessão de horas indistintas, pois se parecem e passam inexoráveis, mas também sozinhas.

Em certas noites há o violeiro, o cantador do sereno, do amor, seja ele correspondido ou não. Ele sempre fica no fundo do bar. A luz sempre falha ali e às vezes ele perde a letra. Fundamental é não deixar de se envolver pela noite. A bossa soa como se a noite emanasse do violão. As pessoas movem-se lentas, escorregam pelo balcão. O cachorro chega sonolento, como que em câmera lenta – poderia ser também efeito de alguma luz estroboscópica – , e cheira as pernas de todos. Neste momento, o violeiro está tão intimista que o cachorro se chega como se ali houvesse um tapete. O lugar era dele, sob o calor das luzes, que nem acendem mais. O cachorro se deita no lugar onde se iluminaria, caso as luzes funcionassem – sabedoria animal, certamente. O cachorro é o cliente mais antigo dali.

Nos bares mais sofisticados há mesas para fregueses espaçosos e estes, são chamados de clientes. Não é deste lugar que estou falando. Embora exista uma mesa e meia no salão. Há uma mesa e mais quatro cadeiras extra, estas contam como meia mesa. É tecnicamente a mesma coisa, só que sem a mesa. Há uma televisão, que quando não habitada por poltergeists, exibe imagens em vermelho e verde fora de sintonia. Não dura muito. Ninguém ousa desligar esse aparelho. Ninguém menciona que o bar foi erguido com o suor de descendentes de escravos que ainda eram praticamente escravos. Morreram ali, mas não se sabe a história. Eles nunca veriam um aparelho de televisão. O dono do bar diz que por isso não permitem que as imagens fiquem nítidas. Algo como suas freqüências serem próximas. Coisas da ciência inexplorada dos ectoplasmas.

O bar é um ecossistema não estudado. Os estudantes de biologia esqueceram aquele habitat. Alguns cronistas apenas observam, outros não conseguem erguer a cabeça do balcão. O violeiro anterior a este, maledicente, dizia que chutava rato morto enquanto tocava. O dono não gostou. Os fregueses, se conseguissem levantar a cabeça das bordas das catuabas, quinados, traçados e afins, também concordariam com o dono. Maledicente o rapaz, o rato, que era vivo e atuante, antes de dormir fazia o serviço do cachorro espantando os gatos da casa. O dono sente falta do rato. O dono não sabe o nome do cachorro, mas o rato era quase da idade do filho dele.

O filho do dono do bar ficava no caixa e ria com mais dentes que um pacote de pastilhas de hortelã aberto. Nas noites de violeiro, a namorada senta com ele no caixa e pede músicas. Ela gosta de digitar os números e ri quando a calculadora faz um barulhinho calculador. A tecnologia é porreta, ela ria.

A televisão funcionou quando as Torres Gêmeas foram alvo. Alguém levantou a cabeça e pensou que fossem fogos de fim de ano – adiantados, claro. De certa forma, foi mesmo um fim. Quando o presidente negro assumiu o aparelho transmitiu em três cores. Os funcionários passaram a achar que o poltergeist de escravos expressava sua opinião assim.

Uma vez alguém entrou acompanhado. Os bebuns ombreando o balcão levantaram a cabeça. Eles sentaram na mesa, na única mesa. Ela não quis colocar os braços na mesa, era grudenta. O dono passou um pano. Ficou grudenta e molhada e ela fez nojinho. Ele pediu um quinado. Ela disse que era quente. O quê? O lugar, a bebida ou a atitude? Ele disse que o beijasse que ele também estava quente. Foi um beijo pensado, sem abraço, mas sentido, sem língua, mas com entrega, e sincera. O violeiro parou, o cachorro latiu, a televisão funcionou (o filme da sessão coruja era uma pornochanchada, e o filho do dono riu). Os cronistas acordaram e o dono achou que era um gol do América que era comemorado.

Desde então, o bar dos maus companheiros de si mesmo chama-se Bar do beijo.

A VOZ DO BAR

Todas as noites ele se arruma, pensa na camisa correta, se vai usar um chapéu ou se pentear, repassa detalhes e então pega o violão. Ninguém vê este esmero, mas existe, no fundo do bar, em consonância com a voz que faz a trilha da noite. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar.

Sozinho, na frente de todos, mas nem tão visível, ele continua com um acorde menor. Segue-se uma bossa. Alguém apregoa em voz alta o nome do compositor. Ouvem-se palmas solitárias, que logo silenciam. Ninguém para de falar para ouvir a nota preciosa, o intervalo da harmonia, a flexão correta dos dedos.  As cordas dançam suaves no corpo do violão. Um burburinho, como uma revoada de gafanhotos, alastra-se por todas as mesas do recinto. A voz estridente da gorda explode em uma gargalhada acima do teto. Há cheiro de alho e gordura, frango a passarinho poderia ser a colônia da estação. Um casal há duas mesas dele estava em uma clara crise conjugal. Ela estava furiosa porque ele nunca passava as camisas que usava. Todos gesticulavam, um claro ritual de atenção a ser cumprido. Um grupo estava de pé, todos com um copo em uma das mãos e com os queixos caídos diante da televisão. O choque geral com o time, que aos quarenta e quatro do segundo tempo, baixara as defesas e o adversário invertia o rumo da partida a seu favor, selando o destino do favorito com uma quase goleada e a eliminação certa do campeonato.

Pausa para virar a página das cifras das músicas que apresenta todas as noites, então reinicia. Diz uma vida que não é a sua. Cada canção um personagem diferente assume a sua voz. Um palco mínimo com uma tempestade de personagens amalgamados na expressão do violeiro. Tranquilo, distante e ao mesmo tempo envolto em si. Poderia ser comparado a um poderoso iogue, nada desviava-lhe a atenção da sua meditação. No caso, da canção que interpretava. No meio da algazarra, a indiferença das crianças ao menos era sincera. Alguém lhe entrega um papelzinho com um pedido. A caligrafia desafiava um professor experiente. Não sabia se era algo sobre uma piña colada ou o primeiro verso do Caymmi. Poderia ser algo sobre uma rede em Itapoã com uma piña colada. Há sempre mistérios da música popular brasileira circulando entre as mesas de bar.

Olhe bem, amor, preste atenção, de cada amor tu herdarás só o cinismo. Entre tudo mais, cada momento, entre cada gole a voz dele lhe marcará. Cada uma das centenas de vidas invadirá suas memórias entre a desilusão amorosa e a eliminação do campeonato, o lamento do violeiro que entende todos, a verdadeira voz do bar. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar e ela comunga com todos.

A VIDA NÃO TEM JEITO

– Vou sair.
– Vai pra onde?
– Pro Centro, na praça.
– Vai sozinho?
– Não, o pessoal da escola vai estar lá e os professores também.
– Vocês deveriam ir pra aula.
– É atividade extra-classe. Aula na rua.
– Olha se isso acaba em confusão.
– Claro que não! Atividade ao ar livre, nada de mais. De vez em quando é bom sair da sala, viu?
– E precisa levar mochila?
– Como assim?
– O que tem na mochila?
– Um bloco, uma caneta, outra camisa…
– Leva água!
– Vou pegar uma garrafa agora.
– Tem na geladeira.
– Não né! Coloquei água num pet de refrigerante. Eu posso jogar fora depois de beber.
– Deixa o dinheiro da passagem separado.
– Está separado no bolso de trás. Fica tranquila.
– E volta quando?
– Não sei. Antes de anoitecer. E pára, que a senhora já está fazendo inquérito. É uma aula como outra qualquer, só estaremos na praça. Tá bem?

Despediu-se com o sorriso trincado, como de costume, mas feliz porque o garoto parecia ter entendido tudo. Afinal, não havia por quê se preocupar. As notas estavam altas, então tentava não se opor muito aos programas do garoto. Ele não era tão diferente dela mesma na idade dele. Ainda observou pelo muro baixo o garoto descer a rua até o ponto de ônibus. Depois retornou para dentro da casa e começou a organizar as costuras da tarde.

Com a casa silenciosa, parecia que o tempo se desdobrava. Começou com os consertos simples, botões e bainhas que os vizinhos traziam. Ela mal cobrava por certos consertos. Muitos vizinhos a ajudavam com outras coisas, então não se sentia confortável em cobrar. Mesmo assim, se não pagavam, retribuíam com um bolo, uma carona ao posto de saúde, livros pro garoto, o que conseguissem pensar.

Terminou as costuras miúdas e resolveu pegar na cortina que preparava. Estivera na sala da cliente semana passada e fez as medidas precisas. O pano lhe fora entregue logo em seguida. Tudo chuleado com esmero. Aos olhos de todos estaria perfeito.

O sol descia e ela pensou em passar na cozinha para uma pausa e um café. Foi quando a Norminha entrou e perguntou se ela estava com o rádio ligado. Não estava, mas precisava ligar. Já que a Norminha havia entrado, que esquentasse o café. Ela pegou a manteiga e o bolo de fubá. Ligou o rádio e perguntou à amiga o que se passava. Norminha nem precisou se explicar, o rádio já interrompia os comerciais para notícias de última hora.

– Está acontecendo um tumulto no Centro, a polícia está com o batalhão todo na rua.

Enquanto isso a vinheta elétrica, que sempre introduzia as piores notícias, rasgava a tarde e cessava para a voz metalizada e com um reverb funesto, que dava um tom macabro à voz do locutor de notícias policiais, que transmitia ao vivo, in loco, o tumulto deflagrado no Centro. A polícia havia localizado uma célula de subversivos em plena luz do dia. Todos em uma concentração, ou comício, não sabiam, mas estando na frente à Câmara dos deputados coisa boa não seria. Todas aquelas pessoas ali, sem um rumo aparente, alguns estavam até sentados no chão, enquanto os líderes pregavam palavras de ordem para quem quisesse ouvir.

– Esses subversivos não tem mais vergonha na cara. Imagina, se reunir sem nenhum motivo na frente da instituição política mais séria da cidade.

Ouviam quase atônitas aos berros ao fundo, que rasgavam a narração na voz indiferente do radialista, que dizia que polícia apenas cumpria seu dever. Eram tempos perigosos aqueles, em que uma pessoa não podia mais sair à rua sem correr o risco de esbarrar com uma manifestação suspeita, um grupo de arruaceiros, havia vagabundos em cada esquina. Era preciso ter esperança que tempo melhores viriam. A vida não tinha jeito assim.

Ao final do dia, estranhou que o garoto não veio. Perguntou pra Norminha se o filho havia voltado pra casa; voltara. Atravessou a rua e perguntou do filho da Fátima; voltara. O filho da Clementina também. Todas consternadas, desconversaram. Até o fim da noite todas reuniam-se na sala dela, que não entendia com clareza o que as amigas tentavam explicar. Era aula ou não era? Era, mas a polícia não quis saber. Foi truculência, alguém gritou. Não foi consolo, ela agora entendia menos ainda e alguém tinha que dar um jeito que ela queria o garoto de volta em casa. Onde que tá?

Depois das nove da noite, dois homens de farda entram pela casa, seríssimos com notícias ainda mais sinistras que o cinza das roupas e o ruído de botas. Olhando as luzes vermelhas do giroscópio da viatura parada em frente a sua casa, ela levou as mãos à boca e entendeu.

– A vida não tem jeito, viu Norma?

Réquiem para Toda Poesia

Eu não quero relativizar a morte de Ferreira Gullar. Para minha coluna de hoje eu reuni algumas das anotações que fiz rapidamente. Não quero ter paciência para discutir a importância da obra ou aspectos da vida deste homem que tanto admiro. Foi poeta, resta ao mundo a obra; foi um homem de seu tempo, viveu para si e de acordo com o que acreditava, colocou sua vida em risco por isso. O que conhecemos da vida hoje é um passeio no shopping center, Gullar foi ao céu e ao inferno de sua época e isso é mais do que todos da minha época fizeram.
Calo minha pena pela eternidade do minuto e reabro os olhos mais lúcido que um poema. O morto apenas morre, eternamente, infenso à realidade que insiste.

Minha primeira impressão, a notícia da morte.

Eduardo Rocha, o artista que ilustra a zonadapalavra, ligou para mim, pela manhã e disparou a notícia que eu ainda não vira em nenhuma mídia. Há anos somos amigos e Ferreira Gullar, por representar um ponto de encontro com a poesia e as artes plásticas, também pautou nossa amizade. Sempre admiramos Gullar e não perdíamos oportunidades de ouvi-lo falar ao vivo. Além do pesar de não ter conhecido mais o autor que tanto admiro, escrevi algumas linhas, que reproduzo abaixo. Não tinha intenção fazer nenhum poema extraordinário, mas a lição é que, diante da morte, só na arte encontramos respostas.

Era a manhã de dezembro,
o dia tomava a vida.
Era a manhã de dezembro,
não era poesia.
Era a manhã de dezembro
e a voz do poeta sucumbia.

Nada se sentia além,
a vida continua, infensa
ao corpo
ao ar,
ao  b a r u l h o  incendiando
o  ú l t i m o  ruído.

Era a manhã de dezembro,
o poeta Ferreira Gullar partia
e acendia-se o espanto
em Toda Poesia.

Segunda impressão, a lembrança da obra.

Já fui acadêmico. Hoje não sei com clareza o que sou. Ferreira Gullar é o poeta brasileiro que mais me impressionou e não exagero em dizer que é minha maior influência sempre que escrevo. Dediquei alguns anos da minha vida pesquisando sua obra, tanto poética quanto crítica. Muito do que eu entendo sobre arte hoje vieram das explicações dele sobre a contemporaneidade e suas vanguardas. Minha primeira reação ao choque da sua morte foi rabiscar algo. Agora, acho justo oferecer, a quem se interessar, alguns textos.
Depois da minha defesa, liguei para Gullar, que me recebeu em seu apartamento. Entreguei-lhe meu texto,e ele cordialmente agradeceu pelo tempo que dediquei estudando seus poemas. Eu era tímido demais e mal consegui conversar muito, estava assoberbado pela sala com móbiles, livros, pinturas e objetos de arte sobre os quais apenas havia lido a respeito, mas reconhecia ao primeiro olhar. Hoje entendo que tanto quanto a admiração, meu respeito pela privacidade do artista me emudeceu.

Link para minha dissertação sobre a poesia de Ferreira Gullar:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=7212%401

Link para um artigo sobre o livro A luta corporal:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/rev_escrita.php?strSecao=input0

Link para artigo historiográfico sobre Ferreira Gullar:
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/terraroxa/article/view/24736

Terceira impressão, um poemínimo sentido.

Todo o conteúdo desta coluna nesta segunda-feira, eu considero como um tipo de crônica. Apenas, ao invés de ficar remoendo elogios e ressentimentos sobre a vida de Ferreira Gullar, onde não consegui ser um escritor mais objetivo ou um poeta mais armado, preferi ser de alguma utilidade para o leitor da zonadapalavra e acrescentar algum conteúdo extraliterário.
Para terminar, mais uns versos que valham.

perdi a gravidade
sou poema
sussura a palavra
amena
a velocidade da vida
acena
que a beleza mesmo
pequena
faz a vida
plena

R.

contra-a-morte

Contra a morte, 2016. Fotopoema do autor.  Em.: http://www.instagram.com/robertodutrajr

 

A TRAMA INVISÍVEL

Segunda-feira, ah… Entra pelas narinas o cheiro da manhã, as marcas do campo urbano, fuligem, monóxido de carbono e pólvora. Claro, a selva de desodorantes dentro dos ônibus e, sim, o inigualável cheiro da pólvora dos cartuchos de fuzil utilizados na noite anterior. A vida na cidade é incomparável.

Valer-se da segunda-feira para observar o Rio é algo peculiar. Já cedinho subir pela Avenida Rio Branco. Vá pelas cinco da manhã, pois nos próximos três quartos de hora tudo mudará tão drasticamente que você terá vontade de correr. Mas antes que uma multidão tome a calçada você chega perto de uma banca e lê as notícias frescas sendo estiradas pelos jornaleiros. Quem sabe passa pelo Largo de São Francisco e se deixa levar pelo cheiro da gordura de centenas de hambúrgueres que começam a ser preparados, para que na hora do almoço tenham atingido aquele ponto ressecado como uma sandália Havaiana que ficou no sol, para então serem servidos a todo tipo de gente faminta. Merece o refrigerante Pakera ou Tobi para descer. Azia estranha é certa e não faz distinção de classe.

Depois, ir caminhando pela Praça XV e deslumbrar-se com a multidão despejada de uma só vez pelas barcas. Experimente ficar parado. Todos caminham de uma maneira diferente, mas ninguém nota você parado na calçada. Por exemplo, ao lado do sinal de trânsito em frente à Assembléia (pode ser a rua homônima também, que é pertinho) observando, como que furtivo nas próprias roupas, os tornozelos das mulheres que passam. “Ah… eu amo a mulher que passa”. Obrigado Vinícius. Mas que bom se você pudesse beber comigo uma branquinha para distrair a garganta enquanto os olhos se ocupam dos tornozelos da mulher que passa. As curvas, as pernas torneadas e o calcanhar pressionado pelo salto. Que vontade de morder. Ai, se me adivinhassem o sorriso escondido. Que diriam elas caso se soubessem admiradas? Uma orquídea ou um beija-flor, tatuados, colorindo a panturrilha, quase passam despercebidos. Vamos morder os calcanhares da mulher que passa porque naquela saia vai meu coração despedaçado do final de semana.

De tarde, ir à Saens Peña, olhar para o céu. Sempre chove primeiro na floresta e as nuvens sempre querendo ficar mais, seguram-se no cume das serras. Cheiro de pipoca doce ou salgada traz também a saudade do Cine América. Bando de pulhas, vocês sabem, deixaram o cinema acabar, bando de carniceiros do pós-vida, isso sim. Odeio essa cidade enfeiada pelos assassinos do Cine América.

Eu vou voltar para casa. Quase me esqueço dos tornozelos da mulher que passa. A cobradora do ônibus berra comigo. Passo rápido e procuro onde me sentar. Um passageiro chama a atenção em voz alta e eu atento para a polícia distribuindo porrada e colocando gente na traseira do camburão, quando passamos pela Leopoldina. Cena igualmente carioca. Tento relaxar no banco e penso que a cidade, na verdade, é um conjunto de cenas que se repetem, aparentemente sem propósito, mas encadeadas. A cidade é uma trama invisível de pessoas. O motorista do ônibus acelera.