PARALELO ENZIMÁTICO 46° 40’ – nove movimentos pelas ruas de São Paulo

I

Destes todos poetas
de dúvidas e baratos
exala um jeito de resto:
a gastronomia do gasto.
Os que empacam e
param no ato,
cortando,
retocando o indispensável,
cavam a troca
do already made (o já era)
pelo não desfeito.

II

noite clara visão subterrânea
penetrantemente longo suor
os lábios
lambem os
beijos balas e pavor
subvertente corrente paralela
corrida veloz (ruas)
cidade rebelde
acabar sim
como camus e james dean

III

Terroristas em tiroteio:
ferida a faca e bala, a
fala.
Poesia em oposição:
não mais
frase de efeito sobre o fato,
mas fincar, ferir defeito
no flagrante da relação.
Placa de platina,
faca de alumínio,
busca de Plutão:
deslocar, agravar,
falsear.

IV

quase manhã de dia a dentro
reinventando
nada
entre memória e lenda
respirando rente ao chão
pó por entre todos os poros
o mau humor deste mundo todo
sujo e lento
fumando
bogart e godard
entrelaçado invento
paciência de espera lenta
cético opor
nada
entre um e outro tempo

V

Inferir a ordem,
inserir, ferir,
fincar.

VI

mundo inundado de
filme negro fumaça morcego no ar
antena de rápido radar
anda
por ecos ondas e nós

VII

Incerto errar
por aí
percorrendo em paradas
equidistantes,
contínuo equilibrar
de inconstâncias.
Nada de mágica,
muita matemática (furada)
forças em fúria e
a calma serena
do acerto de contas.

VIII

bocas abertas buracos escuros
becos
elos pesados
impõem lógica
aos sons
ordem e revolta atando nó
na espera
dia áspera visão

IX

nada de graça
grandes cobranças
muita memória (depositada)
fogos de artifício
grades, jogos, lembranças, jaulas
multiplicadas feras sons
rotas tiros e metas
rajadas faixas quânticas
o universo
em gotas e
comprimido
compreensão não
correr sempre percorrer
nada

Frederico Barbosa

Poema do livro Na Lata – Poesia Reunida (1978-2013), a ser lançado dia 6 de junho de 2013.

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Sobre Frederico Barbosa

Poeta, professor de literatura, organizador de oficinas de criação poética e performer de poes ouia, publicou oito livros de poesia como Nada Feito Nada (1993, Prêmio Jabuti), Brasibraseiro (2004, Prêmio Jabuti), com Antonio Risério e SigniCidade (2009), a coletânea Cinco Séculos de Poesia (2000) e a antologia de poesia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002), com Claudio Daniel. Foi curador da primeira biblioteca temática de poesia do país, a Alceu Amoroso Lima, em São Paulo. Foi, durante alguns anos, crítico literário dos jornais Jornal da Tarde e Folha de S. Paul. Foi Diretor da Casa das Rosas desde a sua reinauguração como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura em 2004 até 2016 e foi, entre 2008 e 2010, diretor executivo da Poiesis – Organização Social de Cultura, que administra a própria Casa das Rosas, o Museu da Língua Portuguesa, a Casa Guilherme de Almeida e as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Foi colunista da Rádio Estadão com o quadro Poesia Viva. Atualmente é professor do Colégio Equipe e Coordenador Cultural do Instituto Equipe - Cultura e Cidadania.

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