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A CASA é sua, pode chegar pro lançamento.

 

Lance o verso fundamental e a CASA surge.

Falta pouco, menos de uma semana, na verdade.
Há um lançamento no Rio de Janeiro.
Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade.
Será no próximo domingo à tarde, para constar como o passeio geral (todo mundo mesmo) e esticarmos numa conversa bem amigável.
Haverá abraços e assinaturas.
A Editora Urutau fez um evento no Facebook. Eu pretendo postar reflexões poéticas e outros absurdos durante esta semana.
O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Nesta tarde, a CASA posou pra sua primeira sessão de fotos.

primeira foto da casa

A todos eu entrego as chaves da CASA.

AS CHAVES

que chave você abre
quando quer se fechar
naquilo que sabe?
onde cabem
as estranhas formas de amar,
os pedidos de seda e as
palavras de armar?
naquele tolo encaixe?
não cale o lascivo.
esse equilíbrio sem sentido
de tudo que queremos escravo.
agora diga que não sabe
agora peça que não pare
agora venha e me fale
coisas delicadas e bobas
que mancham a camisa
respingam a saia
com cores boas e confissões,
tons de verdades inventadas.
tudo mais em nós é cartada
vislumbre de uma sala.
o cego contorno da pele rara
entoada em cantigas em braile,
nos dedos, a fala.

qual delírio cabe
quando se quer se fechar
naquilo que se abre?
onde pôr
as entranhas e as marés do mar,
as ondas de suor e o esforço,
esse querer remar?
todos somos tolos, relaxe.
abra o mel da libido.
esse carnaval e
as malas, a atravessada
risada da vida dobrada nas roupas
usadas, tudo passando
ala após ala e
um beijo.
o equilíbrio desmedido
do nunca e do sempre,
o impossível balanço entre
o rente e o quente.

agora morda, torça sem força.
agora ouça o curso da boca.
agora rouca, o que restou da
fala respira.

tudo mais em nós é essa voz
tão rasa, uma pressa molhada
essa escrita borrada em cada
canto da casa.
esse pronto alívio, essa brisa na cara.
esse perfeito vislumbre da vida,
que mesmo calada
aquarela a tela
e desfalece,
que a moldura
ampara.

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O lançamento da CASA

Tenho paredes de vento e o telhado de versos, assim construí minha CASA.

Este mês a Editora Urutau lançará o meu livro de poemas. Acho que este deve ser o momento em que um autor mais está despido, ou despistado na confusão entre a pessoa que ele é e o autor que nele surgiu. Pelo menos eu sei que estou me sentindo assim. Para mim escrever sobre mim mesmo parece mais complexo do que uma resenha, uma crônica ou um poema. Assim, serei breve.

Inicialmente parece difícil sintetizar o que quero com este livro. E é preciso querer na verdade, pois o livro não surge simplesmente. Eu quero que este livro possa ser lido em voz alta e  nos silêncios de cada biblioteca pessoal. Com um livro, o poema que aconteceu em mim, agora poderá acontecer em cada leitor que assim o queira.

Há um lançamento no Rio de Janeiro. Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade. Há uma capa fantástica bolada pela editora. Será num domingo à tarde, para constar como o passeio da família e esticarmos numa conversa bem amigável. Fizeram um evento no Facebook. O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Verifiquem com os amigos e encontro todos lá para abraços e assinaturas. Abaixo segue uma degustação com a capa, o texto da orelha e um dos poemas.

a capa da casa

A orelha da CASA

Enfim um novo livro de Roberto Dutra, jr. Não que o autor tivesse ficado em silêncio, mas já se foram vinte anos desde que seus primeiros poemas surgiram, em uma edição remota, lançada no Rio de Janeiro, que está esgotada e desaparecida. Nesse ínterim, ele foi editor de revista acadêmica, resenhista, contista, cronista, revisor, tradutor, escreveu um monte de orelhas como esta, aconselhou outros tantos autores e até vendeu cerveja no carnaval carioca. Ele se diz orgulhoso de ter colaborado com o Panorama da Palavra, jornal literário que circulou pelos anos 2000 na cena carioca, que promovia leituras com poetas no teatro e foi dirigido pela jornalista Helena Ortiz. Roberto atuou como fotógrafo, escreveu matérias e foi considerado um dos poetas prata da casa nas leituras promovidas naquela época. Seus poemas aparecem nas antologias Escriptonita (Patuá, 2016) e Porremas (Mórula, 2018). Tenho certeza que neste momento ele está algo entre fulo e risonho com este texto, pois não é sujeito dado a retrospectivas. Não chame o amigo anárquico que pra escrever as orelhas, olha no que deu.

Roberto acredita na obra por si, sem apresentações. O que deve circular é palavra, se não repetirem o verso, ainda não está pronto pra boca do leitor. A ideia original de CASA também veio da amiga Helena Ortiz que o convocou anos atrás com uma quase ordem (com sotaque de gaúcha): “Não faças plano, não faça nada. Estás pronto e está tudo escrito. Pega o que tiver de melhor e coloque tudo junto. Alguns livros são assim. Coragem.” Pois é amigo, está feito. Um tanto de metalinguagem, introspecção e respeito pela palavra. Sei que só parou de consertar versos na véspera de entregar tudo pro Tiago Rendelli, da Urutau. Sei que isso deve ser a marca do autor que você se tornou. Esta orelha merece ser mais do que uma apreciação do seu texto, então se tornou uma brevíssima crônica da história deste livro.

Leitor, siga direto para o poema “Plano” e leia em voz alta. Declame até, se algo lhe fizer sentido. De que vale ter a sua CASA se não pode subverter a ordem de tudo?

Boa leitura a todos.

Com um abraço amigo do

Gregório dos Santos

(Eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores, eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo

ANGÚSTIA (poesia para tempos de sangue)

não há luta
também não há vagas
empregos tampouco
a estática, a deriva
a massa, a medida coletiva
a mídia, a medida preventiva
as mesas ainda flutuam
na inatividade da vida
a vergonha pública
os corredores acesos
as portas trancadas
os carros, os mesmos
os rastros nos acessos
as fraudes de peso
os funcionários fantasmas
o dinheiro, este sim, não ectoplasma
desmaterializa-se com as matas
os borra-botas e cabotinos
atados às suas pastas
o poder desfaz-se dos tontos
o poder está pronto mas não
cabe nas mãos de todos
sobre os ombros de todos
resta dentro de todas as casas
o rastilho
o contido
seria grito
ou seria fome?

não há luta
alguém escuta
no silêncio?

ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

ATO PÚBLICO (poesia para tempos de sangue)

eu sei que se atravessasse a rua
atravessasse a faixa
abaixasse a cara
e deixasse a caminhada
minha mão encontraria a sua

eu sei que luta é longa
que a vantagem é pouca
que a boia falta
e ainda por cima a vida
é curta pra levar tanta porrada

eu sei que estamos cercados
que a cidade exuda fogo e esgoto
que as bombas surgem no lugar do diálogo
e que a esperança não vale o que pagam
vergonhosamente ao fim da jornada de trabalho

eu sei que quando atravessar a rua
rompendo a fúria descabida dessa guarda
driblando as botas como um santo de várzea
e surgir invicto de susto borracha e bala
minha vida encontrará a sua e de mãos dadas incendiaremos o país

a poesia explode a realidade

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais