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CARTA NA MESA, MESA POSTA.

Olhei entre os papéis espalhados sua sombra.
Espargia-se em borrões perpassando folhas
amareladas, ora cinzentas, ora esquecidas
na madeira gasta pelos cotovelos.

Invadiremos cidades e pesadelos, será nossa obra.
Enigmas em caligrafia mansa, em sonho as escolhas
não tem sentido como neste branco flanco, nossas vidas
um novelo tecido em contrapelo.

Aqui na mesa abriremos os prelúdios do tempo.
O esquecimento presente faz-se inteiro,
escorrendo pelas bordas qual toalha no pensamento,
qual passagem corpórea, qual brilho derradeiro.

Serviremos no corpo a palavra, qual trilha simbólica.
Sangue e carvão, com que se eriça e freme
a pele, e nem sequer um ai se diga do desejo íngreme,
das montanhas nuas, da escassez que fica.

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PASSARINHO QUE COME PEDRA

Havia na rua aquele sujeito entrão, que gostava de se inserir na conversa e sorrateiro acabava filando uma birita, uma batata, um salaminho. Aliás, filão tem em toda rua e todo bar. Figura fácil do folclore carioca, não dorme no ponto, ri pra todo mundo, anuncia quando chega, diz o resultado do bicho em voz alta pro dono do bar e então encontra o alvo.
– Você tá aí atrás, Neneto? Rapaz, tá sumido. Como vai sua mãe? As crianças? Já está sabendo o resultado do mengão?
Sejamos muito francos, Neneto era Naldonir (filho do Seu Naldo e da Dona Irenir) e ficava uma onça quando o chamavam por esse nome. Sumido, só estava mesmo da vista do cunhado, que lhe devia uns cobres. Cá pra nós, ele evitava falar da mãe porque ela odiava a mulher dele e pra completar, sobre saber resultado, nem da pelada de domingo
– Opa! Deixeu brindar aqui com meu camarada.
O copo surgia como mágica e na distribuição de apertos de mão e tapinhas sonoros no ombro o danado já estava inserido no assunto que nem abajur em casa de vó. Primeiro, dizem que trazia um copo americano no bolso da bermuda e como um prestidigitador de boteco, nem pedia no balcão, era o cumprimento numa mão e pimba, o copo aparecia na outra. O abajur, olha, esse tava lá na sala da minha velha, imóvel, decorativo e ninguém sabia quem tinha colocado ali – nem ela – e mesmo assim ninguém tirava o treco de lá. Eu sei que a história é esquisita, mas a minha avó também era e eu não estou aqui pra enfeitar o entrão da rua melhor do que isso. Como o abajur da minha avó, ninguém sabe de onde surge um encosto desses, então prossegue a história.
Devia ser um domingo de tarde, daqueles de final de mês, Pará e eu batíamos perna pra terminar de gastar o pouco que tínhamos e resolvemos mudar de ponto de pileque, justamente pra evitar o tipo. Note que nem nome eu faço questão de dar pro fulano. Estou pouco ligando se o péla-saco pode ler isso um dia, não dou o nome porque só me interessa o caso, não o chupim.
– Porra, Pará, você só atrasa a vida mesmo.
– Ah, não mete essa! A cabocla já tinha endereço marcado e você sabe. Na verdade, eu te livrei de um embaraço, isso sim.
– Porra nenhuma! Isso quem tinha que decidir era ela. Doidinha, perdida, do jeito que eu gosto.
– Oxi, to dizendo que já tinha boto na área e ia ficar feio pra você.
– Isso ninguém tinha como saber.
– Eu conheço.
– Conhece nada. Além disso, o que se come nessa birosca? Vamos ficar de cerveja e cachaça o dia todo?
Fome e birosca nem sempre é uma combinação vencedora numa tarde de domingo. Descansando no berço esplêndido da vitrine lambuzada do balcão da birosca, naquelas baixelas de aço que deviam ser patrimônio cultural da baixa gastronomia carioca, o jiló triste, pastel mole, ovo rosa e umas batatinhas douradas com lingüiça. Não tivemos dúvida:
– Ô meu bom, serve essas aqui pra gente.
– Ih, rapaz…
Pronto, tinha que ter uma pegadinha.
– Seguinte, deixaram cair uma pimenta nessas batatas e nessa lingüiça e ninguém quis. Vou avisando que tá pra macho, essa aí.
Isso tava fácil, que Pará e eu não recusávamos uma pimenta. Traz a baixela, duas pingas e uma cerveja que o resto, deixe que resolvemos aqui entre nós.
Pra ser bem sincero, as batatas estavam meio ardidas, mas desciam alegres gogó abaixo com cerveja ou pinga. Energético melhor não há, desde os tempos de J. Cristo. Ainda tinha um pãozinho pra agarrar o molhinho vermelho. Ia embora a tristeza, a sinusite, a coriza, as cordas vocais e as tripas dos desavisados. Estava perfeito o grude.
Pará e eu estávamos rindo um da cara do outro quando o chupim chega pela porta todo alegre e cheio de graça, distribuindo apertos de mão e tapinhas no ombro para chegados e desconhecidos. Um verdadeiro louvor de puxa-saquismo emoldurado em azulejos encardidos. Não deu pra escapar, porque no fundo do bar ninguém escapa e sabíamos que aquilo iria acabar ancorando ali na nossa cola. De onde aquele boçal tirava o raio do copo?
– Fala Pará, Fala Betão.
Fuzilei o cretino com meus olhos já vermelhos. Odeio que me chamem de Betão. Betão é… é… deixa, que todo mundo sabe completar a frase.
– E a patroa Pará? Espero que esteja bem. Seu pai, vi hoje mesmo. Estava lá na esquina, na birosca do Santos.
De repente, não mais que de repente, Pará, que sempre gostava de sair como sujeito bacana pra todos, estava partilhando a cerveja. Daí pro garfinho chegar na lingüiça e na batata, foi na mesma hora.
– Upa! Valeu mesmo rapaziada, vou provar um pouquinho.
Pouquinho foram logo umas quatro rodelas de lingüiça, mastigadas rapidamente pra caber mais na mala e logo ele tava com a segunda batata entre os dentes. Pará me olhava sério, e fazia que prestava atenção. Estava como que em uma pausa dramática, pela mastigação do recém-chegado.
O chupim terminou de engolir e já tava com os olhinhos cheios d’água. Tentou pegar mais ar, passou a mão no peito, mas a blusa já estava desabotoada, que malandro não abotoa blusa nem em velório.
– Eita rapá! Que pimenta! Não gosto assim não. Me ajuda aí, padrinho, onde vocês colocaram pimenta pra eu pegar um naco sem e cortar um pouco o ardido?
– Em tudo! – Respondemos, com os olhos esbugalhados diante da erupção do Vesúvio que acontecia na nossa frente.
Olhei pro Pará e ainda disse:
– Eita, porra! Falamos ao mesmo tempo.
Pará, muito solícito:
– Calma que já passa, não bebe água, que piora.
– Ai, padrinho, calma nada, acho que vou… vou precisar da chave. Meu chefe, adianta a chave do banheiro aí, meu chefe, que a situação não vai prestar.
Ele se dirigiu ao fundão do bar. Banheiro fica sempre no extremo sombrio da birosca. Estava vermelho, o suor descia pela testa em gotas brilhantes, tinha passos calculados, se arriscasse uma corrida o derrame acontecia ali mesmo, diante de todos. Assim, certo como o destino de toda cerveja é o fundão do bar, aquela erupção, aquela morte súbita, foi devastar a louça de Pompéia. Esta última, surgiu na história com propósito ilustrativo, de final menos digno, mas que sucumbiria soterrada como a cidade da antiguidade. Por outro lado, se bem me recordo, aquele banheiro era como se fosse uma peça de antiguidade também. A verdade é que “deu merda” tornou-se eufemismo naquela tarde.
Quando ele voltou, Pará descascou, com uma malícia diabólica:
– Se a beiçola não agüenta a ardência, não pode comer fogo, porra!
– Comer fogo? Eu cuspi fogo!
Daí, o resto virou lenda. Não teve perdão. Era Beiçola e ficou pra história das bocas de álcool da redondeza. Beiçola dobrava a esquina e alguém dava o alerta. Preparar contramedidas, garrafas a postos para reposição e até quem não era de pimenta pedia uma pra deixar por perto. Demorou pra deixar de ser motivo de gargalhada no meio dos pinguços e ser apenas o Beiçola. Pará pediu pros parentes enviarem umas pimentas da terra dele e fez uma mistura especial, que chamou de beiçola e ganhou até rótulo, com uma das letras em chamas, que sugeria uma rosquinha ardendo. Ambigüidade igualmente diabólica para os que conheciam os fatos inglórios daquela tarde. Ele e o pai venderam pros bares e deu pra levantar uma graninha. O Beiçola continuou sendo o mesmo, mas nunca mais petiscou de espertinho com Pará, nem comigo.

COISAS

Observe as coisas, elas se ramificam ao sol.
As coisas erguem seus galhos para o alto e sonham as próprias sombras.
Deixadas no gramado, as coisas podem facilmente ser confundidas com o azul.
Mordem sem serem sentidas e deixam marcas perenes na pele.
As coisas podem ser cingidas de sangue, como as palavras.
As coisas circundam os objetos na estante, também podem acomodar-se nas palmilhas.
As coisas se tocam e se perdem, dando voltas em transe.
Coisas perdidas sentam umas sobre as outras nas esquinas, não querem voltar, mas prendem-se nas bainhas e uma vez que cruzam a soleira tomam para si os rodapés.
Assumem tantas formas e ainda assim podem ser invisíveis, como o ar, que é tempo preso entre ponteiros.
As coisas podem ser como lâminas de metal — frias testemunhas — entre sempres, nuncamais e novamentes.
Certas horas, as coisas apenas existem entre paralelos do planeta.
As coisas não se pertencem.
As coisas se esquecem quando caem da cômoda da memória.
Não pise nas coisas, toda rudeza fratura no ponto de coda.
A natureza das coisas é a incerteza.
Alheias ao tempo dos dias, as coisas permanecem em silêncio, intocadas de desejo.
As coisas permanecem no mesmo.

FRAGMENTOS MARINHOS

Carreguei este peixe no meu ventre.
Farfalhar de espuma e risadas durante o dia, uivo submerso durante a noite.
Sombra na água interna do corpo, cartilagens, brânquias, lâminas, sangue de vidro, pele de couro, palavras impronunciáveis como lixas na língua áspera de ofensas.
Mergulho insondável e chamas líquidas.
Vi brotar nadadeiras onde dorso nu havia.
A pele dividindo-se em padrões geométricos, ora branca, ora enegrecida, por vezes tão confusa e revoltosa na água, que desaparecia e tudo era um gelatinoso rumor salino, elétrico, viscoso, opaco – redemoinho do ocaso.
Leve a história agora.
Num grão de sal a fala do mar, além do vento será

anágua de prata na calma
a luz do luar assim paira
vivágua brilha e talha
dança nas ondas peixe-criança

 

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TORRE DESPERCEBIDA

os olhos tão cansados da invasão da tarde
há tanta dor no sol e nas ruas
a realidade arde por cada fresta
da torre as horas se anunciam sem vozes
os homens rendem-se em anunciações
o mais acontece silenciosamente
a vida e a fila contorcem rumores
alimentando a distância
(o longe aguarda na outra calçada)
os pássaros desarvorados riscam o ar
a torre amarga e dobra
não está nos passos nem nas folhas da tarde
os carros na rua nem vermelhos param
não está no astro combalido que suspende a chama
o vento rodopia morno
como se perdesse coisa rara
coisa fina coisa abstrata
longe a torre grita
a vida anoitece sem drama

ARMADILHA

eu sei que você não vem
falha e imprecisa sua anunciação
reparte a tarde e não tem nome
o que resta entre o canto dessa voz
e a escuta imprecisa que ora falha
ora antiga ora amiga ora vila
de de vontades enfileiradas
agora é imagem que dentro tarda

eu sinto a linha tênue
entre as armadilhas de vento
entre sons e nomes nos corredores
e escadarias
não há mãos ou pés nessas passagens
as portas abertas nada dizem
pensamos a ausência como um nome
uma armadilha entre lugares.

incêndio ou insônia
o brilho na face
não diz
nem sonha

de longe a liberdade nos retalha

SENTIDO

Nas ruas,
entre pernas, autos, semáforos,
debaixo das marquises,
com ou sem saltos,
soam sirenes
(que são passos sonoros da urgência).
A borracha relincha no asfalto
quente.
Tantas pessoas
(suas cabeças quentes)
invadem a esquina, a padaria, a sapataria,
a calçada, a faixa de pedestres,
atravessam o beco e entram
pelo saguão do edifício.
Despacham, debitam, liquidam:
– Está na mão o que você nem precisa!
Ao longo das lojas, ao longo da avenida,
a sinfonia grave
(sua cadência no calçamento)
o viaduto grave,
o coletivo grave,
o suor grave,
os ouvidos graves
(calados)
Na constipada garganta
o grito
(não há).
O apito interrompe
o passo, o intervalo, o descanso.
Não há que se contrariar,
todo andamento é manso.

Quieto no tempo das ruas
o grito
(pavio em chamas)
devora as entranhas de novo.