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A CONTA A VIDA

O poema quer ser samba, e engana-se
G. dos Santos

observo pela janela
já estou atrasada
não há de ser nada
uma voz dentro me passa
a conta sempre se paga
meu passo logo se alarga
a conta e a vida
as duas atrasadas
que jeito amiga
amarga semana
a rua toda borrada
é tanta gente atrasada
tantas rodas calçadas
portas demais e fechadas
como se faz com o país
não há de ser nada
ora se atrasa
ora sempre cansada
uma hora se acredita
em outras horas cabeça baixa
que além disso não há nada
não há de ser nada
mesmo vazia a bolsa
mesmo triste o comício
mesmo sem amores na escada
mesmo o nó na garganta
mesmo longe dos amigos
mesmo o lamento contido
e essa conta atrasada
não há de ser nada
além da batucada
o samba arrasta no velório
a vida tão curta que passa
o refrão também atrasa
não há de ser nada

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INVISÍVEL

 

La tua coscia distacca di sull’altra…
Dilati la tua furia un’acre notte!
Ungaretti

trouxe meu corpo crivado de palavras

derrubei a parede com o furor
da língua

— melhor, recomeço atento o verso, preciso ter a noite —

derrubei a noite com o furor
do verso e a parede cedeu
temente
meu verso nômade sou eu

sei que ofendi o céu
não me arrependo
da morte da noite entre os dedos
fiz a coxa e assoprei-lhe os pelos
um canto negro na raiz da pele

os fios da madrugada
seu fim invisível
furor e estiagem
tudo está perdido agora

primeiro o verbo
depois a morte
então apenas demora

esse lago imenso onde a noite deita
entre os braços

O INEVITÁVEL ESTRANHO

Passa de meia-noite na América do Sul.
Arfando a madrugada, cravo os dentes no tempo.
Desmembro seu galope com meus dedos
e ferido de morte entre corredores
tramei meu canto mensageiro.
Resta escrever que nada tenho:
A aridez deste verso engasgado,
O verso que falta na garganta,
O cão na alma rangendo nomes.
Infernizo as gavetas sem receio
encontro açudes ressequidos e repito:
De que vale este meu estio?
Tantos ecos fragmentários,
suas marés e arquipélagos insones.
Há um leito ressequido entre o delírio
e o arbítrio vivo do vinho.
Sei que tudo que realizamos um dia
será pensado por outros,
ou relegado ao esquecimento.
Quem me sonha nessa escrivaninha?
Ateio fogo ao corpo.
Não há outra saída.
Tantas cartas jogadas na cama,
essa fogueira,
essa fera desatada.

VIDA QUE SEGUE

Segunda-feira, Ah! O cheiro da manhã invade as narinas com suas marcas do front urbano. A fuligem, o monóxido de carbono, a flora variada de desodorantes dentro do vagão do trem, os cartuchos vazios dos tiroteios da noite anterior escrevem a cidade nas pessoas. A vida é incomparável.

Já pensaram no comportamento de aglomeração é uma característica carioca? É traço cultural? Será que apenas eu acho que carioca adora uma fila? Tenho pensado nisso. De uns anos pra cá foi instituída até a fila para almoçar. Pessoas e bandejas repetindo no meio do dia um comportamento que antes havia apenas em quartéis militares.

Onde há espaço, alguém organiza uma fila. Eu me questiono se isso é um comportamento adquirido ou replicado. Suponha um largo, uma praça, uma área dentro de um supermercado, um estacionamento, a esquina da sua rua, as possibilidades são infinitas. Alguém logo interrompe o curso habitual dos passantes para estabelecer uma fila. Não são necessárias perguntas, há algo de internalizado em tudo que acontece depois que as duas primeiras pessoas se dispõem em algo que se assemelhe uma configuração ombro a ombro, aquela, que em certos locais também é conhecida como “indiana”. Também é verdade que o carioca é capaz de compor a fila mentalmente, guardando os lugares dos outros na mente e dispor-se como mero aglomerado de pessoas, mas que se apresenta no guichê de acordo com a ordem de chegada, um sistema que também se poderia descrever como um sistema de senhas imaginárias.

Repare: depois que a fila se configura, qualquer transeunte disponível logo se coloca de guarda para que ninguém se coloque na sua frente. Há guardas na fila, e o comportamento é cuidadosamente controlado de modo que, só fica configurada a má fé quando alguém se coloca quase naturalmente, como se sempre estivesse ali, dois passos na frente de o outro e se alinha na procissão. As reprimendas virão em seguida, é certo. Outra figura que logo que auto-intitula de poder ativo é organizador da fila. Este insiste em dispor as pessoas em uma ordem mais lógica, usando a voz ou simplesmente gesticulando. Como um cão pastor, logo que indica a direção aos desgarrados, estes corrigem suas posições. Surgem fitas de contenção, que fazem com que as pessoas percorram um trajeto mais organizado ainda e que permite que se disponham o máximo de indivíduos no mínimo de espaço. Pessoalmente, acho que a palavra indivíduo perde todo o sentido nesse curral de gente improvisado com a naturalidade da civilidade dos cidadãos. Já não me surpreendo com a docilidade com que todos queiram ser organizados.

 A fila dá sentido àquele momento vazio nas vidas de muitos e abre a prerrogativa para que estranhos troquem experiências pessoais como se tivessem ido ao colégio juntos. É uma rede social da era pré-digital. Há o simpósio de doenças crônicas, onde todos expõem de modo competitivo o sofrimento causado por moléstias diversas. Tenho a impressão que se a fila demorar tempo suficiente alguma cura será encontrada. Não longe desse grupo há a reunião da praça, em que se dispõem grupos temáticos: a pauta de ódio aos maridos e demais familiares, as palestras políticas, a reestruturação do Estado, e os seminários de viagens feitas e em planejamento. Agora, se na fila predominarem os adultos jovens, haverá celulares, selfies e conversas de aplicativo para pulverizar nas redes sociais, em tempo real as notícias da fila, seguidas de comentários top. Alguém criará uma comunidade, uma página e um grupo de whatsapp para os participantes da fila, que permitirá a todos monitorarem suas posições relativas com o andamento da fila e de filas futuras. Contudo, ninguém irá procurar saber o propósito da fila em questão.

Depois de três horas há que deixe seu embrulho para demarcar o seu lugar na fila. Ninguém se move, nem cede o lugar. Há distribuição de senhas para ocupar o lugar do embrulho, que já é uma vantagem considerável em relação ao fim da fila. Alguns alugam os filhos para assegurarem os lugares para que outros possam entrar em outras filas, como a do banco, ou do mercado, sem perder o lugar nesta fila.

“A fila anda” e “vida que segue” já são frases emblemáticas do comportamento de fila. Mas eu odeio filas e o comportamento de manada decorrente. Ao mesmo tempo que nada me resta além de passar ao longo e suspirar “vida que segue”. Quase esqueço: até o final desta crônica, nenhuma das pessoas da fila que observei sabia a que se destinava a fila em que estavam.

 

QUESTÃO

 

perdi os sentidos
e as palavras logo
em seguida pereciam

desapareciam da minha fronte
e nem minha voz se ouvia
suja de dia perdida e distante

ainda há algo
não sei o que resta
na minha boca agora
silenciosa trama de ar
desfeita em sonho
a obra atravessa a janela
muda e serena parece vulgar
parece mudança parece outono

aqui é o lugar pois assim me parece
nas mãos borradas e escuras
a tinta nos dedos é a mais pura
incerteza clareza beleza
coisa rara que se queira inteira
crença besta que se rompe a fronteira
do querer saber dizer
vida

escrevo o epílogo ou ele me dita

as respostas me ignoram
as perguntas me imaginam
incisas

CRÔNICA

deixou tudo preparado
disseram que era preciso
vestiu a roupa
ela impede que seu corpo
seja um corpo
disseram que era vida
os pés protegidos
não entendem a terra
o peito coberto
sem vento
onde o ar corre a vida?
disseram que ainda respira
a pele não sente
vestida
não se fere ao tempo
o inverno não o toca
nada assim está exposto
os pedaços das calçadas
dentro de si
dúvidas silenciosas
nas janelas
vontades bem trancadas
nas gavetas
a folha de pagamento intacta
a mesa no canto pálida
o livro de ponto anônimo
o lenço no rosto úmido
disseram que ficaria bem

o sangue apenas na primeira página

NOVO COROLÁRIO

Os pássaros matinais são impossíveis.
O cão e o gato da casa são impossíveis.
Os vizinhos são impossíveis.
O bom dia é impossível
O aceno do jornaleiro é impossível.
Andar de mãos dadas é impossível.
O Sol é impossível.
Contar estrelas é impossível.
Os beijos, as flores, as lutas são impossíveis.
Não saia de casa:
também as ruas são impossíveis.
O sonho é impossível.
Sem luzes no palco os balcões
são trampolins suicidas.
As crianças são impossíveis:
uma questão de juízo.
O azul é impossível.

As demais cores ficam doravante canceladas em caráter irrevogável,
simples questão de contrários.

O amor na rua atropelado na faixa,
atravessado de incertezas retorcidas.
O para-brisa estilhaçado em mais
pedaços que os ossos
todos quebrados
da boca ressequida.
Sem alarde, façam o favor de circular.
Tornou-se impossível.

O povo é impossível,
a vida é impossível,
Você é impossível:
não cabe mais aqui.

Este é meu testamento:
Além do poema nada posso.
Leve para si minha vida,
quase rabisco entre os dedos.
Leve é a brisa
quando interrompe a palavra.
Esconde-se o sentido no horizonte
ou num vestido que passa.
Puro contentamento.
Sou impossível.