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Setembro chuvoso de 2018.

Querida, tenho saudades e aguardo notícias de todos daí. Setembro chegou chuvoso e com nuvens sombrias. Parece que o passado retornou e não quer deixar o tempo passar, entende? Domingo foi um dia estranho, fez sol e logo depois o céu obscureceu, mas não choveu. Pairou um clima estranho sobre a cidade, como se algo soturno estivesse zombando das pessoas na rua, ameaçando com ventos gelados e algumas gotas, mas sem desabar o toró de vez. Fiquei com aquela sensação estranha que não sabia se me protegia ou abria o peito para intempérie.

Tenho trabalhado como posso e da maneira que dá. E não tem dado para muito. O apartamento vazio ainda, mas tenho um colchão e lençóis limpos. Passo na quitanda e compro vegetais para a sopa. É a melhor maneira de me manter alimentado e ainda ficar em forma. Não se preocupe quanto a isso, estou saudável e corado e distribuindo cores para esta cidade que parece cinzenta e inóspita.

Muitas reflexões; estar sozinho e longe faz isso conosco, não é mesmo? Tenho ouvido muito rádio. Tenho um ótimo que está tocando agora uma música do Belchior. Coloco perto do basculante para cozinhar e parece que o som até fica melhor. Coloco no banheiro também. É uma companhia. As pessoas ouvem as músicas de modo diferente hoje. Por que as pessoas não ouvem mais as canções de Belchior? Sou apenas eu, sendo pessimista, ou estarei certo? Olha o que ele diz agora: “não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve / correta, branca, suave e muito linda e muito leve / sons, palavras, são navalhas e não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”. Eu tenho me sentido muito assim, sabe? Agora acho que as freqüências do rádio atuam em sintonia com minhas emoções nessa carta. Talvez esteja exagerando, talvez todos tenhamos essa tendência meio paranóica, exagerada, quando moramos sozinhos.

Ontem, na padaria umas senhoras idosas brigavam pelo lugar na fila. Acho que estou sensível demais com tudo. Fiquei meio atônito vendo que quase se agrediram por tão pouco. Paguei minha média no balcão mesmo. Retornei achando que todos estão rudes aqui. Concreto demais, árvores de menos, muito noticiário e poucas crianças na praça, sei lá, esses grilos que batem de repente, ou um elemento estranho que sem motivo aparente desperta coisas obscuras dentro de nós mesmos. “Precisamos todos rejuvenescer”, é um trecho de outra música. Acho que talvez esteja sensível demais para tudo. Mas como evitar? Esse ofício de escrever deixa mareado e olhando fundo para reentrâncias pouco iluminadas de nós mesmos. Tudo sairá, é certo. Tudo vira palavra no tempo certo. Tenho feito progressos e o material está bom. “Isto também passará” é uma máxima zen que aprendi não sei onde. Sempre me vem na mente quando as palavras parecem empacar como cãibra no músculo. A gente grita, mas tem que encontrar a posição certa, movimentar pra passar. Será que estou ficando louco?

Você me disse da última vez que não sabe o que pensar. Eu lhe respondo agora que não importa o que pensar, desde que pense. Pense muito, sem parar, numa liberdade que só cabe dentro de você ou nas páginas do livro predileto. Para lá que vamos quando tudo mais parece distante da silenciosa paz de nós mesmos.

Estou lendo o livro que me enviou, aquele do George Orwell. Estou gostando da linguagem seca, rápida. Fico me perguntando quando ando pela rua se o amor será como no livro, algo sem verbo, um bilhete arde na mão com palavras desesperadas, subversivo. Escrevi na parede aquele trecho do Virgílio, uma mensagem pro Orwell: Omnia vincit amor. O livro pode ser sobre isso, mas desesperado. Diga o que pensa.

Muitos beijos em todos, pense em quando vem me visitar, escreva logo senão eu acabo colocando outra carta no correio ainda esta semana. Beijo, beijos, mil em você.

Seu, R.

typewriter types

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VENTINHO BOM

Uma escrivaninha em uma tarde. Tornada amarela em um gesto de dedicação, agora ampara seus livros, sua atenção, seu universo desdobrado em páginas. Há pequenas gavetas organizadoras onde canetas, papéis e lápis se distribuem sem disputa. São ferramentas do ofício, instrumentos de lapidar pensamentos. Há labor e prática envolvidos num despertar de individualidade. Há algo dentro de si que pede para sair assim que amadurecido. Há o ventilador sobre a escrivaninha, observando cada movimento, assim como um mestre, condescendente, acede conselhos apenas com um som da garganta. Seu zumbido constante embala as horas, que passam pela tarde, embora dentro dela prolongam-se em cada linha lida ou escrita. As ideias não voam simplesmente, são empinadas ao sabor do ventinho que lhe refresca o rosto. Talvez se percam em pequenos tornados em seus cabelos. Talvez naveguem na xícara que repousa mansa ao seu lado. A tarde prossegue lenta e sem distrações. Ela empilha leituras, uma após a outra em seu gesto particular de introspecção. Lá fora, crianças correm, como em qualquer tarde quente de jogos que serão esquecidos como apelidos infantis. Pouco a pouco um braço conquista espaço e um volume mais pesado é feito de encosto. Os cabelos se derramam e o cheiro de página nova não difere de relva mansa na memória. Algo vai acontecer, mas não será nesta tarde nem neste ventinho bom. Depois de bailar entre os dedos, também o lápis se deita.

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha: – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

 

 

Publicado originalmente na revista Diversos Afins, em 2015.
(http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-37/)

SUA CANÇÃO NA TARDE CHUVOSA

I.

Água
sangria de nuvens entojadas.
Manchas no céu descem
a manta cinzenta na tarde.
O ocre molhado da terra
arde nas narinas.

II.

Fende a terra de desejos,
matéria fria de seu pranto.
Do ruído firme de seus cântaros
encho minha página.
Eu lavo o meu canto.

III.

Quisera escrever seu nome na terra.
Quisera meus dedos manchados de céu.
A sua pele negra, quisera.

IIII.

Aceso, seu perfume incompreendido me mantém.

ANTICLÍMAX

Como posso ter problemas
Num dia como esse?
Lotado de pessoas mais importantes
Que eu e meus problemas.
Como ter poemas
Que lhes carreguem os problemas?

Minhas memórias são tão vazias.
Não são, afinal. Quem diria,
Nem enchem esta folha.
Correm de mim no mesmo dia.

Nascer e morrer,
Quanta alegria, quanta tristeza.
A ceia e o corpo na mesa dispostos,
Todo mistério assim se apresenta.
Sentam-se todos, repartem-se queixas.
O preço da vida pela hora da morte.
Felicidade é sorte e o desgosto
cabe na saia da morte.

Como posso ter problemas
Num dia como esse?
Repleto de complicações
Maiores que meus eczemas?

Na minha vida tão pequena
Pode ser este o problema, talvez.
Não há poema
Nem tamanha
Insensatez.
Já que a vida
– bem que disse –
É tão pequena.

CÁLIDA

há muito, meu amor, entre os lençóis
labirintos e quebrantos
o elenco de um sonho in italiano
o galope do desejo
distante de tudo que é perfeito
finito e puro, bate no peito
o abrigo que resta ao intenso estio

chamei-te pelo nome
e era cálida, cálice, alvorada
pradaria, gramínea orvalhada
assim chamei-te pelo nome

carrega-me contigo além do vazio
além da solidão da sala
a loucura da vida diária

há muito mais, amor, é pleno o corpo
de mergulho e assombro, uivo
terreno, vento contínuo
e o pecado é dos ingênuos