Poema de RONALDO CAGIANO

ELEGIA  DA  NOITE  INSONE
                        Eu creio que os labirintos são
                         signos evidentes da perplexidade.
                                                  Jorge Luis Borges
Quase os ponteiros mudando pro outro dia.
A rua é uma babel de silêncios,
a lua um espectro no esconde-esconde entre as nuvens.
No intercurso dos ventos, a memória pulula sem cessar,
esse rio insone povoado de lembranças.
Há uma procissão de insetos
cortejando o poste da esquina.
Um bêbado passa entoando delírios
sem saber que em frente à Tabacaria portuguesa
passou um Esteves sem metafísica
e desse lado do Atlântico
uma pequena tritura seu arsenal de chocolates
e o mundo continua o mesmo.
Há uma precisa orgia nas coisas
que deambulam nessa imprecisa madrugada.
A fatalidade dos escombros da alma
impõe um escuro luto na manhã que ainda não nasceu.
Há um jardim de flores mortas na casa ao lado,
nenhuma luz penetra em seus canteiros
a não ser a débil claridade fugaz dos vagalumes
serpenteando por esses descaminhos
tão lúgubres quanto os labirintos que me habitam.
Sinto o olor de folhas desidratadas
e os miasmas de suor dos sem-teto
que adernam no oceano de misérias das ruas.
Enquanto a sorte grande não vem
e o zika vírus comanda a passeata
dos infortúnios,
os pássaros sonados
tentando penetrar o confuso caminho de Dédalo
gaguejam melodias no ipê desmotivado
que viceja solitário na estação imprópria.
Há rumores de sapos nas cercanias,
a porta do condomínio se abre como uma boca ávida
para os filhos diários do anonimato,
criaturas automáticas
que saem nas manhãs burocráticas
e retornam nas tardes fatigadas.
Vejo lá fora… e
tudo parece um esqueleto do que não vivi:
em cada pedaço de asfalto, com suas cáries
e seus percalços,
há um acúmulo da ferrugem das idades,
essas concubinas de Chronos
que nos consomem e nos aviltam
no redemoinho permanente da perplexidade.
O mundo é besta
e o beijo nasceu morto.
Deus é uma ditadura.
Os olhos fechados da criança
que passa, intocada, no colo da mãe
ensina-me tanto quanto Platão ou
as verdades escancaradas nas dores do mundo.
Em vão procuro respostas,
as lembranças perseveram
como patuás no pensamento:
onde devo ancorar a existência,
se viver é perigoso?
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