Arquivo do autor:Antônio Mariano

Sobre Antônio Mariano

Escritor, poeta, leitor de mundo.

MANOEL BANDEIRA E A DEFESA DO INEFÁVEL

Antônio Mariano

Inefável, segundo a primeira acepção da palavra no Houaiss (2001), é aquilo “que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza; indizível, indescritível”. Tal se dá propriamente no amor e particularmente na poesia. Na reflexão dessa circunstância tão cara à lírica, o poeta Bandeira (1986:141 e 147) promove o diálogo de duas peças preciosas a essa demonstração, ambas integrantes do livro Lira dos cinqüent’anos, que por sua vez se insere no conjunto da obra do pernambucano, enfeixada em Estrela da vida inteira. Refiro-me a “O exemplo das rosas” e a “Pousa a mão na minha testa”.

Vejamos o primeiro poema:

Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:

– Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!

Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:

– Não será insensato pedir a esta rosa que fale?

Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

Municiando a boca do amante com argumentos que contestam as acusações da mulher insatisfeita por não ouvir declarações constantes de bem-querer, o poeta nos traz o conceito de amor como algo que se doa silenciosamente com o melhor de si, como abdicação do que lhe é mais caro, a própria vida, inclusive. O que conta são os atos, não as palavras, tantas vezes ocas de verdades.

Temos aqui o que poderia muito bem nos dias de hoje ser cunhado como um miniconto, e o conteúdo poético a essência dessa boa prosa. Entramos em contato com uma pequena história exposta em terceira pessoa do singular, em que há um narrador de fora, onisciente, expondo duas falas: a da mulher pretensamente infeliz e a do amante em posição de defesa. Pontuemos um trecho importante, os dois versos finais do poema, a fala do amante, em particular, onde é injetada sobremaneira a poesia:

– Não será insensato pedir a esta rosa que fale?

Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

Observamos que em sua fala o amante usa de analogia ao defender a sua ausência de palavras e se coloca na mesma condição da rosa que se mantém no seio da mulher até o próprio fim. Temos, portanto, uma relação de equivalência. O amante está para mulher assim como a rosa está para a mulher. O amante = a rosa. Um caso típico, portanto, da figura de retórica conhecida como metáfora. Conforme observa Pignatari (2005), isto se dá por similaridade, no primeiro eixo de associação ou organização das coisas, também chamado eixo paradigmático, em que há a recorrência a um modelo para construir a idéia. Ainda de acordo com esse raciocínio, os ícones são os signos da similaridade. Na mente do amante, rosa é a imagem da coisa que entrega toda a sua seiva (o seu sangue?) sem nada dizer além desse ato de eloqüência a que insensibilidade é surda.

“Pousa a mão na minha testa”, com orientação para a primeira pessoa do singular e dirigido a uma segunda pessoa, em que percebemos um tu tão bem acentuado nos vocativos e nos verbos, privilegia ao mesmo tempo as funções emotivas e conativas da linguagem, conforme a teoria de Jakobson (1977). Funções que, diga-se de passagem, estão bem realizadas no belo poema bandeiriano com seu sóbrio lirismo. Nele o poeta encarna um eu-lírico que dá continuidade à fala do personagem de “O exemplo das rosas”:

Não te doas do meu silêncio:

Estou cansado de todas as palavras.

Não sabes que eu te amo?

Pousa a mão na minha testa:

Captarás numa palpitação inefável

O sentido da única palavra essencial

– Amor.

 

A percepção de amor que o eu-lírico de “Pousa a mão na minha testa” sublinha é a do engenho da sensibilidade, não apercebível a olho nu, mas tátil mesmo, do pulso próprio de que sente a vida. As palavras, vazias de sentido para este eu-lírico, são incapazes de demonstrar seu fervor amoroso.

“O exemplo das rosas” e “Pousa a mão na minha testa” complementam-se para comprovar que o sentimento pode ter outra voz que não a verbalizada. São dois poemas em que, consoante a visão do poeta e ensaísta Ezra Pound, está mais presente a logopéia, “dança das idéias entre as palavras” (Ap. Pignatari, 2005: 39). O indizível aqui em nada incomoda e não é nenhum desafio ao poeta superá-lo. Ao contrário, possui sua carga própria de “alumbramento”, para referir uma outra peça do pernambucano. Portanto, contra esse inefável, para evocar o “Lutador” de Drummond (1987), temos, sem dúvida “a luta mais vã”.

NOTA: As referências deste pequeno texto estam em: ANDRADE, Carlos Drummond de. O lutador. In: Nova Reunião. Rio de Janeiro:José Olympio Editora, 1987; BANDEIRA, Manoel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio Editora: 1986; HOUAISS, Antonio e alli. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001; JAKOBSON, Roman. Lingüística e poética. In: Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1977; PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.

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ANSIEDADE MÓVEL

Antônio Mariano

 

Menina moça, 14 anos. Namorado novo. Conta alta do telefone convencional estourando o orçamento doméstico. A família resolveu bloquear totalmente as ligações. A casa caiu, mas por terra ficou. Ou bem se come, ou bem se telefona. E como nesta fase da vida não se sabe o que é meio termo, triunfou a primeira opção. No entanto, a comunicação era essencial para Daniela. Depois de muita chantagem com os pais, o primeiro celular.

 

O amado, dezoito anos, garoto esperto, fácil influência. Ocupado além do limite: faculdade, bolsa de pesquisa, uma banda de garagem hardcore. Só pode vê-la aos fins de semana, se tanto.

 

Ela o quer ainda assim, prioridade única. O telefone móvel compensará as ausências, beijo gostoso pra você, te amo muito, viu? Daniela, nunca desligue, tá legal? Se for dormir, deixe o celular na cabeceira da cama. Posso ligar a qualquer hora. Sim, Felipe.

 

A mocinha levando a sério a recomendação. De manhã, cheia de olheiras e indisposta para ir à escola, onde cochila, dispersão absoluta. Se a bateria cai, é um desespero, chora, se descabela. Será que ele ligou, meu Deus? Pouco depois, leva bronca:

 

Por que o celular estava fora da área? Onde você estava? Agora, não sei quando terei tempo.

 

Três dias e nem um toque. Mas pode ligar hoje. O dia é longo.

 

Às vezes chama, ela atende ao primeiro tom da musiquinha polifônica. Engano, droga.

 

Minutos depois, toca outra vez. Estava no banheiro, corre, descomposta, quase tropeçando com a calcinha no meio das pernas. Pelo visor, um número desconhecido de telefone convencional, talvez público. Tanran, tanranran, tanranran! Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após o sinal. Panran! Ele nunca fez isso, é certo. Quem sabe está sem grana. Pré pago, tem poucos créditos, mas atende.

 

Uma voz de mulher: Otávio?

 

Daniela: Que Otávio?

 

A voz: Quem é você? Que está fazendo com o celular de meu marido? Passa pra ele, já!

 

Daniela: O celular é meu.

 

A voz: Que seu que nada. Deve ser mais uma piranha que aquele cachorro arranjou. Estão num motel, né? Safados. Ele é casado, viu? Mulher e quatro filhos ainda pequenos pra criar. Passa o telefone pra ele, sua quenga!

 

Mas, mas…Daniela não sabe o que dizer de tão perplexa.

 

Impotente de argumentos, ela desliga no telefone na cara da mulher. Consulta os créditos. Foram embora quase todos nessa conversa idiota. Joga o telefone na cama. Soluça, que ódio.

 

O aparelho volta a gritar. Deve ser ela. Não atende. Ou será Felipe desta vez? Mais uma vez a maquininha zune, irada.

 

É aquela louca. Não vou atender.

 

A carinha se enche de inquietação.

 

E se for meu amorzinho?

 

Olha o telefone nervoso na mão, o vibracall na última freqüência. Pelo identificador, o número é outro, de fato. Pode ser ele desta vez, sim. Atende. Chamada a cobrar.

 

Alô!?

 

Pausa. Barulho de carros passando. Vozes diversas. Algaravia.

 

Alô!?

 

Nenhuma resposta. Ansiedade, ponta fina, vazando o coração da pequena amante.

 

Alô!? Fala, por favor.

 

A única comunicação que lhe chega agora é o som estúpido, irritante, tu, tu, tu, que o fim dos créditos trazem. Raiva, impotência, vontade danada de chorar. Tu, tu, tu, menininha, estás só.

 

A mulher do pescador

Antônio Mariano

 

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O marido nunca a beijara na boca. Como nunca tinha experimentado, falta não sentia. Ao invés disso, experimentava algum nojo quando via outros casais nas praças, na praia e noutros lugares cheios de gente. Até os censurava. Normal achava que no lugar disso ele somente lhe desse uns cheiros sôfregos e nervosos no pescoço nas horas em que pensava nela como mulher.

Na vazante, ele pegava a jangada com outros dois pescadores e entrava no mar. Não importava a hora, manhã, tarde, noite, madrugada. Ali, na caiçara que servia para guardar os instrumentos de pesca e para moradia, ela esperava com a sogra a volta de seu navegante. Acontecia demorar dois, três dias para o regresso, mas sempre com um saldo que lhes valia alguns dias de sustento.

No retorno ele era recebido com alegria. Não era homem de grandes arroubos, mas demonstrava na face o contentamento com a recepção. Procurava se pôr a par do que aconteceu na sua ausência e tudo tornava à rotina.

Um dia, ela viu na tevê de um bar próximo a forma como um casal se comportava num retorno de viagem. Desta vez encontrou beleza na cena, imaginou ela e o seu homem no beijo da novela.

Uma ansiedade a tomou e à noite não se conteve. Perguntou se ele já tinha beijado na boca.

Não é coisa de gente séria, respondeu o pescador.

Desde então evitou a menor menção ao assunto com o marido. Mas continuou a pensar e achar bonito o que via na televisão, nos cartazes publicitários, nas pessoas próximas da rua, que naturalmente esmagavam e colavam uma boca na outra como se desde sempre os órgãos formassem uma peça única.

Durante muitas vazantes a jangada do pescador voltou a cortar as torrentes do mar. Ela fazia passeios na areia, conheceu um rapaz que deslizava sobre as águas em cima de uma prancha. Dias passaram. A maré levava e trazia o navegador. Com exceção de uma vez em que ele calculou mal a língua de uma onda. O sol decrescia corando o horizonte. Nessa hora ela experimentava o seu primeiro beijo.

Ao longe, a voz de um cantador:

Estava na beira da praia

vendo o que a maré fazia;

quando eu ia ela voltava

quando eu voltava ela ia”. 

Borbulhas, borbulhas

Antônio Mariano

 

– Seu porra, você não garantiu que tava tudo certo, que a gente podia entrar no mar com segurança? gritou o patrão quando surgiu o pequeno furo no casco do barco. Ah, seu viado safado, incompetente de merda.

Fechei a cara e baixei a cabeça, deixando-o falar, com razão. Estávamos muito longe da praia. Tinha me acostumado ao som dos seus gritos. Qualquer erro, por menor que fosse, não havia tolerância. Ele começava a ralhar e parecia não parar tão cedo.

– Gosto de trabalhar você, Nau, me disse ele certa vez. E não é pelos teus serviços, que eu posso encontrar melhores e pagando menos. Gosto trabalhar com você pela tua discrição, tua falta de curiosidade pelas coisas que fazemos aqui e também pela tua falta de amor próprio, de não ligar com os meus excessos, de não se ofender até quando xingo a tua mãe, tua mulher, teus filhos.

O trabalho era pesado e ele apenas mandava, se esgoelava. Quando eu pedia um ajudante, ele desconversava, dizia que muita gente o faria perder o controle da curiosidade, que vigiar um era mais fácil do que dois ou três estivadores bisbilhoteiros.

– Seu filho da puta, seu corno imbecil. Eu devia te matar. Dê graças a Deus que a arma está do outro lado, se não eu já teria arrombado a tua barriga com um tiro de 12 e te jogado pros peixe comerem.

Às vezes, em casa, eu sentia falta daquela matraca nos ouvidos. Insuportável dependência aquela que eu desejava um dia me livrar.

A ira dele aumentava à proporção que a água invadia o interior do barco com uma velocidade impressionante e começava a molhar, estragar tudo. Tínhamos ido mais uma vez ao outro lado da costa para transporte e descarrego de uma tonelada do seu precioso produto, que eu nunca sabia exatamente o que era. As coisas eram e não eram dele, dependendo das vantagens e desvantagens do momento. Ele me indicava alguns endereços aonde eu ia com uns envelopes e pedia o barco, pedia os produtos. Os sujeitos entravam numa sala e voltavam com a indicação de lugares. Eu assumia uma cara esperta e eles entendiam que eu sabia do que se tratava, que não precisava entrar em detalhes.

– Se um dia der confusão, Nau, eu salto fora e você assume todo o negógio. Você não me conhece, nunca me viu. Não se preocupe que no final você vai ter uma boa recompensa.

A superfície estava intacta quando saímos para a viagem do outro lado da costa. O orifício veio do nada. Sabe-se lá como aconteceu. O fato é que o barco está descendo e já estamos com água pela cintura. A gente sabia o que iria acontecer em pouco tempo.

– Ah, Nau, você me paga. Ah, como me paga. Quando eu chegar em terra eu vou à forra no cu da tua mulher. Você nem imagina, vou rasgá-la com tanto gosto.

E pela primeira vez eu o vi rir, gargalhar mesmo.

– O buraco no rabo dela vai ficar maior que o desse barco.

Fim de semana, calmaria, não se via ninguém a milhas. Nunca em minha vida tinha visto a água tão clara, transparente a ponto de vermos a areia lá longe, no fundo do mar.

Quando a água nos chegou ao pescoço e o barco começou a ser sugado, o patrão se deu conta que não sabia nadar. Os coletes salva-vidas estavam boiando a poucos metros.

– Vai lá, meu bom rapaz. Pega as bóias e traz para cá, depressa.

Pela última vez obedeço ao patrão. Desta vez pela metade. Pego os coletes e vou me afastando enquanto ele engole água e suplica que eu volte. E como é doce o tom de voz do patrão. Não me distancio muito. Só o suficiente para contemplar o quadro, como numa larga tela de cinema, vendo e ouvindo as borbulhas do patrão que desce até o fundo do oceano. Ah, desse som eu quero lembrar.

 

O DESTINO TRÁGICO DE TODO HOMEM

Antônio Mariano

 

Esplendorosa manhã de sábado, disse em voz alta para quem pudesse ouvir, ele, admirador da língua dos bacharéis. O servidor público federal Otávio Lamartine Bezerra apreciava o tempo sentado num banco à sombra de uma acácia da tranquila pracinha, quando um pombo pousou aos seus pés. Havia um pequeno cilindro de alumínio preso a uma das pernas da ave. Portava uma mensagem. Ele não resistiu à curiosidade. Com muito jeito agarrou-o e, desenrolando a tirinha de papel, leu o que nele estava escrito:

 

O destino trágico de todo homem é a solidão.

 

Cercado por dúvidas, Otávio leu por muitas vezes essa frase curta e tão absoluta. De quem esse pássaro seria portador de algo que a princípio lhe pareceu tão cifrado? E por que coincidiu de ser exatamente ele, um senhor bem casado e bem amado, prestes a realizar bodas de ouro com sua Penélope? Por que foi ele a ler aquilo?

 

Uma pessoa cercada de parentes, amigos e vizinhos solidários em quaisquer momentos difíceis da vida, esta a definição que o servidor público federal Otávio Lamartine Bezerra, costumava dar de si mesmo.

 

O destino trágico de todo homem é a solidão.

 

Bom pai, bom filho, bom esposo, bom colega de trabalho, bom vizinho. Como um homem assim poderia ser atingido pelo pior dos estoicismos? Essa pergunta ele também se fez na manhã sombria da segunda-feira quando foi notificado da inclusão de seu nome em um dossiê sobre desvio de recursos do Programa contra a Fome e a Miséria do governo federal, seus dados pessoais declinados na imprensa falada, escrita e televisada, ele apontando nas ruas, sua casa apedrejada.

 

Mulher, prole, amigos e vizinhos eram bons demais para estar ao seu lado. Bons demais. Bons filhos da puta, gritou, para ninguém ouvir.

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* Primeiro parágrafo (com intervenções deste narrador) de Cláudio José Lopes Rodrigues, a partir de um exercício do Clube do Conto da Paraíba.

CORVOS

Antônio Mariano

 

Nunca mais. Paz, meu amigo, nunca mais! Corvos reconhecem rostos humanos, concluíram as pesquisas de um biólogo da Universidade de Washington. Ao ler a notícia sobre o trabalho de John M. Marzluff, senti um descompasso no peito, desabei numa cadeira, oprimi a cabeça com as duas mãos e disse baixinho: e agora, meu Deus?

Corvos reconhecem rostos humanos, a matéria do jornal gritava nos meus olhos desconcertando os meus pensamentos. Corvos reconhecem rostos humanos, corvos reconhecem rostos humanos…

Tardia descoberta. Soubesse eu disso, e minha atitude seria outra quando os encontrei devorando a minha plantação de trigo hoje cedo e os tangi com pedras e impropérios, matando uns, ferindo outros.

Agora, já os ouço crocitar na cumeeira da casa, nas janelas, na soleira da porta:

Nunca mais! Nunca mais!

O VIZINHO

 

Antônio Mariano

 

Um palmo de parede apenas os separava. Tão pouco era suficiente para mantê-los distantes.

Ela bem que queria uma aproximação, mas ele agia como se esta não fizesse parte de seu universo. Os cumprimentos de bom dia, boa tarde e boa noite eram sempre autômatos, secos, num tom invariável, metálico mesmo, parecendo gravação. O que a intrigava toda vez que o encontrava.

Como ele parecesse indiferente a tudo em volta, aos poucos ela passou a observá-lo sem a menor discrição, de perto, nos seus pormenores. Ele não traía o mínimo desconforto com isso, permitindo que ela cada vez mais o investigasse, mas pouco descobrisse sobre a história daquele homem que chegou de um dia para o outro no apartamento vizinho. Tal era a forma silenciosa e invisível dele agir, que ninguém viu movimento de mudança e arrumação do imóvel para acomodá-lo.

Morava só, era certo, pois além dele ninguém nunca viu alma viva, anúncio de voz nos cômodos que ele ocupava. Nem mesmo ao telefone ele parecia falar porque barulho nenhum vinha do lado. Ninguém ouvia sons de passos, arrastar de cadeiras, coisas caindo e se quebrando tão comuns nessas habitações de nula privacidade. Ele não tinha empregada, faxineira. Não recebia ninguém.

Os demais vizinhos se acostumaram com os hábitos dele, a ponto de esquecerem da sua existência, retribuindo em igual moeda o que ele naturalmente fazia desde que ali viera morar. Ela, não.

Quando estava em casa sua mente era dominada por uma série de suposições a respeito do vizinho sinistro. Não parava de pensar nele, imaginar a matéria humana de que era feito aquele ser misterioso. Cada vez mais sua vida era ocupada por ele, assunto constante no trabalho, nas mensagens eletrônicas que enviava a amigos e parentes.

Quando dormia sonhava com ele se desarmando, amistoso, convidando-a para entrar, tomar um café, um drinque. Acordava no meio da noite, imaginando o que ele estaria fazendo naquele momento, se adormecido, se insone, lendo, ouvindo música com fones de ouvido. Nada. Era como se todos os cômodos estivessem desocupados.

Algumas vezes reinou nela uma vontade incontrolável de vazar de furadeira um buraco na parede que desse para olhar os gestos cotidianos dele, em trajes menores, despindo-se, fazendo refeições, deitado no sofá. Mas não levava a termo a intenção por alguma reserva moral que resistia nela.

Até que um dia encontrou a porta do apartamento dele aberta. Não escancarada, mas ligeiramente aberta, uns cinco centímetros apenas afastando a porta da forra. Era a oportunidade que se apresentava para de uma vez por todas acabar com o mito, quebrar as fronteiras de aço que impediam o acesso a ele.

Não titubeou, forçou a porta. Diria qualquer coisa, tinha vários pretextos na ponta da língua para uma oportunidade como aquela.

– Licença, disse.

Nada ouviu de volta. Mas ele estava na sala, sentado numa cadeira, a cabeça pendida, a testa descansando sobre a mesa.

– Senhor, me perdoe entrar assim, a porta estava aberta.

Aproximou-se dele. Pensou que dormisse. Mas não havia som de respiração.

Teria passado mal e estaria desacordado? pensou ela. Teria morrido? falou em voz alta, o desespero fazendo-a sacudi-lo, a mãos duplas, pelo ombro.

Ato seguinte foi ouvir um barulho de engrenagem retomando o funcionamento, o som agudo dos velhos relógios automáticos quando eram acionados com movimentos bruscos, e o vizinho levantando a cabeça, a voz metalina e mal coordenada, querendo falhar:

– Seja bem-vinda, senhora. Bem-vinda, senhora. Bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vin…da!