Três poemas de André Luiz Pinto

A ideia é publicar pelo menos todo sábado, alguns poemas meus e, havendo a possibilidade, de outros poetas que admiro.

Os poemas escolhidos fazem parte do livro “Ao léu”, de 2007,  Editora Bem-te-vi.

i

A cidade comove, risível quanto
o mar, qual o sentido
da palavra risível onde as casas
se amotinam sob a grossa poeira?

Onde minha mãe nascera
minha avó morrera
o subúrbio não se cansa de dizer
mais esquecido que o nordeste.

Escrever é proibido, artistas vivem
de pagode, bate no peito
a ruína de quem cedo
aprendeu a ler e eu não devia.

Tudo isso contado junto
enquanto os vagões
desandam por entre os bairros
poderia ser Nova Iorque.

Madureira, matadouro de homens
dos secos e molhados
nas praças e nos
congados, de nossas vítimas.

v

É noite. Tudo parece escondido.
Silêncio entre os carros que rodam
a madrugada. Tudo se passa
na cabeça: manhã, os trens lentos
e lotados, o olhar da mulher que amo,
a solidão dos livros. Tudo assim,
sob a mira do fuzil. De repente,
o relógio toca: é preciso acordar,
antes, porém, precisa-se dormir.
Sigo o poema para vê-lo onde termina.
Tudo está nu, debruçado na janela,
feito um latido. O frio anuncia
o fastio do próximo verão. Não
por esta noite, num abraço acolhedor.
Não agora. Tudo range nessa hora:
os pelos crescem, ela vira para o lado
e dorme, ouço entre os batimentos
a voz do coração. Ouço calado,
sem par. Haverá outro momento
para escutá-la senão o de dormir?

vi

“Viu eles?
Viu eles, tio?
São irmões!”
Diz o menino
atrás de mim
no ônibus.
A vida
surpreende
o mais ateu
dos homens.
Pouco sabem
o gozo de andar
assim pela cidade.
Somos feito as cotias
no Campo de Santana.

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