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SETEMBRO CHUVOSO DE 2018

Querida, recebi sua carta esta manhã, o que me encheu de boas energias para começar o dia. Eu que queria tanto saber daí, peguei o envelope e carreguei comigo durante o dia. Fui andar por aí, conhecer e me reconhecer. Se quiser se encontrar, perca-se, não é mesmo? Pela falta de praças, quando cansei, sentei numa igreja – não me pergunte, não sei, fui apenas retomar o fôlego. Li sua carta sentado em território santo e ouvindo um órgão barroco que tocava baixinho pelas laterais da nave. Lugar mais tranqüilo, impossível. Preciso descobrir onde ficam as bibliotecas daqui.

Fiquei muito alegre com os resultados de suas provas. Não deixe que nada lhe desanime nem que lhe digam que é perda de tempo. Os ignorantes odeiam livros e sabemos que estamos cercados deles. Você vem mesmo passar uns dias?

Chove muito nessa cidade. Estou achando que isso é um presságio, algo do divino que resolveu descarregar as cinzas sobre todos. Vesúvio aquático; já pensou? Parece título de novela ruim. Vou guardar mesmo assim, quem sabe uso. Ando escrevendo tudo isso em bilhetinhos e deixando pelo apartamento. Quando me sinto bloqueado começo a procurar pelas paredes uma idéia que se encaixe para continuar.

Sei que essas idéias sobre os dias chuvosos não soam como eu. Você bem sabe que gosto das tardes tranqüilas e chuvosas para trabalhar. Tudo parece fluir melhor com aquela claridade que não fere os olhos, eu me sinto mais concentrado. Na verdade me refiro à sensação que encontro nas pessoas quando preciso sair por algum motivo. Há uma tensão no ar e dei um nome a essa tensão hoje; é intolerância, ou um tipo de. Imagine que aguardava um ônibus e no mesmo local havia uma mulher com uma criança no colo e um casal de idosos. Todos cerrados em si e tentando se proteger da chuva, que naquela hora era uma garoa gentil – chuva de molhar gato, como vovó dizia. Eu nem observava como estavam, apenas me marcou pelo que aconteceu depois. O ônibus parou e de repente todos começaram a discutir a respeito de quem havia chegado primeiro e teria direito de subir primeiro no coletivo. Algo como “a fila é sempre implícita, não preciso anunciar no jornal, minha senhora”. O trocador fez um sorriso amarelo e respirou fundo e eu me adiantei e tratei de pagar minha viagem e me sentar, afinal o ônibus estava vazio. Pois sabe o que aconteceu? Tanto o casal de idosos quanto a mulher com uma criança pararam de discutir e se voltaram contra mim. Que havia furado a fila, que era abusado, e – pasme – viado. Repito, o coletivo estava va-zi-o, 48 lugares disponíveis, todas as janelas para escolher e o que importava era o “viado” aqui. O trocador riu. Fiquei sem saber como lidar com isso tudo. Ainda não digeri. Sinto como uma indigestão. Acho que estou escrevendo aqui apenas pra preencher a página até o final. Não me decidi nem se eu realmente seria abusado ou se estou me portando de alguma maneira que as pessoas interpretam que sou viado. Acho que as pessoas daqui tem problemas com isso. E eu que achava que a mentalidade das pessoas daí era provinciana. Será o mesmo aqui? Ou estou percebendo apenas o pior das pessoas porque sozinho a gente fica mais fragilizado? Vou procurar um antiácido.

Não estou mal por estar morando sozinho aqui. O apartamento ainda está sem mobília, mas tenho um colchão, lençóis limpos e panelas. Acho que isso é tudo que uma pessoa precisa para estar na dela. É isso, estou na minha. Pode parecer irreal porque no imaginário de todos, uma pessoa só pode estar bem, cercada de tudo que vê na televisão – nem tenho e sem grana não penso em ter, me tira o tempo das pesquisas e da escrita. Vai bem, aliás. Ainda esta semana quero entrar em contato com o Gregório, ele está certamente inteirado de tudo que está acontecendo aqui e sabe do meu potencial. Provavelmente terá uns bicos bons que poderei fazer por enquanto, ou que podem abrir os caminhos para algo que dê uma grana firme. Justamente o que iria bem agora junto com a sopa de inhame que estou preparando com umas rodelas de lingüiça, alho e umas folhas de alecrim pra dar um levante e atiçar a mente. Cheira bem. Já percebeu como a chuva faz com que a comida cheire ainda melhor?

Nada de amores por enquanto, nem de tristezas. Tenho saudades de todos. Estou escrevendo para você primeiro porque estou com esse bloquinho de papel amarelo e quero estrear logo. Pra parentada depois eu escrevo, na máquina, que sei que eles não entendem minha letra tão bem. Vó diz que fugi da caligrafia e como quero que ela responda, prefiro assim.

 Para tudo mais tenhamos calma, que amor não falta. escrevi na parede uma frase de Virgílio, como uma resposta ao Orwell: Omnia vincit amor.

Saudades de todos, atravesse a rua e distribua abraços e beijingos (assim mesmo, não vou riscar o papel nem pra corrigir) em todos. Ainda aguardo você aqui.

Seu, R.

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E se o assassino for o romancista?

Por Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

ó curvas ó delícias
concede-me essa ruivinha que aí vai
a doce boquinha suplicando beijo
ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem

(Dalton Trevisan, “Balada do Vampiro”, in Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992, p.23)

Há uma velha anedota brasileira sobre um motorista de caminhão, em cujo para-choque se lia: “Eu quero é rosetar”. Aquilo incomodava os bons costumes da cidadezinha, então o padre, o prefeito e as beatas exigiram que o engraçadinho excluísse a legenda libertina. Dias depois, o caminhão aparece com os elípticos dizeres: “Continuo querendo…” Evoco isso para fazer um comentário sobre o livro E se Deus for um de nós, de Tadeu Sarmento, editado pela editora fluminense Confraria do Vento, em 2016. Meu comentário não é análise, não é resenha, eu quero mesmo é rosetar sobre o texto desse autor pernambucano, agora radicado em Belo Horizonte, já na casa dos quarent’anos, poeta e romancista premiado nos últimos tempos.

Divertir, brincar, folgar, pagodear são os termos da área semântica de rosetar. E como fazer isso após a leitura de um romance cuja trama está repleta de crimes cometidos por um serial killer obcecado em perseguir ruivas virgens? É por isso que peço emprestado, à guisa de epígrafe, o trecho do vampiro de Curitiba, o nosso velho contista Dalton Trevisan, dono de uma linguagem concisa, com imagens precisas, amalgamando humor e tragédia ao captar o inconsciente coletivo encarnado em seus personagens suburbanos. E, por contraste, Tadeu Sarmento cria um narrador que é mais chegado a encher linguiça do que a elaborar uma narrativa contida: “E se conto em um livro longo é porque não tive tempo suficiente para escrever um curto. Pois cortar exige mais trabalho que encher linguiça. Enchendo linguiça escondemos melhor os defeitos do texto. Quem é capaz de identificar um erro ortográfico ou de concordância na grande Comédia humana de Balzac? Acredito que ninguém.”(p.376)

Ao encher a linguiça do texto, o romancista é o principal assassino, pois mata o nosso tempo, e, por muitas vezes, também ameaça a matar o leitor, matar de rir, bem entendido. Porque é o humor a principal arma desse autor, criando situações hilariantes com personagens que trabalham num Call Center repleto de funcionários digamos assim fora do esquadro, tratados sob perspectiva nada politicamente correta, como se lê na p.38: “E nossa empresa saiu na frente para cumprir o sistema social de cotas de vagas de emprego para deficientes. Por isso gagos, portadores de síndromes de Tourette. Além deles temos a equipe dos anões, dos cegos, dos albinos fosforescentes, dos esquizofrênicos controlados, dos autistas e dos tetraplégicos.

O narrador já havia esclarecido: “Somos supervisores de Call Center, Gomes e eu. Cada qual cuida de uma equipe de atendentes em um setor diferente, específico, da empresa. Minha equipe é composta por vinte e três operadores receptivos, os quais batizei de ‘garotos de Tourette’. Gomes pegou a equipe dos gagos. A de Gomes fica localizada no setor de cancelamento de serviços; a minha, em um setor obscuro, conhecido como NID, que recebe todas as ligações não classificadas pelo atendimento eletrônico inicial. Em geral, operadores de Call Center são cooptados nas fileiras dos perdedores, dos desgraçados, entre mães solteiras, estúpidos, prostitutas arrependidas, adolescentes estupradas e arrimos de família. […] Resumindo: operadores de Call Center jamais chegarão à realidade, são apenas promessas, casulos, presságios de uma infância duradoura.” (p.36)

Desse núcleo de “comunicação” há boas passagens humorísticas no livro, e faço questão de transcrever algumas. Por exemplo, na p.43 há uma situação que é a caricatura viva de um de nossos dramas cotidianos: “Não é possível cancelar por cancelar […] Depois, o motivo do cancelamento deve estar parametrizado no sistema e, caso não esteja, o operador gago lerá para o cliente todas as duzentas e sessenta e seis opções de cancelamento disponíveis.” Na p.50, o narrador evoca o nome de um cantor brega que se notabilizou por atirar calcinhas para seu público feminino: “Os trotes caem mais que caspa pelo NID. Os tarados também. Tem um que até já apelidamos de ‘Wando’: sempre liga mais ou menos no mesmo horário, para perguntar a cor da roupa de baixo dos rapazes.” Outro cantor, agora norte-americano, é evocado na p.53: “Sua voz era límpida, clara e segura, ainda que bastante grave e com sotaque inglês, como se fosse o próprio Tom Waits sentado sobre um caixote de engraxate, dublando Deus nos filmes bíblicos.” Até a grande obra épica lusitana se presta a um componente hilário na arte de encher linguiça: “[…] é comum recebermos ligações de suicidas e de estranhos admiradores de Camões, que varam a noite se revezando na leitura ao telefone de Os Lusíadas, no intuito de concluírem o sarau com o longo poema antes de o dia amanhecer.” (p.52)

Se Os lusíadas é uma obra real, há, ao longo do romance, referências a obras que só existem nesse universo ficcional salpicadas de humor erótico: “[…] além do catálogo da Taschen, meu seleto amigo levou os livros “Memórias de um rapaz subentendido”, de Melo Rego de Leite; “Morrer à sombra das cerejeiras”, de Paula Noku; “Quando a pomba gira mais que o carrossel”, de Dengoso Caminha; “100 sonetos de uma noite agropastoril”, do poeta soropositivo Florindo Saltita; “Laranjas, laranjais e ereções”, de Armando Vergalho; “A fotografia de meu antigo bofe sambando merengue”, de Pablo Potira, além dos clássicos “A noite dos bocais iluminados” e “O desenvolvimento da pederastia nas regiões montanhosas, de Almejo Pinto.” (p.17);  “[…] cofiando o longo bigode prussiano que cultivava desde que lera um livro chamado O Bigode e a Ostra: manual prático de cunilíngua para barbudos, de Nietzsche a Leminski, Vol.I, do escritor, filósofo e homem bem casado Silvério Lanugem.” (p.94)

Outras referências estéticas são acompanhadas por jocosos comentários: “Só que o que mais Magela apreciava no Conrad de sua adolescência era a ideia de se poder tomar qualquer navio daqueles e avançar sem rumo sobre o mar azulado sem correr o risco de o velho Roberto Carlos estar cantando em algum deles.” (p.162); “[…] casara com um pintor norte-americano da escola de Cézanne chamado Vulgo Angelis, um especialista persistente em retratar guarda-chuvas azuis ao fundo de confusas chuvas de granizo.” (p.319)

Nomes risíveis e figuras e situações excêntricas ocorrem a rodo na obra: “O próximo a ser detido para averiguação foi Energúmeno Souza, vigia do rinque de patinação onde Eveline Vegas foi encontrada morta.”(p.98); “[…] um Pinto grave, circunspecto, e próximo de uma espécie de altar de mármore coberto por um manto de veludo vermelho com pompons macios nas pontas e detalhes em crochê de elefantinhos falsamente felizes.”(p.367);  “ […] viu adentrar no salão a jovem Mica Basso, acompanhada de seu inseparável poeta russo e das duas ruivas albinas congolesas, as quais traziam no braço, cada uma, o cadáver embalsamado das pequenas e misteriosas ruivas gêmeas desaparecidas, embaladas como bonecas nas mãos das duas, talvez, improváveis damas de honra, de um improvável casamento.” (p.368)

Episódios bíblicos são inesperadamente deslocados, ganhando dimensões de nonsense ou de caráter de metalinguagem irônica: “[…] um paraíso no qual o leão pastará ao lado do cordeiro e o urso de pelúcia ao lado do cavalo de carrossel.”(p.67); “Falo da escrita desse livro. Ele, Magela, tem a fluidez musical dos ótimos escritores e eu tenho a história toda na cabeça, logo, estamos no caminho certo, ainda que tropecemos algumas vezes. Mas se até Cristo tropeçou no caminho a caminho do Gólgota, quem somos nós para exigir a própria perfeição?” (p.374)

A irreverência em relação ao sagrado não são poucas: “[…] o que viria a seguir seria algo diverso do prometido no próprio nome da seita (Cristãs pelo Anal)” (p.295); “Seria preciso manter a fé e a ereção. E se a fé hoje em dia não remova mais montanhas é só porque os ambientalistas protestariam.” (p.368). Deus, que está presente no título do livro, é trazido na fala da protagonista Yves, a bela ruiva irlandesa: “– Se Deus fosse um de nós, o que faria  – perguntou novamente, solfejando a música com seu sotaque irresistível: What if god was one uf us.”(p.29). A canção é de Eric Bazilian, da banda The Hooters, que ganhou notoriedade na voz de Joan Osborne.

Humor negro, escatologia, símiles inusitados (como aquele, da p.160: “Tem o olhar infantil e melancólico de boxeadores aposentados.”) são ingredientes que tornam a narrativa saborosa. Personagens secundários entram na intriga para que o derramamento de sangue não faça cessar o fluir do riso: “[…] O barbeiro Pedro Silva era mais surdo que uma porta bem trancada, o que lhe garantia um número cada vez maior de clientes, sobretudo depois que Firmino Patusco, seu desleal colega de profissão, cortou a carótida de um pobre coitado após se assustar com o estouro de escapamento de um carro, provavelmente ocasionado por cabos de vela presos que faiscaram um no outro, o que lhe valeu um processo por homicídio culposo, que corre atualmente em segredo de justiça.” (p.281) Há outra figura que ninguém deseja cumprimentar: “Gostava de fazer origamis com papel higiênico usado e não costuma lavar as mãos.” (p.25)

No que diz respeito às imagens, principalmente quanto ao uso de símiles, chama-nos atenção certa obsessão pelo Sol, como se o autor, em meio aos intencionais disparates na obra, fizesse questão de buscar a lucidez. Vejamos alguns exemplos:
Seu olhar é de desprezo gelado, o jeito que um lagarto secando ao Sol olha para outro lagarto secando ao Sol.” (p.132)

 “Nunca viu nada parecido com o que viu e, ao mesmo tempo, sentia-se leve depois de ver, igual a um condor que se livra da presa durante o voo para chegar mais rápido ao Sol.” (p.281)

“[…] não gosta de lugares apertados. E que ali estava bem apertado, um ônibus espacial de médio porte com mil leprosos rumo ao Sol.” (p.319)

Em uma digressão sobre o filme de Pasolini sobre a obra de Sade, há essa crítica, também acompanhada pelo Sol: “ […] transpostas para o cinema suas imagens são indigestas ou tediosamente ridículas. Algumas são alergicamente teatrais. Parafraseando o teólogo Bataille: é o mesmo que querer olhar o Sol diretamente e, sem poder, contentar-se com as manchas de luz que espocam nas retinas ao forçar o fechamento dos olhos diante dele.” (p.300)

No que concerne aos disparates, vejam uma passagem impagável, envolvendo o cômico “Jeca” Mazzaropi, que foi sepultado numa cidade paulista, abruptamente deslocada para o Norte brasileiro: “E já que retomamos personagens, quero dizer que Plínio Parula fechou o sebo e prestou concurso público para coveiro em Pindamonhangaba, um cidade belíssima, capital do Acre, célebre por dar abrigo aos restos mortais do ator de pornochanchada Mazzaropi.”(p.378)

O assassino de John Lennon também entra no jogo dos disparates: “[…] Que foi visitá-la  ano passado, quando se inscreveu no ‘II Concurso Anual para Sósias do Mark Chapman do Município de Alden’.”(p.319). Ainda no quesito de sósias, eis uma passagem marcante, na p.54: “Clara Rosa, uma anã com vitiligo avançado […] casou escondido em Las Vegas com um sósia do Elvis Presley da fase decadente dos shows dos cassinos.

E há outros disparates associados a aspectos sexuais: Era natural de Buenos Aires, onde trabalhara de prostituta e descobrira que, quando depilava a boceta, os pelos pubianos caídos no chão formavam frases (em espanhol) que prediziam o futuro.” (p.128). A própria terra do autor é motivo de chacota: “– Morar no Recife hoje em dia me faz sentir como um absorvente. – Não entendi.– O lugar é bom, mas o momento é crítico.” (p.78)

A sexualidade, que é o motor da ação do serial killer, é tratada com humor e ironia, expondo os personagens com seus preconceitos, como é o caso de um homossexual enrustido, que age como homofóbico: “Gomes já deu provas suficientes de ser homofóbico e a homofobia, convenhamos, é fruto de um amor homossexual traumatizado, a soma de desejos reprimidos que permanecem latentes, pressionando de dentro a personalidade de Dúbio Gomes, empurrando-a em direção  da neurose, quiçá do fascismo (já que o fascista é só um neurótico que cumpriu suas ambições.” (p.42)

As cartilhas com conteúdo sexual, assunto polêmico na atual campanha presidencial, é abordado também com tintas da ironia: “Já no carro, durante o trajeto, escuta no rádio que, ano que vem, o governo vacinará contra o HPV, prioritariamente, meninas entre dez e onze anos de idade. Esse mundo está todo fodido mesmo, pensa Gonçalo Magela […] logo teremos cartilhas  de educação sexual nas escolas, orientando o que se deve fazer caso o dente de leite caia durante o sexo oral. Fato: não sei de que modo o assassino ainda consegue achar virgens nessa cidade sórdida, ainda por cima ruivas, ele completa. Se Raymond Chandler estivesse vivo, com certeza, escreveria um livro sobre o assassino de ruivas.” (p.161)

Dizer que se se trata de um romance lúdico ainda é muito pouco: a narrativa de E se Deus for um de nós é um grande desconcerto, no sentido de provocar constantemente o leitor, deixando-o literalmente zonzo, como se lê na p.352: “[…] Que não sobreviveu ninguém para contar a história. Que a história, aliás, era muito feia para ser contada. […] Parecia zonza com tanta informação despejada de uma só vez.” A presença de um personagem como Brum, mais onomatopeia do que nome, ajuda na construção barulhenta de figuras insólitas, como exibem as passagens: “Brum era um homem obsessivo e ciumento, que piorou bastante nas últimas semanas, sobretudo depois de a empresa que representava ter recusado sua ideia de montar uma linha de bichinhos de pelúcia com problemas mentais, os quis, segundo Brum, ajudariam a ensinar, de uma forma lúdica e finalmente, crianças a conviverem com as diferenças.”(p.164); “Brum foi detido no Aeroporto Internacional dos Guararapes […] levando na mala cinco protótipos dos seus brinquedos, com os quais esperava negociar a patente em Amsterdã. Entre eles: Durva, a tartaruga com síndrome de pânico; Lilith, a cobra anoréxica; Poliana, a ovelha com múltiplas personalidades; Troto, um crocodilo com fobia à água; e Sandrine, um hipopótamo albino com compulsão por comida.” (p.165)

Para quem desejar trechos, digamos assim, mais sérios, é só colher passagens que parecem um pouco aforismáticas: “Quem viaja é impelido para o futuro.” (p.25); “– […] deveríamos ter escutado nossas mães e estudado. Desde que o mundo é mundo que o livro é mais leve que a enxada.” (p.238); “[…] nenhum objeto é capaz de atiçar ou produzir um desejo. Ao contrário: é o desejo que, em seu movimento de dispêndio, torna desejado um objeto, como uma flecha que só procura um alvo depois de lançada.” (p.342); “[…] quem está cheio de si fica vazio de todo resto.” (p.362).

Quanto a mim, prefiro imagens assim, hilariantes, hiperbólicas, encharcadas de humor: “[…] parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.” (p.238); “[…] o álcool ajudava a destravar sua língua e até ali já bebera cerveja suficiente para inundar a Mongólia, isso sem contar a parte que Mulligan bebeu, a qual daria para alagar, senão o Vietnã, ao menos a região norte do Vietnã.” (p.272)

O leitor, afinal, mesmo morrendo de tanto rir, deverá reconhecer que está nas mãos de um bom assassino, ou “assassigno”. como diria o poeta Márcio Almeida. Tadeu Sarmento não se furta de, à maneira dos pós-modernistas, dar sua pitada metalinguística, como na p.214: “Não existe relação hierárquica entre leitor e escritor, Belino pensava, já que ambos caminham inseguros sobre o mesmo campo minado. Só que em horários diferentes, Belino completou para si mesmo e, ainda que se sentisse perdido, pois, a literatura só atrai os nostálgicos, os exilados, os que não se sentem bem em lugar algum, salvo no rio irreal dos parágrafos de um livro, Belino e Graham Greene se encontravam na mesma página, dançando desprotegidos, de patins, sobre pistas de gelo, ou atravessando, vendados, numa corda bamba em dia de vento, cada qual com seu salto quinze, pontudo.” E, mais adiante, quase no apagar das luzes de sua lúcida obra, ainda vem com esta: “Pois não estamos escrevendo ficção. Tudo o que descrevemos aqui aconteceu, só que mais ou menos. Mas mais para mais que para menos, segundo a escola Kurt Vonnegut para picaretagem & piano. O problema é que tudo que aconteceu tem um tempo e memorizar, no limite, é de fato polir. A imaginação é uma memória polida, aparada em suas arestas, pronta para ser recontada.” (p.376)

Queria rosetar mais ou menos assim. E, depois de vampirizar o texto do Tadeu Sarmento, volto aos versos da balada do vampiro curitibano: “ó curvas ó delícias/concede-me/ essa ruivinha que aí vai/a doce boquinha suplicando beijo/ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem”.

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

COISAS

Observe as coisas, elas se ramificam ao sol.
As coisas erguem seus galhos para o alto e sonham as próprias sombras.
Deixadas no gramado, as coisas podem facilmente ser confundidas com o azul.
Mordem sem serem sentidas e deixam marcas perenes na pele.
As coisas podem ser cingidas de sangue, como as palavras.
As coisas circundam os objetos na estante, também podem acomodar-se nas palmilhas.
As coisas se tocam e se perdem, dando voltas em transe.
Coisas perdidas sentam umas sobre as outras nas esquinas, não querem voltar, mas prendem-se nas bainhas e uma vez que cruzam a soleira tomam para si os rodapés.
Assumem tantas formas e ainda assim podem ser invisíveis, como o ar, que é tempo preso entre ponteiros.
As coisas podem ser como lâminas de metal — frias testemunhas — entre sempres, nuncamais e novamentes.
Certas horas, as coisas apenas existem entre paralelos do planeta.
As coisas não se pertencem.
As coisas se esquecem quando caem da cômoda da memória.
Não pise nas coisas, toda rudeza fratura no ponto de coda.
A natureza das coisas é a incerteza.
Alheias ao tempo dos dias, as coisas permanecem em silêncio, intocadas de desejo.
As coisas permanecem no mesmo.

FRAGMENTOS MARINHOS

Carreguei este peixe no meu ventre.
Farfalhar de espuma e risadas durante o dia, uivo submerso durante a noite.
Sombra na água interna do corpo, cartilagens, brânquias, lâminas, sangue de vidro, pele de couro, palavras impronunciáveis como lixas na língua áspera de ofensas.
Mergulho insondável e chamas líquidas.
Vi brotar nadadeiras onde dorso nu havia.
A pele dividindo-se em padrões geométricos, ora branca, ora enegrecida, por vezes tão confusa e revoltosa na água, que desaparecia e tudo era um gelatinoso rumor salino, elétrico, viscoso, opaco – redemoinho do ocaso.
Leve a história agora.
Num grão de sal a fala do mar, além do vento será

anágua de prata na calma
a luz do luar assim paira
vivágua brilha e talha
dança nas ondas peixe-criança

 

encontre os outros fragmentos:

https://zonadapalavra.wordpress.com/2016/11/14/fragmentos-marinhos/

https://zonadapalavra.wordpress.com/2016/11/28/fragmentos-marinhos-2/

https://zonadapalavra.wordpress.com/2016/12/12/fragmentos-marinhos-3/

https://zonadapalavra.wordpress.com/2016/12/19/fragmentos-marinhos-4/

https://zonadapalavra.wordpress.com/2016/12/26/fragmento-marinhos/

 

ESTRANHA

o coração inefável irá parar
também o uivo
e seu cão insolente aflito
para um satélite surdo
sem adjetivos
refém ou algoz
algo entre
algo mito
somente aquilo
fatal
interdito
dardo
tranquilo
a morte do tempo
o mito contido onde não
existimos
sendo sido sereno sibila de signos
ainda não ainda não existimos
entre rugas e enigmas
nunca sabemos a margem
apenas perdemos os trens
e as árias do nosso tempo escritas
não sabemos as infâmias
restamos cinzas e entranhas
tudo mais Rudá

matéria estranha

A literatura imprescindível de Philip Roth – Leitura de Casei com um comunista

Por Adriane Garcia

O romance Casei com um comunista, de Philip Roth (Cia das Letras, 2000), tradução de Rubens Figueiredo, conta a história de Ira Ringold, narrada pelo conhecido alter-ego de Roth, Nathan Zuckerman. Nathan conhecera Ira na adolescência, quando Ira já era um militante comunista linha dura. Décadas depois, ao se encontrar com o professor Murray, irmão de Ira, Nathan toma conhecimento do fim da história de seu ídolo nos anos de juventude. É essa história que Philip Roth nos trará em 422 páginas.

Para além da trama que se passa nos anos de macarthismo, da perseguição política aos comunistas, a “caça às bruxas” dos anos 50, nos Estados Unidos da América, Philip Roth traz ao leitor, neste livro, um verdadeiro tratado sobre política e literatura, sobre liberdade e disciplina, liberdade e desapego e sobre ideologia e morte. Sobretudo, do que Roth falará e deixará claro, na composição de seus próprios personagens, será sobre a complexidade individual, o antagonismo humano.

Ira (um astro de rádio em ascenção) é o comunista ferrenho que se casará com uma atriz de sucesso, a rica e famosa Eve Frame, escravizada emocionalmente pela filha Sylphid. Entre a ideologia comunista e a prática burguesa, a vida de Ira Ringold e daqueles que orbitam em torno de sua história, habilmente mostrada por Roth, é o retrato com o qual o autor demonstra a potência dos antagonismos que há em cada um de nós, o fosso que existe entre aquilo que acreditamos e muitas vezes pregamos e a forma com que agimos. À exceção do personagem O’Day, que tem absoluta consciência de que para não se perder de si é preciso estar num quarto “cela”, num quarto sem nenhum bem-estar além de uma dura cama para dormir e algo para ler e comer, todos os personagens de Casei com um comunista são feitos de complexidade e incoerência (esta a coerência humana). Mesmo nos personagens que mantêm uma conduta mais condizente com a sua crença, como o caso do professor Murray, por fim, o que vemos é a grave presença da sombra de um arrependimento. Roth chega à tensão de construir sua personagem Eve Frame, uma mulher invejada, infeliz na vida e no amor, uma judia antissemita.

Da página 288 em diante, o que o leitor tem é a riqueza da discussão sobre o fazer literário, a reflexão exposta do fazer artístico se imbricando na própria trama, o professor Leo Glucksman trazendo o paradoxismo no próprio discurso, pois que, como todos, acha sua verdade superior às outras. E, por fim, a magnitude de uma obra que pensa o ser humano e a humanidade, sem condescendência com qualquer grupo, e que se pergunta o que, afinal, fazemos com os nossos erros; qual o sentido de nossas próprias histórias, individuais e coletivas, diante da morte.

Um livro imprescindível, cujo compromisso é apenas com a literatura.

“ – Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesma uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado da coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço “do povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Esta sua peça é um lixo. É medonha. É revoltante. É lixo grosseiro, primitivo, tosco e propagandista. Ela tolda o mundo com palavras. E esbraveja aos céus e terras as virtudes do autor. Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É porque olha o mundo em volta e fica “chocado”? É porque olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckerman, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire essa sua adorável merda do meu escritório, por favor.”

(Diálogo entre o professor de arte Leo Glucksman e seu aluno Nathan Zuckerman, p. 288 e 289)

***

Casei com um comunista

Philip Roth

Tradução Rubens Figueiredo

Cia das Letras

2000

ODE ESTRANHA

Da morte eu lhe direi as entranhas, o po-
ro, o ósculo, o caminho entre vál-
vulas, a passagem estreita, a golfa-
da, a bile naufragando, os órgãos em cal-
do ácido, uma bolha de metano que
exalando calor e sibilando um cer-
to ruído profano, abre-se. As memó-
rias de Zurique, os ventos de Belchior, o trân-
sito de Mercúrio, o dia passando na
alameda sombria, Zéfiro de páginas
amareladas, o seminário dos cala-
dos, as fantasias sorriam em disparada,
os paralelepípedos em displasia. Ár-
vores semicerradas na paisagem. Quem sa-
beria o som que faz a romaria? Não sendo
vida, quem saberia? Escolha apenas a
palavra frígida. Uma palavra ruga,
entalhe, ruptura, a marca dos dias, o
sabor da rua, os carros passaram, também o
cachorro, o vendedor de picolé não é
mais moço. Uma palavra carranca, abre-se o bar-
co, desfaz-se toda tranca, fere-se o céu
acima, cinde-se a onda abaixo, no
cimo do casco, carícia, penhasco, pesa-
delo, desejo, aquela que afogou-se
em seu peito. Uma palavra tripa, contra-
tura, tubarão na barriga, linguiça, lom-
beira, vilosidade, inchaço, ferida,
genuflexório, corrida de pique, coisa
funda, gordura encruada, aquilo que
se cala, grito no ralo.
Da morte eu lhe direi
das minhas entranhas,
qual vapor oculto:
Ninguém mais é puro!