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ESTREIA, poema de Leo Barbosa

 

 

ESTREIA

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Que não me peçam o conhecimento da vida
que dela sou um amador.
Seu ritmo se impõe

nos tropeçados improvisos
as mais atenuantes visões.

Como é cruel retirar das palavras
as urgências.
Se ao menos houvesse
uma segunda chance…

Mas não há bastidores.
Não. A cena é este palco
e a dúvida é sempre uma
estreia.

LEO BARBOSA

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RECURSO, Leo Barbosa

RECURSO

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Na minha canção

Que nada diz

Estende-se a mão

De alguém único,

Revelando a solidão

E também a esperança.

 

Na ausência de sentir

A carne em viva poesia

Descortinou seus seios

E apontou seus anseios

Na minha face.

 

Dicionário do corpo

Vocabularizando-me

Sem palavras a proferir.

Me fere, me afeta; morde.

O amor é um mito

E omito que é caos.

 

Mas a ordem

Não altera os fatos:

Esse anjo maldito

Que agora hesito

Me redime do assombro

De viver de mãos dadas

Com a sorte.

 

Lá dentro – escombros

Que agora pouco escondo.

Com a gente

Não me sinto indigente.

 

É o vento que despetala a rosa.

E o tempo roça em minhas coxas.

 

Recuso o recurso.

As horas

não

existem.

 

LEO BARBOSA

ABSTRAÇÃO, poema de Leo Barbosa

abstrato

 

ABSTRAÇÃO

Agora que as pupilas

Já estão dilatadas

Não sei da imagem exata

Do querer puro, do puro querer

E se este existe.

 

De onde vem a fonte

Se me impele, me deixa insone,

Me vira, revira, revirante e  revirado.

 

Nenhum disfarce vale

Nenhum jogo vale

Sob a tutela do amor.

Só o vale que caminha entre nós

Pode calar o mundo,

Ensurdecer a fé na humanidade,

Perder a crença no amor,

Até encontrar outro céu

Onde haverá, talvez, outros recursos.

 

Caminhando às abstratas

Porque assim, como me tratas

Perco o contido refluxo e me vejo

No redemoinho de sedimentos.

 

Sou homem sem amuleto

E o que reconheço em mim

É o corte da indiferente cicatriz,

Cesárea de mim feita a fórceps

Cotidianamente espelhada d’alguma forma.

 

Não há túnica,

Só há tu única,

Se despindo sem melodia,

Destoando a minha poesia

Para o mais, para o mar,

Caindo na diurna voz,

Sendo apenas uma noturna foz

Corrompida pelo fluxo

Das espermáticas sensações.

 

A vida segue inodora

Com a dor que se adora.

 

Esperamos lúcidos ou loucos demais,

Desertados ou munidos de silêncios.

Talhados no soluço, tão barrocos.

 

Entre a luz que ocultava

E a que revela, sem pudor, o teu nome

À margem, naufragando, constante,

Em mim.

 

LEO BARBOSA

 

MULTI-LADOS

MULTI-LADOS
 
Estou privado de mim
Porque o medo me assola
E me deixa sozinho
Em um quarto.
Em um quarto.
 
Como em um cativeiro
Me privo de viver
Uma realidade tão latente
Em mim.
 
Sou combatente
E vivo neste dilema:
Eu me venço ou
Eu me perco?
 
Olho nos olhos
E o que legitimo?
O que intimido?
 
Não há comando no esquecimento
E a identidade se perdeu
Várias vezes em que registrei
O absurdo de me sequestrar
E não saber o valor do resgate.
 
Em multi-lados escombros
Uma guerra fria se combate.
 
Quem são as vítimas?
O valor simbólico está
Em negar o ócio,
Quando ausente de mim
Recompuser todos os versos
Já escritos no mundo.
 
Leo Barbosa

SER OUTROS PARA SER

Leo Barbosa
(escritorleobarbosa@hotmail.com)

    Ser outros para ser

    Quando se integra à solidão o que há de ser realizado passa a ter sentido. Procuremos dentro de nós a luz que nos guie para que o começo seja mais que uma moeda de troca em busca da justiça. Não cabe a nós buscá-la porque ela vem quando menos se espera. Eu não quero censurar quem tanto almeja sair da prisão de suas tarefas para se recompor com algo efêmero. Se o corpo é prisão, a alma se confina, mas com frequência liberta-se das amarras por meio da poesia.
É a inquietude, o desconforto, que me movem. A maior fragrância que dissolve o meu estacionamento é o fato de querer sempre mais, porque não sou perfeito, estou sendo feito e eu penso, atravesso este deserto sendo ilimitadamente eu, mas inimaginavelmente outros. Estar em harmonia consiste em ter esses muitos outros em sintonia.
Coabita em mim a carência do outro e a ausência de mim. Por rejeição ou escolha velo a solidão expondo-me à força e à palavra. Em porões caço a profundidade tal como a luz numa escuridão. Há uma fresta. É uma festa. E só me resta aproveitar esse momento de aparente renúncia para beber esta solução pessoal. É um sacrifício regado a sangue.
Não é por duas pessoas estarem juntas que estarão acompanhadas. Uma delas pode ser a marionete cujo controle esteja sob as mãos daquele que rouba sua subjetividade, governando-a, sequestrando-a e fazendo perdê-la seus horizontes. Seu barco naufraga e o controlado se afoga no anonimato. Desconhecido de si mesmo, estranha qualquer caminho. Sua bússola interior está quebrada. Não se pertenceu e não sabe a quem seguir.
Talvez seja a sina do poeta caminhar contra si, contornando seus contrários, sendo seu fardo e seu alívio, ser ambíguo, múltiplo, mas sempre se esforçando para alcançar a universalidade e a unicidade. Dentro de uma moldura está a “insustentável leveza de ser”. É um estranho no ninho que choca um ovo que não sabe qual tipo de criatura foi gerada. Tudo é sumamente diferente. Tudo é metáfora, abstração e retração.
Seres de muitas personas, os poetas retiram uma máscara a cada poema e num dia, sem rosto, saberão que suas carnes feneceram, seus ossos se fragilizaram, mas seu verbo está aos quatro ventos, em tempestades e em calmarias.

                                                                                Leo Barbosa é professor e poeta