Arquivo do autor:Alberto Bresciani

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VOLTA AO PONTO

 

O leitor digital está sujo

repetição repetição repetição

da cena muda e desnutrida

O mantra da predestinação

Nenhum ódio nenhum extremo

nada interrompe

os cortes nas veias

a mitose escura e sem freio

Alguma coisa se esqueceu

de morrer

Tento dizer?

Insisto?

OK Escutei

Falhas geológicas ameaçam

ilhas paradisíacas

no Pacífico

 

 

ALBERTO BRESCIANI

 

Imagem: Elephant archives

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e então nada

Giorgio

E ENTÃO NADA

A plenitude e o êxtase estavam a um metro da próxima esquina. Pena que decidíssemos voltar daquele ponto. Quando atravessei a rua, pensava em te pedir perdão pelo amor que me devastava e pelo amor que a miopia viu em teus olhos. Nem fúria, nem som. Era só o reflexo do sol cadente nas lentes dos teus óculos.

ALBERTO BRESCIANI

Imagem: Giorgio Bisetti

Kitchen-Knives-Etc

SALTO POR UM FIO

“porque toda verdadeira iluminação deve emergir da mais profunda escuridão” (Alexandre Guarnieri, “as guerras búdicas: o sutra do crisântemo de plástico”)

               E então o cubismo insípido da cidade. A geometria vazia. Pontos de luz múltiplos. Dentro, luz nenhuma. Ela, afirmando que ele era menos do que Gregor Samsa, um violador de espaços aéreos, intruso. Desde o nada, por acaso uma palavra e outra, um olho e outro, e os dois. Ela disse que peles são iguais. E isso nem era ideia dela. Ouviu de uma personagem no cinema. Disse tanto, contou histórias antigas e etruscas. Não houve resistência. As facas do curso de culinária estavam prontas, afiadas. Ele as comprou, algumas delas. Deu-as de presente. Afiadas. Cortes específicos para três dedos, baço, um rim, meio pulso, a carótida. A dele. As armas ofertadas ao próprio abate. Ela protagonizou o fim. E o responsabilizava. Há quem se pretenda imune a culpas. E aquele corpo, sua bélica conformação soprando ar a todo vento. Ela saía e ele a queria de volta. Queria vezes outras. Não pôde esperar desde o início. Bulas, quem as lê? Depois. Depois já não era o mesmo. Desencontros, destroços. Ele, acorrentado à parede, esperava o tiro diário. Os tiros vinham por nada. Atravessavam-lhe as cartilagens, perdiam-se nas pedras. Fuzilaria pontual. A porta destrancada, gavetas, o vaso de crisântemos no chão, a televisão ligada. Ninguém sabia para onde ela foi. E quem poderia saber? O dia em que as naus se desviaram para sempre. E se estilhaçaram nos arrecifes. O naufrágio reloaded em pesadelos. Os recortes da urbe pulsam. A sacada escura aconselha ao salto, mas entre o 16º e o 17º dentes superiores algo o irrita e paralisa. Trinta centímetros de fio dental extraídos da embalagem feita mística atam-no a outra hora. A clareira se abre no fundo da queda e a água quente do chuveiro condensa o refúgio.

ALBERTO BRESCIANI

Texto originalmente publicado em Mallarmargens

Imagem: Google, old knives

 

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A POESIA CORTANTE DE ANTONIO GERALDO FIGUEIREDO FERREIRA

porque a luz acaba quando escrevo

levanto o castiçal e a vela acesa
na busca de palavras imortais
em mim um deus que em mim não cabe e jaz
soergue-se e sussurra sem que o veja:
qual barro descozido na incerteza
não há qualquer descanso ou mesmo paz
se me recrias sempre e sempre mais
obra do medo de que assim não sejas
homem, essa inteireza descabida
(distante trovoada no horizonte)
a voz se cala em meio ao fumo incenso
enquanto a noite ecoa a minha vida
a luz retorna, a chuva cheira longe
apago a vela, sopro de silêncio

para meu amor desconhecido

a vida inteira que podia ter sido e que não foi
ser para siempre; pero no haber sido
m. bandeira e j. l. borges

no jardim de caminhos que se bifurcam
vários verdes brotando
indiferentes

no canteiro, vejo um toco de cigarro
com sua boca vermelha
desconhecida

no jardim de caminhos que se bifurcam
em algum lugar
eu sei
nós dois

nihil obstat?

vá que aos garranchos deus escreva certo
ou que o destino já esteja pronto
seria então inútil, nesse ponto
imaginar a vida um livro aberto?
cheguei sempre atrasado, ou muito perto
fiz do amor um deserto, o desencontro
nunca me achei em mim; estive tonto
por um caminho ainda indescoberto?
terei tomado a direção errada
trilha de enganos, descaminhos, fome
amparado, também, pelo demônio?
ou deuses rabiscaram a lombada
e apagaram de vez meu próprio nome?
seria outro se não fosse antonio?

similia similibus curantur

o relógio parou antes das seis
não ligo para isso, embora digam
que o meu janeiro veio e se aproxima
a hora de deixar a vida – danem-se
o relógio parou porque acabou
a corda, esqueci-me de dar corda
como já me esqueci de tanta coisa
mas dizer que por isso vou morrer
que recebi o aviso derradeiro
não passa de desejo dessa gente
da rafaméia que me cerca há tanto
agora querem tudo, até o osso
vou dizer vão à merda e digo mais
saibam que ainda enterro muita gente

Sobre o Autor

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira nasceu em Mococa, Estado de São Paulo, em 1965. Formou-se em Letras pela USP, onde ingressou em pós-graduação em Literatura Brasileira. Vive em Arceburgo, Minas Gerais. Publicou poemas na revista Cult – Revista Brasileira de Literatura, nº 23, na revista Sexta-Feira, nº 5 – Tempo -, Editora Hedra, na revista Todas as Letras, nº 3, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e em outros veículos especializados. É autor dos ótimos Peixe e míngua (Nankin Editorial, São Paulo, 2003), poesia, e As visitas que hoje estamos  (Iluminuras, São Paulo, 2012), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013.

Imagem base: Old clock, Google

POUCO

war

POUCO

Pouco antes da invasão eu estava feliz. Acontece. Eu tinha uma razão, mas podia não ter. O pessoal começou a correr, bater porta. Subiu poeira de estouro de boiada. Fechei a janela. Ainda vi a Dona Geralda caindo. Não adiantou. A madeira velha não segurou a bala. Meu ombro sim. Eu me recuperei do tiro. A cobra errou o bote. Agora eu abraço a mulher com força. Ela quase não consegue dormir. É que tenho frio, muito medo o tempo todo. Medo da sorte. De não ter mais. Com esse medo já não tenho mesmo mais nada. É que a gente aqui só vive por sorte.

ALBERTO BRESCIANI

Imagem: Google, war.

untitled

DESVIO DE FUNÇÃO

Na carteira de trabalho era “brigadista”, mas se enchia de vaidade quando as senhoras da repartição – avermelhando-se, os olhos cobiçosos – chamavam-no de “bombeiro”. Tomou tanto gosto que passou a apagar incêndios em domicílio.

Alberto Bresciani

Imagem: Google, “Fire”