ANSIEDADE MÓVEL

Antônio Mariano

 

Menina moça, 14 anos. Namorado novo. Conta alta do telefone convencional estourando o orçamento doméstico. A família resolveu bloquear totalmente as ligações. A casa caiu, mas por terra ficou. Ou bem se come, ou bem se telefona. E como nesta fase da vida não se sabe o que é meio termo, triunfou a primeira opção. No entanto, a comunicação era essencial para Daniela. Depois de muita chantagem com os pais, o primeiro celular.

 

O amado, dezoito anos, garoto esperto, fácil influência. Ocupado além do limite: faculdade, bolsa de pesquisa, uma banda de garagem hardcore. Só pode vê-la aos fins de semana, se tanto.

 

Ela o quer ainda assim, prioridade única. O telefone móvel compensará as ausências, beijo gostoso pra você, te amo muito, viu? Daniela, nunca desligue, tá legal? Se for dormir, deixe o celular na cabeceira da cama. Posso ligar a qualquer hora. Sim, Felipe.

 

A mocinha levando a sério a recomendação. De manhã, cheia de olheiras e indisposta para ir à escola, onde cochila, dispersão absoluta. Se a bateria cai, é um desespero, chora, se descabela. Será que ele ligou, meu Deus? Pouco depois, leva bronca:

 

Por que o celular estava fora da área? Onde você estava? Agora, não sei quando terei tempo.

 

Três dias e nem um toque. Mas pode ligar hoje. O dia é longo.

 

Às vezes chama, ela atende ao primeiro tom da musiquinha polifônica. Engano, droga.

 

Minutos depois, toca outra vez. Estava no banheiro, corre, descomposta, quase tropeçando com a calcinha no meio das pernas. Pelo visor, um número desconhecido de telefone convencional, talvez público. Tanran, tanranran, tanranran! Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após o sinal. Panran! Ele nunca fez isso, é certo. Quem sabe está sem grana. Pré pago, tem poucos créditos, mas atende.

 

Uma voz de mulher: Otávio?

 

Daniela: Que Otávio?

 

A voz: Quem é você? Que está fazendo com o celular de meu marido? Passa pra ele, já!

 

Daniela: O celular é meu.

 

A voz: Que seu que nada. Deve ser mais uma piranha que aquele cachorro arranjou. Estão num motel, né? Safados. Ele é casado, viu? Mulher e quatro filhos ainda pequenos pra criar. Passa o telefone pra ele, sua quenga!

 

Mas, mas…Daniela não sabe o que dizer de tão perplexa.

 

Impotente de argumentos, ela desliga no telefone na cara da mulher. Consulta os créditos. Foram embora quase todos nessa conversa idiota. Joga o telefone na cama. Soluça, que ódio.

 

O aparelho volta a gritar. Deve ser ela. Não atende. Ou será Felipe desta vez? Mais uma vez a maquininha zune, irada.

 

É aquela louca. Não vou atender.

 

A carinha se enche de inquietação.

 

E se for meu amorzinho?

 

Olha o telefone nervoso na mão, o vibracall na última freqüência. Pelo identificador, o número é outro, de fato. Pode ser ele desta vez, sim. Atende. Chamada a cobrar.

 

Alô!?

 

Pausa. Barulho de carros passando. Vozes diversas. Algaravia.

 

Alô!?

 

Nenhuma resposta. Ansiedade, ponta fina, vazando o coração da pequena amante.

 

Alô!? Fala, por favor.

 

A única comunicação que lhe chega agora é o som estúpido, irritante, tu, tu, tu, que o fim dos créditos trazem. Raiva, impotência, vontade danada de chorar. Tu, tu, tu, menininha, estás só.

 

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