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Sobre Leandro_Rodrigues

Poeta paulista e professor de literatura em Osasco - SP. Já publicou poemas em diversas Revistas Literárias do Brasil, Portugal e Espanha.

“Die Toteninsel” - 1886, Arnold Böcklin

MAR DA TRANQUILIDADE

As paredes da memória são frias
Ciprestes da Ilha dos Mortos
de Böcklin
A embarcação constante
O mar calmo
As nuvens escurecem o horizonte
Os rochedos verticalizam o silêncio
Caronte e seu trabalho incessante

As pontas dos ciprestes balançam ao vento
Um fiapo de sol bate nos rochedos
A embarcação aproxima-se da Ilha
O mar permanece calmo

As palavras escuras destilam
insípidas manhãs que escorrem.

Leandro Rodrigues

AFIAÇÕES DA LÂMINA

I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
bucólica – anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
[ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
um jardim e seus canteiros
em cores vivas.

II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza – do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
– intraduzível morbidez
[ que paira

palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
anônimo – bucólico

É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria – chuva e agonia
como a girar
seus ponteiros
de nuvem.

Leandro Rodrigues

de: Aprendizagem Cinza, págs. 60 e 61. Ed. Patuá, 2016.

1916

Havia homens carregando cruzes
em nevoeiros pálidos de fuligens cinzentas
nas noites que sangravam depenadas.
O encouraçado.
Cavalos que galopavam cor de éter.
Corpos feitos de nuvem.
Gritos evaporados.
Havia teus dentes pálidos
instantâneos
pintados num quadro
entre as trincheiras
e as valas comuns
A crueza de bocas e seios e
vísceras
O rescaldo.
Um passível semblante morto
uma lua fuzilada
à queima-roupa
rostos e covas tão rasas
que era possível pressentir no faro
a decomposição de tudo.
Espectros.
O medo que já não cicatrizava
da mortalha dos dias desfiada
golpes de calibres inimagináveis serpenteavam
ácido-reluzentes em corrosivas sombras latejantes
estranhos resíduos que penetravam poros, mente
& outras frestas
setas para o cavalo cor de ouro.

Leandro Rodrigues

de: Aprendizagem Cinza, Ed. Patuá, pág. 45, 2016.

OS PRÊMIOS

Eu – um fracasso contínuo
fraco demasiado
sem grito, sem dor,
sem lamento ou rascunho
me atiro num livro de poemas
como um náufrago a um galho esmo
:
me encolho a cada palavra dita ou não dita,
ambas latejam
[
sangro em cortes profundos feitos de rimas
e âncoras
com voos abortados,
asas tolhidas para dentro
§
longas espirais de fotos antigas
com rostos marcados
pálidos sorrisos ao vento
/
observo de longe os vitoriosos
e abaixo a cabeça
pobres idiotas
]
as misérias me causam comoção.