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Sobre Leandro_Rodrigues

Poeta paulista e professor de literatura. Já publicou os livros de poesia Aprendizagem Cinza (2016) e faz Sol Mas Eu Grito (2018) ambos pela Editora Patuá.

MEMÓRIA

Tantas vozes mortas ainda escorrem
Nessa umidade fria da parede

Uns passos intactos / calados no chão
Destroçados qual vermes inaudíveis

Poças dormentes que rangem
engrenagens tísicas de porcelana

bromélias que murcham
com sangue nas cavidades
&
brotam nesses rios fétidos
Usinas de fetos e espasmos

Gritos/ lamentos das galerias
cavando domados silêncios

das horas turvas de um relógio de sol
calcinado pela escuridão.

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de Faz Sol Mas Eu Grito, ed. Patuá, 2018.

Leandro Rodrigues

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São Paulo V

Sombras refletidas nos prédios espelhados da Paulista
Homens brancos carecas ajeitam suas barrigas nos suspensórios
Arrotos de cifrões na tarde cinza

§

As sombras se movem nessas noites incólumes
paridas num ventre seco
São exumadas coreografias de criaturas estranhas
que não dançam
antes, serpenteiam sem nenhuma graça
Com trajes formais e
Gordas barrigas de suspensórios e cifrão
Mapeiam o escuro e calculam pilhérias
A escravidão possível

Arrotam lustres de ignorâncias e
contaminam infinitas distâncias

Em seus prédios espelhados
Gritam, vociferam contra os subalternos

Da guerra medida as úlceras não fecham
Do leite de papel nada desce por essa garganta seca

As noites derretem em claustros – usinas de fetos
Eles sabem
Estendemos nossos olhos para sepulturas que dão a perder de vista
Nuvens cinzas antecipam
Enxugam essa dor com os poucos medos que nos restam
Palavras jorram de poemas, muros, epitáfios – cores frias

As criaturas embrionárias de cifrões
Manipulam nossa euforia, nosso desprezo, nossa taquicardia
Mudam seu aspecto, vestem-se de outras sombras desvalidas
Calculam os dias e a morte
Dobram invólucros em 8 partes menores
Extrema unção decantada em curto pavio
E ainda sopramos a vela.

Leandro Rodrigues – de Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018.

POEMA DE CINZA CHUMBO

I

O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.

II

Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso – precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.

III

Na vala comum desses dias – ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria

IV

O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.

de Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018.
Leandro Rodrigues

FAZ SOL, MAS EU GRITO

Para Thiago de Mello

I

fartas horas inúteis
em que tragédias são recicladas
e se moldam por entre sombras e gestos desprezíveis
molduras da tarde disforme

ela diz:
“que tempo estranho…”

Estendo as mãos ao vento
algumas gotas ácidas corroem o meu desprezo

Reinvento uns versos esquecidos e ancoro tantas embarcações
em lugar nenhum
Enquanto a nova empresa americana ergue suas cercas

Modulo o tom de voz para não gritar
Mas antes pudesse gritar

II

ruas imóveis sangram
como essa lua vermelha
que escorre
entre os corpos desmedidos
estranhas estruturas de ossos
que sustentam ossos

aguda solidão
d’água cavando
o sólido chão

intacta simetria
de cada grito
moldado ao sol.

III

quartos, cômodos
corredores em espirais
bocas automatizam
cruas faces/membranas
em cruzes
sombras esquálidas
de meninos esquecidos
nos porões
frios
sem vista para o mar.

Leandro Rodrigues

do livro Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018, págs. 41, 42 e 43.

ENLACES (LA EXPLICACIÓN DEL GOLPE)

jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano
jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano

 

I

O Cristo libertário de Orozco
Arrebentando sua cruz a machadadas
Como Bashô observando o rio

II

Entre as cercanias do vento
outros nadadores mortos atravessam
o canal
chegam à praia
e se acorrentam no sol.

III

Ilusionistas desafiam arranha-céus
e somem entre as trincas do
concreto armado.

IV

Na noite extensa
todos se entendem
menos os poetas

V

menos as putas

VI

menos os pugilistas

VII

7º round

Leandro Rodrigues