Arquivo do autor:Leandro_Rodrigues

Sobre Leandro_Rodrigues

Poeta paulista e professor de literatura em Osasco - SP. Já publicou poemas em diversas Revistas Literárias do Brasil, Portugal e Espanha.

GREVE

Depois da greve
Viraremos árvores

Simétricas árvores

a
b
s
o
l
u
t
a
s

nosso grito será o sol estampado nas folhas
nossas veias amplas raízes entrelaçadas
nos mortos
nossa mais rara espécie de orquídea
brotará do medo, a seiva da liberdade.

Leandro Rodrigues

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ENLACES (LA EXPLICACIÓN DEL GOLPE)

jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano
jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano

 

I

O Cristo libertário de Orozco
Arrebentando sua cruz a machadadas
Como Bashô observando o rio

II

Entre as cercanias do vento
outros nadadores mortos atravessam
o canal
chegam à praia
e se acorrentam no sol.

III

Ilusionistas desafiam arranha-céus
e somem entre as trincas do
concreto armado.

IV

Na noite extensa
todos se entendem
menos os poetas

V

menos as putas

VI

menos os pugilistas

VII

7º round

Leandro Rodrigues

ESQUADROS

Na curva dos dias
Cabelos encrespados de areia e sombra

Mobilizam-se desordenados
Discorridos – progressiva ruptura

As vozes do caramanchão estendem as frestas
Espelho estilhaçado
Horas despidas

Range a teia secular – nosso grito
Molda-se amputado

Já não temos luto, nem esquadros.

Leandro Rodrigues

ANTIFÁBULAS

ANTIFÁBULA Nº 1

Cavas com as mãos
úmidas pedras do aquário
Limbos profundos onde peixes se encantam
com suas próprias sombras

Cores escorrem neutras entre os dedos

Não verificas o precipício da tarde guardada.

ANTIFÁBULA Nº 2

Alguns rios gritam descendem
duas verticais penas invisíveis
Águas furtas/ mudas formas
Olhos estrangeiros postados
num leito vazio
de mortos que acenam destros
disformes aguapés de abismos

Da margem esquerda
réstias de limbo traduzem
O cão velho que sangra cinza à beira

Do nada ao centro,
na profundidade da tarde extinta

Emaranhadas vozes,
palavras despidas de silêncios e silêncio.

ANTIFÁBULA Nº 3

O meu silêncio pode ser medido pela tarde
& suas múltiplas ausências
Texturas disformes de um retalho sem cor
Súbita sinfonia inacabada
A cortar as horas com sua fria lâmina

Estendo-a (colcha de abismos)
por sobre os olhos da cidade
gritos adormecem nos cemitérios
de lápides quebradas
incendiados ciprestes se movem
restos de escombros guardados
da minha voz morta.

Leandro Rodrigues

PUNTOS DE CRUZ

a casa que sangra
tem portas de tricô
veias semiabertas
que se alternam
em pálidas quarentenas
(puntos de cruz)

das janelas
espáduas comiseradas
se deitam
com óculos espessos
rascunhos, mágoas
tão profundas
sombras de móveis
anônimos

dupla ponta desfiada

alto-relevo moldado

linhas – canções de infância

em desdobradas chamas.

Leandro Rodrigues

NÓS

Ruas estreitas vão dar num estranho silêncio
Bifurcações anônimas do medo atado
Esquálidas sombras calcadas no chão
Disformes rios de esgoto que batem nas sacadas de claustros
Homens farejam mortos com focinhos de papel
Cobertas estendidas sobre a nossa miséria se agitam
Pelos furos avistamos as estrelas
Nas pedras que estão em todos os caminhos possíveis
Sustentamos com estacas a magreza
do que ainda não nasceu.

Leandro Rodrigues