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Sobre Leandro_Rodrigues

Poeta paulista e professor de literatura em Osasco - SP. Já publicou poemas em diversas Revistas Literárias do Brasil, Portugal e Espanha.

POEMA DE CINZA CHUMBO

I

O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.

II

Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso – precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.

III

Na vala comum desses dias – ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria

IV

O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.

de Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018.
Leandro Rodrigues

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FAZ SOL, MAS EU GRITO

Para Thiago de Mello

I

fartas horas inúteis
em que tragédias são recicladas
e se moldam por entre sombras e gestos desprezíveis
molduras da tarde disforme

ela diz:
“que tempo estranho…”

Estendo as mãos ao vento
algumas gotas ácidas corroem o meu desprezo

Reinvento uns versos esquecidos e ancoro tantas embarcações
em lugar nenhum
Enquanto a nova empresa americana ergue suas cercas

Modulo o tom de voz para não gritar
Mas antes pudesse gritar

II

ruas imóveis sangram
como essa lua vermelha
que escorre
entre os corpos desmedidos
estranhas estruturas de ossos
que sustentam ossos

aguda solidão
d’água cavando
o sólido chão

intacta simetria
de cada grito
moldado ao sol.

III

quartos, cômodos
corredores em espirais
bocas automatizam
cruas faces/membranas
em cruzes
sombras esquálidas
de meninos esquecidos
nos porões
frios
sem vista para o mar.

Leandro Rodrigues

do livro Faz Sol Mas Eu Grito, Ed. Patuá, 2018, págs. 41, 42 e 43.

ENLACES (LA EXPLICACIÓN DEL GOLPE)

jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano
jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano

 

I

O Cristo libertário de Orozco
Arrebentando sua cruz a machadadas
Como Bashô observando o rio

II

Entre as cercanias do vento
outros nadadores mortos atravessam
o canal
chegam à praia
e se acorrentam no sol.

III

Ilusionistas desafiam arranha-céus
e somem entre as trincas do
concreto armado.

IV

Na noite extensa
todos se entendem
menos os poetas

V

menos as putas

VI

menos os pugilistas

VII

7º round

Leandro Rodrigues

ESQUADROS

Na curva dos dias
Cabelos encrespados de areia e sombra

Mobilizam-se desordenados
Discorridos – progressiva ruptura

As vozes do caramanchão estendem as frestas
Espelho estilhaçado
Horas despidas

Range a teia secular – nosso grito
Molda-se amputado

Já não temos luto, nem esquadros.

Leandro Rodrigues

ANTIFÁBULAS

ANTIFÁBULA Nº 1

Cavas com as mãos
úmidas pedras do aquário
Limbos profundos onde peixes se encantam
com suas próprias sombras

Cores escorrem neutras entre os dedos

Não verificas o precipício da tarde guardada.

ANTIFÁBULA Nº 2

Alguns rios gritam descendem
duas verticais penas invisíveis
Águas furtas/ mudas formas
Olhos estrangeiros postados
num leito vazio
de mortos que acenam destros
disformes aguapés de abismos

Da margem esquerda
réstias de limbo traduzem
O cão velho que sangra cinza à beira

Do nada ao centro,
na profundidade da tarde extinta

Emaranhadas vozes,
palavras despidas de silêncios e silêncio.

ANTIFÁBULA Nº 3

O meu silêncio pode ser medido pela tarde
& suas múltiplas ausências
Texturas disformes de um retalho sem cor
Súbita sinfonia inacabada
A cortar as horas com sua fria lâmina

Estendo-a (colcha de abismos)
por sobre os olhos da cidade
gritos adormecem nos cemitérios
de lápides quebradas
incendiados ciprestes se movem
restos de escombros guardados
da minha voz morta.

Leandro Rodrigues

PUNTOS DE CRUZ

a casa que sangra
tem portas de tricô
veias semiabertas
que se alternam
em pálidas quarentenas
(puntos de cruz)

das janelas
espáduas comiseradas
se deitam
com óculos espessos
rascunhos, mágoas
tão profundas
sombras de móveis
anônimos

dupla ponta desfiada

alto-relevo moldado

linhas – canções de infância

em desdobradas chamas.

Leandro Rodrigues