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Dioniso diante de Apolo

Agora que acalmaste meu tornado
e que aceitei tua flecha
sobre a minha carne

Agora que me fecundaste com a medida
e que me deste margens
Agora que pousaste a mão
sobre o meu medo

Vês como as palavras nascem de mim
pausadas
e como tornei-me brisa
ateada sobre o pranto?

Desde que me concedeste tua máscara,
deus solar,
a noite que eu trazia
perdeu o gume terrível

Vem, amigo, vem ver
como, mesmo diante do sangue,
tornamos bela
a dor para esses gregos

Iracema Macedo

Pequeno ensaio sobre dobras

” Mulher é desdobrável, eu sou.”
Adélia Prado

Não mexo mais em feridas
Quero as dobras
das ondas, dos panos, dos calcários

Deixo lençóis fechados  no armário
Em vez de armas e espinhos,
guardei as dobras nos jarros

Em vez de farpas guerreiras,
desdobramentos delicados
transbordam por todos os lados

Iracema Macedo

Penas de uma casa em cinzas

É óbvio que anoiteceu
está registrado em fotos
em minas, em mapas
Não posso trazer de volta o passado
imitando a voz dos mortos
Não posso devolver sua mãe,
sua filha, sua falta
O que há por dentro são gambiarras
madeiras úmidas, telhas e vidraças quebradas
A vida gotejando no balde
e a caixa de amianto vazia
de onde espero toda água possível
para o chão limpo e claro que preciso

rústicos

cercas de arame farpado sob a chuva
alegria nas pedras do lajedo e nos alpendres
fogueira mítica acesa entre escritos rupestres
meninos e meninas nus dançando ao redor
coice de cavalo, vela acesa dentro da geladeira a gás,
açudes de água morna, cactos, carroças
estávamos todos lá antes da luz elétrica
preparados para perdas e recomeços

 

Iracema Macedo

Dezembro

Mulher, mulher
não vê que eu tô na paz
vamos sambar um pouquinho
vamos descer comigo
solta esse cabelo, põe uma flor
pegamos o teleférico e depois o metrô
Chama a galera toda
todo mundo no liquidificador
Vamos sambar na praça São Salvador
quem sabe a gente se salva
com o samba na causa

 

Iracema Macedo

As Vestes

AS VESTES

Enfrentei furacões com meus vestidos claros
Quem me vê por aí com esses vestidos
estampados
não imagina as grades, os muros
o chão de cimento que eles tornaram leves
Não se imagina a escuridão
que esses vestidos cobrem
e dentro da escuridão os incêndios que retornam
cada vez que me dispo
cada vez que a nudez me liberta dos seus  laços.

Iracema Macedo

Matafuegos

Musos y musas

de todas las ciudades sálvenme

soy una fuerza en un plural terrible

atención Lisboa, Berlín, Buenos Aires

destruí la puerta de casa

largué a los hijos

los zapatos, las máscaras

estoy con un incendio

en la boca, en la voz, en la risa

maté toda esa vida calculista

robé

y estoy huyendo para el poema

 

Iracema Macedo     tradução Maria Trinidad Pacherrez Velasco

UN POMAR EN LO OSCURO

Avispones sonando por el cuerpo

añicos de vidrio verde sobre el muro

mínimos guardianes de ese deseo

de hurtar tus frutos

y desabotonar esas paredes,

cubetas, luces, peñascos

que dividen y separan

mis llamas de las tuyas

 

Iracema Macedo in Literatura Brasilis. Org, Aluísio Azevedo Jr,

Tradução Maria Trinidad Pacherrez Velasco.