Arquivo do autor:iracemamacedos

correio elegante

entrego minha alma
na portaria do seu prédio
deixo lá as chaves, as senhas
os cadeados, os mistérios todos
para você me conhecer
entrego meus pés vermelhos
o que sobrou dos meus cabelos cortados
envio imagens, mensagens, massagens
coragem
seguem por navio, trem, avião
pombo correio, ônibus, bicicleta,
skate, mototáxi
todos levam minha alma
daqui para a Iugoslávia
quero ver você ter a ruindade
de não receber

 

Iracema Macedo

 

Santa Clara

Amanheci de um modo novo hoje
as luzes de sempre
não me prendem mais com suas âncoras
queimei as lanças
e fui deixando para trás
a casa, o pátio, a aldeia
docemente ensolarada

Rasguei as certezas
enterrei os vestidos
e agora tenho por riqueza o vento

que sustenta os pássaros

 

Iracema Macedo

Mickey

” Dieu parle dans la calme  plus haut
que dans la  tempête”
Adam Mickiewirkcz( 1734-1855)

Que o Mickey era feiticeiro
só depois eu fui saber
Jodorowsky
lhe ensinou
que ratos e ratazanas,
que temos dentro da gente ,
podem ser curados com sal, lápis e cal
Que a Minnie enfeitiçava
eu também desconhecia
encontrei em sua casa uma placa:
se for preciso tome melhoral
mas consulte a senhora Minnie

Iracema Macedo

 
se quiser melhorar o seu astral

Paixão em Creta

Evite ruas escuras
riscos desnecessários
rotas retalhadas
atalhos
passos descompassados
bordas que não se encontram
margens que não se acham
Evite
ou realmente se entregue
se quebre
entre no labirinto do minotauro
(novelo, cara e coragem)
mesmo que sair ileso
seja raro

Iracema Macedo

A casa assaltada

cadeados quando quebrados
abrem caminhos, deixam entrar
os hóspedes, bandidos ou inimigos
sem lei nem vez
que ao invés de roubarem
trazem o presente do novo
mistérios, sustos, segredos
coragem para se desviar, migrar
assaltos às vezes são saltos
para um novo e belo lugar

Iracema Macedo

Carpe Diem

Não precisa ser um longa metragem
pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde

Iracema Macedo

O ciclista noturno

Está escuro na bicicleta veloz
E chove, chove, chove uma alegria
sobre o corpo, sobre o sangue
sobre o espanto do peito acelerado
contra o vento
E se quebram contra o calçamento
mentiras e reis
Granizo que se desfaz na travessia

Veias de vidro trincadas pela luz
que escoa dos postes da rua

Caminho, ciclovia,
rota iluminada
por pequenas e úmidas luas