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A POESIA CORTANTE DE ANTONIO GERALDO FIGUEIREDO FERREIRA

porque a luz acaba quando escrevo

levanto o castiçal e a vela acesa
na busca de palavras imortais
em mim um deus que em mim não cabe e jaz
soergue-se e sussurra sem que o veja:
qual barro descozido na incerteza
não há qualquer descanso ou mesmo paz
se me recrias sempre e sempre mais
obra do medo de que assim não sejas
homem, essa inteireza descabida
(distante trovoada no horizonte)
a voz se cala em meio ao fumo incenso
enquanto a noite ecoa a minha vida
a luz retorna, a chuva cheira longe
apago a vela, sopro de silêncio

para meu amor desconhecido

a vida inteira que podia ter sido e que não foi
ser para siempre; pero no haber sido
m. bandeira e j. l. borges

no jardim de caminhos que se bifurcam
vários verdes brotando
indiferentes

no canteiro, vejo um toco de cigarro
com sua boca vermelha
desconhecida

no jardim de caminhos que se bifurcam
em algum lugar
eu sei
nós dois

nihil obstat?

vá que aos garranchos deus escreva certo
ou que o destino já esteja pronto
seria então inútil, nesse ponto
imaginar a vida um livro aberto?
cheguei sempre atrasado, ou muito perto
fiz do amor um deserto, o desencontro
nunca me achei em mim; estive tonto
por um caminho ainda indescoberto?
terei tomado a direção errada
trilha de enganos, descaminhos, fome
amparado, também, pelo demônio?
ou deuses rabiscaram a lombada
e apagaram de vez meu próprio nome?
seria outro se não fosse antonio?

similia similibus curantur

o relógio parou antes das seis
não ligo para isso, embora digam
que o meu janeiro veio e se aproxima
a hora de deixar a vida – danem-se
o relógio parou porque acabou
a corda, esqueci-me de dar corda
como já me esqueci de tanta coisa
mas dizer que por isso vou morrer
que recebi o aviso derradeiro
não passa de desejo dessa gente
da rafaméia que me cerca há tanto
agora querem tudo, até o osso
vou dizer vão à merda e digo mais
saibam que ainda enterro muita gente

Sobre o Autor

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira nasceu em Mococa, Estado de São Paulo, em 1965. Formou-se em Letras pela USP, onde ingressou em pós-graduação em Literatura Brasileira. Vive em Arceburgo, Minas Gerais. Publicou poemas na revista Cult – Revista Brasileira de Literatura, nº 23, na revista Sexta-Feira, nº 5 – Tempo -, Editora Hedra, na revista Todas as Letras, nº 3, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e em outros veículos especializados. É autor dos ótimos Peixe e míngua (Nankin Editorial, São Paulo, 2003), poesia, e As visitas que hoje estamos  (Iluminuras, São Paulo, 2012), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013.

Imagem base: Old clock, Google

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