nereida

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“Mermaids Dance”, de Svetlana Ziuzina

para Daniela Pace

as sereias crescem suas pernas durante a madrugada
quando os pescadores ainda não regressaram ao cais
não há barcos redes varas com iscas de miolo de pão
a lua desce às marés e o oceano repuxa suas escamas
no intervalo entre uma onda e outra as sereias sabem
o instante certo em que empurram o corpo para além
da cauda e dão à luz suas próprias pernas salobras na
areia sentem as entranhas dos dedos fixam os joelhos
tateiam o sexo e se deslocam em multidões enquanto
cantam a si mesmas a nostalgia precoce da terra firme

(Amanda Vital)

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ATO PÚBLICO (poesia para tempos de sangue)

eu sei que se atravessasse a rua
atravessasse a faixa
abaixasse a cara
e deixasse a caminhada
minha mão encontraria a sua

eu sei que luta é longa
que a vantagem é pouca
que a boia falta
e ainda por cima a vida
é curta pra levar tanta porrada

eu sei que estamos cercados
que a cidade exuda fogo e esgoto
que as bombas surgem no lugar do diálogo
e que a esperança não vale o que pagam
vergonhosamente ao fim da jornada de trabalho

eu sei que quando atravessar a rua
rompendo a fúria descabida dessa guarda
driblando as botas como um santo de várzea
e surgir invicto de susto borracha e bala
minha vida encontrará a sua e de mãos dadas incendiaremos o país

a poesia explode a realidade

linha

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Arte de Christian Krohg

minha mãe exala barro e capim em sua voz mineira

e do outro lado do telefone me pergunta se já jantei
se estou tendo cuidado quando atravesso a avenida
ou se os meus casacos estão me protegendo do frio

nós partilhamos a mesma fala pela linha telefônica

essa fala de quem espera uma broa de milho assar
em fogo baixo no forno do fogão a lenha essa fala
de quem come as letras com queijo do serro e café

minha mãe desliga a ligação sempre depois de mim
e eu olho para os dois lados visto um casaco e janto

 

(Amanda Vital)

Poema (2) de Casé Lontra Marques

cipoal

Imagem: Pinterest.com (Holly Irwin)

 

Cipoal

 

E se nunca houver cura?

Pelo menos

por enquanto, desconheço

dádiva

sem dano; mas escolho, ainda

assim, a entrega — devotando

ao estrago

vínculos estritamente

vastos.

Veias atravessam

(enoveladas)

as virilhas — cipoal macio:

que

escalo, que

escavo.

 

Casé Lontra Marques

caipirinha

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Arte de Igor Shulman

ninguém diz da solidão das meninas bebendo sozinhas
as noites partidas das capitais bebem inteiras sozinhas
suas angústias seus copos suas gotículas sobre a mesa
seus olhos exaustos pairam entre o nada e as gentes e
as pilastras e os copos russos pairam em vertigem crua
elas fogem de suas casas escolhem seus bares salgados
preferidos se banham todas de açúcar limão álcool gelo
banham suas mesas de cevada e de gordura as meninas
cantam silenciosas seus repertórios em lábios trêmulos
desafiando seus corpos garganta abaixo deixam tontear
e flambar a solidão das meninas que se bebem sozinhas

(Amanda Vital)

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais

Poemas do livro novo de Tito Leite

capa Tito Leite

Imagem: Capa do livro Aurora de Cedro de Tito Leite

 

TRANSITÓRIO

 

1

 

No imo

da Avenida

Paulista

o sulfato

da solidão.

 

Uma quimera

nos pega

pelas mãos.

 

Corremos

loucos

em busca

de uma coroa

de louros.

 

Pódio

deteriorado

e sem

medalha

de ouro.

 

Ausência

de eternidade

nos olhos

curtos de cada

passante.

 

2

 

Ensaiando

a própria fuga

da cidade,

 

durando

em fugacidade.

 

Não é a lua

que sangra.

São os pés

dos retirantes.

 

 

 

 

MISERERE NOBIS

 

 

No gueto

chuva de anjos

caídos.

 

O telejornal toca

o contrabaixo

do apocalipse.

 

Cigarras bailam

na descontente

garganta do caos.

 

Poetas procuram

o melhor

atentado.

 

Matar

as harpias

que molestam

a alma.

 

A resistência

é um gato branco

numa noite

de blecaute.

 

Muitos pastores

um só holocausto:

Deus nos salve

de Deus.

 

Tito Leite