[mexia com a língua…]

mexia com a língua os redemoinhos daquele mar
além de mim e de ti enrolando os cabelos às noites desarrumadas
em pedaços frágeis ondulantes conforme a luz sussurrava
às cortinas de pequenas pedrinhas que saltitam num beijo
ainda por renascer convexo

às estrelas vítreas atadas ao remorso dessas águas marítimas
a baterem contra os versos e estrofes em devaneio esplendoroso
que batem e batem no cântico que pediríamos a este dialecto
mar a morrer no próprio mar
e toda a harmonia desse mar desequilibra a língua

 

filipe marinheiro, em «noutros rostos», chiado editora 2014

Poema de Wislawa Szymborska

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Imagem: Pinterest.com (Zdeněk Burian)

 

A curta vida de nossos antepassados

Não eram muitos os que passavam dos trinta.
A velhice era privilégio das pedras e das árvores.
A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos.
Era preciso se apressar, dar conta da vida
antes que o sol se pusesse,
antes que a primeira neve caísse.

Meninas de treze anos gerando filhos,
meninos de quatro rastreando ninhos de pássaros na moita,
jovens de vinte servindo de guias nas caçadas –
ainda há pouco não existiam, já não existem.
Os fins da infinitude rápido se juntavam.
As bruxas ruminavam maldições
ainda com todos os dentes da mocidade.
Sob os olhos do pai o filho se tornava homem.
Sob as órbitas do avô nascia o neto.

De todo modo, não contavam os anos.
Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados.
O tempo, tão generoso para qualquer estrela do céu,
estendia-lhes a mão quase vazia
e a retirava rápido, como se tivesse pena.
Mais um passo, mais dois
ao longo de um rio brilhante,
que da treva emerge e na treva some.

Não havia nem um instante a perder,
perguntas a postergar e iluminações tardias
a não ser as que tivessem sido antes experimentadas.
A sabedoria não podia esperar os cabelos brancos.
Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse,
e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse.

O bem e o mal –
dele sabiam pouco, porém tudo:
quando o mal triunfa, o bem se esconde;
quando o bem aparece, o mal fica de tocaia.
Nem um nem outro se pode vencer
nem colocar a uma distância sem volta.
Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,
se há desespero, nunca é sem um fio de esperança.
A vida, mesmo se longa, será sempre curta.
Curta demais para se acrescentar algo.

Wislawa Szymborska

circe

yoko ono 2

● se circe soubesse ulysses não teria ●
● a mais nenhum dia mesmo ele matreiro ●
● seria devorado como porco qualquer ●

● tosado nagua quente se circe soubesse ●
● mesmo ele matreiro ulysses não teria ●
● como porco qualquer a mais nenhum dia ●

● seria devorado como pobre coitado ●
● sangrado sem conversa se circe soubesse ●
● a mais nenhum dia como porco qualquer ●

● isso ulyses não sabe como pobre coitado ●
● mesmo ele matreiro se circe soubesse ●
● como porco qualquer sangrado e calado ●

*

Poema (6) de Saturnino Valladares

Patria

 

Patria de sangre,
única tierra que conozco y me conoce,
única patria en la que creo,
única puerta al infinito.
OCTAVIO PAZ

 

Caminé de tierra en tierra, buscándote,

arrancando gemidos a las piedras,

incendiando el río en sus orillas,

mordiendo el musgo azul de los árboles.

 

Caminé hasta encontrar mi patria;

la curva de tu cuello,

la cintura de agua,

los senos y el beso que nace en mi boca.

 

Yo no tengo más patria que tu cuerpo.

 

Desnúdate,

para que la lluvia te moje los pies,

y por tus tobillos crezca una enredadera

que enfile hacia la luz que descansa en tu vientre.

 

Desnúdate,

porque yo soy la sombra de la enredadera.

Tú eres mi patria.

 

Desnúdate y abrázame,

ahora que por fin te he encontrado.

 

Patria

 

Pátria de sangue,
única terra que conheço e me conhece,
única pátria na que creio,
única porta ao infinito.
OCTAVIO PAZ

 

Caminhei de terra em terra a tua procura,

arrancando gemidos das pedras,

incendiando o rio em suas margens

mordendo o musgo azul das árvores.

 

Caminhei até encontrar minha pátria:

a curva do teu colo,

a cintura de água,

os seios e o beijo que nasce em minha boca.

 

Eu não tenho mais pátria que o teu corpo.

 

Desnuda-te,

para que a chuva molhe os teus pés,

e por teus tornozelos cresça uma trepadeira

que se encaminhe à luz

que descansa em teu ventre.

 

Desnuda-te,

porque eu sou a sombra da trepadeira.

Tu és minha pátria.

 

Desnuda-te e abraça-me,

agora que por fim te encontrei.

 

Saturnino Valladares

(In: Segredos da Fênix: Editora Valer)

Poema (68) de Tito Leite

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IMagem: Pinterest.com (Jackson Pollock)

 

HOMO INCURVATUS

 

Retorno de um sonho com a nona sinfonia na cabeça.

O peso da manhã coloca uma lápide no esplendor das estrelas.

É um crepúsculo o mistério que me encerra.

Fibras de aço deliram as entranhas dos deuses.

Falsete (inglório) de um banquete no escuro –

a harpa e o pássaro – amolo o absurdo.

No caniço, uma liberdade titânica:

a dúvida completa os cardumes do fogo.

Poderes em contingência metálica – o Estado é um cão bipolar

sua termodinâmica encurva minha alma.

A voz de uma criança uma oitava mais alta:

extático, derrubo o muro da separação.

Com andarilhos, aprendi a arrancar pedras de temporais

pilho ventos de um campo de girassóis

corto serpentes na imensidão do vácuo.

Descalço algemas – para a pátria sou cético.

Em essência a fumaça do incenso é o perfume de Deus

o deserto – solidão das pétalas –

grafa minhas digitais na loteria da viagem.

 

Tito Leite

 

(In: Digitais do Caos, edith, 2016).