Penas de uma casa em cinzas

É óbvio que anoiteceu
está registrado em fotos
em minas, em mapas
Não posso trazer de volta o passado
imitando a voz dos mortos
Não posso devolver sua mãe,
sua filha, sua falta
O que há por dentro são gambiarras
madeiras úmidas, telhas e vidraças quebradas
A vida gotejando no balde
e a caixa de amianto vazia
de onde espero toda água possível
para o chão limpo e claro que preciso

Iracema Macedo

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[emana um líquido…]

emana um líquido de aço desfeito nesta boca solta

o perfume do ar rebenta com as flores gigantes e as flores vestidas
pelo estilhaço de um aroma a ferir o lume denso que rasa a luz
orgânica fere então a vista inclinada para as pedras matinais

a boca a sair da boca ao sair pelos lábios fora sai de dentro
desta boca que vos fala e escuta
boca louca que pousa as suas curtas vestes no vento

e o líquido bate com violenta força no preso tempo ou o tempo
não é mais senão um mero tempo: uma insana memória

 

filipe marinheiro, chiado editora, 2014

ANTIFÁBULAS

ANTIFÁBULA Nº 1

Cavas com as mãos
úmidas pedras do aquário
Limbos profundos onde peixes se encantam
com suas próprias sombras

Cores escorrem neutras entre os dedos

Não verificas o precipício da tarde guardada.

ANTIFÁBULA Nº 2

Alguns rios gritam descendem
duas verticais penas invisíveis
Águas furtas/ mudas formas
Olhos estrangeiros postados
num leito vazio
de mortos que acenam destros
disformes aguapés de abismos

Da margem esquerda
réstias de limbo traduzem
O cão velho que sangra cinza à beira

Do nada ao centro,
na profundidade da tarde extinta

Emaranhadas vozes,
palavras despidas de silêncios e silêncio.

ANTIFÁBULA Nº 3

O meu silêncio pode ser medido pela tarde
& suas múltiplas ausências
Texturas disformes de um retalho sem cor
Súbita sinfonia inacabada
A cortar as horas com sua fria lâmina

Estendo-a (colcha de abismos)
por sobre os olhos da cidade
gritos adormecem nos cemitérios
de lápides quebradas
incendiados ciprestes se movem
restos de escombros guardados
da minha voz morta.

Leandro Rodrigues

no centro do deserto

Adrián Pérez ou Man-o-Matic 2

● eis o qeu queria dizer ●
● vcs perguntaram e eu direi não sei ●
● acho melhor tomarmos um cafe ●
● todos vcs são covardes demais ●
● eu diria q possuem vidas repugnantes ●
● vidas bichadas pelas mentiras ●
● nenhum de vcs são o q dizem ser ●

● falta força falta a força da verdade ●
● nenhum de vcs são o q dizem ser ●
● o q fazem é sem sangue e potencia ●
● isso de dizer ate as fezes as fezes ●
● vcs são covardes demais e mais ●
● vidas bichadas pela covardia ●

● falta força falta a força da verdade ●
● é como em vez de criarem mundos ●
● vcs se mijassem como cães na rua ●
● acreditam no q todos acreditam ●
● todos vcs são covardes demais e mais ●
● eu diria q possuem vidas repugnantes ●
● eis o qeu queria dizer ●

● nenhum de vcs são o q dizem ser ●
● isso cria pantanos atoleiros medos ●
● como se o cu fosse o centro de tudo ●
● todos vcs são covardes demais e mais ●
● seria possivel criar mas vcs se mijam ●
● acreditam no q todos acreditam ●
● eis o qeu queria dizer a verdade ●

● não é o fim do mundo nem o começo ●
● simplesmente não conseguirão ●
● dizer qualquer coisa diferente ou nova ●
● qualquer coisa q tenha força de destruir ●
● nenhum corpo de verdade q se mova ●
● por sua propria vontade desejo e dor ●
● tão paralisados entre tempos mortos ●

● paralisados eu posso dizer ●
● numa lingua morta e covarde covarde ●
● lingua repugnante e genocida agarrados ●
● num deus morto como todos os deuses ●
● um deus morto como porco afogado ●
● tentam dizer o de sempre sem saber ●
● eis o qeu queria dizer ●

● não é o fim do mundo nem o começo ●
● vcs sempre foram repugnantes demais ●
● medrosos demais precisam de medalhas ●
● precisam de respeito precisam de algo ●
● enfiado no cu bem fundo e duro ●
● q substitua a coluna aquela q é vertebral ●
● mas so sabem repetir e esperar o vazio ●

● vcs não dizem mas sabem dos espelhos ●
● das dunas dos pedaços de carne e sangue ●
● da violencia q violenta e arranca peles ●
● vcs sabem do horror do horror do horror ●
● vcs cantam o coração o amor do coração ●
● a gentileza aquilo q acontece a vcs ●
● q são de tão repugnantes asquerosos ●

● agarrados na porca morta afogada ●
● vcs apenas continuam no apartamento ●
● machos e femeas negros e brancos ●
● com a porca morta afogada a lingua ●
● repugnantes e covardes demais ●
● pra enfrentarem o horror ate o fim ●
● eis o qeu queria dizer e falta tanto ●

*

Resenha (1) de Alberto Bresciani

Daqui

 

 

A urbe, seus ritmos e arritmias em Daqui, de Lilian Aquino.

Alberto Bresciani

Sempre me interessam as questões urbanas, os mistérios que transitam pelas metrópoles, todas as possibilidades e impossibilidades configuradas, a ameaça intensa da solidão – quando quase não há espaço sequer para se respirar –. Esta solidão a que aludia o gênio de Drummond em “A Bruxa”: “Nesta cidade do Rio / De dois milhões de habitantes / Estou sozinho no quarto / Estou sozinho na América”. Sabem também meus amigos que sinto uma atração fatal por São Paulo (no meu imaginário, a mais ostensiva e sedutora corporificação desse habitat humano que me desafia). Não preciso dizer mais para justificar o quanto gostei de Daqui, o segundo livro de Lilian Aquino, publicado, agora em 2017, pela Editora Patuá (do incansável Eduardo Lacerda). Penso que é esse o universo que envolve todos os poemas do livro.

Na primeira parte, FORA, a voz poética parte de sua base telúrica e, ao mesmo tempo em que revela a condição humana tão pouca (“Daqui deste chão onde piso / não vejo nada além de edifícios / nada mais que a ousadia humana / de pensar que se é maior que um baobá” – “Baobá”), sugere que se perceba o mais que se expande do menos (“Venha aqui / e tire a mão do bolso / O asfalto que cobre / esta estrada / é a coisa mais certa / a cumprir” –“Juízo”). Os versos de Lilian são um chamado para o real, racionalmente lírico chamado. Versos capazes de provocar o imediato assombro. Sem tirar os pés do solo, a poeta retrata a contemporaneidade. E percorre o tempo, as memórias, radiografa o anonimato que nos põe em fila cadenciada e nos marca a fogo na urbe (“Uma cidade vista daqui de cima / três andares / onde podemos / ser o que somos /– corpos” – “Uma janela sobre a cidade”).

De um lado, há que se conhecer a dureza das rochas:

Perduração

                     de um poema de Donizete Galvão

O peso de um homem

é comparável

ao lugar onde pisa

ao modo como apoia os pés

um depois do outro

neste chão de pedregulhos

que só existe

na superfície

viva e faminta

dos dias.

 

E quando a superfície

acaba por livrar-lhe

da obrigação de sustentar

o próprio corpo

será sua a palavra

que desestabiliza

 

e não só a pedra dura.

 

De outro, como prenuncia a epígrafe de Leonard Cohen, é preciso que se descubra, com as armas restantes, com a aceitação última, a fenda, a fenda que em tudo há e que deixa a luz possível  entrar:

 

Por fora

 

eu inverno

agora

e aqui no meio

da memória e sei que vai esfriar

o tempo

que passa à minha porta

eu sei que

vai virar o tempo

foi o que aprendi

: que se eu inverno

não mais invejo

outra estação

 

Certas arritmias do cotidiano atravessam os poemas da segunda parte: DENTRO. Os ferimentos de todos os dias trazem a dor que as cicatrizes poderão ou não curar, perplexidades no dobrar de esquinas  (“dedos cruzam / fronteiras / esfomeados / unham a pele / fendem um corpo / (então) / abandonado / à beira do precipício // e não há quem seja / capaz de silenciar / seu ruído”  – “Tudo aquilo que causa arrepio”). Lilian Aquino não aceita a facilidade das palavras explicitamente poéticas e nem se esconde sob a aspereza de enigmas ou formulações clássicas. Sem perder o controle de sua poesia, a linguagem é elegante e suficiente, como cabe aos poetas de hoje. Em Daqui, os poemas são construídos sob o coloquial, mas com artifícios capazes de transformar ar e areia em explosivos. Um livro que, com harmonia, oferece poesia de qualidade e convida à entrega: “as rasuras bem ali / aos meus pés / É hoje: / abandone-se” (“Nesses tempos”).

 

 

DAQUI

Lilian Aquino

Editora Patuá, 2017

127 páginas

Poema (3) de Mariana Basílio

portinari 1

Denise com o carneiro branco, de Portinari – 1961. Acervo digital ©Projeto Portinari

 

 

A GAME OF CHESS

 

A cadeira de balanço em que se sentava,
Como um trono polido luzindo na palha,
As linhas grossas contornavam uma liga
De vinhas frutificadas por antigos padrões
A partir da dobra das chamas da Infância.
Refletindo o presente sobre a mesa de
Altos candelabros intocáveis por seus dedos,
O cetim de sua roupa era manchado de um
Suor que luzia ainda mais que o assento
Em que se contava as histórias proibidas
Da queimadura verde e laranja do maxilar.
Afugentada, no pó líquido do teto gotejando
A criança avistava no alto espelho as orelhas
Como se uma janela se abrisse antes do ar.
Sob o pincel, sob seu cabelo, sob os remendos
Da toalha amarelada das vindouras refeições,
Expansões em pontos de chuva, passos movidos
Da escada a chaminé que no alto avistava cometas.

 

“Que barulho é esse?”
“O silêncio marulhando seu entorno”.
O vento sob a porta rangendo,

 

”O que o vento está fazendo à flor?”
As pérolas inundavam seus cabelos.

 

A voz de longe procurava pela sua presença.
“Minha mãe!” Lamentava, contemplando sua
solidão. Abençoava o trabalho das formigas abaixo.
Pressionando os joelhos no tabuleiro manchado
Comia amoras, banindo esperas. ”Minha mãe!”.
Essas memórias que eram sua centopeia.

 

A cadeira de balanço em que se saltava o
Próprio corpo, pequeno país, luzia nas sandálias,
As linhas finas de seu sorriso de diastema,
A partir da dobra do jardim as gramas a
Contemplavam no beco de suas palavras
”Eu quero o que não se nomina!” Sentia.

 

O vento abafava seus pulos de gato,
“O que o tempo está fazendo agora?”

 

O sol parecia saudá-la. Descendo vagaroso
Por entre os túneis e as sacadas das casas.
O pai se aproxima, a puxando para seu colo,
Para o peito que lhe recordava uma floresta
Particular: “O que aprendeu hoje?”

 

”Me solta!” Dizia. Correndo, correndo contra
A força dos minutos que insistiam em anoitecer
Sua brincadeira de desenhar as nuvens
Por cima do telhado. Por cima da palha
Machucou o dedo anelar, beijava o próprio
Sangue como o náufrago beija o mar.

 

SE APRESSE! VENHA CÁ!
“Se você não quer, não vá!”.
Ela pensavam sozinha e contente.
Teimosa como ervas daninhas ressoando a noite.
Se esparramando no chão e apertando as
Costas da cachorra que diziam para ela ser da cor
Champagne. ”Champainhi? O que é isso?!”
Balançavam as duas, latindo e sorrindo,
“Ah! Veja, o seu pelo é algodão”.
Acariciando a vida nos olhos de Priscila.

 

“Boa noite, senhores e senhoras, boa noite-noite!”
Se fechando como a selva entre os trilhos deixados
Para se entender os caminhos outras vezes mais,
A criança adentrava a casa e se aproximava de
Sua cama, uma enorme passagem de fábulas
Iluminava o seu sono. O sonho era a criança.
A cadeira de balanço que mais uma vez sentava.

 

Mariana Basílio

Noturno sobre ponte na Baía de Guanabara

Eu ofereço
esse gosto pela forte chuva nas estradas
Naves, guindastes,
o ferro úmido de todas as coisas
que compõem a paisagem
Ofereço minha pele febril
minha estratégia de vida
Esse pequeno dilúvio
essas águas que vejo inundando tudo
Os mistérios todos à frente
dos faróis do automóvel
O sereno pacto de fazer parte do tráfego
entre grandes cidades
Ofereço a conversão desse desassossego
em trilhas iluminadas