Poema de Alexandre Pilati na #poesifolia

pobreza

Imagem: Pinterest.com

 

Um Carnaval em crise

 

A manhã sem alquimia, sem entretons mal nasce

e já breu outra vez.

 

O sol negro da alegria impele-nos ao delírio

e crava um novo carnaval:

 

em nossa cruz, em nossa crise.

 

A bossa estéril do sistema financeiro internacional

faz também a gente triste sorrir e rebolar para rebater

a diuturna ração sombria de juros, os requebros de desemprego

 

e de improdutividade massacrada.

 

Nossa alma desdentada desdenha do fim do mundo

do sistema que trina em agonia entre uma e outra queda

do dólar, do índice Nasdaq, das bolsas da China –

 

simples síncopes / tristes trópicos.

 

Daremos chiliques e morreremos de desesperado prazer,

celebraremos a depressão e os barbitúricos, mal do século,

mal do self… e a tirania de fascistas imprevistos rola no gélido asfalto.

 

E beijaremos, que dançar sem beijar não tem graça, no meio deste bacanal!

 

Homens de bem e de gravata, cara botulínica, cabelos falsos

enfiarão no bolso dos viventes do porão um tufo de tudo que perderemos;

que perderemos sem jamais ter ganho, cães que somos, sem penas e desejo.

 

De uma nota só samba: “e voltei pra minha nota”.

 

Segue o baile. Segue o baile banhado em máscaras.

Capital puro, art pour l´art – Al carajo, pendejos!

Nosso enredo de afogados quem, entre álcoois, ouviria?

 

E eu? um ET à toa, todavia a vida toda:

 

Vou ao porre bíblico, ao porre voltarei.

Vou cantar por toda vida: contra os business men.

Vou contar com o cordão dos derrotados.

Vou dançar contra os homens brancos da velha família.

Vou contar com o cordão dos derrotados.

Vou dançar com os negros contra Wall Street.

Vou contar com o cordão dos derrotados.

Dançaremos, dançaremos e dançaremos.

Até que o sol se encante, esquente e resolva

por vida novamente neste frio corpo chamado planeta,

que tanto cheira às etéreas notas do dinheiro.

 

Alexandre Pilati

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Poema de Iara Carvalho na #poesifolia

coração.jpg

IMagem: Pinterest.com (Aleksandr Kuskov)

 

Uma beleza de silêncio

 

meu coração está mais duro

e isso é triste.

 

está de guarda-chuva aberto,

qualquer coisa de negrume escorre entre seus veios

me acinzentando sob um céu de cristal.

 

nenhuma chuva atravessa meu coração de metal.

 

Iara Carvalho

Dezembro

Mulher, mulher
não vê que eu tô na paz
vamos sambar um pouquinho
vamos descer comigo
solta esse cabelo, põe uma flor
pegamos o teleférico e depois o metrô
Chama a galera toda
todo mundo no liquidificador
Vamos sambar na praça São Salvador
quem sabe a gente se salva
com o samba na causa

 

Iracema Macedo

Poema de Lilian Sais na #poesifolia

rastejar

Imagem: Pinterest.com (Debora L Stewart)

 

(Para Marcus Groza)

 

não paro de pé,

mas sigo

 

nada mais insolente

que a insistência

 

minhas vias são os vãos

e percorro todos,

 

veredas abertas a golpes

de navalha e cachaça:

 

se restam duas pernas

e dois braços

 

ainda pode ser bípede,

mesmo que por agora

 

rasteje.

 

Lilian Sais

 

Poema de Tiago D. Oliveira na #poesifolia

confete

Imagem: Pinterest.com

 

Poema de carnaval

(Tiago D. Oliveira)

abre alas que eu quero passar.
os confetes ainda suspensos
ou caídos sob os pés. abre
o dia sobre as pálpebras inchadas:
se foi dormindo no quando
de um tempo, antes da quarta
de cinzas, das upas respirarem,
do soldado elias tirar
fardamento de um carnaval
que não brincou
ou se foi, ou se foi, se foi
o refrão mais repetido da festa.
abre alas que eu quero passar
na avenida que não é principal,
mas já tomada pelo engarrafamento.
que a morte pede passagem
e o corpo já esfria sob costumes,
que a vida pede passagem
e esconde os acordes da canção,
abre alas que eu quero passar
na orla da barra. no início
do caminho, confetes,
que o sol ilumina, brilho,
em câmera lenta, a suspensão.
é carnaval, cidade. se foi dormindo:
cores, felicidade, quando
amanhecia um novo dia