Poema (23) de Fiori Esaú Ferrari

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Refugiados

 

As folhas abertas.

Dizimada a Síria.

O grito do menino

no cálculo da última explosão.

Pegaram Deus prostrado

em meio aos escombros.

 

O Haiti se pergunta,

meu Deus, meu Deus,

por que me abandonaste?

 

A folhas abertas.

Quartos aqui,

risos diante da mesa ali,

orgasmos na noite no andar de cima,

orações diante do deserto,

bolas de futebol nos meandros da rua.

 

Tudo se foi.

Tudo ao pó

e a tez marrom

que podia ser o crepúsculo.

 

Como faço pra acontecer as flores,

se o jardim soterrado recebe

o sereno da madrugada

que cai, cai, cai

lentamente

sobre o mundo novo?

 

Como faço pra acontecer as flores,

se Deus fugiu numa fissura do horizonte

e lá sangra seu lado?

 

As folhas abertas.

O funeral está pronto.

Inscrevo meu nome

na grande lista

dos expatriados,

dos rostos singulares

de desamparo,

dos que encaram o soldado

sobre as pedras

que vão ser arremessadas.

 

O que fazer se o mundo novo

é apenas a confirmação

das paredes caiadas do velho mundo?

 

Em Itapetininga, os sinos

devem estar lá,

adormecidos.

 

São Paulo é ão ão ão.

 

Um espírito se move

e entra na grande metrópole

enregelando nossos corações,

mas não pare,

glorioso homem de negócios!

 

A torre do capital tem um grande vitral

que apresenta o belíssimo azul do céu projetado,

imagens de aves se repetem

e a paz infinita lhe esconde o cobertor sujo

sobre a calçada.

 

Quando alguma possibilidade

de mudança dos pássaros

sucumbe

é porque foi uma criança que morreu.

 

Fiori Esaú Ferrari

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Poema (5) de Daniel Francoy

Espanto

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O MAIS DOLOROSO ESPANTO

 

Talvez seja este o mais doloroso espanto

da velhice:  aproximar-se

da morte, percebê-la tangível

como o frio sol de inverno a romper

a neblina e depois, tarde da noite,

(quando até os jovens dormem) escutar

o vento, apenas o vento que passa

com um frêmito sobre o arvoredo

e perguntar “quem chama?”

 

Daniel Francoy

AGONOFRENÓS

Seu vento chega pela janela tomando-me pelos braços.
Traz o invisível zumbido do vazio.
Ausências que despedaçam a carne.
A igualmente invisível presença da morte.
Nas paredes brancas e nos quadros
nada encontro além de hiatos no tempo.
Um fio,sempre esticado, sem roca, dança sem sentido.
Trago comigo o fim da tarde.
Há lugares silenciosos em ambos os hemisférios,
trago-os comigo também.
o arcano derradeiro da vida sem espelho.
O arbusto que seca, o suspiro do braseiro.
A impossibilidade dos suicidas.
Desconheço esses braços dormentes
e suas veias e tendões atados ao meu peito.
Quem opera esta dor que não sinto?
Com seu tamanho, Deus absoluto e silencioso tuíta
novos pecados em algarismos romanos.
Teço orações não respondidas em uma colcha de avemarias.
Agulhas assustadoras como verdades
e sinos silentes à divina ira.
Minhas mãos não alcançam seu corpo.
O peito queima socorros:
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora mortis nostrae.
Não é meu ou seu, ou novo.
O Sol secreto do ovo.
(pausa grave, o céu em cefaléia)
Duas xícaras na janela contém todas
as perguntas não respondidas.
Há sal no parapeito e a vida,
não saberíamos dizer se está prolixa ou meio dita.
Melhor senti-la, como abraço,
ou nome pronunciado bem alto.
Seu nome direi contra o vento.
Serei broto, depois tronco, então relva, depois solo.
Todas as emoções me atravessam e murmuram
dissabores na música atonal das árvores.
As coisas mais importantes são aquelas que falam de ti.
Tão longe está, que os olhos cansados somem.
Tremor de horas e insônias.
Toda mudez agora assombra.
As palavras se transformaram em bocas.
A fantasia abandona do dia supondo
abismos distantes e nuances.
Perdi minhas verdes folhas verdes.
Tornei-me oceano marulhoso
e insistente gabiano.
Incessante e dormente asas brandas nas termais.
Flutuando em seu nome:
noite morena e distante.
As coisas mais importantes são aquelas que falam o seu nome.

memória

quadro-guernica-de-pablo-picasso-og

memória
:
tempo da nuvem rasgando o céu
lume de estrelas nas retinas cósmicas
o sentido do sangue após o corte
a direção do crescimento das plantas
espelhos em inversões cristalizadas
as feições, as ciências genéticas
as modificações das rochas
a sustentação das calçadas aos passos
a rotina do asfalto
o impulso do ventre
:
o caminho da bala à mira de sempre

(Amanda Vital)

o nada q restara

odd nerdrum 3

● so resta isso maninha ●
● essa coisa quadrangular e branca ●
● cercada de areia suja coberta de musgo ●
● quando chove fica cheia de cogumelos ●
● porq a vida gosta de brincar com a morte ●
● vc sabe maninha bem porq ria tambem ●
● la embaixo essa cidadezinha ridicula ●

● agora dissolvido como brasa na chuva ●
● nada posso dizer sonhar ou desejar ●
● apenas receber as escuridões das noites ●
● sem saber nada disso dizendo agora ●
● enquanto respiro como qualquer porco ●
● sendo sangrado sobre a pedra sem gritar ●
● depois tudo bem maninha não chore ●

*

 

herr kaiser

ingmar bergman 4

● herr kaiser todo dia ●
● as sete horas e trinta da manhã ●
● sentava abrindo sobre a mesa ●
● sua grande mala de medalhas ●
● durante toda a manhã polia e polia ●
● uma a uma e alem disso reiniciava ●
● q eram infinitas e de grandes honras ●

● pelo menos pra herr kaiser ●
● q estendia a mala como a vida ●
● ali tava todos os sentidos e historias ●
● as razões de ter vivido e lutado ●
● cada quase morte cada hora a dor ●
● eram polidas com gentileza e esmero ●
● iluminando a casa como sois ●

● herr kaiser se levantava general ●
● as doze horas pronto em ponto ●
● pra comer o almoço morno ensebado ●
● em pe junto ao fogão olhava ●
● como cães olham pedaços de carne ●
● as medalhas sobre a mesa ●
● herr kaiser era como um girassol ●

● herr kaiser o girassol das medalhas ●
● ele dizia sem mim elas sofreriam ●
● sem elas eu não teria existido ●
● um dia herr kaiser se levantou cedo ●
● poliu a manhã inteira as medalhas ●
● depois com honras jogou a mala ●
● cheia de medalhas polidas na lareira ●

● herr kaiser pegou o revolver ●
● foi ate o fogo e olhou abismado ●
● como tudo sumia rapido ●
● como a chama duma vela ele disse ●
● tudo a vida a vida toda as medalhas ●
● levantou a mão ate a boca e calado ●
● atirou o nada na cabeça q tombou ●

● por duas horas no cafe d’homme ●
● os companheiros de herr kaiser ●
● conversaram sobre herr kaiser ●
● nada q todos não soubessem ●
● disseram com respeito as medalhas ●
● na outra hora em diante ao infinito ●
● herr kaiser jamais existiu ●

*