[desabito um país…]

desabito um país de ruas desabitadas em que vejo tristes vagabundos
ou mendigos a embebedarem-se por dentro dessas ruas frias e sós

no sismo doloroso em que navego labiríntico
experimentei todos esses lugares todas essas dores sofridas

e é nos becos sujos hediondos onde tomo consciência das tristezas
a voarem com o aragem negra das coisas nada fantásticas

desabito um país de ruas desabitadas…

com a graça de um menino de ouro penso em toda a imundice
e pobrezas a caminhar juntas alojadas em cada pedaço de chão
escorregadio pelas chuvas de vinho

e ergo talvez ridículo as doenças pesarosas que deslizam nos olhos
dos vagabundos

e os mendigos enregelados nos seus podres cachecóis
de uma qualquer substância sulfúrica que lhes estrangula as noites
desabitadas silenciosas como a rodopiar sobre a força do medo
e das brumas a afundarem-se nos recantos que se inventam
neste vazio

desabito um país de ruas desabitadas se estou a habitar no festim
da loucura

 

Filipe Marinheiro, «Noutros Rostos», Chiado Editora, 2014

Anúncios

Poema (87) de Tito Leite

corvo e flor

Imagem: Pinterest.com

 

CAMPOS ELÍSIOS

 

Mallarmé

subscreve

sobre espaço.

 

Pound pede um canto com o esmalte

lazúli metal

de uma banda de rock.

 

Baudelaire

blusão de couro

tatua “Nevermore

em homenagem

a Edgar Allan Poe.

 

No grafite

o poeta eletrifica a amada

e a dor: o corvo delira em flores.

 

Tito Leite

paris ii

tom zé 2

● é realmente monstruoso e terrivel ●
● quando tudo ao nosso redor e bem alem ●
● muito alem eu diria nos diz respeito ●
● como se fosse uma pele monstruosa ●
● e terrivel eu diria q se colasse a nossa ●
● nos sufocando com suas carnes e ossos ●
● exigindo uma respiração monstruosa ●

● sempre terrivel essa respiração eu diria ●
● as carnes e suas vidas esses ossos ossos ●
● com um peso infinitamente maior maior ●
● q os nossos eu diria terrivelmente sufocado ●
● monstruosamente largo e estrangulado ●
● o ao redor alem de todos os arredores ●
● essas vidas essas mortes eu diria terriveis ●

● sempre monstruosos exigindo a respiração ●
● do monstro q essa respiração do monstro ●
● seja nossa respiração eu diria bem sufocado ●
● esse corpo doente extenso e pesado demais ●
● eu diria pesado demais aqui e alem alem ●
● sem deixar dormir sonhar pensar eu diria sim ●
● é realmente monstruoso e terrivel ●

 

*

 

ENLACES (LA EXPLICACIÓN DEL GOLPE)

jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano
jose clemente orozco | cristo destruye su cruz 1943 jose clemente orozco muralista mexicano

 

I

O Cristo libertário de Orozco
Arrebentando sua cruz a machadadas
Como Bashô observando o rio

II

Entre as cercanias do vento
outros nadadores mortos atravessam
o canal
chegam à praia
e se acorrentam no sol.

III

Ilusionistas desafiam arranha-céus
e somem entre as trincas do
concreto armado.

IV

Na noite extensa
todos se entendem
menos os poetas

V

menos as putas

VI

menos os pugilistas

VII

7º round

Leandro Rodrigues

Nós

é assim
desde que chegamos
eu e meu outro
desesperando
a única hora
o último dia
a fúria de uma estrela
repetindo
repetindo
repetindo
o primeiro silêncio

desde que estamos
meu outro e eu
não há memória sem corpo
não há noite sem olhar

Daniela Delias

 

DE TIGRES

tigre de papel
abre em páginas seus enigmas de nanquim
a pele alva sob as listras negras
apalpa a presa na imaginação
indefesa
trama invisível
incessante
tudo que ama dilacera
passa tranquilo
não fere a tarde
o vento
não fende a relva
apenas resite
naquilo que escreve

Poema (9) de Regina Celi M. Pereira

bailarina flor

Imagem: Pinterest.com

 

O LEITOR

 

o leitor dionisíaco

recusa a métrica

desdenha a rima

 

corteja a palavra

até embriagar-se dela

 

[não por ser só palavra]

 

quer a palavra-bailarina

e na dança ritmada das suas mil faces

despir um a um os diáfanos véus

 

e em cada verso

buscar o encanto do encontro imprevisto

que suspende o fôlego

engole em seco

exalta a vista

 

no ponto difuso e misterioso

em que oscila o sentido

 

[e o torna cúmplice]

 

da carícia ou corte

refém da fugacidade ou permanência

sentença  de vida ou morte

do poema.

 

Regina Celi M. Pereira