instruções pra um ano prospero

Auschwitz 2

● podem bater bater e bater ●
● podem esfolar bater e bater ●
● podem arrancar dedos e unhas ●
● bater e bater ate cansar e bater ●
● depois cortar em partes e bater ●
● como se faz com as galinhas ●
● gado porcos negros velhos ●

● mulheres gays pobres surdos ●
● revoltados cegos tarados tudo ●
● esquerdistas anarquistas tudo ●
● q não for um de nos e cantar ●
● a santa milagreira ao pastor ●
● nisso continuar batendo bem ●
● como faz parte da grande vida ●

● sim so assim muda se purifica ●
● sim se edifica o novo mundo ●
● com a morte do q se deformou ●
● ate a lama e exige ser lavado ●
● sim sim com sangue de indios ●
● com sangue de tudo q não é ●
● branco todo branco sempre ●

● a morte a morte a morte bater ●
● ate q não reste senão a morte ●
● a grande morte q limpa a vida ●
● de todas as suas deformações ●
● o q faz sofrer e sossofrersso ●
● so porq não somos nos alegria ●
● no fim cova rasa cal e pedras ●

*

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Poema (1) de Luísa Gadelha

hsiao-hon-cheg

Ilustração: Hsiao Ron Cheng

incômodo com as minhas pestanas

a minha avó, natural de areia,

foi tida por muitos por oriental

é que ela tem olhos pequenos

como as gotinhas d’água que desenhamos

na infância

ou aquelas

bolinhas de gude que costumávamos

atirar – nunca aprendi este jogo

os meus olhos já nem são puxados

à moda asiática

apenas diminutos

e, onde se deveriam contemplar os cílios,

apenas uns poucos fios,

salpicados,

sem tamanho nem volume –

o que impede e ridiculariza qualquer tentativa de maquiagem

este detalhe, contudo, não é o que mais me incomoda

afinal nunca fui grande entusiasta de fantasias

(exceto os devaneios oníricos)

o embaraçoso é:

será o meu olhar capaz

de transmitir

todo o sentimento do mundo?

Luísa Gadelha

Poema (28) de Fiori Esaú Ferrari

selfie feliz

Imagem: Reprodução/El Hombre

 

Urgentemente triste

Eu quero ser triste!
Deixem-me triste!

Longe de mim
com a sua esperança rota,
com a sua felicidade abúlica,
com a sua metafísica livresca,
seus dentes à mostra no selfie.

Meus dentes contra congresso
Ou a reorganização educacional da sua pedagogia torta.

Eu quero ser triste!
Eu preciso ser triste!

Triste
pra erodir sua alegria falsamente despolitizada.
Sua alegria sem graça de rede social.

Eu preciso ocupar de tristeza
seu bairro,
sua escola,
a praça em que não percebe
corpos entre a noite e o lixo.

Deixem-me triste,
urgentemente triste,
amplamente triste,
como as flores que se abriram na manhã

e cobriram o horizonte
sem você notar.

Fiori Esaú Ferrari

In: Tensão Superficial da Poesia. Editora Penalux, 2016

Poema (1) de Eliza Araújo

malcom t liepke

Ilustração: Malcom T. Liepke

[PORTO]

Uso os brincos que você me devolveu.

A prata empretece

sem produtos químicos.

Ninguém dizia isso aos clientes

na loja de joias

mas eu sonhava com várias outras vidas

descolando etiquetas para brincos de prata

como esses.

quando andávamos até o centro da cidade

não sei sobre o que conversávamos

só sei que os anos se passaram assim

e transitei

em cabelos tantos

corpos vários

cabeças vivas.

Você ficou na casa

sendo meu porto, norte, direção.

Guardo tuas palavras

e tua voz comigo

Se me concentro bem quietinha

e entro no silêncio que faz aqui

Quase posso ouvi-la

Sentir um beijo teu na testa

E lembro como ser pessoa.

(Eliza Araújo)

depois nem as penas

brassai notre dame de paris

● voltei e vou jantar ●
● aqui é quase sete da noite ●
● tou deixando de ser do deserto ●
● isso me preocupa e instiga ●
● logo não saberei quem sou ●
● e pensando ser um corvo ●
● vou gargralhar entre pontes ●

● buscando alem do voo a altura ●
● como quem purifica o ar ●
● planta a dor e olha o mundo ●
● depois pula do predio mais alto ●
● pra voar mais e fazer noites ●
● esquecido não so do deserto ●
● mas do q não foi ●

*

 

Ima(r)gem Paisagem (2)

borboleta Daniela Delias

Fotografia: Daniela Delias

 

A cantiga das asas

das cores

do vôo

 

O rancor das folhas

dos pequenos galhos

do verde

 

A poeira encantada

do ferrugem

do rasgo

da pele

 

Tudo é inundação

do ver

da captura furtiva

da luz

 

Mas nada disso

resiste a tentação

do chão

do cimento

 

Imã que germina

em um jardim feito

de cinzas.

 

Márcio Leitão