Borbulhas, borbulhas

Antônio Mariano

 

– Seu porra, você não garantiu que tava tudo certo, que a gente podia entrar no mar com segurança? gritou o patrão quando surgiu o pequeno furo no casco do barco. Ah, seu viado safado, incompetente de merda.

Fechei a cara e baixei a cabeça, deixando-o falar, com razão. Estávamos muito longe da praia. Tinha me acostumado ao som dos seus gritos. Qualquer erro, por menor que fosse, não havia tolerância. Ele começava a ralhar e parecia não parar tão cedo.

– Gosto de trabalhar você, Nau, me disse ele certa vez. E não é pelos teus serviços, que eu posso encontrar melhores e pagando menos. Gosto trabalhar com você pela tua discrição, tua falta de curiosidade pelas coisas que fazemos aqui e também pela tua falta de amor próprio, de não ligar com os meus excessos, de não se ofender até quando xingo a tua mãe, tua mulher, teus filhos.

O trabalho era pesado e ele apenas mandava, se esgoelava. Quando eu pedia um ajudante, ele desconversava, dizia que muita gente o faria perder o controle da curiosidade, que vigiar um era mais fácil do que dois ou três estivadores bisbilhoteiros.

– Seu filho da puta, seu corno imbecil. Eu devia te matar. Dê graças a Deus que a arma está do outro lado, se não eu já teria arrombado a tua barriga com um tiro de 12 e te jogado pros peixe comerem.

Às vezes, em casa, eu sentia falta daquela matraca nos ouvidos. Insuportável dependência aquela que eu desejava um dia me livrar.

A ira dele aumentava à proporção que a água invadia o interior do barco com uma velocidade impressionante e começava a molhar, estragar tudo. Tínhamos ido mais uma vez ao outro lado da costa para transporte e descarrego de uma tonelada do seu precioso produto, que eu nunca sabia exatamente o que era. As coisas eram e não eram dele, dependendo das vantagens e desvantagens do momento. Ele me indicava alguns endereços aonde eu ia com uns envelopes e pedia o barco, pedia os produtos. Os sujeitos entravam numa sala e voltavam com a indicação de lugares. Eu assumia uma cara esperta e eles entendiam que eu sabia do que se tratava, que não precisava entrar em detalhes.

– Se um dia der confusão, Nau, eu salto fora e você assume todo o negógio. Você não me conhece, nunca me viu. Não se preocupe que no final você vai ter uma boa recompensa.

A superfície estava intacta quando saímos para a viagem do outro lado da costa. O orifício veio do nada. Sabe-se lá como aconteceu. O fato é que o barco está descendo e já estamos com água pela cintura. A gente sabia o que iria acontecer em pouco tempo.

– Ah, Nau, você me paga. Ah, como me paga. Quando eu chegar em terra eu vou à forra no cu da tua mulher. Você nem imagina, vou rasgá-la com tanto gosto.

E pela primeira vez eu o vi rir, gargalhar mesmo.

– O buraco no rabo dela vai ficar maior que o desse barco.

Fim de semana, calmaria, não se via ninguém a milhas. Nunca em minha vida tinha visto a água tão clara, transparente a ponto de vermos a areia lá longe, no fundo do mar.

Quando a água nos chegou ao pescoço e o barco começou a ser sugado, o patrão se deu conta que não sabia nadar. Os coletes salva-vidas estavam boiando a poucos metros.

– Vai lá, meu bom rapaz. Pega as bóias e traz para cá, depressa.

Pela última vez obedeço ao patrão. Desta vez pela metade. Pego os coletes e vou me afastando enquanto ele engole água e suplica que eu volte. E como é doce o tom de voz do patrão. Não me distancio muito. Só o suficiente para contemplar o quadro, como numa larga tela de cinema, vendo e ouvindo as borbulhas do patrão que desce até o fundo do oceano. Ah, desse som eu quero lembrar.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s