MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA. Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal, 2013.

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   A poesia de Maria do Rosário Pedreira aparece-nos sustentada, num primeiro momento, por uma dualidade fundamental: o que permanece oculto, o perdido “talvez para sempre” (p 15) e o vivenciado, o que vai sendo actualizado através das circunstâncias do mundo concreto. Esse perdido apresenta-se com um carácter abrangente e fundante, devendo ser guardado e protegido “serenamente e sem pressa” (p 15); “por assim não ter feito” (p 15), o eu-poético condenou-se a um estado irremediável de perda. A mediação entre os dois planos referidos poderá ocorrer sob a forma de uma anunciação (p 20) ou de uma visitação (p 21). Também os livros assumem, muitas vezes, essa função mediadora (p 29) entre o perdido e o vivenciado: “Sentou-se no porto e abriu aos que o escutavam/ o seu livro de viagens” (p 24). Desta dialéctica emana uma nova dualidade (autenticidade/ artifício, ludíbrio), que a poeta chega a ilustrar com versos que tangenciam obras de outros criadores, veja-se, por exemplo, o aceno a James Ivory: “Tinham passado juntos/ algumas noites, num quarto sem vista.” (p 31), assim como a subtil ponte estabelecida com o soneto de Camões “Sete Anos de Pastor” (p 59).

   Uma outra característica deste universo poético é o facto dele estabelecer diálogos e paralelismos entre aspectos do mundo natural (mar, ondas, vento, verão….) e partes do corpo humano (olhos, boca, lábios…) e também com elementos de um mundo exterior humanizado (portos, espelhos, gavetas…), assistindo-se episodicamente a personalizações que chegam a rondar o animismo: “Neste outono, as pedras agasalham-se no cobertor/ do musgo; e o barro bebe a água; e o vento viaja/ rente aos muros. Mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama” (p 98). É neste contexto que a errância do eu-lírico (p 41, p 67) – muitas vezes sinalizada como Destino ou Fado (p 52) – assume a forma de um continuum entrecortado por momentos em que o perdido se desvela e se concretiza por uma entrega plena: “ Houve horas mais luminosas do que estas -/ todo o amor do mundo cabia neste quarto e/ o teu primeiro abraço já desmanchava a cama.” (p 127); “ Ainda bem/ que não morri de todas as vezes que/ quis morrer(…)/ Se tivesse morrido de uma dessas vezes,/ não ouviria agora a tua voz a chamar-me,/ enquanto escrevo este poema, que pode/ não parecer – mas é – um poema de amor” (p 240). Os instantes que precedem e acompanham a vivência dos momentos de partilha amorosa são vividos como momentos de: ansiedade – “Não partas já. Fica até onde a noite se dobra (p 51); medo – “Pergunto-me onde anda a tua/ sombra quando aqui não estás. E tenho medo.” (p 98); depressividade – “Há uma memória embaciada de outro outono,/ cinzas no pátio,/ o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.” (p 73); lembrança, quase sempre sofrida – “dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,/ muros e regressos – nem sequer feridas.” (p 105); imploração – “Se partires, não me abraces…” (p 101); frustração – “O sono retirou-se do meu corpo e as cigarras/ atormentam as minhas noites. Depois de teres/ partido, os lençóis da cama são como limos frios” (p 129). As ocasiões que sucedem aos encontros com o amado aparecem invariavelmente como ocasiões de morte, assim, esta última recolhe nesta poesia múltiplas significações: como término de vida; como fim de um patamar onde o oculto se mostrou sob a forma de diálogo amoroso; como morte do amado (p 122, p 177). A morte, na poesia de Maria do Rosário Pedreira, jamais adquire uma conotação redentora ou salvífica bem ao gosto do primeiro Romantismo ou dos ultra-Românticos de finais do século XIX (cf. Novalis. “Saudades da Morte”, in Os Hinos à Noite. Lisboa: Assírio & Alvim, pp 55 – 59).

   Outras características que dotam de singularidade esta obra relativamente a outras poéticas de cariz romântico prendem-se com o estatuto do corpo e da materialidade, que, apesar de possuírem uma dignidade ontológica inferior ao mundo interior e/ou idealizado, mantêm, contudo, um estatuto de grande importância no processo de metaforização (p 219, p 238), aliás, esta recuperação valorativa na prosa vinha mesmo a sentir-se de modo acentuado, já que “o romantismo do século XXI se tornou carnal e sexualizado” (cf. Miguel Real. O Romance Português Contemporâneo, 1950-2010. Alfragide: Caminho, p 181); também se destaca uma certa luminosidade a que foram alheias as anteriores escritas românticas: “Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul/(…) E nada lhe peças de manhã – as manhãs pertencem-lhe;” (p 15), “voltam as manhãs todos os dias, como/ o rio regressa ao mar, e o mar à praia,/ e o pão chega de novo quente à nossa/ mesa…” (p 195), apesar destas tonalidades não serem predominantes nesta escrita fortemente marcada pela angústia, silêncio e solidão, elas não podem ser obliteradas, dado apresentarem-se com somenos importância nas escritas anteriormente referidas: “Ali se amaram,/ Aqui me vão amar aqueles que perdi./ Corpos de última transparência,/ Vozes completas, puras.” (cf. Maria Valupi. Do Disperso Dia. S/Editª, 1967, p 137.

   Na poesia de Maria do Rosário Pedreira – que também sinaliza afectivamente a figura materna (p 111, p 184, p 186), a paterna (p 183), as avós (p 190), etc. – assume particular destaque enquanto objecto de investimento passional a figura do amado, é com ele, e através dele, que o plano daquilo que fora perdido de actualiza, cumprindo-se assim uma dada plenitude que ultrapassa o vazio e a angústia, duas das principais linhas de força desta obra:

 

 

     Não me importa o pão quando não o divido:

     farta mesa triste sem companhia. Na tua

     ausência não há fome que me devore, e a

     gota de vinho na toalha é só mais um borrão

     num poema sozinho. Antes de ti nunca

 

     tive apetite pela vida, as costelas vincadas

     na camisa. Tantos cães escanzelados iguais

     a mim cumprindo a solidão das avenidas,

     e tão poucas as esquinas. Milagre mesmo

 

     foi teres parado numa para me alimentares.

 

                     ( p 238)

 

   Uma outra consequência desta poesia deve-se ao facto, algo paradoxal, de ela estabelecer, apesar de inserida no paradigma de um novo romantismo, convergências com áreas do saber de tipo assumidamente científico /cf. Marie-France Hirigoyen. As Novas Solidões. Caleidoscópio Ed., 2011, pp 56 – 71), assim, o eu-poético trilha um percurso, que, bem longe de se apresentar como serôdio e desajustado, é antes a tradução plena e lúcida das vivências ocorridas no mundo contemporâneo, onde o afastamento do individualismo, da lógica do lucro e do culto das aparências, apenas pode ser feito, para o eu-poético, através da apreensão da sua contingência e da partilha plena com o Outro amado.

 

 

                                                                                                        VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS

   

 

  

  

  

  

 

  

 

 

                    

 

  

 

 

                                                                      

   

 

  

 

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