P O E M A

VIAGEM ÀS VÍSCERAS DO INACONTECIDO

Ronaldo Cagiano

Entre o delírio e o esquecimento
sou um homem transitório:
perdido entre a gramática dos lutos
e a sintaxe das lutas.

Feito a chama que se exaure, lenta,
na lamparina das horas,
cumpro o papel dicotômico
de equilibrar-me entre
a claridade perseverante das lembranças
e a versatilidde inconclusa
dos versos que oscilam
entre o desacato da morte
e o beijo negado
no espalhar das cinzas do futuro
no cais tenebrodo desse Tejo de tantas ausências.

Sou aquele que navega
desde as ínfimas encostas
do barrento rio Pomba
desde o leito assoreado
do acossado Meia Pataca
à imensidão de Tabatinga
ao sol possível da praia do Jacaré.

É nessa confluência de díspares horizontes
(fusão de margens que não se cansam de ser afeto e geografia)
que o poeta retorna ao mundo das ideias
e navega no oceano das palavras que não se fatigam.

Onde estarei amanhã

[- depois do tédio e dos atentados,
– além da miséria e da corrupção,
– passada a culpa de meus silêncios,
– entre a indiferença das masssas
e a vergonha da inflação,
-com tanto passivo a me atormentar? ]

com tanto inventário de prejuízos?
além dessas víceras de sangue
que é o nunca realizado?

Em que pese o inverno da alma,
busco escapar ao Lete
na bacia de outro destino.

Nesse tempo de armadilhas
nesse mundo de refúgios
a hora crepuscular surge
como a bomba que não detém.

Usina de meus desacertos,
hospital de extensas labutas
nesse trajeto de fezes
nesse percurso de cinzas
invento o caminho possível
à espera de uma manhã vertical.

Penso em Florbela Espanca
em Jean Cocteau, em Hilda Hilst,
em Dora Ferreira da Silva
na incontida Orides Fontella
nesse horizonte de espantos
e nenhum milagre
onde tudo fede a terror
e exala ambiguidade.

Meu peito,
diafragma enlouquecido,
se confunde com esse
crepúsculo hemorrágico
entristecendo a tarde
com um sol esquartejado

e, não muito longe,
antes mesmo que caia implacável
a noite ocidental
com sua navalha de escárnio,
o mundo segue imune
às paixões fabris
aos gestos automáticos
ao sexo mecânico
à assepsia de todos os sentimentos.

E eu, hóspede do verso-libelo,
treino braçadas vorazes
nesse proceloso esgoto
e tento escapar do naufrágio.

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