Mais uma vez O FIM

O polegar direito, cheio de gordura do salgadinho de queijo, pressionou o botão off do controle remendado de fita adesiva. O infeliz era frequentemente arremessado no chão da pequena sala abafada do quinto andar do prédio da Rua Primavera.

Suores da testa escorriam pelo canto do rosto e encharcavam o pescoço e deixavam o travesseiro molhado, formando uma escultura no formato da cabeça.

Olhava para a mulher com um rabo de olho. Estamos próximo do fim! Uma catástrofe. Se os documentários eram verdadeiros, ninguém sabia. Especulações sobre o fim povoavam os canais fechados.

Pagar essa merda para saber que vai morrer! Eram profecias de Nostradamus, calendários Maias e, eram chamados gurus, cientistas, charlatões, enfim… Uma enxurrada de palavras, mas como dizia: – Sempre há um fundo de verdade. Clara. Sóbria. O mundo realmente iria acabar.

O mais engraçado naquela parafernália eram as dublagens, você conseguia ouvir a voz original e uma dublagem horrível, sem contar à “cara” dos personagens enquanto explicavam tudo, no fundo queriam dizer. Seu mundo vai virar “bosta”.

Olhou para o relógio.

23h45min.

O tempo estava acabando, dia 21 de dezembro de 2012 iria despontar em poucos minutos, ou melhor, iria desapontar, era uma bomba relógio preste a ser acionada. Mas quem apertaria o botão?

Seus olhos pesavam, não aguentou ver a passagem do dia. Adormeceu.

Acordou com o barulho estridente do relógio.

Saco! Engoliu para não vomitar o coração. Acabaria tudo bem na sexta-feira. Pobre é uma desgraça! Pensou alto. Bem no dia de ver os amigos no barzinho da esquina, beber aquela breja e comer uns petiscos cheios de gordura e soltar conversa fiada. Filosofia do botequim.  Não podia ser na segunda-feira?

Naquele dia não marcou nada! Iria direto pra casa. O mundo poderia acabar a qualquer hora, estaria perto dos filhos, da esposa, do cachorro, do peixe no aquário. Não! O peixe já tinha ido pela privada, o mundo para ele acabou três dias antes do nosso.

Eram dezoito horas do maldito vinte e um de dezembro. Nada tinha acontecido. Brincou, contou histórias, beijou a mulher e foram dormir. Aliviado. Deitou mais cedo para que o resto  passasse e o vinte e dois surgisse como um verdadeiro milagre da ressureição.

Adormeceu. Mas o relógio infeliz tocou bem antes da meia-noite. Acordou! Não entendeu! Estava em outro lugar. Frio… Úmido… O escuro predominou. Náusea e dor de cabeça. Estava no inferno.

Meu Deus! O mundo acabou. Vultos perdidos entre sombras, a umidade aumentava consideravelmente, sentia seu corpo sendo encharcado.

Tentou gritar, mas era sufocado. Olhava para os lados e a mulher desaparecera. Com certeza estava no paraíso, era devota. Ao contrário das farras nos bares. Esse era o fim do mundo. Realmente os programas estavam certos. Mesmo nesse inferno respirou aliviado por não ter presenciado o fim com as explosões, os vulcões, furacões, tsunamis, e outras catástrofes anunciadas pelas profecias.

Será que tudo explodiu e não deu nem tempo de sentir? Será que foram lançados no espaço sem destino? Como foi o fim? Só uma coisa era certa. Estava aprisionado naquele lugar inóspito, sem saber a saída, pior, nem como tinha entrado. Só sabia que estava lá e a sensação de umidade tomava conta do lugar.

Começou a correr, mas nada! Sua mulher deveria estar mesmo no paraíso, seus filhos com certeza estavam vestidos de branco e tocando harpas iguais os querubins na Igreja na noite de procissão que sempre perdia. Olha o fim dos boêmios.

O desespero tomou conta, estava aterrorizado. Era o fim. A pleno pulmão começou a gritar, gritava desvairadamente. Socorro meu Deus! Ajude-me! Perdoe-me! Nunca falou com Deus como ele reconheceria minha voz?

Assustou com mãos apalpando seu corpo. Estava sendo atacado pelos demônios. A palavra de ordem era: DESESPERO. Gritos histéricos simultâneos a movimentos bruscos. Começou a abrir os olhos embasados e o respirar começou a normalizar.

Aos poucos tudo começou a tomar forma, seus filhos e sua mulher estavam em sua volta tentando acordá-lo. Como dizia um dos meninos. Fiquei no vaco! O caçula com aquela risadinha cínica.

– Pai pare de gritar. O senhor urinou na cama? Vou contar pro vovô que você está igualzinho ele.

Todos riam. Eu? Fiquei com aquela cara de quem não entende nada e não que entender…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s